quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Em Tavira


Década de 60. Praia da Ilha de Tavira. O almoço.
O casal amigo Catarina e José Luís e seu filho e meu afilhado Paulo Eduardo.
e também  a minha Duze, nosso sobrinho e meu afilhado Henrique e eu.

*
Década de 60. Jardim Público de Tavira.
O meu saudoso Amigo José Luís (1934-1989) e Catarina, o seu filho
e meu afilhado Paulo Eduardo e a minha Duze (1935-2015)
*
Década de 60. Jardim Público de Tavira.
Catarina, seu filho e meu afilhado Paulo Eduardo, a minha Duze e eu.
*
Década de 60. Tavira. *  A minha Duze.
*

Década de 60. Ilha de Tavira.
Catarina, Paulo Eduardo, José Luís, eu e a minha Duze.
*
Década de 60. Praia da Ilha de Tavira.
A minha Duze no rebentar das ondas.
*

Década de 60. Tavira. Casa de meus sogros.
A minha Duze e o Fiel olhando o Séqua.
*
Década de 60. Praia da Ilha de Tavira,
A minha Duze e o sobrinho e meu afilhado Henrique.
*
Década de 80. Esplanada em Tavira.
A minha Duze e a sobrinha Ana Maria

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Da humana condição


Visita-me amiúde a nostalgia do final da minha infância/início da adolescência. Findara o pesadelo da II Grande Guerra (1939-1945); às manifestações de horror perante o holocausto somavam-se as manifestações de horror também pela deflagração das duas bombas atómicas lançadas pela aviação norte-americana sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaky, a 6 e 9 de Agosto de 1945.

Ao tempo, diziam os adultos que tamanha barbaridade era incompreensível pelo desprezo que revelava para com os mais elementares direitos à vida.

Sabemos ou no mínimo intuímos que a guerra é um confronto violento e mortal para muitos que nela intervêm. Quando já não há mais palavras (Rafael Alberti), a violência impõe o seu fatal “diálogo”.

Desde os mais recuados tempos da Humanidade que a guerra semeia sangue e luto e morte.

O mito de Abel e Caim (Genesis) é como uma maldição persistindo em nos demonstrar que o Homem é o assassino do Homem.

Ninguém contesta a universalidade bíblica. Todos nós, dos mais bem informados aos mais mal informados, conhecemos o mito de Abel e Caim como conhecemos os diversos apelos à humana fraternidade: amai-vos uns aos outros / não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Nem por fé nem por amor pela Humanidade foi possível fazer medrar no planeta o respeito pela Vida.

Eu sei que só me represento a mim, triste e insignificante condição para ter a veleidade de ser ouvido; mas tenho o direito que ninguém me recusará, assim o espero, de me indignar.

Se a morte não é boa companheira, muito menos é a morte provocada pela violência.

Desde há milénios que a Humanidade anda vestida de luto.

Desde há milénios que medra o rancor e o azedume nos corações dos povos que mais viveram e sofreram morte e luto, violência e humilhação, opressão e desprezo, esbulho e miséria.

Hoje, a Imprensa é um rosário deprimente e, ao mesmo tempo, um diário da nossa vida onde os valores do Amor, da Concórdia, do respeito aparecem violentados.

Será que nos basta fazermos nossas as palavras bíblicas do Nazareno: Perdoai-lhes, Pai, porque eles não sabem o que fazem!

Se sim, perdoamos há milénios e não vemos resultados. Tudo continua como se nada perdoássemos.

Do mundo ressaltam os factos. Os factos são uma acusação que ninguém pode ocultar e a memória dos Homens não permite que o esquecimento os anule.

Daqueles meus velhos tempos de inocência até aos dias de hoje sempre a inquietação esteve na ordem do dia. A Paz e a Concórdia sempre foram como o horizonte --- sempre à vista, nunca ao nosso alcance!

Que nos reste a esperança de que um dia saibamos ser dignos de nós. E aí, certamente, a Paz e a Concórdia se deixarão alcançar.
.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Dezembro de 2015.

sábado, 17 de dezembro de 2016

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * À mesa


Década de 60 do século XX
Meus pais, a minha Duze e sua prima Alzira

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * No baptizado

Década de 60 do século XX
No baptizado de minha sobrinha Maria Luísa Carvalho Ferreira.
Os padrinhos: a minha Duze e  meu irmão Joaquim Maria

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES ª Na Freixeira


Década de 30 do século XX, na herdade da Freixeira, Viana do Alentejo
Da nossa esquerda para a nossa direita:
Luís Taborda Soeiro, Luís Santos Ferro e Venâncio Santos Ferro.
Neste momento, não sei identificar as crianças.
Por via feminina, os irmãos Santos Ferro eram meus familiares. 
O meu avô paterno era Santos Carvalho.

sábado, 10 de dezembro de 2016

12 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * A detenção do maltês


Este é o relato.

O maltês, que sempre vinha à feira, ano após ano, deambulava por entre as pessoas, gritando:

Quem muito dorme pouco aprende! Acordem!

Indiferentes, as pessoas fingiam não o ouvir. Uma ou outra murmurava:

É doido, para que lhe havia de dar!

O maltês não se dirigia directamente a ninguém. Se alguém o olhava com curiosidade ou como que mudamente o interpelava, não desviava o olhar nem parava e gritava:

Acordem!

Um dos membros da patrulha da Guarda Nacional Republicana aproximou-se dele e quis saber o motivo da exortação do maltês:

--- Então que se passa?

--- Esta gente parece não sentir como elas lhe mordem, senhor guarda.

--- Ah, sim?!, ironizou o agente da Autoridade.

--- É como lhe digo, confirmou o maltês.

O guarda olhou interrogativamente o camarada da patrulha:

Que fazer? Aquilo seria perturbação da ordem pública?

O outro guarda opinou:

--- É melhor levarmos o gajo ao comandante, assim ficamos a salvo de qualquer encrenca.


E lá foram, o maltês ladeado pelos guardas, rumo à vila. As pessoas olharam silenciosamente enquanto se afastavam, abrindo alas. As mais novas manifestavam uma curiosidade contida; as mais velhas, uma preocupação apenas perceptível num baixar de olhos ou num reprovador menear de cabeça.

Chegados ao Posto local da GNR, apresentaram-se ao comandante, um 1º. Cabo. Os soldados relataram a conduta do maltês e o motivo da sua detenção.

O comandante concordou com um movimento afirmativo de cabeça e fixou o olhar no detido. Depois, perguntou:

--- O detido ofereceu resistência?

--- Não, senhor!
, responderam os guardas, ao mesmo tempo.

--- Na feira, as pessoas sentiram-se incomodadas com a conduta do detido?

--- Não, senhor! ,
de novo responderam em uníssono os guardas.

O comandante parecia meditar enquanto olhava o maltês. Seguidamente, disse:

--- Bem, vamos ao interrogatório…

Um dos guardas sentou-se à secretária para elaborar o auto e o outro saiu da sala.

--- Como te chamas?, perguntou o comandante ao maltês.

--- António Almas.

--- Qual é a tua profissão?

--- Trabalhador.

--- Isso somos todos,
resmungou comandante. --- Trabalhador de quê? O que fazes na vida?


--- Trabalhador do campo, precisou o maltês.

--- És natural de onde? Isto é, onde nasceste?

--- Não sei ao certo, sei que foi num monte, perto do Odiana, era o que dizia a minha mãe.

--- Sabes ler?

--- Não sei, nunca fui à escola.

--- És casado? Tens filhos?

--- Tive mulher. Morreu ela e a criança ao nascer.

--- Que vieste fazer à feira?

--- Acordar quem dorme?


--- Ah, sim?
, estranhou o cabo da guarda.


--- Sim, senhor, quem muito dorme pouco aprende! , sentenciou o maltês.

--- Que queres tu dizer com isso?, perguntou o cabo da guarda enquanto lançava um olhar cúmplice ao guarda que registava a interrogatório.

--- Quero dizer o que disse, mais nada: quem muito dorme pouco aprende.


--- E onde aprendeste tu isso?, quis saber o cabo da guarda.

O maltês encolheu os ombros.

O cabo da guarda não gostou do encolher de ombros e gritou:

--- Responde ao que perguntei!

Muito sereno, o maltês respondeu:

--- Toda gente sabe isto. Já minha mãe me dizia isso: filho, não fiques dormindo a sesta! Não sejas malandro! Vai procurar trabalho para ganhares para as sopas! Olha que quem muito dorme pouco aprende!


--- Isso é política!, voltou o cabo da guarda a gritar.

--- Isso eu já não sei, disse suavemente o maltês.

Desconcertado, o cabo da guarda olhou o maltês. Seria aquele homem um pobre diabo ou um finório? E recordava a recomendação superior: na dúvida, arrecada-se.

--- Acabou o interrogatório, decidiu. --- Ficas detido e amanhã de manhã segues para a cidade. Lá, o Comando Distrital tratará de ti.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Novembro de 2016.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Eu não fujo de mim!


Diz quem sabe que “ostracismo é o afastamento (imposto ou voluntário) de um indivíduo do meio social ou da participação em actividades que antes eram habituais.”

Ah, a nossa muita amada Velha Grécia previu tudo! Confunde-me até ao deslumbramento o legado assombroso deste Povo-maior! Foi no Conhecimento! Foi na Poesia! Foi no Teatro! Foi nas Ciências! Foi na Política! Foi no Desporto! Foi no âmbito militar! Terá sido em tudo ou quase tudo que possibilitou o seu tempo!

Uma amiga de quem nada sei há anos, professora de Filosofia, dizia-me frequentemente: pois é, ainda hoje pensamos como a Velha Grécia quis que nós pensássemos!

Eterno aprendiz, sempre me deliciou a máxima sabedoria do velho Sócrates: “Eu só sei que nada sei.” Ah, que bom seria para todos nós, hoje e sempre!, se seguíssemos o esclarecido pensamento de um homem que teve a grandeza de dizer esta frase!

Às vezes, dou comigo a tentar imaginar alguns dos que conhecemos hoje virem reconhecer que nada sabem. Loucura minha, claro. Só um louco poderá imaginar ouvir do cimo do palanque um dos pretensamente iluminados confessar “eu só sei que nada sei”.

Enfim, adiante!

Falava de ostracismo. Sim, do ostracismo que voluntariamente me impus. Quantas vezes a paz interior nos impõe o recolhimento. Eu sei que é um recolhimento sofrido, mas há situações-limite. E quando assim é, mais vale uma atitude drástica a ficar a vida inteira a reclamar como o nosso Sá de Miranda: “Comigo me desavim / sou posto em todo o perigo / não posso viver comigo / não posso fugir de mim.”

No meu ostracismo voluntário, eu não lavei as mãos, como dizem que Pilatos lavou, desinteressando-se, cúmplice, do destino de Jesus. Eu defendi a minha postura e não fui ouvido. E deitar palavras ao vento ou falar com quem não está interessado em me ouvir e me responder não é solução que me sirva. Eu sei que não sou dono da Verdade; mas quem fala comigo ou se recusa a falar comigo também não é dono da Verdade. Para mais, o tempo, esse velho tempo que tudo coloca nos carris devidos, mais cedo ou mais tarde, é minha testemunha abonatória.

Não sou nem um vencedor nem um perdedor. Sou apenas uma pessoa que tem valores a que se dá e causas a que se entrega, sem restrições, sem rendições.

Eu não fujo de mim!

Aqui fica, para que conste e para memória futura.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2016.

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Discorrendo: não faças aos outros...


Sempre integrei as hostes que lutam pela igualdade de direitos e deveres, em todas as circunstâncias, sem excepção, porque a divisão de uma sociedade em classes determina a desigualdade de direitos e deveres.

Conhecemos a dolorosa caminhada do ser humano, uma caminhada de luta e sofrimento, uma caminhada de derrotas e tragédias que empapam de sangue e de luto a nossa memória colectiva.

Quisemos ultrapassar a vergonha do esclavagismo; quisemos ultrapassar a barbárie mais infamante das fogueiras ironicamente designada por autos-de-fé; quisemos ultrapassar o ultraje da tortura física, psicológica e moral e o desprezo pelos elementares valores da inocência e da dignidade da mulher desde menina; quisemos ultrapassar o nepotismo e as suas perversas consequências no âmbito familiar, social e laboral; quisemos, afinal, a justeza dos valores que ambicionam a suprema instauração da fraternidade ou, dito de outra maneira, a instauração do basilar princípio: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.

Passaram milénios e a luta de hoje é a luta de sempre. Que difícil é cumprir a base da harmoniosa convivência humana: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!

Como é possível, depois de tudo por que passámos, continuar a existir quem se venda por um prato de lentilhas?

Como é possível continuar a existir quem construa a sua ventura com a desgraça do outro? Ou, como escrevi um dia, construir o seu palácio com a fome de um casebre?

Eu sei que pouco valho, que serei um grão de areia do imenso deserto; mas onde estão os que valem muito ou supõem que valem muito? Onde estão eles que não os vejo agir eficazmente pela instauração dos valores supremos do ser humano e da Vida, em sentido amplo? Onde estão?

Sinto uma tristeza profunda ouvindo falar de direitos humanos a quem os espezinha; sinto-me ofendido ouvindo falar de democracia, o tal poder do povo, a quem espezinha os direitos democráticos mais elementares; sinto-me insultado ouvindo falar da Verdade e sem poder perguntar a esses petulantes «o que é a Verdade»?

No ocaso da vida, depois de tantas e tantas decepções, recordo o que ouvia em criança: «cortaram a cabeça a São João Baptista porque ele dizia as verdades». Esta frase e também estoutra «Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo» sempre me acompanharam como ditos populares. Hoje, para meu desespero, são máximas comprovadas.

No ocaso da vida, confirmo, pela experiência vivida, que continua válida a sentença: ninguém fará por mim tudo quanto só a mim cabe ou couber fazer. Tal qual!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6/12/2016.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... - Assumpto!


Desde que me entendo responsavelmente como gente que compreendo que só quando nos damos é que a vida faz sentido. Quando nos damos à pessoa amada; quando nos damos ao possível projecto de vida; quando nos damos à(s) causa(s) que elegemos.

Nem sempre o darmo-nos corresponde às expectativas que criámos e ficamos decepcionados quando assim sucede.

Um desgosto de amor é um capítulo do «livro da vida» que escrevemos; outro amor que venha não substitui o que perdemos, outro amor é isso mesmo: é outro amor.

Um projecto de vida nem sempre está ao nosso alcance e dele fica a frustração a magoar-nos, mas vamos em frente, porque a vida não pára e porque a subsistência tem exigências inadiáveis.

A(s) causa(s) eleita(s) quase sempre nos exige(m) a integração em colectivo(s). E daí decorre a relação com o outro: às vezes gratificante e frutuosa; outras vezes difícil até ao limite da maleabilidade; outras vezes ainda difícil até à inevitável ruptura.

Temos notícia de histórias de vidas gratificantes; de histórias de vidas que cederam na maleabilidade até extremos quase insuportáveis; e de histórias de vidas que preferiram a ruptura quando os princípios ou os valores ou a dignidade determinaram dizer não.

Não vamos arriscar julgamentos de maleabilidade construtiva ou de rupturas. Recusemos a presunção de nos assumir como o outro. Ninguém pode ser o outro, assim penso, assim procuro agir.

Sofremos decepções em projectos de vida e em causas que elegemos. Umas mais dolorosas, outras menos. Há quem sustente que estas decepções são ensinamentos. É matéria complexa, por isso mesmo umas vezes será pacífico aceitar que sejam ensinamentos e outras vezes será preferível considerá-las de outros modos, assim no plural.

A nossa consciência é a nossa bússola. Se bem escolhemos o(s) caminho(s), ela nos gratificará; se mal o(s) escolhemos, ela nos punirá.

A nossa conduta, as nossas opções, as nossas decisões serão sempre nossas e sempre da nossa exclusiva responsabilidade.

Ninguém poderá viver por nós a nossa vida; não poderemos jamais viver a vida do outro.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Novembro de 2016.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

11 - QUE VIDA O CORDEL! * A nova banda


QUE VIVA O CORDEL!

A nova banda




Não são meus estes caminhos

nem é meu este arvoredo

onde as aves fazem ninhos

e me cantam em segredo

hinos de amor e verdade

com asas de liberdade.




Estas terras não são minhas,

só são minhas as canseiras

de sol a sol nestas vinhas

onde colho nas videiras

promessas de olor e mosto

no calor do mês de Agosto.




Não são meus estes trigais

nem as papoilas sangrando.

São meus apenas meus ais

deste infortúnio em que eu ando

de um amanhã esperando

que virá mas não sei quando.




Só é meu este cansaço

que é noite quando adormeço.

Nem à força do meu braço,

sendo minha, faço o preço.

Este mundo é uma banda:

toca o que o regente manda!




Ouço falar de direitos,

de justeza ouço falar.

Serão caminhos estreitos

onde eu não posso passar,

porque o mundo é uma banda:

toca o que o regente manda.




Talvez de regente eu mude,

não me serve o que ele manda.

Só um tolo é que se ilude

rodando neste ciranda.

Se tanto eu já soube e pude,

vou criar a minha banda.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Novembro de 2016.

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

28 - CLAVE DE SUL * A barca linda






Naquela noite, uivava a ventania.

Nas vagas alterosas, arrepios.

À capa, a barca nova resistia

aos trágicos apelos dos baixios.



Na antiga sedução da perdição,

chegava a melopeia das sereias.

A barca nova, toda coração,

sente vertigens a correr nas veias.



O povo, mal desperto, acorre ao cais

e olha o negrume frio dos baixios.

Só entre dentes grita “nunca mais!”

e sente até à alma os arrepios…



Na frustração de nós persiste ainda

o sonho que ficou da barca linda!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Novembro de 2016.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Os versos da canção




CLAVE DE SUL

OS VERSOS DA CANÇÃO


Não sinto no meu peito anseios de partida.

Não sinto nos meus pés renúncias ancoradas.

Não dei a volta ao mundo, apenas dei à Vida

as rotações que pude e quis que fossem dadas.



Dei o que pude e quis --- o mais foi extorsão.

Pequenos mundos tem o mundo e várias sendas

varridas pelo ardor dos versos da canção,

sustidas p’lo torpor de milenárias vendas.



No meu entardecer, indócil adivinho

o ser a acontecer nos versos da canção.

Não retrocede nunca o rio o seu caminho

no ciclo natural da sua condição.



Eu não verei cumprir o ciclo da evasão,

mas sempre hei-de cantar os versos da canção.




 
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Novembro de 2016.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * JOSÉ AUGUSTO


ÉVORA, 1958 * O SERVIÇO MILITAR

1994, DESEMBARCANDO EM CASABLANCA
ANOS 60, COM MEU SOBRINHO ALBERTO AUGUSTO
E O MEU ESTIMADO FIEL
NO GDCF, 1990. COM O ADVOGADO E MEU INESQUECÍVEL 
AMIGO JAIME BANAZOL SANTOS, QUE TÃO CEDO NOS DEIXOU.
1990, GDCF, COM O COLEGA ARMANDO JORGE

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * A MINHA DUZE


DUZE NA PRAIA DA ILHA DE TAVIRA, ANOS 60

O RISO FELIZ DA DUZE, NO GDCF, 1990

O OLHAR ATENTO DA DUZE

DUZE, AVÔ MANUEL PALMA, TIA E MADRINHA 
LUCÍLIA DAS DORES E TIO FILIPE SANTOS, 
TAVIRA, ANOS 60
1990, GDCF, DUZE RECEBENDO UM RAMO DE FLORES

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Na neve, Viana, 1954


Vista parcial de Viana do Alentejo, 4 de Fevereiro de 1954
Foto de João José Navarro y Rosa Soeiro, meu amigo de infância

*
Viana, 4 de Fevereiro de 1954. 
Do cimo de São Vicente, foto ao infinito, para Ocidente.
Foto de João José Navarro y Rosa Soeiro, meu amigo de infância.

*

Viana, Serra de São Vicente, 1954.
Em baixo, eu, à esquerda,, com neve nas mãos.


Eu, com 16 anos.

sábado, 12 de novembro de 2016

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * A minha mão...





Dizei-me, iluminados, onde fica

a terra decantada da utopia?

Eu quero ver a mão que modifica

o fel em mel, o choro em melodia.



Quisestes ensinar-me a boa nova

do lobo e do anho em paz pascendo juntos.

Aqui, onde a penar, do berço à cova,

de paz apenas gozam os defuntos.



Eu soube de Caim matando Abel!

Ainda quente o barro ao sol cozido…

O mel azedo transformado em fel

na mesa dos incautos é servido.



Soube também da pena de Talião…

…e mais e mais morrendo a utopia!

Que pode e que não pode a minha mão

para rasgar a treva e ver o dia?



Descubro, iluminados, que sou eu

quem vai além do barro à utopia!

Sou eu quem a si mesmo prometeu

e há-de cumprir o fim desta agonia.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 12 de Novembro de 2016.

domingo, 30 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Os semi-deuses


1.

Todo o ser vivo, quando nasce, traz a certeza de que irá morrer. Porque assim é, a vida carrega a sua finitude. Não será destino nem sentença inexorável, será apenas da sua condição.

Não creio que esteja errado no que escrevo, mas, previdentemente, apelo: Vinde, amados mestres! Que caia sobre mim a correcção iluminada do vosso saber! E corrigirei feliz a evidência do meu mundo e da finitude que sempre vi, que sempre senti, que sei que me espera!...

Esta nossa condição de mortais demonstra-nos a efemeridade das nossas certezas, das nossas verdades, sempre modeladas conforme os condicionalismos redutores de quem não sabe nem poderá saber além do conhecimento existente e do conhecimento de um porvir próximo que pode enubladamente entrever.



2.

O curso milenar de um rio pode ser alterado por um qualquer inesperado cataclismo. E em segundos ou minutos o que era deixou de ser. O vulcão Vesúvio transformou a bela Pompeia numa cidade fantasma que podemos ver ainda. As convulsões na Natureza, ora destroem, ora criam e recriam na transformação constante de que nos falou Lavoisier.



3.

Hoje, de posse que estamos de poderes destruidores, um momento de raiva demente pode ser responsável pelo dedo que prime o botão que determina o fim de milénios de existência. E depois quem sobreviverá para contar a tragédia?

Hoje como ontem, há lampejos de florescências perfumadas e trevas de ansiedades e de medos.

Hoje como ontem, o tempo é de equilíbrios instáveis e de incertezas dolorosas.



4.

Os grandes do Pensamento vêm legando-nos obras-primas do Conhecimento.

Os grandes da Beleza vêm legando-nos obras-primas em todas as manifestações da Arte.

Os grandes da Ciência vêm-nos legando maravilhas que quase ofuscam o maravilhoso da fantasia.

E tudo isto faz ou parece fazer de nós semi-deuses.

Ah, mas são estes semi-deuses que continuam impotentes perante as erupções da vulgaridade, do obscurantismo, das vaidades e da jactância mais imbecil.

Ah, mas são estes semi-deuses que continuam impotentes perante as mesas sem pão, perante a inocência prostituída, perante a dignidade encarcerada, perante a palavra amordaçada, perante a Justeza reduzida a uma Justiça dispendiosa em demasia para dela se socorrerem os humilhados e ofendidos.

Ah, continua preponderante contra tudo e contra todos a verdade que li no poeta alentejano José Duro: “O oiro de um palácio é a fome de um casebre”.

Ah, de que valem as caridadezinhas, as «boas» intenções, os «bons» corações?

De que nos vale a perigosa recomendação bíblica “dá com a mão direita de modo que a mão esquerda não veja”? Que dar é este em segredo? Que dar é este senão aprovar a existência de quem pode dar a quem tem necessidade de receber? Que dar é este senão a confirmação de que «o oiro de um palácio é a fome de um casebre»?

Ah, que haja palácios, concedo, mas que nunca sejam erguidos pela fome dos casebres!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Outubro de 2016.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Soneto para Florbela Espanca




A mim me basta o frio que arrefeço.

E os dedos hirtos ficam caramelo!

Não temo nem contesto o meu regresso.

De pó, de cinza e nada não apelo.



Serei também um golpe do suão,

incêndio no vazio em movimento

gritando além de mim à solidão 

a nossa ardente condição de vento.



Iremos ver as sombras dos montados

e as limpas das espigas em promessa

mescladas de papoilas a sangrar…



Iremos às amoras nos valados

e que ninguém das hortas nos impeça

de nos amarmos ébrios de luar!...




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Outubro de 2016.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

02 * TEMPO DE SORTILÉGIO * A abóbada





Sempre vi esta abóbada assim:

um azul polvilhado de estrelas 

lucilando sinais para mim

e eu aqui sem poder entendê-las.



Desencontros fatais de evasão

a doerem de mais no meu peito.

O que faço do meu coração

na clausura do tempo imperfeito?



Se não posso ir além das tonturas

dos sinais, que me fique onde estou

e me baste este chão de planuras

onde sou e me cumpro e me dou.






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Outubro de 2016.

domingo, 23 de outubro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Balada das chagas



Há vidas que nunca morrem.

Ninguém as pode matar.

São chagas do nosso corpo,

sempre, sempre a supurar.



Chagas que nenhum unguento

irá conseguir sarar,

chagas que um golpe de vento

sempre, sempre faz sangrar.



Chagas que são carne viva

doendo só de as olhar,

chagas de voz aflitiva

e sempre, sempre a gritar.



Chagas de um tempo passado

e a nosso lado a passar,

chagas de um tempo parado

sempre, sempre a supurar.



São chagas de todos nós,

que ninguém pode calar.

São chagas sonhando a voz

que também sabe cantar.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Outubro de 2016.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Os medos

                                      



Tu tens medo e eu também tenho.

Temos todos nossos medos.

Tens medo do que há-de vir

envolto no nevoeiro

da manhã por descobrir?

Ou tens medo do que veio,

do que veio e se instalou

na cama da tua insónia

e te rouba antemanhãs

ruborizadas de luz?



Conta-me os passos que deste

e dize-me o que trouxeste

nos ontens da tua vida!



Mede os passos que vais dar

nos hojes da tua vida

p’ra mais tarde me dizeres

que sonhos de primavera

trouxeste no teu bornal

para perfumar à noite

a mesa da tua ceia!



Só depois, já noite adentro,

me falarás dos teus medos

que sufocam a manhã

que tu temes que amanheça…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Outubro de 2016




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

11 - QUE VIVA O CORDEL!... * Isto é uma paródia!...


QUE VIVA O CORDEL!


Isto é uma paródia!...






Consigo trazem sempre a solução


Os donos da verdade são assim


Ficam vaidosos se dizemos sim


Ficam danados se dizemos não






Os donos da verdade não consentem


Sequer que se lhes peça um fundamento


Sequer o mais vulgar aclaramento


Protestam e trejuram que não mentem






E passam a olhar-nos de través


Como se fosse crime perguntar


Como se fosse crime reclamar


Sabermos em que chão pomos os pés






Eu quero que a verdade seja o pão


Pousado sobre a mesa e repartido


E dele comerei o meu quinhão


Que por direito é meu e me é devido.






Que sempre o que é verdade se revele


Sem artifícios e nenhum ornato


Se me dão lebre quero ver-lhe a pele


Gato por lebre nunca no meu prato








José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19 de Outubro de 2016.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Discorrendo...


O tempo passou sobre mim. É passado longínquo a ternura da meninice; é passado distante o verdor primaveril da mocidade; é passado os anos da labuta; é presente a anciania deste meu ocaso da vida. Tudo de acordo com o trajecto vulgar duma existência vulgar. A importância de uma existência não estará nas suas fases (meninice, mocidade, idade adulta e anciania), quando os fados não são por demais adversos e no-las permitem; a importância de uma existência estará nas safras do tal saber de experiência feito.

Na meninice tudo é doce; na idade moça ou na moça idade, de que decorre a palavra linda mocidade, tudo é perfume e deslumbramento de cores numa descuidada interpretação da existência; na idade adulta tudo é a descoberta de dificuldades, de contrariedades, de êxitos efémeros ou nem tanto, de frustrações e fugazes satisfações; a anciania é o pôr-do-sol e o subsequente vislumbrar da noite escura que vem aí.

Mais prosaica ou mais poética, a existência é esta caminhada para nenhures. O período entre a data da chegada e a data da partida é que importa avaliar. Que fiz eu da minha vida? Esta será uma pergunta difícil, mas é de todos nós. Que cada um, cotejados o deve e o haver, encontre o saldo definitivo.

Estarão perdidas as fantasias dos presentes no sapatinho, nas datas convencionais? Estará verificada a impossibilidade de voar metaforicamente no tapete voador com a Xerazade da nossa eleição? Estarão abandonadas desgraçadamente as esperanças na justeza, na meritocracia, no respeito pelo outro, no primado da dignidade? Será uma utopia consagrar de facto e de direito a defesa e a implantação dos direitos humanos?

E a verdade? Ah, esta palavra terrível que passa de boca em boca! Esta palavra ora absoluta, ora objectivamente relativizada. E aqui virá como exemplo porventura paradigmático o episódio bíblico que relata o encontro do Nazareno e Pilatos. O romano terá perguntado ao hebreu: o que é a verdade? E o Nazareno terá ficado mudo. Alguém se questionará sobre o motivo de tal mudez que atravessou dois milénios? Perante a pergunta de o representante máximo do Império Romano na Palestina seria ponderável uma resposta diferente do silencio? Será que a verdade para o Império Romano ocupante poderia ser igual à verdade da Palestina ocupada?

Há palavras terríveis.

Há perguntas terríveis.

Há silêncios terrivelmente ensurdecedores.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 10 de Outubro de 2016.

sábado, 8 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A mão canhestra


Canhestra mão é a minha que teima incorrigível na recusa da História escrita pelos vencedores. Não sei donde vim; não saberei ao certo para onde irei; mas sei onde estou e recuso a subjugação, venha donde vier, esta inventada e reinventada sempre no cadinho onde o embuste amalgama os despojos da violência.

O que ficou soterrado nos escombros? Por que não falam as cinzas? Por que não falam os ossos desconhecidos que resistiram até hoje? O que escondem os fragmentos do que foi destruído pela violência dos vencedores? Quantas palavras, hoje ditas de origem obscura, tiveram a sua definida etimologia? Que pretendem os vencedores apagando outras memórias senão destruir provas e testemunhos de outros saberes?

Hoje, felizmente para todos nós, a Arqueologia tenta, quantas vezes com extrema dificuldade?, encontrar o fio condutor e repor a possível verdade histórica.

Esta caminhada da imposição da força bruta sobre a inteligência, sobre o conhecimento, sobre a diferença, sobre o direito do outro de ser como é e como quer continuar a ser é a prova provada de que a barbárie continua. Até quando?

Situemo-nos neste drama actual dos dias de hoje:

Olhai aquele que foi expulso da sua casa! Quem se indigna? Sem um tecto, sem uma ocupação, sem hoje nem amanhã, vagueia pelos caminhos e logo é apontado como vagabundo, talvez como um perigoso vagabundo…

Olhai aqueles a quem tornaram impossível viver na sua terra! Desenraizados, eles partem e buscam sobreviver noutro lugar. Quem se indigna? Eles só querem viver, mas são apontados como um problema. Eles são um problema? Pois são? E quem responde pelo seu problema de não poderem viver na sua terra?

Há quem reclame dádivas para eles; há quem reclame refúgios para eles; há quem reclame hospitalidade para eles… Tudo manifestações de boa vontade, tudo reflectindo o «nosso» bom coração… Que seja! Mas ninguém parece reclamar para eles a recuperação do que lhes foi extorquido; e muito menos reclamar a punição dos responsáveis pela barbárie.

Olhai, eles são os vencidos!

Olhai, eles são os agentes da outra História!…



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Outubro de 2016.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Naquele distante verão...


Naquele distante verão de 1937, o sol queimava as esperanças. Suportar era o verbo conjugado. O tempo não parara, porque o sol vinha todas as manhãs arder os dias, porque o repouso de todas as noites alentava o novo dia que sobreviria. Indefinidamente? Não, evidentemente, porque a esperança, criada em tempos imemoriais, é um misto de teimosia e obstinação e sonho. E desta tríade surgiu o amanhã vago ou não, impreciso ou não, possível ou não. O amanhã existe, ainda que não se saiba quando virá nem como virá. Tudo depende de… E porque assim é, há quem espere o amanhã enquanto resignado suporta o hoje; há quem espere o amanhã enquanto inconformado resiste no hoje. E, como alerta a canção, há quem faça a hora e não espere pela hora que será feita não se sabe por quem nem quando… Paralelamente, há quem desista do amanhã, onírico ou não, e creia no hoje indefinidamente, por renúncia, por fatalismo, por rendição, porque sim…

Naquele distante verão, o sol queimava as esperanças e o desespero crescia. Houve quem morresse por nada, houve quem morresse por tudo, houve quem desistisse, houve quem suportasse resignado... e houve quem, numa indiferença cúmplice, não desse por nada.

A dita harmonia celeste continuou indiferente. Sucediam-se as rotações e as translações; sucediam-se as ilusões e as frustrações; sucediam-se os consertos dos desconcertos.

Depois daquele distante verão, outros vieram. E não se aprendeu nada. Como sempre, em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. E a receita parece simples: se não há pão, o caminho será semear, depois ceifar, depois debulhar, depois moer, depois amassar, depois cozer e… depois pôr o pão na mesa.

Depois daquele distante verão, muito mais tarde, eu descobri e escrevi:


“Quando tu gritaste Isto é meu!,

logo a discórdia corrompeu

o nosso da fraternidade.”


Não sei se tenho razão, mas sei que acredito no amanhã.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Outubro de 2016.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Caminhos velhos




Por que insistes nas velhas estradas



que já sabes aonde vão dar?



Por que tanto receias ousar



rasgar novas estradas



no abandono das terras cansadas



de esperar?







José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 29 de Setembro de 2016.