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segunda-feira, 20 de maio de 2019

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Os descaminhos


NA PALAVRA É QUE VOU…

*
Os descaminhos


Uma estrada de cem léguas começa por uma passada…
Um incêndio pode começar com uma faúlha…




O futebol profissional é um espectáculo como outro qualquer. Os estádios se emolduram de povo e os artistas exibem os seus dotes no relvado.
A diversão é salutar e desde há muito que as sociedades humanas organizadas propiciam ao povo espectáculos lúdicos. Até porque nem só de pão vive o ser humano…
Há espectáculos lúdicos ou de outra natureza que provocam emoções, sabemos disso; mas também sabemos que o ser humano tem o dever de controlar as suas emoções por um imperativo de cidadania.
O atropelo de noções básicas de convivência gera situações de conflito que deterioram o ser e estar da comunidade.
A sociedade organizada tem meios legais para se reclamar de uma qualquer situação que se nos apresente como injusta. Afinal, vivemos num Estado de Direito.
É ilegítima a reacção insultuosa e/ou caluniosa, seja para com os nossos semelhantes, seja para com instituições públicas ou privadas.
Uma sociedade civilizada tem o dever de saber defender-se, de saber respeitar-se, de saber fazer-se respeitar…
A foto que ilustra este texto, é só mais uma gota do oceano de discórdia onde perigosamente parece querermos mergulhar.
Sem animosidade, mas preocupado com a sociedade onde vivo, uso do meu direito elementar de cidadão para opinar
.
Nota: Foto do jornal O Jogo, com a devida vénia.

*
José-Augusto de Carvalho
19 de Maio de 2019.
Alentejo * Portugal.

terça-feira, 7 de maio de 2019

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A instante interrogação

NA PALAVRA É QUE VOU...

*
A INSTANTE INTERROGAÇÃO




Para além dos múltiplos deveres e direitos do quotidiano, para além do convívio social dito civilizado do mesmo quotidiano, para além dos afectos, a nossa vida é a instante interrogação de nós mesmos e de tudo o que nos perturba e nos reduz ao desconforto ansioso do real que intuímos e à utopia que perseguimos.
Passamos pela existência de outrem e deixamos ou não memória de nós; passam pela nossa existência e deixam ou não memória da sua passagem. E quando a memória não é perene, poderemos ou não citar Lavoisier? Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma… (cito de cor).
Se, por um motivo ponderável ou não, nos ausentamos, o convívio social dito civilizado já referido sentiu a nossa ausência ou continua imperturbável? Será que, perante a nossa ausência, indiferente sentencia só fazem falta os que estão?
Certa vez, uma pessoa me falava incomodada de alguém que experimentava o outro. Experimentava na acepção de testar, sublinho. Confesso que fiquei surpreendido e ainda hoje assim continuo. Não tenho a pretensão de molestar quem pensa diferente, mas vejamos:
1- Como me parece adequado, comecemos pelo "princípio". Sim, princípio em itálico. Tenho por certo que pouco ou nada sabemos do Princípio e pouco ou nada saberemos do Fim. Aqui vamos neste nosso tempo fazendo os possíveis e sonhando os impossíveis para chegarmos inteiros ao fim da efémera jornada. Ora bem, o mito do Eden é claro: Deus testou ou experimentou Adão e Eva com o fruto proibido. E, que me conste, ninguém molesta Deus por isso.
2- Quando o outro é testado numa prova qualquer, também ninguém ergue a voz protestando.
3- Quando sondamos o outro no sentido de sabermos se contamos ou não com ele para um objectivo qualquer, estamos testando a sua (in)disponibilidade.
4- Quando criamos uma expectativa do outro, alguns indícios dele conhecemos ou supomos conhecer e esses indícios pressupõem um teste indirecto.
Afinal, qual de nós não testa o outro?
Colocado quanto antecede, a conclusão parece evidente: a nossa existência é uma interrogação permanente de nós mesmos perante o outro porque só no outro poderemos encontrar-nos ou não e assim nos cumprirmos ou não.
*
José-Augusto de Carvalho.
Alentejo* Portugal

terça-feira, 19 de março de 2019

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Saudade


NA PALAVRA É QUE VOU...
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S a u d a d e 



É um dia abrasador de Julho. O quintal ganha os contornos duma fornalha. Ao fundo, corre a rua empinada. São duas horas da tarde. Sonolenta, a vila estiraçada ao sol. Nem viv’alma. As cigarras cantam, ensurdecendo tudo e todos, esquecidas ou ignorantes da fábula. 

Maria sai da cozinha com um alguidar de roupa lavada. Com a destreza da experiência dos anos, começa a dependurá-la na corda que atravessa o quintal de topo a topo. Com este calor, daqui a nada estará seca, murmura de si para si. 

Soa a aldraba do portão que dá para a rua empinada. Maria grita lá vou… e vai abrir o portão. É a filha que chega de Évora, vem afogueada e protesta: 

--- Que calor, mãe! Passa dos quarenta graus! E a camioneta da carreira é uma frigideira! 

Maria encolhe os ombros resignada e corrobora o protesto: 

--- Este maldito verão é sempre assim, filha! O expresso para Lisboa tem ar condicionado, mas as carreiras, aqui na zona, são esta vergonha… O povo não merece mais! 

D’Airinhas é uma estampa de rapariga. Andará pelos dezoito anos. Sorri para a mãe e repreende-a com doçura: 

--- Oh, mãe, lá vem a política outra vez! 

Maria enfrenta a filha com severidade: 

--- Maria d’Aires, a tua mãe sabe o que é a vida! Tu é que não sabes nem terás idade bastante para saber! Habitua-te a ouvir os mais velhos, os que já viveram muitos anos! As pessoas da minha idade e as mais velhas sabem muito bem como é esta dança dos políticos, sempre prometendo, sempre arranjando desculpas para não cumprirem o que prometem… São uns mentirosos! 

D’Airinhas abraça ternamente a mãe e sossega-a: 

--- As coisas irão melhorar. Vivemos em democracia. A revolução pôs um ponto final nos tempos negros da ditadura. 

Maria meneou a cabeça negativamente, com tristeza. 

--- Filha, a revolução foi um sonho. Essa coisa de o povo é quem mais ordena era boa de mais para ser verdade! Os cravos murcharam e secaram -- são uma saudade, nada mais. 



José-Augusto de Carvalho 
5 de Julho de 2005. 
Alentejo * Portugal 

terça-feira, 5 de março de 2019

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A árvore


NA PALAVRA É QUE VOU…
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A árvore 



Na minha adolescência, sobressaía um companheiro pela irreverência: “eu sou bom aluno, aprendo logo à primeira”. Recordando-o agora, assalta-me esta dúvida: talvez eu seja retardado, daí que tivesse de esperar dezena e meia de anos para finalmente perceber que Fernando Pessoa estava errado quando escreveu “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”. Ou, sem me diminuir assim tanto, talvez eu tenha acreditado, enfrentando e afrontando as intempéries, que o tempo tudo conserta ou tudo concerta… vá lá eu saber!...
Decorridas dezena e meia de anos, verifico que o tempo nada consertou ou concertou. Agora, estarei onde o velho Sócrates “quis” que eu sempre estivesse quando proclamou “eu só sei que nada sei”.
Não me arrependo de ter dado tempo ao tempo… Só que eu não posso competir com o velho Cronos. Ele é perene, eu sou efémero. Ele aí está pujante, eu aqui estou gasto de anos e minguado de horizonte.
“Até ao lavar dos cestos é vindima”, diz a sabedoria popular neste meu chão de fome e de pão, de sede e de vinho, de mar e de voltar ou não. Ah, mas creio nos saberes ancestrais! E lavados os cestos que me couberam na labuta, dou por finda a minha participação na vindima. 
A realidade de mim foi o que foi. Não posso voltar atrás para corrigir seja o que seja e não tenho motivo ponderável para protestar agora. Tenho ou suponho ter consciência dos meus limites. E é com a mesma inteireza com que ontem aceitei o desafio que decido hoje optar pela gruta do eremita, no deserto do meu recolhimento. Levo comigo as verdades de sempre, para meu conforto. 
Ajudei a plantar a árvore… Benditos sejam os que se deliciarem comendo os saborosos frutos! 



4 de Março de 2019.
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

13 - NA PALAVRA É QUE VOU.. * O regresso ao caos?


NA PALAVRA É QUE VOU… 


O regresso ao caos? 





A desvalorização ostensiva de tudo o que não nos afecta directamente, a indiferença pela amargura do outro, o umbigocentrismo de tantos e tantos, é uma mazela social purulenta que reclama tratamento imediato. 

O humanitarismo religioso e profano definha e estás prestes a agonizar. 

Viva eu! 

Viva eu e os outros que se danem! 

Ai de mim se não for eu! 

O objectivo é cada um de per si safar-se ou virar-se como puder? 

Será que cada um de nós vive numa ilha deserta? 

Será que cada um de nós não é parte de um contexto social onde há direitos e deveres indeclináveis? 

Será mesmo uma realidade consagrada que “a pimenta no ânus do outro é refresco para mim”? (Reconheço a grosseria desta “sabedoria” dita popular, mas a sua brutalidade é deveras ilustrativa e soa como um grito de alarme.) 

E chegámos aqui depois de séculos e séculos de doutrinação religiosa; depois de Humanismos e Iluminismos; depois da Liberdade, Fraternidade e Igualdade da Grande Revolução Burguesa de 1789, em França; depois de manifestos e mais manifestos; depois de Declarações de Direitos e Deveres, da ONU; depois de Constituições Políticas em vigor proclamando o Direito, a Justiça, a Defesa da Vida, a Concórdia e a Paz… e eu sei lá mais o quê! 

Os raros reconhecidos como salvadores do ser humano, da fauna e da flora, do planeta que é o nosso lar maior, disseram e demonstraram a justeza dos seus ensinamentos. E que lhes sucedeu? Foram perseguidos, foram presos, foram condenados, foram sacrificados com requintes de crueldade como se fossem perigosos malvados a abater sem piedade. O mandamento “Não matarás” é uma das muitas utopias… 

Afinal, o que somos? 

Afinal, o que queremos ser? 

Todos os dias, a todas as horas proclamamos uma única revelação --- a perdição. 

Herdámos a Esperança de um futuro melhor; nem a perdição deixaremos por herança porque nos apressamos a matar também os nossos herdeiros. 

Será o regresso ao caos. 

Não me considero um pessimista; também não sou seguramente um optimista delirante; mas com a lucidez que considero ter, o que vejo e ouço e leio deixa-me profundamente preocupado. Há um desnorte instalado. Os povos, aqui e ali cirurgicamente alienados, engrossam as levas de cordeiros para os matadouros, para os açougues. E recordando um dos cruelmente injustiçados, também me surpreendo muito mais com o silêncio dos justos do que com as vociferações dos vis e dos acéfalos. 

Já não tenho idade para ter medo, mas enquanto for vivo sentirei um profundo desgosto vendo ruir o sonho maior da instauração da dignidade da Vida. 

Termino com a transcrição da frase que li ou ouvi a uma actriz brasileira: “se o mundo é isto, parem o bonde, porque eu quero descer.” 



José-Augusto de Carvalho 
10 de Janeiro de 2019.
Alentejo * Portugal

13 -NA PALAVRA É QUE VOU... * Sem pueris ingenuidades


NA PALAVRA É QUE VOU… 


Sem pueris ingenuidades 



Já não tenho idade para me surpreender facilmente. Sem pueris ingenuidades, aliás seriam inadequadas, deploro muito do que vejo em meu redor. E nada posso fazer, porque o mundo gira a seu bel-prazer, independentemente da minha concordância ou da minha discordância. Os mestres que tive sempre me ensinaram ser indispensável o conhecimento e o seu questionamento. Hoje, nesta época de informação ao segundo, o que mais vejo e ouço e leio é o primitivismo da banalidade, é o raciocínio elementar, é a prosápia convencida daqueles que encontraram aquela velha coisa que dá pelo nome de verdade. Não tenho a pretensão da sapiência, por isso mesmo me reduzo à celebrada frase atribuída a Sócrates --- eu só sei que nada sei. É verdade que sim, mas sempre adianto que não me considero tolo. Sustento que um efeito depende duma causa, que não há efeito sem causa, e por aí adiante. Mais sustento que a inércia não existe, logo a inércia que vamos vendo por aí não mais será do que o efeito de uma causa que no subsolo germina… 

Louvo os meus mestres, devo-lhes a possível lucidez que suponho ter e não lamento os desaires sofridos, resultantes dessa mesma lucidez. Nunca adoptei o cinismo, mas sempre entendi o porquê de duas frases vulgarmente usadas por alguns: às vezes, convém nos fazermos de tolos, 

e estoutra, mais vale cobarde vivo do que herói morto. Não arrisco qualquer juízo. Cada um sabe de si e responde por si. Eu não julgo ninguém, mas faço as minhas escolhas tal como os demais fazem as deles. 

As escolhas dos outros valem o que valem por elas mesmas. Se conflituam com as minhas, evidentemente que sustento as minhas escolhas e enfrento lealmente o debate que surgir. Aliás como toda a gente. 

O silêncio só é uma escolha quando agimos individualmente. Se inseridos num contexto mais amplo, o silencio que mantemos poderá ser lido como a inércia provocada, que mais não será do que o efeito de uma causa que se ignora ou talvez nem tanto… E aqui poderei ser apodado de especulador, mas há razões e não-razões para especular. E até posso adiantar que seria conveniente ponderarmos a possibilidade de algumas especulações serem mais da responsabilidade de quem é alvo delas do que de quem as tece. 

Aqui fica mais uma reflexão, uma entre tantas e tantas que cogito… 



José-Augusto de Carvalho 
9 de Janeiro de 2019. 
Alentejo * Portugal 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * Manifesto


NA PALAVRA É QUE VOU ...
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Manifesto 


Ícaro, tela de Chagall 





Questiono ou não os meus antepassados? 

São eu neste outro tempo modelados… 

Todo o tempo é composto de mudanças… 

ganhando ou não ganhando qualidades, 

perdendo ou não perdendo qualidades… 

Não vou dobrar o Cabo Bojador… 

Como ir além do medo? Além da dor? 

Não vou dobrar o Cabo das Tormentas… 

Perene é a tormenta, 

distante a esperança que persigo… 

Persiste à minha frente o Cabo Não, 

num desafio instante e perigoso… 

Herdeiro sou de fastos e misérias, 

aos ombros trago o Tudo, trago o Nada, 

o vinho e o pão da minha mesa efémera… 

Os passos que já dei 

não voltarei a dar… 

Ninguém banhar-se pode duas vezes 

nas mesmas águas deste nosso rio… 

Tinha toda a razão o velho Heráclito! 

Aqui e sem negar-me tento ser 

o impulso a projectar-me para diante. 

Memória do que fui, a minha história, 

outra não tenho para me contar… 

São fastos, são misérias, são heranças 

que herdei dos outros eus que fui inteiro… 

Mantenho ou não a glória desses fastos? 

Corrijo ou não a dor dessas misérias? 

Venha o primeiro justo condenar-me! 

Venha a primeira pedra castigar-me! 

Depois de mim que venham outros eus 

justificar-me ou não 

ou redimir-me ou não… 



José-Augusto de Carvalho 
27 de Novembro de 2018. 
Alentejo * Portugal 

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * Eu, aqui!


NA PALAVRA É QUE VOU...
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 Eu, aqui!



Eu, português, aqui me situo:

Nesta Península europeia, banhada a Norte e Ocidente pelo Oceano Atlântico e a Sul e Oriente pelo mesmo Oceano e pelo Mar Mediterrâneo, eu sou, hoje, resultante de todos os que existiram antes de mim.

Fui ibero, quando a Península assumiu a designação de Ibéria; fui hispano quando o Império Romano decidiu designar a Ibéria como Hispânia; fui andalusi quando a dominação muçulmana chamou Al-Ândalus à velha Ibéria e à romana Hispânia; subsidiariamente, até poderei ter sido sefardita, já que a migração hebraica chamou Sefarad a esta minha muito amada e mátria península.

Não sei o que os rigorosos Historiadores pensarão do que eu digo; mas eu sei que a nostalgia dos tempos passados me leva a reclamar toda esta ascendência, para o Bem e para o Mal.

E não estou sozinho nesta nostalgia. Dos nossos tão antigos avoengos sobressai, entre outros, o lusitano Viriato, ibero e integrante da Lusitânia, chefe assassinado da resistência ao invasor Império Romano mais de um século antes da nossa era. Ora pois! Se a independência de Portugal remonta a 1.143, século XII, falamos de um ibero-lusitano que viveu e morreu (grosso modo) 1.200 anos antes de Portugal existir como país. E aqui chego à nostalgia dos tempos idos. A célebre resposta “Roma não paga a traidores” que terão recebido os assassinos de Viriato quando pretenderam receber o prémio da acção para que haviam sido aliciados está conforme as relações entre vencedores e vencidos. “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.

O Império Romano procedeu como sempre procedem os dominadores: autoridades pela razão da força, trouxeram inegavelmente saber e desenvolvimento e exploraram as riquezas naturais como proprietários que eram de facto.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / ganhando sempre novas qualidades”, precisou lucidamente Luís de Camões num dos seus sonetos mais famosos.

Está estudada a romanização de muitos e muitos países que surgiram na fase pós-romana. E não tenho conhecimento de os naturais destes países reclamarem o pouco ou o muito de que se apropriou o Império Romano ou de se permitirem apodá-lo de ladrão. E o motivo é claro: conforme o tempo que se vivia, os territórios ocupados eram propriedade do ocupante.

Ao que me consta, corre por aí uma “bem-pensante” teoria de que se deve reescrever a História e, mais ainda, ler o Passado com os olhos do Presente. E assim sendo, avante o julgamento do Passado! Ora do passado mais remoto ao mais recente se reclama a evolução da Humanidade. O Presente não mais é do que o resultado das lutas evolutivas, ora ganhas, ora perdidas, lutas onde venceram ou foram vencidos aqueles que querem hoje sentar no banco dos réus do tribunal do Presente.

Nesta miscigenação actual, quem me garante que no meu sangue não há vestígios de mártires ou de verdugos, de justiceiros ou de rendidos com honra ou sem ela?

Eu, português, aqui me situo como consequência do tudo que me gerou.

Sem preconceitos, sem jactâncias nem penitências e para o Bem e para o Mal, aqui estou na afirmação do que sou, conforme o tempo que vivo.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Setembro de 2018.

sábado, 24 de março de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * A fisga



(Histórias de um tempo perdido para sempre) 


A fisga 



O Lourenço jogava ao berlinde e ao pião, como todos os rapazinhos da sua idade, mas não usava fisga. Um dia, quando regressavam da Feira anual, um seu colega de Escola, o Anastácio, quis saber:

--- Lourenço, por que não usas fisga?

A resposta foi seca:

--- Não uso porque não quero.

Anastácio não aceitando a resposta como esclarecedora, insistiu provocante:

--- Tu não sabes atirar, é por isso que não tens uma fisga.

Lourenço olhou interrogativamente o colega e precisou:

--- Eu não disse que não tenho uma fisga, eu disse que não uso fisga.

Anastácio ficou calado, perplexo. E Lourenço, friamente, clarificou:

--- Tu perguntaste por que não uso fisga e não se eu tenho uma fisga.

Anastácio compreendendo o ardil em que caíra, tentou sair dele com um desafio:

--- Se tens fisga, sabes atirar como nós sabemos…

Lourenço acenou que sim com um movimento de cabeça.

Nesta altura da conversa todos pararam na expectativa do que se adivinhava. E o que se adivinhava chegou quando Anastácio lançou o repto:

--- Se sabes atirar, vamos ver qual de nós dois tem melhor pontaria.

Lourenço encolheu os ombros, com indiferença.

Anastácio concretizou o repto:

--- À melhor de cinco fisgadas. Quem perder tem direito a desforra. Se houver empate, uma terceira série de cinco fisgadas decide o vencedor.

Todos concordaram à excepção de Lourenço que de novo encolheu os ombros num sinal evidente de indiferença.

Foi fácil a escolha de um alvo --- uma rolha de cortiça colocada numa das muitas fendas de um muro não rebocado de uma horta. Os atiradores alvejariam a rolha a vinte passos de distância.

Lourenço propôs usar a fisga de Anastácio para ficarem ambos em total igualdade. A proposta foi aceite. Por sorteio, Anastácio seria o primeiro a alvejar a rolha.

Pouco demorou a recolha de projécteis, pequenas pedras escolhidas no chão, arredondadas e de dimensão um pouco inferior â de um berlinde.

Anastácio era conhecido de todos como um bom atirador de fisga; Lourenço era para eles um grande ponto de interrogação; não tinham memória de o ter visto com uma fisga na mão.

Anastácio cumpriu a primeira série de cinco fisgadas. Acertou quatro vezes. Era um bom resultado.

Todos os olhares se concentraram curiosos em Lourenço. Que iria suceder?

Lourenço acertou as primeiras quatro fisgadas e olhando fixamente Anastácio disse:

--- Pronto, empatámos.

Surpreendidos, todos disseram:

--- Lourenço, ainda te falta uma fisgada…

Lourenço encolheu os ombros e justificou:

--- Pode ser, mas eu devo errar a rolha, não vale a pena arriscar. Está bom assim, empatámos.

Anastácio ficou apreensivo. Afinal, Lourenço o surpreendera. Era um bom atirador de fisga e agora até recusava a possibilidade de vencer; mas a sua ânsia de superação prevaleceu e aprestou-se para a segunda série de fisgadas.

Uma dúvida assaltou os demais colegas: seria que Lourenço não queria perder mas também não queria ganhar para não desgostar Anastácio?

Os dois atiradores ocuparam os seus lugares para a segunda série de fisgadas.

Anastácio repetiu o resultado. Errou de novo a primeira fisgada e acertou as quatro restantes.

Havia ansiedade evidente em Anastácio e um mal-estar contido nos demais.

Lourenço atirou certeiramente quatro vezes e entregou a fisga a Anastácio.

--- Toma lá a tua fisga. Já chega de fisgadas, ficámos empatados.

Todos ficaram calados, excepto Anastácio, que protestou:

--- Quem desiste, perde!

Calados, os colegas adivinhavam situação desagradável. Lourenço sossegou-os ao se dirigir ao adversário com um sorriso:

--- Está bem, Anastácio, tu ganhaste, és um bom atirador. Podes levar a taça.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Março de 2018.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * O velho, o rapaz e a Vida


(NA PALAVRA É QUE VOU…)

*
O velho, o rapaz e a Vida


--- Quem desaparece, esquece!

José das Águias levantou os olhos do jornal e olhou interrogativamente o jovem.

--- Estou errado, Ti’Zé?

José das Águias, suspirando:

--- Ignorar é pior, rapaz! Ignorar é matar!

O jovem olhou o ancião apreensivamente e quis saber:

---Ti’Zé, qual a diferença, diga-me!

José das Águias abandonou o jornal e respondeu:

---Meu rapaz, muitos desaparecem, é um modo de dizer; é quando a Vida os chama para outros lados. Às vezes, regressam; outras vezes, não.

---A Vida, Ti’Zé? Que Vida?, quis saber o jovem.

---Ora, ora, meu rapaz, a Vida é tudo o que nos leva a fazer ou não fazer isto ou aquilo. A nossa vida mesmo e a Vida como realidade que temos. 

--- A vida como realidade que temos? --- repetiu o jovem como um eco. 

--- Não estou entendendo, Ti’Zé.

O ancião, esboçando um sorriso triste:

--- Um dia, nascemos. Este mistério da existência não sei se já está devidamente explicado por quem sabe. Aqui, acontece a nossa vida, a vida de cada um. E entramos na vida colectiva. A vida colectiva é o modo como todos estamos organizados. Cada um de nós tem o seu lugar na engrenagem. Uns fazem isto, outros fazem aquilo. E o resultado destes fazeres serve ou deve servir todos. 

O jovem escutava atentamente Ti’Zé das Águias.

O ancião continuou:

--- Quando uns partem, é sinal, quase sempre, de que as coisas não vão bem. Quem busca noutras paragens o que não encontra no torrão natal quer dizer que o país não cumpre o seu dever de dar satisfação a todos.

--- E tal sucede por que razão, Ti’Zé? --- quis saber o rapaz.

--- Tal sucede por haver dificuldades naturais ou porque quem manda, manda mal. Meu amigo, eu já vivi muito, já sofri muito. Estou cansado e prestes a dizer adeus a todos. Aqui nasci, aqui cresci, aqui aprendi com meu pai os trabalhos do campo. Aos vinte e poucos anos conheci, na Flandres, o outro lado da Vida --- a desgraça da guerra. Sabes o que é a guerra? A guerra é o Inferno, é o lugar onde os homens matam para não morrerem. E porquê? Por que motivo os homens se matam? Nem sabem. Os que governam mandam-nos matar e nós matamos outros homens que estão do outro lado com a intenção de matar-nos. Entendes isto? Ninguém entende a não ser os poderosos que ambicionam tirar ou tiram mesmo benefício da matança.

José das Águias calou-se. Estava visivelmente acabrunhado.

O rapaz, pensativo, olhava a lonjura da planície através da janela aberta da venda do Jerónimo.

Decorridos alguns minutos de silêncio, Jerónimo pediu:

--- Ti’Zé, conte ao rapaz aquela conversa que teve com o médico quando ficou ferido lá na Flandres, lembra-se?

José das Águias olhou o amigo e suspirou:

--- Ah, Jerónimo, ao tempo que isso foi! E sempre o que o médico me disse me acompanha... Vamos lá, então: enquanto me tratava, o médico perguntou-me se eu sabia por que estava na frente, a combater os alemães. Eu não sabia bem o motivo e disse que tinha sido mobilizado para a guerra. Aí ele me disse que eu era carne para canhão e que todas estas coisas sucediam desde que um homem, não sei onde nem quando, vedou um grande terreno e avisou todos os outros: «Este terreno é meu».

--- Isso mesmo, Ti’Zé! Essa dá que pensar! --- exclamou Jerónimo.

O rapaz estava confuso e pediu que Ti’Zé explicasse a história do terreno.

--- Meu rapaz, o médico dizia que naquele tempo as terras eram de todos, não era como é agora que uns poucos têm herdades e mais herdades e outros nem um quintal têm. E por via disso, vivem no bem-bom, enquanto nós nem sabemos o que nos reserva o dia de amanhã.

Jerónimo atalhou:

--- Diga mais, Ti’Zé!

--- O ancião meneou a cabeça e advertiu:

--- Estas coisas têm de ser entendidas. Vivemos tempos difíceis também para a palavra. Quem manda tem isto na mão e quem sustem o Poder são estes mesmos donos das terras e outros poderosos. O médico tinha razão: quem tem oprime quem não tem! Eu já não verei, porque estou com os pés para cova, mas os novos terão de dar uma volta séria a esta desgraça.

O rapaz quis saber:

--- E como se dá essa volta a isto?

--- O povo tem de unir-se, tirar esta gente que manda e pôr lá outra gente. Gente que sabe o que é penar e que por isso mesmo tem de distribuir por todos, na mesma e justa medida, os deveres e os direitos. Enquanto isto não acontecer, a desgraça que vivemos irá continuar, sempre!

--- Sempre!, exclamou o rapaz.

José das Águias continuou:

--- Depois da I Grande Guerra, vivemos tempos danados, com muito luto e muita miséria. E também com muita inquietação nos meios políticos e militares. Depois, veio o 28 de Maio de 1926 e a Ditadura Militar; depois veio o Estado Novo e para ficar até hoje; depois veio a tragédia que foi a dita Guerra Civil de Espanha; depois veio o horror da II Guerra Mundial; agora vivemos a Guerra de África… Quando será que se cumpre a fraternidade e o respeito pela vida e pela dignidade da vida?

A interrogação de José das Águias pairava como um pesadelo. Só o tilintar dos copos que Jerónimo lavava conseguia quebrar o silêncio pesado.

Lá fora, a planície assistia melancolicamente ao êxodo dos deserdados, “a salto”…


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 11 de Janeiro de 2018.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * A pressa


O Flávio passou agora mesmo por mim. Iluminou a face com um sorriso e lá foi pedalando. Já nem se apercebeu do meu aceno que era um cumprimento e um adeus. Esta gente anda sempre com pressa. Não sei se é a Vida que apressa esta gente, se é esta gente que apressa a Vida. Num contraponto indiferente, o dia continua a ter 24 horas. E tanto quanto posso observar, a natureza mantém o mesmo ritmo. A natureza onde os manobrismos humanos (ainda?) não interferem para acelerar, retardar, alterar, modificar o seu ancestral modo de ser e estar.

Lá mais à frente, a estrada se cruza com um ribeiro. O Flávio já deve ter passado a ponte. E quero crer que, com a pressa, nem olhou o leito deste pequeno curso de água.

É, com certeza, um ribeiro igual a tantos outros que serpenteiam a planura. Eu gosto muito de arroios, de ribeiros e ribeiras, de rios e de mar. É o fascínio da água. Este meu fascínio me leva a ficar horas e horas olhando este ou aquele curso de água, a tentar imaginar percursos evadidos, a criar exaltadas ousadias, a recusar destinos parados de prostração e renúncias. Ora foi num dia que nem sei precisar que vi estupefacto, neste mesmo ribeiro, uma represa canhestramente erguida. Estupefacto porque a represa não tinha a finalidade transitória de aproveitar água para rega. Olhando mais atentamente, percebi: o ribeiro, naquela área, atravessa uma propriedade rústica e a represa nada mais é do que um passadiço para um tractor agrícola. Com certeza, o passadiço poderia ter usado manilhas na estrutura para deixar a água livremente correr. Mas o autor do passadiço não pensou nisso ou não quis pensar. E em nome do utilitarismo estreito e de um inaplicável direito de propriedade, cortou uma linha de água que é um bem público.

E estas coisas e tantas outras existem e persistem anónimas por vontade de quem não vê, de quem não quer ver…

Eu sei, é a pressa… Mas serão seguramente os apressados da Vida, serão os distraídos da Vida, serão os indiferentes da Vida os primeiros a apontar o indicador acusador aos outros, aos tais outros que tinham o dever de ter visto e não viram; que tinham o dever de ter previsto e não previram; que tinham o dever de ter agido e não agiram…

O Flávio passará por aqui, no regresso, pela tardinha. Hoje já não o verei, está arrefecendo e eu tenho de resguardar a minha anciania.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Janeiro de 2018.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

13-NA PALAVRA É QUE VOU..., * Todos somos hispanos


NA PALAVRA É QUE VOU..., 
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Os nacionalismos em Espanha são uma questão mal resolvida desde o princípio. Um após outro, os nacionalismos foram mal absorvidos pelo Reino de Leão, depois pelo Reino de Castela e Leão e finalmente pela união do Reino de Castela e Leão com o Reino de Aragão. Desta última união resultou a Espanha que conhecemos hoje, união ocorrida na segunda metade do século XV.


O centralismo de Madrid foi e continua sendo uma tentativa desesperada de lutar contra a identidade dos povos que integram o todo da Espanha.

A nossa Poetisa Natália Correia recordou certa vez a realidade da Península Ibérica: “Todos somos hispanos”. Ou iberos, digo eu. Mas todos sermos hispanos ou iberos é diferente de sermos todos espanhóis ou de todos reverenciarmos a identidade leonesa-castelhana.

A Catalunha integrava o antigo reino de Aragão.

A legitimidade reconhecida hoje a todos os povos de escolherem o seu destino colide frontalmente com a rigidez arcaica do Poder Espanhol. Um povo não está contra outro povo quando reclama o legítimo direito de escolher o seu destino sem tutelas.

Madrid está numa encruzilhada: ou aceita os legítimos anseios dos outros nacionalismos hispanos ou esmaga aquela legitimidade. E aqui chegados, a questão é outra: o confronto entre a força da razão e a razão da força.

A Espanha poderá ser uma Federação de Estados Independentes, voluntária e fraternalmente juntos numa caminhada comum.

Eu assumo a minha identidade de português e de hispano sem contradições nem complexos.

Cordialmente,

José-Augusto de Carvalho.
Alentejo, 3 de Novembro de 2017.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * Definitivamente


NA PALAVRA É QUE VOU...


Definitivamente


Nesta transitoriedade em que vou, chegou o tempo de parar e ponderar:

o que fui e não fui;
o que sou e não sou neste efémero presente;
o que pretendo e não pretendo de mim;
o que os demais podem pretender e não pretender de mim. E que me afecta os demais nada pretenderem de mim? E que posição tomarei se os demais pretenderem e exactamente o quê de mim?

O Amanhã é futuro incerto e finito, porque toda a longevidade é relativa.

O balanço do passado é difícil: das entregas às hesitações; da satisfação do dever cumprido ao infortúnio efémero ou infortúnio duradouro; do encanto e do desencanto, tudo somado é um rosário de contas a desfiar pacientemente nas noites longas da invernia que se aproxima.

Sem dramatismo nem renúncia --- nunca digas nunca! ---, estou ou suponho estar preparado para o que vier. E não é jactância, é uma legítima convicção ou uma legítima defesa.

Na minha idade, é tolice sentir medo ou pretender engalanar mais ainda a feira das vaidades. Recordo o ditado: as modas e as vaidades são o delírio dos medíocres e dos tolos e o pesadelo dos sábios. Não que eu seja sábio, mas esforço-me por seguir os seus exemplos e preservar os seus ensinamentos.

Na minha idade, sorrio-me quando ouço a melopeia sedutora das sereias; sorrio-me também dos impenitentes que fazem a festa, lançam os foguetes e ainda têm fôlego para ir recolher as canas. São uns valentes!

Na minha idade, estou mais exigente. Já não tenho tempo para reparar asneiras ou para delas me penitenciar, para tolerar impreparações, para subscrever simulacros de boas intenções. Exactamente por isto mesmo, saber dizer não é uma qualidade.

Na minha idade, o tempo é de balanço, é de resultados, é o tempo de declarar Aqui está a colheita que recolhi, depois assinar e datar. O que suceder depois, de bom ou de mau, será da responsabilidade de quem decidiu.

Como todos os demais, espero sem sobressaltos o juízo da História. Até porque não nos cabe qualquer intromissão em causa própria, não nos cabe nem os outros permitiriam tamanho desaforo… e muito bem.

Nunca fui adepto da pena da Talião e apercebi-me há muito de que as “regras do jogo” estão viciadas. Em minha defesa apenas uso, e me basta, o rifão: “Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo.”

Até sempre! 

José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 30 de Agosto de 2017.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Assumir o Passado, situar o Presente, prevenir o Futuro



O Passado regista o tempo já decorrido. Hoje, no Presente que vivemos, é imperativo conhecer e interpretar criticamente o que aconteceu, valorando o que se considera correcto; corrigindo, quanto possível, o que se considera incorrecto; lamentando o que por impossibilidade ou incapacidade não se conseguiu ou nem se tentou conseguir.

O Presente que vivemos exige que saibamos assumir o Passado; exige que aprendamos com os fastos e os desaires e os erros cometidos; exige que nos preparemos para dar o salto qualitativo.

A História não se reescreve: o Passado é o que foi, nunca será o que gostaríamos que tivesse sido. E se errar é sempre penalizador, insistir no erro é trágico. Saibamos honestamente estudar e interpretar constantemente o Passado, o que é abissalmente diferente de reescrevermos esse mesmo Passado.

O Presente é este momento em que estamos olhando para trás sempre criticamente e perspectivando também sempre objectivamente o Futuro que poderemos e deveremos construir.

Como toda a gente sabe, o Passado é ontem, o Presente é hoje, o Futuro é amanhã.

É imperativo agir por todos e por cada um de nós. Seremos julgados pelo que fizermos e pelo que não fizermos. Seremos absolvidos ou condenados. Depende exclusivamente de nós sermos dignos ou indignos da nossa condição.

Aviso: a História pode repetir-se duas vezes: a primeira em tragédia; a segunda em farsa.



Gabriel de Foxem
14 de Junho de 2017.
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 8 de março de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Que difícil é...!


Às vezes, sinto uma vontade danada de gritar: Que difícil é confiar!

Tenho a minha experiência pessoal; e, naturalmente, cada pessoa terá a sua experiência pessoal, que partilha ou guarda para si. Sei muito bem que é doloroso remexer em infortúnios e ou frustrações. Concedo que pode ser preferível calar e tentar esquecer. Afinal, é bem certo que crescemos e vamos aprendendo com tudo quando encontramos no caminho. Não raro ouvimos esta expressão metafórica: eu já vivi muitos carnavais ou eu já conheço isso de outros carnavais. E desta situação partirá o afastamento ou o alheamento de muitas pessoas no âmbito familiar, no âmbito social restrito ou no âmbito social mais alargado. Há feridas que doem e demoram a sarar; e depois de saradas, a cicatriz fica para sempre como um velho marco assinalando que em tempos houve aqui algo que correu mal.

O grande Poeta Miguel Torga, no seu poema De profundis, regista superiormente, ainda que noutro contexto, esta ferida de que venho falando:

Eu, esta ovelha ranhosa 
que remói silenciosa
a lembrança dolorosa
do pastor que lhe bateu… 


Esta citação que me permito fazer remete-me para esta evidência: perdoar um agravo não significa esquecer esse mesmo agravo. E tanto assim será que sabiamente o Povo declara que quem não se sente não é filho de boa gente.

Ninguém duvida de que há valores a respeitar e que a dignidade de cada pessoa não pode nem deve ser menosprezada ou agredida.

Evidentemente que além da citação e do aforismo, a Declaração Universal dos Direitos do Homem (ONU) e a Constituição da República Portuguesa são claras no respeito devido ao ser humano.

Infelizmente, são demasiadas as pessoas que se auto-excluíram. E a pergunta que inevitavelmente se coloca é esta: que benefícios trazem essas exclusões? Ou estoutra: quem beneficia com estas exclusões?

Neste tempo de incertezas, de desencantos, de inconformismos mudos deveremos ou não ponderar um pouco no que somos e no que queremos ser enquanto espécie gregária?

Aqui fica.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Março de 2017.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O desaforo


Aos Autores antologiados não será solicitada nem oferecida nenhuma contrapartida para a participação na obra, não serão igualmente ofertados exemplares da mesma.




Todos sabemos que a escrita é anterior à actividade editorial.

Todos sabemos que a actividade editorial decorre da escrita ou, dito de outra maneira, sem autores não há editores.

Assente esta realidade que não oferece contestação, chega-me a surpresa absurda de uma editora convidar autores para colaboração numa amostragem de autores actuais, vulgo antologia, mas desde logo informando que esses mesmos autores não terão direito a receber um volume de oferta ou, mínimo dos mínimos, não terão direito direito a um volume a custo reduzido.

Ocorre, assim, esta situação: a editora recebe a colaboração, edita-a, comercializa-a e os autores recebem o prazer de ver os seus trabalhos editados. 

Edificante!

Que imperativos legais impedem os autores de se associarem e combaterem este desaforo?

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Fevereiro de 2005.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Os feriados

Advertência: o texto abaixo é de Dezembro de 2014. Ficam os considerandos sobre os feriados.
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A questão dos feriados não poderá ser analisada com a leviandade que se anuncia e que prefigura uma ameaça grosseira à memória colectiva de um povo.

--- O 5 de Outubro não assinala, apenas, a implantação da República(1910); assinala, também, tanto quanto sei, a independência, no recuado século XII (1143);


--- O 1º. de Dezembro (de 1640) assinala a recuperação da independência perdida e não constitui qualquer afronta a Espanha;


--- O 14 de Agosto (de 1385), que deveria ser feriado e não é, vá lá a gente entender o porquê de tamanha desconsideração, assinala a manutenção da nossa condição de país independente na Batalha de Aljubarrota;


--- O 10 de Junho assinala Camões e a pátria imortalizada n'Os Lusíadas;


--- O 25 de Abril (1974) assinala a recuperação da dignidade perdida.


Que querem matar, afinal?


Os nossos maiores coram de vergonha! É esta afronta que devemos ao seu denodo e à nossa identidade?


Indignado, aqui fica meu protesto.


José-Augusto de Carvalho

29 de Dezembro de 2014.
Viana * Évora * Portugal


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Importante: Não se incluem no texto acima os feriados internacionalmente consagrados: o 1º. de Janeiro, o 1º. de Maio e o 25 de Dezembro, na certeza, se é que vivemos em tempo de certezas, de que não serão objecto de represália.
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Nota: Desenho do Escultor José Dias Coelho, resistente anti-fascista assassinado pela PIDE, na década de sessenta do século XX.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Considerandos



Recupero de texto já publicado a excelente frase de um meu conterrâneo: «Só todos juntos sabemos tudo.»

Arrisco afirmar que esta frase tem um alcance invulgar e, por isso mesmo, deveria figurar em todos os manuais de conduta.

Várias vezes, em conversas com gente da minha gente, encontro sugestões que considero de grande valia conducentes a aprofundar situações e a estudar soluções.

Evidentemente que estas conversas dificilmente chegarão ao conhecimento de quem conduz os nossos destinos colectivos.

E se aqui não discuto a legitimidade de quem tem o poder de decidir, já discuto a perda destas sugestões, até porque relevarão em valia muitas das decisões que são tomadas.

Todos sabemos ser tarefa de qualquer poder político a gestão quanto baste das necessidades correntes; mas também todos sabemos que qualquer força política tem a sua ideologia e desta decorrem definidas propostas de melhoria de uma qualquer situação em análise, das muitas situações que existem e que vão muito para além das supracitadas necessidades genéricas e correntes.

Por tudo isto, será de colocar estas interrogações:

Como chegámos aqui?

Por que chegámos aqui?

Será que o Povo aceita passivamente quanto o Poder Político decide?

Que motivos levaram o Povo ao distanciamento, ao afastamento da res publica?

Que motivos levaram o Povo a assumir posições claras nos actos eleitorais, quer abstendo-se, quer votando em branco, quer votando nulo, em percentagens relevantes?

Será que as forças políticas estão esticando a corda até esta se partir?

Será que as forças políticas se recusam a ver que estão deficientemente servindo a democracia --- Democracia enquanto Poder do Povo?

Se, etimologicamente falando, Democracia é igual a Poder do Povo, fica claro que democracia sem povo é coisa nenhuma. E é isto que me preocupa enquanto cidadão.

Até sempre!


José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 26 de Setembro de 2014.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Posição


A minha identificação incondicional com o Homem de todas as latitudes, independentemente do credo, da cor, da raça, não me cerceia o dever de dignificar a minha condição de cidadão português e a língua portuguesa.

Serei modesto em conhecimentos, eu sei. Nem estou aqui pretendendo competir nesse campo ou noutros e muito menos pretendendo ensinar seja o que seja.

Estou aqui, sim, para verberar todos aqueles que supõem ter o poder de impor, em Portugal, qualquer língua estrangeira como meio de comunicação nacional.

Dizia o Poeta Fernando Pessoa: «A minha pátria é a língua portuguesa.» E eu subscrevo, sem reservas, esta sua afirmação, não por ser dele, mas por a considerar certa.

E esta minha postura em nada colide com a aprendizagem de outras línguas, aliás bem necessárias nestes tempos de hoje. 
Atribuir-me tamanho desaforo é confundir as coisas. 

Evidentemente que há responsáveis por esta tentativa de menorização da língua portuguesa, a começar por alguns políticos, alguns comentadores e por aí adiante…

Muitos homens grados do passado, de Luís de Camões ao padre António Vieira, por exemplo, se revolverão no túmulo, indignados. 

E também, no presente, muitos homens de mérito corarão de vergonha. Sei não estar sozinho ao subscrever esta postura.


José-Augusto de Carvalho
4 de Agosto de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Encruzilhada


Eu sei onde nasci, foi aqui, nestas planuras transtaganas, ao sol escaldante do meio-dia de um há muito passado dia do mês de Julho. 

Hoje, sozinho, não sei onde irei morrer. Talvez aqui onde nasci, talvez nalguma lonjura perdida em algum recanto deste mundo. 

O Padre António Vieira disse, e cito de cor, que os portugueses têm um pequeno país por berço e o mundo inteiro para morrerem. É uma grande verdade e não sei se eu irei demonstrar isso mesmo.

Pátria-cais de inquietação, quem irá saber onde cada um de nós irá rumar?

Pátria-desafio, quem irá saber o dia de amanhã?

Diz a sabedoria que a mais difícil procura é a interior, aquela angústia que nos leva à procura de nós mesmos.

Quiseram os fados que eu perdesse tudo quanto dava sentido à vida, à minha vida. 

Irão querer esses mesmos fados a minha renúncia? Por minha vontade, não.

Enquanto estamos vivos, há sempre um amanhã por haver. E porque assim é, eu quero ver esse amanhã. Traga o que trouxer, eu enfrentarei. 

A vida é um caminho, logo temos de caminhar enquanto tivermos um sopro de vida. Virá o dia que descansaremos na berma do caminho e adormeceremos a interminável noite que nos espera. Sem dramatismos. E resistiremos enquanto houver memória de nós naquelas e naqueles que nos amaram. Depois, será o absoluto silêncio.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Fevereiro de 2017.