quinta-feira, 27 de abril de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Anelo vão






Sem manta, sem bornal e sem cantil,

há muito, p’las estrelas, sigo o rumo.

É meio-dia! O sol está a prumo

e mal, no chão, desenha o meu perfil.



Que importa que no chão não fiquem rastros?

Nesta efemeridade, o meu afã

é descobrir-me nesta antemanhã

que me anuncia o lucilar dos astros.



Importa é definido exacto o rumo

e não temer as dores e sofrê-las

como as benditas dores de nascer.



E se tiver de me evolar em fumo,

ah, deixem-me sonhar com as estrelas

e ao seu regaço cósmico ascender!







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Abril de 2017.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A porfia


Foto Internet, com a devida vénia




Maquinalmente, vens, cumprindo calendário.

Não trazes, estelar, o brilho promissor

daquela antemanhã que abria o relicário

de um ledo madrugar de espanto e de rubor.



E nem nos trazes hoje o fogo a crepitar,

em ritos de carmim, do sonho a florescer

nas áleas do jardim que ousámos inventar

em horas de aflição e morte a acontecer.



Apenas vens nos ver, assim desfigurado, 

cinzento na nudez do desamparo triste, 

mas vivo a resistir o sonho que em ti mora.



E nós dizendo não a este bailar mandado,

seremos sempre em ti o sonho que persiste

até que sejas, vivo, o nosso outroragora!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Abril de 2017.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

11 - QUE VIVA O CORDEL! * Charlatanices


QUE VIVA O CORDEL!

Charlatanices






De enxada em punho, porfia

esventrando o exausto chão.

Obsessivo, noite e dia,

busca o sonhado filão.



Nem um instante sossega.

Cava que cava o danado,

sem ver que a terra lhe nega

o filão tão almejado.



Ao vê-lo, pensando fico:

loucura é esta ambição

de ter poder, de ser rico

até à sofreguidão.



Grita que grita a quem passa,

num tamanho desatino,

que mais parece a desgraça

de alguém que perdeu o tino.



Todos fingem não ouvir

o seu constante alarido,

só ele, em seu persistir,

dá sentido ao sem sentido.



E por portas e travessas,

gritando desaustinado:

todos no mundo às avessas,

andam de passo trocado!



Porque só ele detém,

por desígnio de eleição,

supremo, o saber de quem 

é a bela sem senão…





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 19 de Abril de 2017

terça-feira, 11 de abril de 2017

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Ansiedade





Nos meus olhos, um mar de lágrimas paradas. 

Um espelho perdido espera e desespera 

reflectir as manhãs de ti alvoroçadas 

no perfume e na cor --- idílio e primavera. 



Nos azuis deste céu infinito me perco. 

E eu não posso ou não sei decifrar os sinais. 

Que caminhos de ti? De todos que me acerco, 

uma estrela me diz não ser nestes que vais. 



É tão grande este Céu! É tão longe onde moras! 

E eu aqui, neste chão, à espera do fim. 

O relógio desfia o rosário das horas, 

decrescente a contar rumo ao zero de mim. 



Sinto sono ou torpor? Já nem sei definir… 

Finalmente, serão já horas de dormir? 







José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 20 de Março de 2017. 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Natal




…e a distância foi nada

na sua dimensão

absoluta…



…e o Verbo foi balada

de amor na imensidão

impoluta…



…e os grilhões do proscrito

sentimo-los nos pulsos

a ceder…



…rendidos aos impulsos

da Verdade no mito

a nascer…





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 31 de Outubro de 1970.