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domingo, 30 de junho de 2019

28 - CLAVE DE SUL * Vento suão


CLAVE DE SUL 


Vento suão 






Vem o vento suão da fornalha de Hefesto, 

na Mãe África. Traz um rubor de artifícios 

e uma mescla de anéis de ancestrais malefícios 

que a bigorna forjou num desígnio funesto. 



Traz os gritos que a dor arrancou da raiz 

e morreram no mar do perpétuo desterro… 

Traz a cruz que de novo agoniza no cerro 

e calada, no horror sem perdão, tudo diz… 



Traz o medo do incréu num juízo final, 

onde o ser e o não-ser se debatem convulsos… 

Traz o verbo na luz sem grilhetas nos pulsos 

e a partilha do pão num sagrado ritual… 



E eu aqui neste chão que foi berço e regaço 

esperando por mim para o último abraço. 





José-Augusto de Carvalho 
29 de Junho de 2019. 
Alentejo * Portugal

domingo, 16 de junho de 2019

28 - CLAVE DE SUL * Companheiro


(CLAVE DE SUL)

*
Companheiro… 





(À memória de Joaquim Soeiro Pereira Gomes)




Tu sabias, 

sabias desde o berço, 

que o pátrio chão está por resgatar… 



Tu sabias, 

sabias da pertença 

da futura seara por ceifar… 



Tu sabias, 

sabias por que a fome 

maior é sempre a fome da esperança… 



Tua sabias, 

sabias que tão pouco iam durar 

teus tempos de criança… 



Tu sabias, 

sabias que eras mais um entre os tantos 

privados do seu tempo de meninos… 



Tu sabias, 

sabias como eu sei que vamos juntos 

contra as vivas marés dos desatinos… 



Tu sabias, 

sabias, como eu sei, 

que a gente cai e a gente se levanta… 



Tu sabias 

e sabes, como eu sei, 

que o canto da sereia não nos perde, 

não nos seduz, 

não nos encanta…. 




José-Augusto de Carvalho 
15 de Junho de 2019 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Terra antiga


CLAVE DE SUL
.
Terra antiga 

Dórdio Gomes, Pintor Alentejano
(Com a devida vénia)


Para

Andrade da Silva e Serafim Pinheiro,

Capitães de Abril, meus Amigos






Na manhã sem palavras, a brisa 

orvalhada desliza 

no meu rosto. 

Na carícia de honesta ternura, 

sinto o gosto 

e o perfume da fruta madura. 

Terra antiga, 

suada e desnuda, 

que não muda 

quando a noite é de treva e castiga. 

Terra antiga de mágoas carpindo 

quando a força esmorece… 

Terra antiga do sonho mais lindo 

que entre mágoas e dor se levanta 

e manhã na manhã que amanhece 

polifónica canta. 

Terra antiga de Abril e de Maio maduro, 

que é de mar e de pão e de vinho! 

Terra antiga inventando o caminho 

do futuro 

com açordas de audácia e pão duro… 







José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Setembro de 2018. 

domingo, 26 de agosto de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Pátria transtagana

CLAVE DE SUL 

Pátria Transtagana 






Parti quase indefinido, 

a buscar-me algum sentido... 



Não tinha rosa dos ventos 

para o rumo precisar… 

Ousei vagas e tormentos, 

perigos de naufragar… 



Do Algarve passei as passas 

mais as fomes transtaganas. 

À arenga das trapaças 

gritei: vai-te, não me enganas! 



Hoje, não presto, estou velho. 

Voltei p’ra morrer aqui, 

que só dobra o meu joelho 

esta terra onde nasci… 








José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 7 de Setembro de 1996. 
Alentejo, revisão em 25 de Agosto de 2018.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

28 -CLAVE DE SUL * Abandono


(CLAVE DE SUL) 

Abandono 






Só as árvores nuas 

a tremerem de frio 

no vazio 

destas ruas. 



Uma folha esvoaça, 

derradeira, o fatal movimento, 

sem um ai de doído lamento 

ante a morte que passa. 



Sob o céu enublado, 

só a aragem suspira, 

resistindo à mentira 

do sossego assombrado 



Na parede, cansado, 

o relógio parado. 





José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 7 de Setembro de 1996.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Este fascínio do Sul!


(CLAVE DE SUL) 


Este fascínio do Sul! 





Ah, todas as manhãs, o sol do Meio-dia 

deslumbra o Céu azul! 

O ardente sol que canta e encanta a melodia 

do fascínio do Sul. 



E os versos da canção 

dolentes afagando a calma dos caminhos 

e o candor da emoção 

das aves, ao sol-pôr, buscando a paz dos ninhos… 



No enleio que me enlaça, 

pressinto o palpitar da perdida inocência, 

tão longe da ameaça 

ao direito de ser e de sobrevivência. 





José-Augusto de Carvalho 
23 de Julho de 2018. 
Alentejo * Portugal

terça-feira, 10 de julho de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Fadário


Fadário 

(Foto internet, com a devida vénia) 



Aqui, sou um poeta 

que vegeta 

num matagal de versos. 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Abril de 2018.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * O malmequer silvestre


CLAVE DE SUL

O malmequer silvestre







Despetalo o silvestre malmequer:

bem me quer… mal me quer…



Neste apelo ancestral de tosco rito,

tento aqui perceber

as auroras ainda por nascer

de um devir que ao presente é interdito.



Bem me quer… mal me quer…

Sem render-me, eu serei o que puder…



A que angústias me dou e me macero?

Meu será este encontro de futuro!

Mais além do que dure eu sei que duro

no plural horizonte onde me quero!



Bem me quer… mal me quer…

Só depende de mim o bem me quer!...





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Setembro de 2017.



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Memória da errância







Tentei, ah se tentei

rasgar caminhos novos na distância!

Errei, ah tanto errei

pelos caminhos velhos da árdua errância!



Sujeito definido,

de queda em queda, sempre mais ousei

e mesmo escarnecido

jamais em desencontros me enredei.



A passo e por compasso reprimido,

insistente me dei.

Na noite, sempre o dia prometido,

convicto, procurei.



E em lágrimas de júbilo saudei

o amanhecer do dia prometido!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.
.
(Recuperação de um rascunho antigo)

sábado, 2 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * A Cidade






Não soubemos defender,

Não pudemos defender

A cidade

E os sitiantes entraram

E a ferro e fogo tomaram

A cidade





A história dos vencedores

Sem decoro pinta a cores 

A cidade

Dos vencidos não diz nada

Mal resiste resignada

A cidade



E tu, que chegaste agora,

Sabes o que foi outrora

A cidade?

Sim, talvez nem te interesse

A negação que arrefece

A cidade





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Ansiedade







De um manto de papoilas nasce o canto.

E sangram as palavras, sangra a voz.

Maduro canto que do chão levanto

p’ra vir cantar na voz de todos nós.



Um canto antigo de polifonia

que vem da mais recôndita raiz,

no canto matinal da cotovia,

dizer-nos o que mais ninguém nos diz.




No céu, ateia incêndios de futuro

a luz da antemanhã que se aproxima.

E eu, numa instante azáfama, procuro,

p’ra cada verso, a mais ardente rima.



Amado berço, minha vela ousada,

que te demora o sonho da largada!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Agosto de 2017.



quinta-feira, 24 de novembro de 2016

28 - CLAVE DE SUL * A barca linda






Naquela noite, uivava a ventania.

Nas vagas alterosas, arrepios.

À capa, a barca nova resistia

aos trágicos apelos dos baixios.



Na antiga sedução da perdição,

chegava a melopeia das sereias.

A barca nova, toda coração,

sente vertigens a correr nas veias.



O povo, mal desperto, acorre ao cais

e olha o negrume frio dos baixios.

Só entre dentes grita “nunca mais!”

e sente até à alma os arrepios…



Na frustração de nós persiste ainda

o sonho que ficou da barca linda!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Novembro de 2016.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Os versos da canção




CLAVE DE SUL

OS VERSOS DA CANÇÃO


Não sinto no meu peito anseios de partida.

Não sinto nos meus pés renúncias ancoradas.

Não dei a volta ao mundo, apenas dei à Vida

as rotações que pude e quis que fossem dadas.



Dei o que pude e quis --- o mais foi extorsão.

Pequenos mundos tem o mundo e várias sendas

varridas pelo ardor dos versos da canção,

sustidas p’lo torpor de milenárias vendas.



No meu entardecer, indócil adivinho

o ser a acontecer nos versos da canção.

Não retrocede nunca o rio o seu caminho

no ciclo natural da sua condição.



Eu não verei cumprir o ciclo da evasão,

mas sempre hei-de cantar os versos da canção.




 
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Novembro de 2016.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Consternação





Do coração do montado,

venho até à beira-mar.

O mar, no seu marulhar,

geme uns acordes de fado.



Lavado o rosto nas águas,

tomo-lhe o sabor a sal.

É de lágrimas e mágoas,

saudades de Portugal.



Olho em redor --- só vazio.

Olho o longe --- nada enxergo.

Onde foi que me perdi?



Marinheiro sem navio,

padrão que nunca mais ergo,

o que faço ainda aqui?





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Maio de 1993.

sábado, 7 de maio de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Os Tempos Velhos


Memórias

Os Tempos Velhos

O nosso muito amado Odiana


I

Uma mancha de arvoredo…

Treme o caminho de medo!



Um grito de raiva corta

o silêncio do montado.

Quem supunha a noite morta

neste sossego assombrado?



II

Numa janela da aldeia

tremeluz uma candeia…



Que sombra furtiva passa,

tragada pela escuridão?

Há um silêncio de ameaça

que perturba a solidão.




III

Andam malteses a monte

nas terras sem horizonte!

.

Soam secos estalidos…

navalhas de ponta e mola!

Há abafados ruídos

de passos que a lama atola…



IV

Cicatrizes purpurinas

de balas de carabina!



Homens de pele trigueira,

curtida pelo relento!

Aventuras de fronteira

e entregas sem juramento…



Nos beijos livres da noite,

sangram flores do laranjal!

Que amor na sombra se acoite,

na pureza natural…



V

O medo, o medo guardando

no arrojo do contrabando!



Malteses de olhos sombrios

assumindo a perdição

de ousios e desvarios

que lhes levedam o pão!



Uma sombra no arvoredo…

Treme o caminho de medo!



/

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Setembro de 1996
Alentejo, revisto em 7 de Maio de 2016

quarta-feira, 27 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * O Jogo dos Tempos






Todas as cartas na mesa.

Era o tempo, o tempo certo,

de jogar o jogo aberto

com verdade e sem surpresa.



Frente a frente, o destemor,

com louros de juventude,

e as cãs da decrepitude

a tresandar a bolor.



Era o confronto da vida:

a manhã que amanhecia

contra a noite que descia

toda de escuro vestida.




Era o sol que deslumbrava

a Primavera que vinha

contra o frio que sustinha

o passado que passava.




O jogo dos tempos era:

o que foi e se cumpriu;

o cravo que ao sol abriu

um sonho de Primavera.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Abril de 2016.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * O sonho lindo






Que lindo sonho foi de primavera!

Cantavam passarinhos nas ramagens.

Gritava a vida: estou à tua espera!

E tu perdido em transes e miragens!



Deixa essa fantasia e vem depressa,

que morro de saudade e de carinho!

Vem já! Que não atrases a promessa

de atapetar de flores o caminho!



Iremos, no rosado das auroras,

cantar em coro o “vamos lá saindo

por esses campo fora” desta vida!



Maduras, nos valados, as amoras

adoçam mais ainda o dia lindo

molhado de suor da nossa lida!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Abril de 2016.

domingo, 3 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * A sesta





Na praça dos marginais,

a preguiça dorme a sesta,

indiferente aos sinais

do farol que ainda resta.



Farol que ninguém apaga,

que vem desde os tempos velhos,

quando foi aberta a chaga

que antecede os evangelhos.



Sob o Sol, nada de novo!

Sempre a farsa se renova!

E em cada cena, este Povo

presta provas e reprova…



Sempre assim: quem mal estuda,

mal aprende, pouco alcança!

Este fadário não muda

sem vontade de mudança.



Cravos houve e primavera!

Houve um sonho de encantar!

Quem não age por que espera

senão do sonho acordar?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Abril de 2016.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Eu nunca tive escola...




Eu nunca tive escola.

Aluno nunca fui, mas tive muitos mestres, diversos no saber…

Com eles aprendi o pouco que devia, o pouco por bastante.



O muito recusei --- e tanto prometia!...



E eu que não tenho medo senão de me esquecer

Não poderia aceitar negar-me

E ser mais um pagador de promessas…



Eu quero ver a luz do sol e a tremulina!

Sentir o corpo quente e a vista encandeada…



A fome em que morri e de que renasci,

Matá-la nos trigais

Ao lado dos pardais

Que pousam atrevidos nos espantalhos que não receiam mais.



Eu quero ver a luz que logo pela manhã quer tudo incendiar

E disputar ao sol a sede duma gota puríssima de orvalho.



Eu nunca tive escola,

Aluno nunca fui, mas tive muitos mestres…

E a mestre não cheguei porque só quis saber o pouco por bastante

E porque não quis aprender o que quero esquecer.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1996/14 de Dezembro de 2015.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * O meu arroio



Ah, meu amado arroio! Eu sei, tu és um entre tantos arroios que deslizam nestas planuras da Pátria Transtagana. Um fio de água límpida correndo em doce leito de fundo arenoso e liso a permitir a partilha do espaço e a dar de beber e a refrescar quem passa nas horas de canícula.

Arroio que busca o mar e lá chegará sem angústias se a malvadez lhe não erguer represas inúteis ou lhe provocar desvios castradores que interrompam ou destruam o curso natural desde a titubeante nascente ao mergulho ousado e feliz no pélago que o cumpre.

Arroio que humedece com ternura as margens que o abraçam; que acaricia as raízes dos freixos e dos silvados; que dá de beber a quem tem sede; que é tina de quem quer lavar-se ou apenas refrescar-se, na partilha fraterna do leito acolhedor; que cede quanto de si necessita o camponês para a rega das suas culturas.

Arroio que não quer ser mais do que arroio: rumoroso no inverno; cantante e fresco na primavera; um fiozinho de água resistindo aflito ao solar incêndio do estio; alentado de novo pelas primeiras águas outonais.

Ah, meu arroio de alma! Ah, minha promessa de sonho e de evasão! Bem-hajas por seres, desde a minha meninice deslumbrada até a esta anciania sem horizonte, o êxtase da utopia impossível!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 10 de Setembro de 2015.