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terça-feira, 4 de junho de 2019

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Assumpto


NA ESTRADA DE DAMASCO
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Assumpto





Carrego, desde a queda, a maldição de expulso.

Do mito que não fui à pena de banido, 

a minha condição assumo em cada impulso 

de ousar o desafio e dar-me algum sentido. 




Os passos que já dei! Memória das estradas 

de um tempo em construção. Derramo o sangue rubro 

na aras das manhãs de angústias orvalhadas 

onde sem medo sou e vivo me descubro. 




E cada descoberta é uma porta aberta… 

E, em cada porta aberta, o mesmo desafio 

dizendo-me que sou assim desde o começo… 




Imensa, a dimensão do todo me liberta. 

Do círio ardendo sou telúrico o pavio 

onde sem mito nem grilhão me reconheço. 





José-Augusto de Carvalho 
4 de Junho de 2019. 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

16 . NA ESTRADA DE DAMASCO * Tela naturalista

(NA ESTRADA DE DAMASCO) 



TELA NATURALISTA 







Dezembro já chegou, de frio a tiritar. 

No desconforto, evoca o assombro de nascer. 

Que véu sobre o devir me impede de enxergar 

a graça de entrever o tempo por haver?



A dúvida de ser exausta permanece, 

desesperando já a minha longa espera. 

Ai, que esperança de alma enternecida tece 

a remissão no Amor que tudo regenera? 



Já chia e já fumega o caldo na panela. 

A mesa sonha o pão suado da partilha. 

Insone, a noite dói, por látegos ferida. 



Desliza a neve na vidraça da janela. 

O vento, sem cessar, monótono dedilha 

a melodia triste, há tanto repetida… 





José-Augusto de Carvalho 
19 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

16 . NA ESTRADA DE DAMASCO * Pesadelo


NA ESTRADA DE DAMASCO

Pesadelo 






Avanços e recuos --- as propostas. 

O tom dum nepotismo autoritário. 

O trunfo é copas, ouros, paus, espadas… 

No pano verde sobem as apostas. 

O lucro fácil --- hausto perdulário 

exibe, em transe, as faces alteradas, 



Às portas da cidade, as sentinelas 

garantem a desordem ordenada. 

Além do fosso, jaz a terra imensa, 

exausta e quase estéril por querelas, 

rasgada e dividida em cada tença 

devida à hidra nunca saciada. 



E deus, que vive em glória nas alturas, 

nem olha por receio das tonturas 





José-Augusto de Carvalho 
In Vivo e desnudo, Editorial Escritor, 1996.

domingo, 2 de setembro de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Confissão


NA ESTRADA DE DAMASCO

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Confissão 






Confesso que não sei,
assim, na praça pública e desnudo.
e sem recurso à lei
que impõe saber de mim o nada e o tudo.


Não sei por que reclamo o sol do estio,
as chuvas outonais,
as neves da invernia - céus, que frio
doendo-me de mais!


E o sol da primavera
beijando cada ninho em construção
enquanto o Tempo espera
o parto, em oração.


E quando cada espiga me mitiga
a fome só de vê-la,
escrevo uma cantiga
no lucilar ardente duma estrela.






José-Augusto de Carvalho
14 de Junho de 2011
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Agnus Dei



NA ESTRADA DE DAMASCO
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Agnus Dei

(Zurbaran, com a devida vénia)




Foi cumprindo calendário

que chegaste à hora certa.

Foi o verbo milenário

presente nesta hora incerta.



Foi mais um aniversário

da Verdade que, desperta,

fustiga, no tempo vário,

a tua igreja deserta.



Igreja que é assembleia

e não o Templo onde outrora

os doutores de outroragora

uiva(va)m em alcateia.



Da treva ainda na cruz,

Agnus Dei, instante luz!







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Dezembro de 1998.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Quase uma oração


Quase uma oração 



Eu pago a água que é uma dádiva do Céu 

Eu pago a energia que é uma dádiva da água 

que é uma dádiva do vento 

Eu pago o pão que é uma dádiva da Terra 

que é um dádiva de quem trabalha a Terra 

Senhor que és omnipresente e não me vês… 

Senhor que és omnisciente e deixas-me perdido nos meus porquês… 

Senhor, eu sei que sou o barro que amassaste 

naquele dia antigo que perdura ainda nos escombros caóticos da memória 

Tu sabes que também do mesmo barro que amassaste 

eu fiz tijolos e ergui casas… 

E outros meus irmãos ergueram muros e cárceres que perduram… 

Senhor, o velho bezerro de ouro do Sinai 

é um velho sempre em novas transfigurações e perversões 

Senhor, a tua obra está datada 

e o tempo sempre noutros tempos reinventado degenerou 

Senhor, talvez tenha morrido o sonho que sonhaste 

Talvez, num outro tempo, 

no tempo de hoje, 

eu tenha de amassar um outro barro 

e inventar um sonho novo… 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 11 de Julho de 2018.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Com Florbela...



(NA ESTRADA DE DAMASCO)
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Com Florbela…







Sou um traço de união

a ligar o chão que piso

à lonjura de evasão

do impossível impreciso. 



Amassado o barro vil,

pó cozido ao sol do estio,

quando o céu azul de anil

mais adensa o meu vazio.



Foi inútil a procura

que tentei além de mim.

Sou princípio da urdidura,

da urdidura serei fim.



E seguindo a tua estrada,

sou também «pó, cinza e nada».





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Dezembro de 2017.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Nihil sine causa


NA ESTRADA DE DAMASCO
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Nihil sine causa (1)






...e levo a vida a perguntar por mim!

Em vão insisto, mas ninguém responde.

Pergunto, apenas, por que um dia vim

e por que a causa assim de mim se esconde.



Da causa obscura eu só conheço o efeito:

é esta dor moendo até mais não!

Que coração aguenta ser no peito

tão-só um tique-taque sem razão?



Que sonho ou pesadelo a Vida quer?

Que dívida de ser em mim perdura?

Do ignoto caos nem consegui sequer,

para a merenda, uma romã madura.



Desamparado e nu, assim cheguei.

Sorrindo, minha mãe, num terno enlevo.

Nos braços maternais me aconcheguei.

Que dívida a pagar? Eu nada devo!



O maternal carinho não esqueço.

Está perdido nos confins do nada.

Nesta viagem de ida e sem regresso,

com minhas mãos rasguei a minha estrada.



Amei e fui amado --- estou sozinho.

De pé, sem medo, espero ouvir agora

em uma encruzilhada do caminho

dobrar por mim a Torre da Má Hora.



E lá irei dormindo de viagem,

sem perceber que causa quis que eu fosse. 

E levarei o nada na bagagem,

o mesmo nada que do caos eu trouxe.


*

(1)- nihil sine causa (locução latina) -- Nada existe sem uma causa.
 Fonte: Cícero, De Finibus, I, 19.

*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Outubro de 2017.

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Na voragem







Ah, velho Cronos, todo o tempo é de viagem!

O tempo, em seu correr, passando vai por mim.

E eu vou com ele, queira ou não, porque se vim

foi para me encontrar na cósmica voragem.



Que causa provocou o efeito de viver?

Que sonho de aventura é este movimento?

Que importa, deslumbrado, olhar o firmamento,

se nunca poderei aos astros ascender?



Que sedução, em Maio, a brisa mitifica

para enlaçar a flor à luz do entardecer?

A mesma brisa que virá para a perder

no altar do outonecer que o Belo sacrifica.



Ah, velho Cronos, vão é ser, vão é ceder

ao teu mecanicista impulso de correr… 





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Agosto de 2017.

domingo, 20 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Cinzas





Dos confins das fatais profundezas

irromperam letais labaredas.

Que martírio de piras acesas!

Ah, Plutáo, que de nós não te apiedas!



A memória dos tempos longevos

ganha forma e semblante modernos!

É igual, desde os tempos primevos,

o pavor de na Terra os infernos.



São os autos-de-fé sem idade

repetindo os seus ritos de chamas

entre gritos de dor e piedade

na ficção do real que há nos dramas.



Que destino se cria e recria

entre as cinzas da nossa agonia?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Agosto de 2017.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * As estrelas





Não há chuva nem frio nem vento.

O fascínio da noite me chama.

Devagar, me levanto da cama. 

Seduzido me rendo ao momento.



Sem luar nem nocturnos ruídos,

o silêncio da noite me enlaça.

Sinto e sou, para além dos sentidos,

a verdade de ser que esvoaça.



E mergulho na noite, sem medos.

Nas alturas, um manto de estrelas

lucilando num cósmico rito…



Deslumbrado, desvendo segredos

de num êxtase de convencê-las

eu também me sentir infinito…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Agosto de 2017.

domingo, 7 de maio de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Na magia de Natal…



NA ESTRADA DE DAMASCO

Na magia de Natal…




É o tempo da boa vontade.

Pascem lobos nos prados da aurora.

Do redil, o cordeiro se evade.

A verdade já não se demora.



Um lobito, de orelhas fitando,

o cordeiro divisa à distância.

Sortilégio sem onde nem quando,

o candor comovente da infância



E, felizes, o encontro festejam.

Uma estrela, no céu, rejubila.

Passarinhos, em bandos, adejam

sob a paz que floresce, tranquila.



Fico a vê-los, rendido à magia

deste sonho que aquece o meu dia…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Dezembro de 2003.




sábado, 6 de maio de 2017

16 -NA ESTRADA DE DAMASCO * Naquele dia...


NA ESTRADA DE DAMASCO


Naquele dia...


Caim matando Abel 
Foto internet, com a devida vénia




Naquele dia, Deus olhou e duvidou.

O barro que amassara o caos lhe devolvia.

O livre-arbítrio ria,

gritando --- aqui estou!



O lobo não pastou

ao lado do cordeiro

nem com ele brincou,

feliz e companheiro.



Das feras e festins,

do sangue e dos vampiros,

do vírus dos cains

e mais nefastos vírus…



…fica o meu grito --- não

ao crime sem perdão!






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 7 de Dezembro de 2003.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Natal




…e a distância foi nada

na sua dimensão

absoluta…



…e o Verbo foi balada

de amor na imensidão

impoluta…



…e os grilhões do proscrito

sentimo-los nos pulsos

a ceder…



…rendidos aos impulsos

da Verdade no mito

a nascer…





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 31 de Outubro de 1970.

sábado, 12 de novembro de 2016

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * A minha mão...





Dizei-me, iluminados, onde fica

a terra decantada da utopia?

Eu quero ver a mão que modifica

o fel em mel, o choro em melodia.



Quisestes ensinar-me a boa nova

do lobo e do anho em paz pascendo juntos.

Aqui, onde a penar, do berço à cova,

de paz apenas gozam os defuntos.



Eu soube de Caim matando Abel!

Ainda quente o barro ao sol cozido…

O mel azedo transformado em fel

na mesa dos incautos é servido.



Soube também da pena de Talião…

…e mais e mais morrendo a utopia!

Que pode e que não pode a minha mão

para rasgar a treva e ver o dia?



Descubro, iluminados, que sou eu

quem vai além do barro à utopia!

Sou eu quem a si mesmo prometeu

e há-de cumprir o fim desta agonia.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 12 de Novembro de 2016.

quarta-feira, 18 de março de 2015

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Desafio





Senhor, aqui me tens inerme e subjugado,

sem coração nem paz, nem alma --- despojado.



Quiseste sempre em mim a angústia macerada

do cálice de fel do barro em provação.

Não sei que mal te fiz. A tua mão pesada

esmaga-me e retarda a transfiguração.



Hesitas decidir (?) e a massa informe espera.

Que irá a tua mão austera modelar?

Se for um vegetal, quisera ser uma hera…

…para no meu amor p’ra sempre me enlaçar.



Enorme o teu poder. Limite não lhe enxergo…

Mas faças o que for, depois do teu fazer,

é minha a decisão. E doa o que doer,

garanto que a nenhum poder me rendo ou vergo.





José-Augusto de Carvalho
18 de Março de 2002.
Viana * Évora * Portugal

segunda-feira, 9 de março de 2015

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Posição



  


Que distracção! Confesso o meu pecado

de ter nascido sem pedir licença.

Dos longes donde vim, maravilhado,

nascer não é pecado nem ofensa.



Dos longes donde vim, na graça imensa,

nascer é o milagre revelado.

No grito da promessa, a recompensa

do sonho feito verbo conjugado.



Pecado é não cumprir a lei da vida,

é dizer não ao sol que inventa o dia

e à noite debruada de luar.



Pecado é esta lei animicida,

no sonho aniquilando a melodia

e o meu direito vivo de cantar.





José-Augusto de Carvalho
9 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul 

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Ansiedade





Louvado seja Deus,

que fez a Terra e os Céus,

só vejo fariseus

e eu no banco dos réus!



Passaram dois mil anos

E há os meus grilhões

e há os mesmos tiranos

e os mesmos vendilhões!



O tempo está cumprido!

A mentira vigora!

Temendo que se exponha,



o agonizante ungido

ainda o fim implora

do tempo da vergonha!






José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Agosto de 1993.

domingo, 8 de março de 2015

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Queda



Para o poeta José Ferreira Marques de Sousa



De barro e de água, a massa a modelar.

Artista, a mão ensaia conceber.

No céu, azul, o manto tutelar.

Humana, a vida vai acontecer.



Milagre foi a luz no meu olhar.

Desgraça o nunca ter sabido ver.

Do medo fiz a pedra de um altar…

E nem assim me soube merecer.



Deixei a vida em mim entretecer

a malha carmesim, em avatar

ferido só de nada e de não-ser.



E desde a queda, expulso do meu lar,

até ao fim do meu acontecer,

apóstata, persisto em me negar…








José-Augusto de Carvalho
25 de Janeiro de 2004.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 3 de agosto de 2014

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Condenação

Escultura de Rodin





Vestida de burel, entrevejo a manhã.

Nem luz e nem azul. Tão triste e pardacenta,

mal entra,

tão vaga e sem rumor, com pezinhos de lã…



Pela vidraça fria,

de lágrimas banhada,

apenas o palor duma melancolia

de orvalho desenhada.



Lá longe, a vida grita,

aflita…

Não há quem a socorra!

Que importa o sacrifício às portas do Jardim

e morra,

mais uma vez, Abel, a golpes de Caim?





José-Augusto de Carvalho
3 de Agosto de 2014.
Viana*Évora*Portugal