sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

10 - CANTO REVELADO * Nostalgia de Abril






Mais um Inverno frio nos deixava…

Mais uma Primavera prometia…

E sempre uma esperança pontilhava

de estrelas este céu que se fechava

ao rútilo esplendor dum claro dia!



E sempre esta esperança que morria

em cada frustração que nos matava!

E sempre o desespero arremetia

na força renovada que nos dava

a Fénix que das cinzas renascia!



Ai, tanto se morria e renascia!

E sempre esta esperança acalentava.

Que fértil terra de húmus e porfia

a força dava à força que faltava

nas horas em que a vida mais doía?



De sangue e desespero se amassava

o pão que noite adentro se comia!

De sol a sol, o corpo tudo dava

a troco duma jorna que minguava

enquanto o desespero mais crescia.



Ah, mas, na sombra, a noite murmurava

enleios, numa terna melodia!

E antes de adormecer, já madrugava

nos versos da canção que prometia

livre e fraterna a terra que chegava!



Chegava a Liberdade que cantava

lusíada, em feliz polifonia,

o fim do pesadelo que matava

no dia todo em luz que despertava

a vida que chorava de alegria!



O pátrio povo em armas devolvia

o berço que das trevas libertava

ao povo que sem armas acudia.

E um povo todo irmão se estremecia

no imenso e terno abraço que se dava.



Navegar é preciso, prometia,

agora que o viver se precisava!

Nos braços embalada, a pátria ouvia!

E quanto mais ouvia mais se dava

ao sonho que se ousava e florescia.





José-Augusto de Carvalho
27 de Outubro de 2014.
Viana*Évora*Portugal

15 - CANTO REBELADO * Assim seja!




Que o tempo de hoje se situe e seja o desafio!

Que a folha desprendida ensaie o rodopio!



Que as dores das origens

se evadam nas manhãs

e sangrem as vertigens

nos outonais delíquios das romãs!



Que após o longo tempo em gestação,

das húmidas entranhas brotem lanças!

Lanças subindo, raio acima, a tentação

da luz que vem do céu no olhar duma criança.



Que venha, num sinal tão manso de evangelho,

anunciar o pão,

o pão da fome, o pão do menino e do velho

que, ali no largo, jogam ao pião!





José-Augusto de Carvalho
13 de Novembro de 2014.
Viana*Évora*Portugal









13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O objectivo principal


O objectivo principal será sempre tentar saber: como se chegou aqui; como se está aqui; como sair daqui.

Como se chegou aqui? Que causas terão determinado uma caminhada que não conseguiu alcançar os objectivos propostos à partida?

Como se está aqui? Em que condições estamos aqui, agora?

Como sair daqui? Que condições há para ultrapassar a situação e de que meios dispomos para o conseguir?

Ponderando as respostas a estas três interrogações, será possível uma avaliação da situação e perspectivar um modo de agir racional.

Voluntarismos e desenrascanços nunca foram um modo sustentado de agir. Ou estoutra, também sua aparentada: «quem não tem cão, caça com gato».


Esta reflexão decorre do muito que vou vendo e só nos tem conduzido a desaires.

Se contribuí com esta reflexão, fico satisfeito por ter sido útil; se não consegui, que siga a dança!

Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
26 de Novembro de 2014.
Alentejo, Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O desaforo


Quem tem olhos, que veja!

Quem tem ouvidos, que ouça!



Exortações antigas que conheço desde que me aventurei na leitura dos textos bíblicos. Excelentes exortações, concedo, até porque muito convém sabermos o que se passa. É verdade, quem anda distraído neste mundo de cristo sem cristo, está perdido se não estiver atento!

Se tudo isto convém, não é menos verdade que vamos ouvindo, aqui e ali, confidências que nos desgostam e melhor seria não as termos ouvido…

Ou vamos vendo, também aqui e ali, o que teríamos desejado não ver… porque «olhos que não vêem, coração que não sente»… (Ah, este rifão cruel, tão cruelmente verdadeiro, quantas vezes!...)

Nesta altura da vida, vida já longa, decidi afastar-me, na esperança de me poupar a desgostos. Mas sempre alguma situação se me depara abruptamente; sempre alguma inconfidência insolitamente me chega… E fico triste, mais triste ainda, por mim e pelos outros. Pelos outros que esperam e desesperam; pelos outros que confiam até ao desespero da frustração!

O desaforo implantou-se.

Como já tenho obrigação de saber, «um homem sozinho não vale nada». E porque estou sozinho, logo nada valendo, suporto o desaforo. Suporto porque não tenho alternativa.

Tempos virão, porque a decadência não é o fim da História, mas apenas a desagregação duma situação, dum tempo que morre, dum tempo que morre sem deixar saudades… Tempos virão e com eles quem nos julgará e condenará.

E aqui será obrigatório citar Brecht? Se sim, oxalá que os vindouros, quando nos julgarem, nunca esqueçam o tempo escuro a que escaparam...




José-Augusto de Carvalho
27 de Novembro de 2014.
Alentejo*Portugal

terça-feira, 7 de outubro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Desafio



Recuso e no meu não florescem as manhãs.

Ao sol fraco e tardio,

abertas, as romãs

sangram num desafio.


No tempo que me coube,

quis ser também assim, fugaz, a viva essência.

Se não pude ou não soube,

que neste fim me reste o fel da penitência.



J
osé-Augusto de Carvalho
Agosto de 2001./Setembro de 2010.
Viana*Évora*Portugal

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Da Vida




O tempo que nos limita

só é limitada senda

quando a vontade finita

não tem auréolas de lenda...





José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal

domingo, 5 de outubro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Reflexão


Ah, as coisas que eu não sei!
E, um dia, mais saberei?

Ah, mas em meu derredor,
o saber é tanto, tanto,
dum saber maior,
que, siderado, me espanto
por só saber o que sei!
E, um dia, mais saberei?

No não-saber que me cabe,
(e saber mais tanto quis!)
eu recordo a velha história
do irmão que cala o que sabe
ao que não sabe o que diz...
Ah, esta minha memória!...




José-Augusto de Carvalho
4 de Setembro de 2001 - 2 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Determinação


Sem manta por abrigo,

o céu sobre o meu dorso,

prossigo.

Sem medo nem esforço.

À chuva, ao frio, ao sol,

instante o movimento.

Se o chão é lamacento,

evito que me atole

buscando outro mais firme.

Comigo na bagagem,

pressinto diluir-me

no todo da paisagem.

E a singularidade

da minha condição

perde-se na voragem

duma pluralidade

onde as partes do todo

se esbatem nos devires do lodo...

Infinitude e caos - constante mutação.



José-Augusto de Carvalho
21 de Setembro de 2001 - 4 de Outubro de 2010
Viana * Évora * Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Fadário


Os tempos do desatino

embotam as mentes lerdas,

presumindo-lhes que as perdas

são azares do destino.

Por que será que o destino

só embota as mentes lerdas

e nunca provoca perdas


a quem gera o desatino?




José-Augusto de Carvalho
5 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Das orgias


A orgia dos medíocres continua!

Nos palcos da cidade, a farsa plena!

Atónito, de cena para cena,

o vulgo, num delírio, se extenua.

O conto do vigário, apelativo,

desperta, numa esdrúxula apetência,

instintos primitivos de indigência.

Será que Nero continua vivo?




José-Augusto de Carvalho
6 de Agosto de 2001 - 1 de Outubro de 2010.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 4 de outubro de 2014

07 - Caleidoscópio * Êxtase



O verbo em sinfonia.

O rito. A cor. A dança.

Pureza em harmonia.

Os corpos nus e lassos.

Uma vertigem mansa,

bordada de cansaços,

a infinitude alcança

dos siderais espaços.




José-Augusto de Carvalho
14 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Exortação

Caminho, decidido, enquanto o tempo der,

na passada medida

de quem sabe, à partida,

que terá de chegar até onde puder.

Desafio a borrasca.

Inclemente me alaga a chuva que derrama.

E este frio que enregela, a doer! E esta lama

que, pastosa, me atasca!

Mas decidido vou, enquanto o tempo der,

até onde puder!


Setembro de 2001/Setembro de 2010
Viana*Évora*Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Mandamento


Ser decente é a base.

É a partir daqui,

desta básica frase,

que se escolhe a jornada.

Esta, livre escolhi.

Ainda que percalço ou dúvida te atrase,

à chegada,

esperarei por ti.



6 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Camões


Meu Poeta Maior, altura da vertigem!

Do tempo que passou ao tempo que se apresta

e que outro há-de gerar,

a nódoa ignara e vil, a mesma desde a origem,

insiste em te negar!

Esta gente não presta!





5 de Setembro de 2001.
Viana * Évora * Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * O cavalo de D. Fuas

O cavalo de Dom Fuas

só por milagre gravou

(diz a lenda) a ferradura

no penhasco onde estacou.



E é milagre que perdura!



No negrume de alcatrão

que atapeta as nossas ruas,

sem milagre, qualquer cão

grava as fofas patas nuas...



E assim vai a involução,

nas garras da negação...





5 de Setembro de 2001.
Viana*Évora*Portugal


                                                                                                   Imagem Internet, com a devida vénia.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Malmequer/Bem-me-quer




Como se fosse um frágil malmequer,

meu peito despetalo sem perdão.

Doendo, em sangue, digo: bem-me-quer…

E a pétala, ferida, cai no chão.



E prosseguindo, digo: mal-me-quer...

Que sinto e quero assim em provação?

Inalo este perfume que me fere

num rito fantasmático e pagão.



E despetalo todo o malmequer.

Um manto agonizante cobre o chão.

Não mais nem malmequer nem bem-me-quer.



A tarde cai. Na mansa viração,

que aveludado afago de mulher

enxuga o pranto do meu coração?





José-Augusto de Carvalho
2 de Outubro de 2014.
Viana * Évora * Portugal



quarta-feira, 1 de outubro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Destino



Quando a morte me levar,

duas vezes vou morrer:

uma p'la vida deixar;

outra, amor, por te perder.



Lisboa, 1962

07 - CALEIDOSCÓPIO * Verificação




E assim estamos... Estamos?


E assim vamos... Vamos?

E o baile mandado continua!






José-Augusto de Carvalho
7 de Abril de 2006.
Viana*Évora*Portugal

07 - CALEIDOSCÓPIO * Interrogação





Saudade, alma portuguesa,

quando foi que te criou

esta pátria de incerteza?

Quando o sonho naufragou

e o sal da tua tristeza

os sete mares salgou?




José-Augusto de Carvalho
3 de Novembro de 2006.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 28 de setembro de 2014

07 - CALEIDOSCÓPIO * Liberdade



Vem libertar-te em mim, 


vem dizer-me que o Fim


renasce sempre em ti!






José-Augusto de Carvalho
Setembro de 2014.
Viana * Évora * Portugal

sábado, 23 de agosto de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Na palavra...




Saboreio os sentidos da palavra,

a palavra no verso da canção,

a subir, na tontura da evasão,

onde nada ou ninguém a cala ou trava.



A palavra que salta do papel

a ganhar-se papoila a mais vermelha!

E sangrando na cor, seduz a abelha

tão sedenta de pólen-raro mel.



A palavra que trémula floresce

nos nocturnos doídos da incerteza,

onde o verso recusa ser a presa

que, vergada, se rende e deliquesce.



A palavra canção e melodia

que se inventa nas pétalas da flor

e é o mel de dulcíssimo sabor

alentando a porfia cada dia…





José-Augusto de Carvalho
23 de Agosto de 2014.
Viana*Évora*Portugal

05 - IN MEMORIAM * O maltês




Foto internet, com a devida vénia




Só nos livros antigos encontro

a memória de ti, desencontro

do teu tempo e do meu, descaminhos

eriçados de náusea e de espinhos.



Nem existes nas vozes do cante!

Nem há vento suão que levante

tua sombra do chão, sepultada

nos caminhos de assombro e de nada.



Outros tempos --- tão velhos! --- chegaram,

porque os novos, quem sabe onde param?





José-Augusto de Carvalho
4 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 3 de agosto de 2014

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Condenação

Escultura de Rodin





Vestida de burel, entrevejo a manhã.

Nem luz e nem azul. Tão triste e pardacenta,

mal entra,

tão vaga e sem rumor, com pezinhos de lã…



Pela vidraça fria,

de lágrimas banhada,

apenas o palor duma melancolia

de orvalho desenhada.



Lá longe, a vida grita,

aflita…

Não há quem a socorra!

Que importa o sacrifício às portas do Jardim

e morra,

mais uma vez, Abel, a golpes de Caim?





José-Augusto de Carvalho
3 de Agosto de 2014.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 2 de agosto de 2014

10 - CANTO REVELADO * Caminheiro


I

Sem antes nem depois, aqui estou.

Os ontens são um tempo já cumprido.

Os amanhãs, o tempo prometido

que ainda não chegou.



É hoje o tempo meu, o meu momento,

que para o bem e para o mal enfrento.



Não se recusa o tempo nem se adia.

No meu momento, sou

o tempo que chegou

e aqui me desafia.



É hoje o tempo meu, o meu momento,

que para o bem e para o mal enfrento.



Passivo ou actuante,

aqui me (in)determino.

Aqui, serei ou não de mim bastante.

No meu momento sou e me defino.



É hoje o tempo meu, o meu momento,

que para o bem e para o mal enfrento.



A pé e sem bagagem,

assumo esta viagem,

enquanto o tempo der…

Um dia, o torvelinho da voragem,

sequer no pó que houver,

o rasto fixará desta passagem.



II

No palco, nova cena, um outro personagem

virá representar,

talvez trazendo o sonho na bagagem

da sua caminhada eternizar…





José-Augusto de Carvalho
31 de Julho de 2014.
Viana*Évora*Portugal



terça-feira, 15 de julho de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Paisagem

Rio Grande do Sul*Brasil
Mulher gaúcha (Prenda)
Foto Internet, com a devida vénia




Dançando, rodopias na leveza 
dos dias enlaçados na ternura, 
dourando de alegrias a candura, 
ganhando em melodias a beleza. 


Doçuras encantadas nos teus olhos, 
caiadas as brancuras dos casais. 
São duras as arestas dos abrolhos, 
agruras decantadas por jograis. 


Murmuram as correntes dos riachos 
frescura dos teus dentes brancos, brancos... 
As uvas amaduram... cheira a mosto!... 


As chuvas são de pérolas nos cachos... 
Embriaga-se o vinho nos estancos... 
E a vida ressumando no teu rosto! 




José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2002
Porto Alegre*Rio Grande do Sul*Brasil

06 - TUPHY VIVE! * Oração






Chegaste definida na surpresa. 
Na boca, a travessura dum sorriso. 
Suspenso da neblina da incerteza, 
olhei-te na miragem indeciso. 


Lavava a minha mágoa sem altar 
no pátio profanado p’la descrença. 
Na noite dos silêncios a pairar, 
o meu não-ser velava a treva densa. 


No teu olhar suave a claridade 
banhava de carinho a minha espera. 
No teu sorriso, alvura e mocidade 
florindo perfumada a primavera 


Na bênção de te ver acreditei 
e aos pés da vida em ti me ajoelhei




José-Augusto de Carvalho 
10 de Novembro de 2002 
Porto Alegre*Rio Grande do Sul*Brasil

06 - TUPHY VIVE! * Na solidão da vida...

Foto Internet, com a devida vénia



Aqui, na solidão da vida, me enterneço, 
cantando a tua ausência em versos de saudade. 
E quando a noite cai na noite que adormeço, 
me sonha e vela a luz da tua claridade. 

Lucila o setestrelo em mágico adereço 
e as curvas do teu corpo exalam ansiedade. 
No fogo em que crepito, em êxtase enlouqueço 
e vejo definida a nossa eternidade. 

Seremos nós mortais ou transe e paradigma 
de um sonho que se quer lendário e se projecta 
além do nada e pó que temos por limite? 

Efémero viver! Que deslumbrante enigma 
nasceu dentro de nós e freme asa inquieta 
clamando por um deus que nele habite? 



José-Augusto de Carvalho
Novembro de 2002
Porto Alegre
Rio Grande do Sul * Brasil

15 - CANTO REBELADO * Aqui

Sagres, Portugal * Foto Internet, com a devida vénia


Aqui, se rende ao mar a terra despojada.

Os sonhos de luar bordados na fragrância

florida dos jardins da lenda perfumada

sucumbem ao furor da ignara intolerância.



Do ledo murmurar das fontes a memória

esvai-se devagar num tempo de clausura.

Dos tempos de esplendor à mácula censória,

que triste condição ainda em nós perdura!



Que faço agora aqui com esta liberdade

se em tudo o verbo ter supera o verbo ser?

Que sonho de evasão eu posso desta grade

se a força do poder está no verbo ter?



Resisto e grito não! E ao sol deste dilema,

com sangue escrevo, letra a letra, este poema...





José-Augusto de Carvalho
15 de Outubro de 2006.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 2 de julho de 2014

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Pentacríptico




1.
No princípio, o verbo quis,

em conjugações obscuras,

ser grão e depois raiz

do chão projectando alturas...


Desnudo, no paraíso,

o par de divina essência

cantava, no tom preciso,

o elogio da indolência.


Do seu cume imperativo

e projectando o perfil

pelas lonjuras de anil,

deus olhava o par cativo.


E, certo da tentação,

provocou a transgressão.



2.
Expulso do paraíso

no primeiro alvorecer,

era ainda um improviso

a vida que houve de ser.


Adão pesou, pensativo,

o gesto da divindade

e a condição de ex-cativo,

encontrada a liberdade.


E naquela antemanhã,

que mal podemos supor,

percebeu por que a maçã

tinha um estranho sabor:


o sabor da inteligência

acordando a consciência.



3.
Pródiga era a natureza!

Tudo dava, hospitaleira...

Viver era uma beleza,

sem transtorno nem canseira.


Sentia às vezes saudade

do paraíso perdido...

Mas fora a sua vontade:

assim tinha decidido.


Lá, tinha que obedecer,

ser aplicado no estudo

e ouvir e não rebater...


A liberdade era assim:

não se podia ter tudo

dentro ou fora do jardim...



4.
Sem armas e sem abrigos,

um ninho nos ramos altos,

prevenia os sobressaltos

dos mais diversos perigos.


Nessa arte da construção

imitou os primos símios,

que eram astutos e exímios,

arquitectos de eleição.


Gozando a paz absoluta,

descobriu ser bom pensar:

e concluiu que uma gruta

era o lar a conquistar,


por ser melhor tal intento

do que viver ao relento.



5.
Um dia, o par decidiu

o que há de mais natural:

Eva emprenhou e pariu

o pecado original...


E do seu cálido ninho,

recendendo a puridade,

foi descoberto o caminho

terrestre da humanidade.


E tudo assim sem alarde,

nem hosanas nem prebendas...

Não foi cedo nem foi tarde.

Depois vieram as lendas,


vestindo de cor e rito

o simbolismo do mito.




José-Augusto de Carvalho
9 de Junho de 1998.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 15 de junho de 2014

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * O canto da minha gente

Obra do escultor Fernando Fonseca


O canto da minha gente!
A dolência que se evade
definindo a identidade
que o canto modula e sente…

São as papoilas vermelhas
sangrando por entre espigas…
São pastores e cantigas
nos balidos das ovelhas…

São os guizos nos molins,
em sinfonias ritmadas
dos trotes pelas estradas,
espantando os cachapins…

É a saudade magoada
cravada no coração
onde leveda a canção
no desespero amassada…

É o sol do meio-dia,
quando baila a tremulina
reflectindo na retina
o incêndio da Poesia…

É o fascínio da flor,
“rosa branca desmaiada”
na entrega desesperada
da vida a morrer de amor…



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
15 Junho de 2014.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A transcendência do verbo




Quando o verbo proclama
a representação,
cega-nos o clarão
de iridescente chama…

É, noutra dimensão,
o anúncio dos sinais
transcendentais
da humana condição…

É o tempo interdito
onde o impossível
recusa o perecível
das aras do rito.


José-Augusto de Carvalho
29 de Abril de 2014.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 7 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Al Andalus




Na nostalgia, sangra a dívida da história.

Dos campos do Alentejo aos campos de Granada,

ginetes de luar, correndo à desfilada,

esventram o silêncio exausto da memória.



Que fonte de água pura ensaia a melopeia

em versos de cristal e lendas do Levante?

Ai, onde, Al Andalus, o aedo que te cante,

em noites de ternura e véus de lua-cheia?



As hostes infernais mataram o poeta

e a noite recusou ensanguentar o dia

que havia de nascer e nunca mais nasceu...



A mácula de sangue os campos atapeta.

Não mais, pela manhã, cantou a cotovia.

De luto a Poesia, a lira emudeceu.



José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 6 de maio de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O dia





Empalidece já o setestrelo,

abandonado, num delíquio casto.

Esvai-se num apelo,

sem queixume nem rasto.



A cotovia ensaia os seus trinados,

sorrindo madrigais de amanhecer,

azuis enamorados

de anseios por arder.



Os frescos arrebois primaveris

afagam a verdade da nudez

em transes juvenis

de afogueada avidez.



No incendiado azul do meio-dia,

a vida em seu pulsar se determina

quando beleza cria

com tons de tremulina.



E eu, contrafeito, fico-me, hesitante…

Que mais terá a vida de ensinar-me,

quando não me é bastante

este grito de alarme?





José-Augusto de Carvalho
5 de Maio de 2014.
Viana * Évora * Portugal