sábado, 23 de agosto de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Na palavra...




Saboreio os sentidos da palavra,

a palavra no verso da canção,

a subir, na tontura da evasão,

onde nada ou ninguém a cala ou trava.



A palavra que salta do papel

a ganhar-se papoila a mais vermelha!

E sangrando na cor, seduz a abelha

tão sedenta de pólen-raro mel.



A palavra que trémula floresce

nos nocturnos doídos da incerteza,

onde o verso recusa ser a presa

que, vergada, se rende e deliquesce.



A palavra canção e melodia

que se inventa nas pétalas da flor

e é o mel de dulcíssimo sabor

alentando a porfia cada dia…





José-Augusto de Carvalho
23 de Agosto de 2014.
Viana*Évora*Portugal

05 - IN MEMORIAM * O maltês




Foto internet, com a devida vénia




Só nos livros antigos encontro

a memória de ti, desencontro

do teu tempo e do meu, descaminhos

eriçados de náusea e de espinhos.



Nem existes nas vozes do cante!

Nem há vento suão que levante

tua sombra do chão, sepultada

nos caminhos de assombro e de nada.



Outros tempos --- tão velhos! --- chegaram,

porque os novos, quem sabe onde param?





José-Augusto de Carvalho
4 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 3 de agosto de 2014

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Condenação

Escultura de Rodin





Vestida de burel, entrevejo a manhã.

Nem luz e nem azul. Tão triste e pardacenta,

mal entra,

tão vaga e sem rumor, com pezinhos de lã…



Pela vidraça fria,

de lágrimas banhada,

apenas o palor duma melancolia

de orvalho desenhada.



Lá longe, a vida grita,

aflita…

Não há quem a socorra!

Que importa o sacrifício às portas do Jardim

e morra,

mais uma vez, Abel, a golpes de Caim?





José-Augusto de Carvalho
3 de Agosto de 2014.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 2 de agosto de 2014

10 - CANTO REVELADO * Caminheiro


I

Sem antes nem depois, aqui estou.

Os ontens são um tempo já cumprido.

Os amanhãs, o tempo prometido

que ainda não chegou.



É hoje o tempo meu, o meu momento,

que para o bem e para o mal enfrento.



Não se recusa o tempo nem se adia.

No meu momento, sou

o tempo que chegou

e aqui me desafia.



É hoje o tempo meu, o meu momento,

que para o bem e para o mal enfrento.



Passivo ou actuante,

aqui me (in)determino.

Aqui, serei ou não de mim bastante.

No meu momento sou e me defino.



É hoje o tempo meu, o meu momento,

que para o bem e para o mal enfrento.



A pé e sem bagagem,

assumo esta viagem,

enquanto o tempo der…

Um dia, o torvelinho da voragem,

sequer no pó que houver,

o rasto fixará desta passagem.



II

No palco, nova cena, um outro personagem

virá representar,

talvez trazendo o sonho na bagagem

da sua caminhada eternizar…





José-Augusto de Carvalho
31 de Julho de 2014.
Viana*Évora*Portugal