sábado, 10 de dezembro de 2016

12 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * A detenção do maltês


Este é o relato.

O maltês, que sempre vinha à feira, ano após ano, deambulava por entre as pessoas, gritando:

Quem muito dorme pouco aprende! Acordem!

Indiferentes, as pessoas fingiam não o ouvir. Uma ou outra murmurava:

É doido, para que lhe havia de dar!

O maltês não se dirigia directamente a ninguém. Se alguém o olhava com curiosidade ou como que mudamente o interpelava, não desviava o olhar nem parava e gritava:

Acordem!

Um dos membros da patrulha da Guarda Nacional Republicana aproximou-se dele e quis saber o motivo da exortação do maltês:

--- Então que se passa?

--- Esta gente parece não sentir como elas lhe mordem, senhor guarda.

--- Ah, sim?!, ironizou o agente da Autoridade.

--- É como lhe digo, confirmou o maltês.

O guarda olhou interrogativamente o camarada da patrulha:

Que fazer? Aquilo seria perturbação da ordem pública?

O outro guarda opinou:

--- É melhor levarmos o gajo ao comandante, assim ficamos a salvo de qualquer encrenca.


E lá foram, o maltês ladeado pelos guardas, rumo à vila. As pessoas olharam silenciosamente enquanto se afastavam, abrindo alas. As mais novas manifestavam uma curiosidade contida; as mais velhas, uma preocupação apenas perceptível num baixar de olhos ou num reprovador menear de cabeça.

Chegados ao Posto local da GNR, apresentaram-se ao comandante, um 1º. Cabo. Os soldados relataram a conduta do maltês e o motivo da sua detenção.

O comandante concordou com um movimento afirmativo de cabeça e fixou o olhar no detido. Depois, perguntou:

--- O detido ofereceu resistência?

--- Não, senhor!
, responderam os guardas, ao mesmo tempo.

--- Na feira, as pessoas sentiram-se incomodadas com a conduta do detido?

--- Não, senhor! ,
de novo responderam em uníssono os guardas.

O comandante parecia meditar enquanto olhava o maltês. Seguidamente, disse:

--- Bem, vamos ao interrogatório…

Um dos guardas sentou-se à secretária para elaborar o auto e o outro saiu da sala.

--- Como te chamas?, perguntou o comandante ao maltês.

--- António Almas.

--- Qual é a tua profissão?

--- Trabalhador.

--- Isso somos todos,
resmungou comandante. --- Trabalhador de quê? O que fazes na vida?


--- Trabalhador do campo, precisou o maltês.

--- És natural de onde? Isto é, onde nasceste?

--- Não sei ao certo, sei que foi num monte, perto do Odiana, era o que dizia a minha mãe.

--- Sabes ler?

--- Não sei, nunca fui à escola.

--- És casado? Tens filhos?

--- Tive mulher. Morreu ela e a criança ao nascer.

--- Que vieste fazer à feira?

--- Acordar quem dorme?


--- Ah, sim?
, estranhou o cabo da guarda.


--- Sim, senhor, quem muito dorme pouco aprende! , sentenciou o maltês.

--- Que queres tu dizer com isso?, perguntou o cabo da guarda enquanto lançava um olhar cúmplice ao guarda que registava a interrogatório.

--- Quero dizer o que disse, mais nada: quem muito dorme pouco aprende.


--- E onde aprendeste tu isso?, quis saber o cabo da guarda.

O maltês encolheu os ombros.

O cabo da guarda não gostou do encolher de ombros e gritou:

--- Responde ao que perguntei!

Muito sereno, o maltês respondeu:

--- Toda gente sabe isto. Já minha mãe me dizia isso: filho, não fiques dormindo a sesta! Não sejas malandro! Vai procurar trabalho para ganhares para as sopas! Olha que quem muito dorme pouco aprende!


--- Isso é política!, voltou o cabo da guarda a gritar.

--- Isso eu já não sei, disse suavemente o maltês.

Desconcertado, o cabo da guarda olhou o maltês. Seria aquele homem um pobre diabo ou um finório? E recordava a recomendação superior: na dúvida, arrecada-se.

--- Acabou o interrogatório, decidiu. --- Ficas detido e amanhã de manhã segues para a cidade. Lá, o Comando Distrital tratará de ti.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Novembro de 2016.

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