sábado, 9 de setembro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Fadário


O MEU RIMANCEIRO
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(QUE VIVA O CORDEL!)

*

Fadário





Sal e azar foi a comida

que existia para mim

e que depois foi mantida

na espelunca do delfim.



Depois, comi como gente,

mas foi sol de pouca dura...

E hoje não sei se sou gente

ou uma cavalgadura!



Aves, ovinos... -- que praga! --

foram mais outros azares.

De sabor a povo, a vaga

era gasosa... só ares!


E no fim da minha estrada,

quem quer por verdade, agora,

a sentença requentada

de que só mama quem chora?



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal
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(Poema da década de 80, estava no baú do esquecimento)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A profecia

(QUE VIVA O CORDEL!)



Os profetas da desgraça

gritam a quem quer ouvi-los:

podemos ficar tranquilos,

porque teremos a graça

de alcançar o paraíso

depois do final juízo.



Profecia que é convite

à mansa resignação.

Pois que fique a mansidão

e a profecia credite

o sonhado paraíso

depois do final juízo.



Até lá, segue o desfile

da marcha do carnaval

onde o mal é natural

e é herege quem refile.

Tudo pelo paraíso

depois do final juízo.



A Justiça Punitiva

os poderosos espera.

Será sentença severa,

sem risco de recidiva,

para paz do paraíso

depois do final juízo.



Até lá, vamos na dança

de alta roda, baixa roda,

correndo e cantando a moda

“quem porfia sempre alcança”.

E que viva o paraíso

depois do final juízo!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6 de Setembro de 2017.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Memória da errância







Tentei, ah se tentei

rasgar caminhos novos na distância!

Errei, ah tanto errei

pelos caminhos velhos da árdua errância!



Sujeito definido,

de queda em queda, sempre mais ousei

e mesmo escarnecido

jamais em desencontros me enredei.



A passo e por compasso reprimido,

insistente me dei.

Na noite, sempre o dia prometido,

convicto, procurei.



E em lágrimas de júbilo saudei

o amanhecer do dia prometido!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.
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(Recuperação de um rascunho antigo)

02- TEMPO DE SORTILÉGIO * A barca da utopia





Na barca da utopia,

eu vou e tu também comigo vais.

Nos uivos da ventania,

o canto da sereia, que são ais

e perdição, naufrágio pressagia

nos longes --- mar e céu --- do nunca mais.



Deixámos na renúncia do ficar

o velho cais --- impulso de segredos

instantes a chamar.

Nas vagas alterosas gritam medos.

Dilúvios casam nuvens com o mar.



À capa, a barca enfrenta, aguenta, espera

que amaine a fúria infrene da procela.

Urgente é navegar!

Na espera que exaspera,

a rota corrigida, içada a vela,

ousemos, rumo ao porto por achar!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Setembro de 2017.

sábado, 2 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * A Cidade






Não soubemos defender,

Não pudemos defender

A cidade

E os sitiantes entraram

E a ferro e fogo tomaram

A cidade





A história dos vencedores

Sem decoro pinta a cores 

A cidade

Dos vencidos não diz nada

Mal resiste resignada

A cidade



E tu, que chegaste agora,

Sabes o que foi outrora

A cidade?

Sim, talvez nem te interesse

A negação que arrefece

A cidade





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.