domingo, 29 de novembro de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Sortilégio





Nas asas das borboletas

há matizes deslumbrados

dos teus olhos evadidos...




Nas tuas mãos inquietas

há gestos adivinhados

de bailados proibidos...




Quando o rouxinol poeta

deixa entrever a centelha

do seu talento encantado




na tua boca vermelha 

uma promessa secreta

é um grito sufocado...



José-Augusto de Carvalho
Lisboa 1969

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Musa






De espanto vestida, 

vestida de espanto, 

tu és a medida

dos versos que eu canto!




Em sonho esculpida,

celeste o teu manto, 

coroas a vida

de êxtases de encanto!




No tempo perjuro

de incerteza e dor

que jaz no moturo




tu és chama e cor

abrindo ao futuro

o regaço em flor!







José-Augusto de Carvalho
Lisboa,

terça-feira, 24 de novembro de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Amar







Amar só é amar se desvairado,
em luta contra o tempo que se esvai!
É ser raio que risca o céu e cai
num rasto deslumbrante e deslumbrado.


Amar desde o princípio até ao fim.
Ser a raiz, a planta, a flor, o fruto!
E se tu me morresses, que o meu luto
bem mais do que por ti, fosse por mim…


Saber que o Tudo e o Nada do Infinito
seremos nós --- sem antes nem depois.
Que sonho, meu amor, a vida assim!


Não morras nunca num morrer de mito!
Não queiras o meu luto só por mim
por recusares seja por nós dois!




José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 1969.

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Noche y dia






Los dos, al contemplarnos noche y dia,

ganamos la mirada iluminada!

A nuestro alrededor, la Poesía

es un sueño de una vida enamorada!



De flores son las dulces carreteras.

Sus pétalos, alfombras de desvelo.

Sin alas y sin largas escaleras,

llegamos a lo lejos, hasta el cielo! 



Acá, la Vida mira nuestro sueño

y grita, en su dolor, una censura 

que, vieja como há sido el triste leño, 

en lágrimas de sangre duele oscura: 



No puede nunca haber verdad y vuelo 

sin alas echas tierra rumbo al cielo! 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 17 de Agosto de 2006.

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Anelo




Eu quero acreditar que tu és eu
e que eu sou tu. E venha o que vier,
seremos, juntos, homem e mulher,
o ser que o nosso sonho concebeu.

O ser aqui e ali e mais além
o nó que nunca mais alguém desfaça
no anseio de fazer de nós refém
do embuste que nos trouxe só desgraça.

Eu quero acreditar e o meu desejo
é ver o que tu vês a toda hora,
é veres, tu também, o quanto eu vejo.

E juntos, para além do desatino,
podermos descobrir-nos onde mora
o sonho que sonhamos por destino.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 10/7/2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Tu





Não sei que existe em ti que me embriaga
e o tempo não corrói nem adultera...
Talvez a eternidade de uma fraga,
perfume de perene primavera...

Os anos passam sobre nós correndo,
até que chegue a barca de Caronte...
e és sempre mais um longe que desvendo,
mantendo-te infindável horizonte!

Querida, não sagrada, te contemplo
por teres de mulher a dimensaõ
que não te podem dar exíguo templo
e incensos, ritos, preces, devoção.

Tu és grande de mais, mulher e viva,
p’ra seres de qualquer altar cativa!




José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 1966