quinta-feira, 23 de junho de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Os meus dias lindos





Há dias lindos, quando esqueço tudo e sou

apenas um olhar morrendo na lonjura.

E sinto-me o pintor que em êxtase fixou

os impossíveis tons da cósmica tontura.



E neles não sou eu nem outro alguém qualquer.

Apenas uma fresta aberta na muralha

sedenta a mendigar o pouco que puder

da pura luz que o céu por sobre a Terra espalha.



E quando o transe finda e a vida me fustiga,

eu sinto-me suspenso e baloiçando ao vento

até me diluir mortinho de fadiga.



Bendito o meu olhar que assim de mim se afasta!

Que simbolismo traz o meu encantamento

de me ausentar de mim, de me gritar já basta?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Junho de 2016.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

33 - NÓS POESIA * Tempo de espera / No tempo que espero




Tempo de espera


José-Augusto de Carvalho



Quando a lágrima vem e desliza

No meu rosto cavando o seu leito,

A saudade é de sal e de brisa

Nesta angústia a doer-me no peito.



Olho o barco do sonho desfeito

Que a memória ferida exorciza:

Que fantasma, a rasgar o meu peito,

Mais e mais a saudade enraíza.



Não há tempo de fel que me dome.

Neste tempo outro tempo se gera

P’ra que a vida o seu rumo retome.



Que este tempo de fel e de espera

Ganhe ao verde esperança o seu nome

E me torne outra vez primavera!



José-Augusto de Carvalho
12 de Setembro de 2011.
Viana * Évora * Portugal


***


No tempo que espero

Lizete Abrahão



Foi-se o tempo. Entre as fendas do muro

Correm lágrimas puras ao léu;

Do meu sonho acordei, mundo escuro,

Já morrera a manhã do meu céu...



A saudade cravou-se em meu peito

Como lenho na beira da cova;

Bebo o fel em que o vinho foi feito

E o amargo entre os dias me prova.



Quero um beijo com gosto de mar,

Uma flor-esperança, uma taça

E um poeta no cais a cantar...



Vou provar desse sal em teu rosto,

Dos olores beber e ser graça,

Para em verso sentir o teu gosto...




Lizete Abrahão
Porto Alegre/RS
12.09.2011 




segunda-feira, 20 de junho de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Por que perdemos sempre?





Nós somos tantos!
Eles são tão poucos!
Por que perdemos sempre?



Talvez nós não sejamos tantos como supomos.

Um antigo companheiro de jornada sempre qualificava de mal esclarecido quem lhe manifestava uma divergência de fundo. E sentenciava: «esclarecer, esclarecer sempre!» Certamente parafraseando o tão celebrado «aprender, aprender sempre!» que nós tínhamos por divisa nos tempos obscuros.

Desses mal esclarecidos tivemos notícia mais tarde, empoleirados nos palanques acomodados duma efemeridade sem amanhã.

É verdade que quando a barca adorna e os fados pressagiam procela e risco de naufrágio, sempre os timoratos procuram a garantia da terra firme. E assim porque não sabem nem querem saber que depois da tempestade vem a bonança.

São estes timoratos que se apropriam dos fastos e desgraças dos intrépidos que foram além da dor, no dizer de Fernando Pessoa; dos intrépidos que por mares nunca dantes navegados, no dizer de Luís de Camões, dobraram cabos, dominaram medos, rasgaram nevoeiros e descobriram amanheceres.

Por tudo isto, nós não somos tantos assim! 

Por tudo isto, eles não são tão poucos assim!

Por tudo isto, talvez fique claro por que nós perdemos sempre…



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Junho de 2016.

terça-feira, 14 de junho de 2016

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * A miragem



Duze e José-Augusto * Lisboa, 13 de Setembro e 1961.




Vieste noite a dentro despertar

feitiços debruados de luar



Vestia a fria luz de claridade

sonâmbulas as ruas da cidade



Na boca a primavera ainda fria

sabores flamejantes já trazia



Na noite do silêncio que me vela

apenas entrevi difusa tela



Talvez uma miragem sem sentido

de um tempo há tanto já de mim perdido



Fechei os olhos tristes da lembrança

e quis dormir um sono de criança



Ai, que no teu regaço adormecesse

e a vida para sempre me esquecesse





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Junho de 2016.

terça-feira, 7 de junho de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Vida ou barbárie, a opção



Sabemos todos nós que uma sociedade organizada obriga-se a cumprir e a fazer cumprir os valores éticos e os direitos consagrados nacional e internacionalmente.

Internamente, a nossa Lei Fundamental, a Constituição da República Portuguesa, situa-nos sem reservas; internacionalmente, a ONU- Organização das Nações Unidas e a UE-União Europeia convocam-nos a participar num contexto plural, o vulgarmente designado concerto das nações.

Situada a nossa posição aquém e além-fronteiras, é nossa intenção abordarmos os direitos dos animais, direitos estes que temos o dever de cumprir e fazer cumprir.

Falemos de aves, falemos de gatos, falemos de cães e também de outros menos significativos em número que convivem connosco, quer em nossas casas, quer nos espaços públicos.

Quanto estamos informados, só os cães estão sujeitos a licença e a um relativo controlo sanitário. E as entidades oficiais, que saibamos, não esclarecem o porquê desta limitação.

A saúde pública exige cuidados e medidas para protecção de toda a comunidade.

Também os animais vadios e abandonados não são coisas sem préstimo mas vidas exigindo atenção, cuidados, protecção.

Canis e gatis são indispensáveis para proteger estes animais e também aqueles que os seus protectores naturais não têm condições para ter em suas residências.

Os protectores naturais, expressão que prefiro ao inadequado dono/dona, desde que não possam alojar os seus amigos de estimação nas suas residências, certamente concordarão em ajudar, com uma mensalidade acordada, as entidades oficiais municipais responsáveis pelos canis e gatis supra mencionados.

Proteger a vida, amar a vida é um imperativo que nos distingue da barbárie.


Saudações cordiais.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Junho de 2016.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

06 - TUPHY VIVE! * Na tontura azul...






Trouxeste a luz no cintilar do nome.

Do chão que piso, deslumbrado olhei-te!

Verdade ou sonho, neste meu deleite

eu dou-me à luz para que a luz me tome.



Iluminado, que na luz eu arda

em lavaredas de letal delírio!

Que importa arder se for o meu martírio,

na Vida, a bênção que no fim me guarda?



Serei na Vida quanto a Vida quer,

até que um sopro, um sopro só me reste

da minha angústia de alma e sonho a Sul.



Depois do fim, se outro princípio houver,

serei, contigo, o lucilar celeste

no além da cósmica tontura azul!





José-Augusto de Carvalho
Al-Ândalus, 5 de Junho de 2016.