segunda-feira, 30 de setembro de 2013

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Na memória da Vida



(Foto Internet com a devida vénia)




Da lonjura dos tempos provenho.
Que caminhos de hostis tremedais!
Na memória da vida, retenho
só angústias doendo de mais.

Eram levas e levas, na noite
que negava a manhã por haver…
Era o silvo assassino do açoite
encharcado de sangue a correr…

Era o medo a doer na renúncia.
Era a sombra disforme e difusa
deslizando no chão a denúncia
da manhã a sangrar na recusa.

Era o tudo nas garras do nada!
Era um nó na garganta sem voz!
Era a dor da manhã condenada!
Que fizeram do sonho e de nós?

Era o grito do alor clandestino!
Na miragem de Abril madrugada,
era o dia brincando menino
sobre os cravos vermelhos da estrada...

Quando os cravos murcharam no outono,
só as pétalas mortas no chão
e o menino a doer o abandono
que velava o seu morto pião...


José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora?Portugal
25 de Julho de 2013

domingo, 29 de setembro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Crónica da responsabilidade vs jactância


Um conterrâneo que muito prezo recorda-me amiudadas vezes que só todos juntos sabemos tudo. Sábias palavras estas! 
Constantemente, temos notícia de quem cumpre e também de quem não cumpre esta sabedoria --- a nível local, a nível nacional, a nível global. 

Se é verdade que há gente que tem a atitude grande de reconhecer que só todos juntos sabemos tudo, também há gente que tem a pequenez da jactância de tudo saber.
Exemplos concretos de ambas as posturas têmo-los às toneladas. Basta olhar em derredor.


Quantos de nós vivemos situações de partilha, numa conjugação de esforços responsável?


Bem-hajam, sempre!, aqueles que apreenderam e seguiram a sabedoria da parábola dos vimes!


Quantos de nós vivemos situações de frustração até à recusa de subscrever enormidades que estão aí, bem visíveis, demonstrando a razão que nos assistia?


Relevemos, embora sem ira nem desejo obstinado de vingança, a pequenez da jactância e os seus resultados perniciosos, resultados que perduram como uma condenação e a todos lesam.


Os pecados constantes seguidos dos perdões constantes e da estafada recomendação «Vai e não peques mais!» tornam o confessionário inócuo. E com isto que digo recupero o Poeta Guerra Junqueiro em «Um justo não perdoa, julga!».


Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 29 de Setembro de 2013.

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Para sempre!




Ceifeira alentejana
Foto Internet, com a devida vénia


Uma aragem clandestina
acaricia os sobredos
e um grito assombra os degredos
que amordaçam a campina...

É a voz de Catarina
rasgando espaços e medos,
a divulgar os segredos
da luta que não termina...

Traz nas suas mãos já frias
a bandeira desfraldada
que na campina floriu

e o fim de aras e agonias
na liberdade incendiada
por que morreu e não viu...



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 28 de Agosto de 1996.
Viana, 6 de Janeiro de 2011.

28 - CLAVE DE SUL * Meu Alentejo!




Alentejo que não tinhas

sombra senão a do céu,

como outras coisas não tinhas,

que tens tu que seja teu?

A desilusão de um nome
e de filhos naturais,
uma bandeira de fome
e um céu distante de mais....

Mas na desgraça cantavas
um lamento em desvario
num coro de condenados...

Levava o vento as palavras...
Gemendo, num calafrio,
os assombros dos montados...


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 25 de Agosto de 1996.

15 - CANTO REBELADO * Quem-2?




Foto Internet, com a devida vénia.


Quem disse e já não diz
que os nossos pés alados
são, na terra, a raiz
de astros incendiados?

Quem disse e já não quer
ser verbo e ser futuro,
enquanto o sangue der
cor à luz que procuro?

Quem disse e nega agora
ter dito e defendido
que o drama que nos chora
não mais seria havido?

Quem disse e não honrou
a jura que jurou?



José-Augusto de Carvalho
1 de Fevereiro de 1999.
Viana*Évora*Portugal

15 - CANTO REBELADO * Violência





No meu acontecer
fui o que pude ser...

Ergui-me, deserdado.
A certeza enfrentei
do tempo encarcerado...
E sem arma nem lei!

No escuro mergulhei,
onde o tempo ultrajado
impunha o ser negado...
E sem arma nem lei!

Não traí nem neguei.
Fui, no verbo jurado,
o tempo conjugado...
E sem arma nem lei!



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 15 de Fevereiro de 1997.

28 - CLAVE DE SUL * Exortação




Foto Internet, com a devida vénia.


Há um tempo cumprido.
Há um tempo a cumprir.
Um minuto perdido
é andar e não ir...

Na boca que receia,
um grito sufocado,
no presente, semeia
um futuro adiado.

Quem ousa a não palavra
da renúncia grosseira
esmagando o clarão?

Num arado que lavra,
a esperança inteira
do milagre do pão!



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Maio de 1996.
Viana, 6 de Janeiro de 2011.

28 - CLAVE DE SUL * Os dias inúteis


Foto Internet, com a devida vénia.



São os campos imensos,
sem suor e sem pão!
São os músculos tensos,
tensos, tensos em vão!

São tão rudes e densos
estes campos de estevas!
São tão negros os lenços
de miséria e de trevas!

São inúteis os dias,
mortos de desencanto,
a gritar agonias
em sepulcros de espanto!

Amargurada terra,
quem de ti te desterra?


José-Augusto de Carvalho
30 de Abril de 1998.
Viana * Évora * Portugal

sábado, 28 de setembro de 2013

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Romagem




Foto Internet, com a devida vénia.



De tribo em tribo, vou, humilde peregrino.
E tudo em derredor são sombras e armadilhas.
Um bobo impertinente exibe o desatino,
a turba exulta e faz do reles maravilhas...


Medíocre insecto arenga, em sórdido arreganho.
Casaca a condizer, as asas coloridas.
Asneiras que lhe inveja o néscio em seu tamanho.
E aqui não há ninguém que venda insecticidas!...


Humilde sou e humilde eu quero assim manter-me.
Traído o seu intento, o verbo foi em vão.
Não é inteligente equiparar-me ao verme.
Humilde, sim, serei, mas sem humilhação.


Paguei o preço até ao último centavo.
Ingénuo, e em dor, senti do fel o amargo travo...



José-Augusto de Carvalho
8 de Junho de 1996.
Viana * Évora * Portugal

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Destino


Trigal * Foto Internet, com a devida vénia.




O céu sem uma nuvem, todo azul!
Na limpa, o pão -- um cântico do Sul!

Vermelha, a terra em sangue, a palpitar,
entrega-se ao incêndio que a devora!
Cresceram os trigais e, a ondular,
sonham ainda o mesmo mar de outrora...

Foram daqui, ficou a nostalgia
das horas de aflição e de loucura...
O sonho de outro pão, que se entrevia
na sedução que foi e que perdura...

A sedução de ser aqui e além
o mesmo lenho e a mesma carne viva!...
Arado e leme, a força que sustém
o rumo até nas horas à deriva...



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Maio de 1997.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O elogio do Homem


Foto Internet, com a devida vénia.



Deserto de silêncio que não venço.
Areias de miragens e desdém.
O verbo de incerteza e dor suspenso
da força da vontade que não vem.

Da força de vontade que não minha,
que este suor me empapa inteiro o rosto...
A minha parte dou da nossa vinha
e as uvas que pisei e já são mosto...

Até ao fim será este o caminho.
A dúvida recuso se perpassa
e tenta me toldar o raciocínio.

Que cheiro a vinho novo! Santo vinho!
Homem, ergue bem alto a tua taça
e envolve a terra e o céu no teu fascínio!


José-Augusto de Carvalho
27 de Janeiro de 1997.
Viana * Évora * Portugal

02- TEMPO DE SORTILÉGIO * Encruzilhadas


Foto Internet, com a devida vénia.



De palavras não careço

nem há palavras precisas;

apenas o teu olhar

sempre me ilumina e guia.


Afronto as encruzilhadas

indefinindo os caminhos.

Despetalo rosas rubras

e o caminho cheira a sangue.


Em cada nuvem cinzenta 

que presagia procela,

adivinho as tuas lágrimas

derramando-se na espera.


Com o meu bordão, amparo

o trôpego caminhar 

dos meus passos que recusam

descansar ou desistir.



José-Augusto de Carvalho
1 de Junho de 2011.
Viana*Évora*Portugal

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * O meu credo



Dórdio Gomes (pintor alentejano)
Foto Internet, com a devida vénia.


Creio em mim, peregrino na Vida,

nesta espera de um céu, mas na terra,

e na força do grão que germina

concebendo o milagre do pão

que ceifei, debulhei e moí

e depois amassei com as lágrimas

em que afogo a revolta do servo.

Cada dia que nasce cá vou

eu descendo aos infernos

onde os servos extraem o pão

que empanturra os senhores.

Creio ainda no sol do amanhã,

na certeza de mim,

no homem livre,

na justiça dos homens,

no clamor da Verdade

sobre a Terra.

Assim seja!



José-Augusto de Carvalho
2 de Junho de 2011.
Viana * Évora * Portugal

15 - TEMPO REBELADO * Catarse





Já nasci na prisão.
Fiz do medo
um brinquedo
que trazia na palma da mão.
Fui menino enjeitado.
Fui soldado.
Fui adulto explorado.
Fui vexado.
Vi o medo tolher
quantos homens sem medo!
Vi crianças comer
um bocado já duro de pão.
E vi mães em segredo
a beijarem o pão que caíra no chão!
Vi tudo o que era feio!
E, ao fim de tanto anos,
um amargo receio
de não ver
os tiranos
finalmente e de vez expulsos do poder...
Um receio doído,
como a fome sem pão,
como um homem traído
pela vil delação
ou como uma esperança
que a tirania insulta
nas mãos duma criança
condenada a nascer já adulta...


José-Augusto Carvalho
7 de Setembro de 1996.
Viana*Évora*Portugal

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Tempo de Natal




ÚLTIMA CEIA, DE LEONARDO DA VINCI


É sempre nesta data de magia 
que a vida dá sentido à profecia.

Carrega a tradição a longa espera,
que vem do Egipto e vem de Babilónia...
Espera que resiste e viva gera
o dia por haver na longa insónia...

E, em fogo, o sol deslumbra a profecia!
Um céu sem nuvens, todo azul, fascina.
O tempo está cumprido na magia!
Meus olhos encandeia a tremulina...

Na espera milenar que o sonho ateia,
as Portas do Futuro estão abertas!
As horas de hoje só serão incertas
p'ra quem não faz da Vida a sua ceia...


Joé-Augusto de Carvalho
Lisboa, 18 de Dezembro de 2010.

30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Registo






Entardeço,


neste outono de fim



e de espera.



Hoje, só reverdeço



primavera



na saudade de ti e de mim.






José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Dezembro de 2010.

07 - CALEIDOSCÓPIO * Dor


Os lábios comprimidos.


A boca é uma linha.


Nem gritos nem gemidos.

Apenas uma linha,

na roxa cicatriz

dos silêncios feridos,

calada, tudo diz.



José-Augusto de Carvalho
1 de Janeiro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Oração


Foto Internet, com a devida vénia.


Pão nosso que estás na mesa,

saciando a nossa fome...
Bendito seja o teu nome
de promessa e de certeza!

Pão nosso sempre amassado
com o suor que te damos,
que nunca mais pelos amos
sejas pão amargurado.

Vem até nós, por direito,
e que, como um mandamento,
sejas o sagrado alento
que brota da terra-leito!

Vem até nós, pão liberto,
que a Terra comum nos dá!
Que sejas como o maná
que já foi pão no deserto!...



José-Augusto de Carvalho
7 de Julho de 2007.
Viana * Évora * Portugal

10 - CANTO REVELADO * Perenidade




Foto Internet, com a devida vénia.


Não são lendários os fantasmas de ontem,
que assombram os castelos em ruínas...
Qualquer que seja o tempo a que remontem
és sempre tu que em nós te determinas.

No pó que sob as pedras arrefece
e é cinza na lembrança que perdura,
germina a claridade que nos tece
nas sombras frias desta noite escura.

No todo somos tempo em movimento.
A rotação da Terra gera os dias,
a translação da Terra gera os anos...

Nas ânsias, nas angústias, o memento
cavalga no silvar das ventanias
e irrompe p'los recônditos arcanos.



José-Augusto de Carvalho
15 de Novembro de 2006
Viana * Évora * Portugal

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Aguarela






Para Conceição di Castro

Naquele dia, um sol de outono austral
vestiu a cor de um Dia de Natal.

Suave, de matizes amarelos,
dourava de ternura o mês de abril.
Aqui e ali, revérberos de anelos
de uma pureza grácil e infantil.

Folgavam pelos céus os passarinhos,
às vezes arriscando acrobacias,
quem sabe pesquisando alguns caminhos
das rotas inventadas de outros dias...

E, assim, aquele dia de esplendor,
ao sol da vida ousou e foi a tela
que o génio sublimado de um pintor
reteve numa cândida aguarela.


José-Augusto de Carvalho
20 de Abril de 2007.
Viana * Évora * Portugal

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Aguarela ao frio




As árvores despiram as roupagens
que lhes vestira o ardor da primavera.

Dos êxtases de odor, em flor policromados,
dos néctares de alada embriaguez...
do efémero existir já nada resta.

Depois do sol fagueiro aconchegar,
em manta travestido,
a enxerga deserdada,
o tempo a seus desígnios já se rende
e o desconforto vem
assobiar nas telhas dos abrigos.

Agora,
nos hirtos galhos nus,
o inverno tece a frio o níveo manto
ornado de pendentes de sincelo.



José-Augusto de Carvalho
19 de Janeiro de 2008
Viana * Évora * Portugal

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Trova da Estrada de Damasco


Foto Internet, com a devida vénia.



Damasco tem uma estrada,
uma estrada que porfia
ser, em cada caminhada,
o raiar de um novo dia.

Pode haver outras estradas,
mas em mais nenhuma existe
o vestígio das pegadas
que ao tempo vário resiste.

No além do tempo sem fim,
quando não houver mais nada,
ainda a voz de Caim

há-de gritar, condenada:
para me salvar de mim,
Damasco tem uma estrada.


José-Augusto de Carvalho
20 de Agosto de 2006.
Viana *Évora*Portugal

06 - TUPHY VIVE! * O sonho de Tuphy




Na limpidez do céu, um infinito azul
envolve, no seu manto, a terra abandonada.

Assombros de passado acenam mais a sul…

Areias de ouro e sol de uma magia alada…




A voz de Sherazade enfeitiçando ainda

as noites de luar, em fios de alva renda…
Há cânticos de amor, num sonho que não finda…
Seu corpo, belo e nu, enleia a minha tenda…


A dádiva da vida em sôfregos carinhos
enlaça-me num todo anelos de pureza
e sinto crepitar o fogo em nossas veias…


As rotas do deserto, os múltiplos caminhos
que cruzo milenar em busca da riqueza
dos astros de outro céu que emerge das areias…



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal

06 - TUPHY VIVE! * A flor da fantasia


Foto Internet, com a devida vénia.




Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.
Sem noites de luar, o canto emudeceu
e um manto de tristeza o nada silencia.


O sol é um incêndio, um caos de idolatria,
que o tempo-amar-e-ser há muito corrompeu…
Em terras do Alentejo, há muito emurcheceu,
no sonho de Aladim, a flor da fantasia.


Ai, que assombrada voz meu sono escureceu!
Que pesadelo em mim só me anoitece o dia…
O dia que eu queria e nunca amanheceu!
Saudade do que fui! A flor da fantasia,
em terras do Alentejo, há muito emurcheceu…



José-Augusto e Carvalho
Viana*Évora*Portugal

06 - TUPHY VIVE! * Para Sherazade




Foto Internet, com a devida vénia.


O grito que ressoa acorda o sonho antigo.
As crinas dos corcéis ondulam anelantes.
Nas dunas do deserto em fogo onde me abrigo,
Os teus apelos de alma e coração distantes.

No tempo e no lugar, as sedes de outras fontes.
Em ti, o lago pleno, ocaso de afluentes.
Depois de ti, não pode haver mais horizontes.
Que mais, além de ti, se tudo em ti consentes!...

Escondes, sob o véu, os lábios purpurinos.
Sedentos de áurea lava, em tragos de ambrosia.
Prometes, no teu ventre, anseios levantinos.

Gemidos de luar de cálida estesia!
Teu grito, no meu grito, o grito definido...
Aurora recusando o tempo interrompido!



José-Augusto de Carvalho
31 de Outubro de 2002.
Porto Alegre * Rio Grande do Sul*Brasil

06 - TUPHY VIVE! * Alquimia

Foto Internet, com a devida vénia.


Das cinzas do passado me levanta

quem sabe em mim o sonho e o paradigma.
Da minha terra, que é três vezes santa,
eu trouxe e nele sou instante enigma.

Eu fui e nele sou Al Andalus,
o nome que então demos às Espanhas.
Al Andalus de plainos e montanhas,
de um céu que o sol doura ardendo em luz.

Eu fui e nele sou a fantasia
d´As mil e uma noites, de Aladim,
de génios e poetas e magia.

Eu fui e nele sou; e ele é em mim.
Se dois, nós somos um, numa alquimia
que a lei revoga do princípio e fim.



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 26 de Novembro de 2007.

06 - TUPHY VIVE! * A notícia

Foto Internet, com a devida vénia.

Minh’alma está ferida. A morte ronda perto.

Os homens firmam longe o curso de outros rios.
Nas horas da tragédia, erguida em calafrios,
a força noticia o mundo em tempo incerto.

Que sonhos de luar? Irrompem desvarios.
As portas do inferno assombram o deserto.
Os gumes dos punhais desfiam desafios…
Os homens já não são o Prometeu liberto.

No mundo, pereceu o sonho da criança.
Miragens de Aladim. As lendas da magia.
O tempo do sem tempo é a Mesopotâmia.

Os ídolos de antanho, em aras de matança,
exigem sangue, numa orgia de agonia…
Os homens já não são. Que carnaval de infâmia!



José-Augusto de Carvalho
29 de Novembro de 2009.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal

06 - TUPHY VIVE! * Ausência

Arte Zélia, com carinho.


Quando Amine trazia o perfume dos dias,

que esplendor do devir em Abril florescia!

Era abril-primavera ensinando a cantiga
da esperança a cumprir a perene oração...
Era o tempo de ser a promessa da espiga
que madura será a fartura do pão...

Neste tempo de agora, esfumou-se o perfume.
Só o vento suão enternece o vazio,
na vigília do tempo, em golfadas de lume
e lampejos de luz aquecendo este frio.

E eu porfio doendo a saudade dos dias,
nesta ausência de Amine em auroras de espanto!
E eu porfio no tempo em que Abril florescias,
num poema de amor que entre lágrimas canto...


José-Augusto de Carvalho
 3 de Agosto de 2010.
Viana*Évora*Portugal

06 - TUPHY VIVE! * Sob a neblina

Foto Internet, com a devida vénia.



A neblina desce


sobre as encruzilhadas do desassossego.

O musgo, que tirita nas investidas frias

das frias nortadas,

talvez saiba dos rastos ou doutros sinais.

No vento que assobia,

as mensagens cifradas

agitam o silêncio das ervas que medram

e resistem...


José-Augusto de Carvalho
10 de Fevereiro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

15 - CANTO REBELADO * No fio da navalha


Foto Internet, com a devida vénia.






No fio da navalha, arrisca, erecta,

os passos no equilíbrio da porfia.

No vento, uma mensagem vem, secreta, 

vestida de escarlate e rebeldia. 




E fita-me, do cimo, sem vertigens 

nem medo das alturas da tontura. 

E esventra, nos limites, as origens 

da fonte borbulhante de água pura. 




E vai. E a cada passo dado mais 

pressente ser possível encontrar 

os longes irisados de sinais 

num júbilo de lenços a acenar. 




E sonda além das sombras projectadas 

as sedes pelas fontes mitigadas. 





José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 26 de Setembro de 2013.