sábado, 7 de outubro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Declaração



(ESTA LIRA DE MIM!...)
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Declaração




Não convoco favores de musas

nem sublimes acordes de Orfeu.

Sem assomos de ingratas recusas,

digo apenas, aqui, que sou eu.

Venho só, sem escudo nem lança,

sem ardores de raiva e vingança.



Não ensaio nenhum madrigal

nem as ninfas acordo nas fontes.

Já morreram no meu laranjal

os virgínios adornos das frontes.

Que ficou do que Amor concebeu?

Em que incêndios profanos ardeu?



Em caminhos inóspitos ando,

sem alforge de magro sustento.

Só as aves, em lúdico bando,

cantam hinos de audaz movimento,

acrobatas sem medo nem rede…

…e eu no chão a morrer-me de sede!



Não acuso os arroios calados

nem receio o matiz dos assombros.

Cada passo de passos mal dados,

mais a carga me pesa nos ombros.

Subo ao cume do monte num rito

de ganhar o horizonte infinito.



Entre perdas e ganhos encontro

discernível o saldo de mim.

Oxalá que nenhum desencontro

de mais pese nas contas do fim!

E de contas saldadas e em fumo,

seja o céu o meu último rumo.



Simulacro de inútil história,

nada importa ao devir que se apronte.

Seja viva e perene a memória

da futura manhã que desponte.

Seja Amor a plantar laranjais

que floresçam rubis virginais.





José-Augusto Carvalho

Alentejo, 7 de Outubro de 2017.


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * Definitivamente


NA PALAVRA É QUE VOU...


Definitivamente


Nesta transitoriedade em que vou, chegou o tempo de parar e ponderar:

o que fui e não fui;
o que sou e não sou neste efémero presente;
o que pretendo e não pretendo de mim;
o que os demais podem pretender e não pretender de mim. E que me afecta os demais nada pretenderem de mim? E que posição tomarei se os demais pretenderem e exactamente o quê de mim?

O Amanhã é futuro incerto e finito, porque toda a longevidade é relativa.

O balanço do passado é difícil: das entregas às hesitações; da satisfação do dever cumprido ao infortúnio efémero ou infortúnio duradouro; do encanto e do desencanto, tudo somado é um rosário de contas a desfiar pacientemente nas noites longas da invernia que se aproxima.

Sem dramatismo nem renúncia --- nunca digas nunca! ---, estou ou suponho estar preparado para o que vier. E não é jactância, é uma legítima convicção ou uma legítima defesa.

Na minha idade, é tolice sentir medo ou pretender engalanar mais ainda a feira das vaidades. Recordo o ditado: as modas e as vaidades são o delírio dos medíocres e dos tolos e o pesadelo dos sábios. Não que eu seja sábio, mas esforço-me por seguir os seus exemplos e preservar os seus ensinamentos.

Na minha idade, sorrio-me quando ouço a melopeia sedutora das sereias; sorrio-me também dos impenitentes que fazem a festa, lançam os foguetes e ainda têm fôlego para ir recolher as canas. São uns valentes!

Na minha idade, estou mais exigente. Já não tenho tempo para reparar asneiras ou para delas me penitenciar, para tolerar impreparações, para subscrever simulacros de boas intenções. Exactamente por isto mesmo, saber dizer não é uma qualidade.

Na minha idade, o tempo é de balanço, é de resultados, é o tempo de declarar Aqui está a colheita que recolhi, depois assinar e datar. O que suceder depois, de bom ou de mau, será da responsabilidade de quem decidiu.

Como todos os demais, espero sem sobressaltos o juízo da História. Até porque não nos cabe qualquer intromissão em causa própria, não nos cabe nem os outros permitiriam tamanho desaforo… e muito bem.

Nunca fui adepto da pena da Talião e apercebi-me há muito de que as “regras do jogo” estão viciadas. Em minha defesa apenas uso, e me basta, o rifão: “Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo.”

Até sempre! 

José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 30 de Agosto de 2017.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Nihil sine causa


NA ESTRADA DE DAMASCO
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Nihil sine causa (1)






...e levo a vida a perguntar por mim!

Em vão insisto, mas ninguém responde.

Pergunto, apenas, por que um dia vim

e por que a causa assim de mim se esconde.



Da causa obscura eu só conheço o efeito:

é esta dor moendo até mais não!

Que coração aguenta ser no peito

tão-só um tique-taque sem razão?



Que sonho ou pesadelo a Vida quer?

Que dívida de ser em mim perdura?

Do ignoto caos nem consegui sequer,

para a merenda, uma romã madura.



Desamparado e nu, assim cheguei.

Sorrindo, minha mãe, num terno enlevo.

Nos braços maternais me aconcheguei.

Que dívida a pagar? Eu nada devo!



O maternal carinho não esqueço.

Está perdido nos confins do nada.

Nesta viagem de ida e sem regresso,

com minhas mãos rasguei a minha estrada.



Amei e fui amado --- estou sozinho.

De pé, sem medo, espero ouvir agora

em uma encruzilhada do caminho

dobrar por mim a Torre da Má Hora.



E lá irei dormindo de viagem,

sem perceber que causa quis que eu fosse. 

E levarei o nada na bagagem,

o mesmo nada que do caos eu trouxe.


*

(1)- nihil sine causa (locução latina) -- Nada existe sem uma causa.
 Fonte: Cícero, De Finibus, I, 19.

*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Outubro de 2017.

11 - O MEU RIMANCEIRO * A inércia não existe!



O MEU RIMANCEIRO
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(Que viva o cordel!)

*

A inércia não existe!





Adoptaste o modelo acabado

que anunciam, na praça, os arautos.

Neles crêem talvez os incautos

e deveras os bem instalados.



Mas o tempo recusa parar,

num vaivém de alcatruzes de nora

que descendo é a angústia que chora,

que subindo é o alvor a cantar.



Movimento perpétuo da vida,

de mudança em mudança prossegue.

E não há quem recuse ou quem negue

esta Lei que é de todos sabida.



O passado previu o presente,

o presente prevê o futuro.

Sob a terra, no húmus obscuro,

vigorosa, germina a semente…



Sempre assim, de mudança em mudança,

cada fim anuncia um nascer.

A verdade perene de ser,

desbravando caminhos, avança.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Outubro de 2017.

sábado, 30 de setembro de 2017

11- O MEU RIMANCEIRO * O outro mundo



O MEU RIMANCEIRO
.
(QUE VIVA O CORDEL!)

*

O outro mundo







Há um mundo do outro mundo:

o do pontapé na bola.

Um mundo que vai ao fundo

no pântano em que se atola.



Tamanha jactância ostenta

em tempo de magra ceia,

que já ninguém lhe aguenta

indecoro e verborreia.



Prémios/salários chorudos…

Mudo, o povo aperta o cinto!

Venha o primeiro dos mudos

dizer-me agora que eu minto!



Neste mundo do outro mundo,

há quem ganhe mais num dia

que no mundo deste mundo

quem num mês tanto porfia.



Pão e circo --- viva Roma!

Sob o sol nada de novo!

Parcelas da mesma soma

que somando vai o povo.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 30 de Setembro de 2017.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Catarse


ESTA LIRA DE MIM!...

Catarse



Naquele dia, do meu pátrio chão,

quase menino ainda, me arrancou

um desígnio malsão.

E ninguém protestou.



Quase ainda menino,

um soluço na voz,

suspeitei do destino.

Ao tempo, eu nem sabia

que o destino podia

ser erguido por nós.



Também eu, Bernardim,

da casa de meus pais fui arrancado,

arrancado e levado

para tão longe deles e de mim.



E ninguém protestou

quando a renúncia ergueu o meu destino

e me sacrificou…

e eu era ainda quase um menino!



Porque um homem não chora,

tolices ensinadas às crianças,

quase matei o coração naquela hora,

que estavam mortas já as esperanças..



E fui a desfolhar a débil planta

como se Outono fora a minha Primavera.

Numa gaiola, um rouxinol não canta,

por mais que seja longa a espera

do cruel carcereiro

que impõe à liberdade o cativeiro.



Ficaram cicatrizes,

roxas de iniquidades sem perdão.

A tudo resistiram as raízes,

sempre gritando --- Não!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Setembro de 20017.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * O malmequer silvestre


CLAVE DE SUL

O malmequer silvestre







Despetalo o silvestre malmequer:

bem me quer… mal me quer…



Neste apelo ancestral de tosco rito,

tento aqui perceber

as auroras ainda por nascer

de um devir que ao presente é interdito.



Bem me quer… mal me quer…

Sem render-me, eu serei o que puder…



A que angústias me dou e me macero?

Meu será este encontro de futuro!

Mais além do que dure eu sei que duro

no plural horizonte onde me quero!



Bem me quer… mal me quer…

Só depende de mim o bem me quer!...





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Setembro de 2017.



domingo, 24 de setembro de 2017

2 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Catarse


TEMPO DE SORTILÉGIO

Catarse





Para mim,

a jornada que tento cumprir

se aproxima do fim.

Não importa que eu veja ou não veja

primaveras de vida a florir.

O que importa é que eu seja

mais um grão

que germina tenaz neste chão.

O que importa é eu ser, resoluto,

entre tantas, mais uma raiz

que se cumpra na planta, na flor e no fruto

que a criança feliz

vai um dia comer descuidada…

…e eu sossegue na paz do meu nada.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Setembro de 2017.

sábado, 9 de setembro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Fadário


O MEU RIMANCEIRO
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(QUE VIVA O CORDEL!)

*

Fadário





Sal e azar foi a comida

que existia para mim

e que depois foi mantida

na espelunca do delfim.



Depois, comi como gente,

mas foi sol de pouca dura...

E hoje não sei se sou gente

ou uma cavalgadura!



Aves, ovinos... -- que praga! --

foram mais outros azares.

De sabor a povo, a vaga

era gasosa... só ares!


E no fim da minha estrada,

quem quer por verdade, agora,

a sentença requentada

de que só mama quem chora?



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal
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(Poema da década de 80, estava no baú do esquecimento)

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A profecia

(QUE VIVA O CORDEL!)



Os profetas da desgraça

gritam a quem quer ouvi-los:

podemos ficar tranquilos,

porque teremos a graça

de alcançar o paraíso

depois do final juízo.



Profecia que é convite

à mansa resignação.

Pois que fique a mansidão

e a profecia credite

o sonhado paraíso

depois do final juízo.



Até lá, segue o desfile

da marcha do carnaval

onde o mal é natural

e é herege quem refile.

Tudo pelo paraíso

depois do final juízo.



A Justiça Punitiva

os poderosos espera.

Será sentença severa,

sem risco de recidiva,

para paz do paraíso

depois do final juízo.



Até lá, vamos na dança

de alta roda, baixa roda,

correndo e cantando a moda

“quem porfia sempre alcança”.

E que viva o paraíso

depois do final juízo!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6 de Setembro de 2017.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Memória da errância







Tentei, ah se tentei

rasgar caminhos novos na distância!

Errei, ah tanto errei

pelos caminhos velhos da árdua errância!



Sujeito definido,

de queda em queda, sempre mais ousei

e mesmo escarnecido

jamais em desencontros me enredei.



A passo e por compasso reprimido,

insistente me dei.

Na noite, sempre o dia prometido,

convicto, procurei.



E em lágrimas de júbilo saudei

o amanhecer do dia prometido!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.
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(Recuperação de um rascunho antigo)

02- TEMPO DE SORTILÉGIO * A barca da utopia





Na barca da utopia,

eu vou e tu também comigo vais.

Nos uivos da ventania,

o canto da sereia, que são ais

e perdição, naufrágio pressagia

nos longes --- mar e céu --- do nunca mais.



Deixámos na renúncia do ficar

o velho cais --- impulso de segredos

instantes a chamar.

Nas vagas alterosas gritam medos.

Dilúvios casam nuvens com o mar.



À capa, a barca enfrenta, aguenta, espera

que amaine a fúria infrene da procela.

Urgente é navegar!

Na espera que exaspera,

a rota corrigida, içada a vela,

ousemos, rumo ao porto por achar!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Setembro de 2017.

sábado, 2 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * A Cidade






Não soubemos defender,

Não pudemos defender

A cidade

E os sitiantes entraram

E a ferro e fogo tomaram

A cidade





A história dos vencedores

Sem decoro pinta a cores 

A cidade

Dos vencidos não diz nada

Mal resiste resignada

A cidade



E tu, que chegaste agora,

Sabes o que foi outrora

A cidade?

Sim, talvez nem te interesse

A negação que arrefece

A cidade





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O cordel

(QUE VIVA O CORDEL!)






Do cordel tu te sorris,

benévolo e tolerante?

Mas se não fora a raiz,

que perfume, que matiz

na flor que mais nos encante?




Por mais rústica que seja,

a teus olhos, a raiz,

qualquer planta que viceja

ou fruto que se deseja

é porque a raiz o quis.




A raiz é como um ovo:

o princípio rude e mudo

que, suando como o povo,

esforçado traz o novo

e, assim, perpetua tudo.






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Agosto de 2017.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Na roda da vida...

(QUE VIVA O CORDEL!)



Os poetas cantaram o grito

que varou o vazio sangrento.

Não morreu a raiz nem o vento

se calou num silêncio contrito.



Continua a figueira a dar fruto,

quando o tempo aprazado chegar.

Há um tempo maduro de amar:

é por ele e com ele que luto.



Em Setembro haverá as vindimas.

Quase findos os dias de Agosto…

Bem casadas de gosto e de mosto,

aprontemos as últimas rimas.



Em Novembro, as primícias do vinho,

na promessa do novo cumprida.

Vamos todos na roda da vida!

São Martinho já vem a caminho…







José Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Agosto de 2017.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA! * O sonho que morreu...





Bailava nos teus lábios de medronho

a dádiva da lenda que tu eras!

Sem condições, rendi-me à vida-sonho

de todas as sonhadas primaveras…



No verde-mar-assombro dos teus olhos

cruzei os mares todos da utopia…

Domei correntes, contornei escolhos,

cheguei ao mais além da fantasia…



No ninho dos teus braços virginais,

fui lenha, na lareira, a crepitar,

num sacrifício de alma… e tudo ardeu!



Depois, rumaste aos longes siderais…

Sem ti… sem mim… e lúgubre a pairar,

ficou a dor do sonho que morreu.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Agosto de 2017
*
(In "...e contigo eu morri nesse dia!", em preparação)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Na voragem







Ah, velho Cronos, todo o tempo é de viagem!

O tempo, em seu correr, passando vai por mim.

E eu vou com ele, queira ou não, porque se vim

foi para me encontrar na cósmica voragem.



Que causa provocou o efeito de viver?

Que sonho de aventura é este movimento?

Que importa, deslumbrado, olhar o firmamento,

se nunca poderei aos astros ascender?



Que sedução, em Maio, a brisa mitifica

para enlaçar a flor à luz do entardecer?

A mesma brisa que virá para a perder

no altar do outonecer que o Belo sacrifica.



Ah, velho Cronos, vão é ser, vão é ceder

ao teu mecanicista impulso de correr… 





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Agosto de 2017.

domingo, 20 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Cinzas





Dos confins das fatais profundezas

irromperam letais labaredas.

Que martírio de piras acesas!

Ah, Plutáo, que de nós não te apiedas!



A memória dos tempos longevos

ganha forma e semblante modernos!

É igual, desde os tempos primevos,

o pavor de na Terra os infernos.



São os autos-de-fé sem idade

repetindo os seus ritos de chamas

entre gritos de dor e piedade

na ficção do real que há nos dramas.



Que destino se cria e recria

entre as cinzas da nossa agonia?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Agosto de 2017.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * As estrelas





Não há chuva nem frio nem vento.

O fascínio da noite me chama.

Devagar, me levanto da cama. 

Seduzido me rendo ao momento.



Sem luar nem nocturnos ruídos,

o silêncio da noite me enlaça.

Sinto e sou, para além dos sentidos,

a verdade de ser que esvoaça.



E mergulho na noite, sem medos.

Nas alturas, um manto de estrelas

lucilando num cósmico rito…



Deslumbrado, desvendo segredos

de num êxtase de convencê-las

eu também me sentir infinito…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Agosto de 2017.

15 - CANTO REBELADO * Insubmissão





Nas entranhas obscuras palpita a raiz.


Indefesa, mal rompe a promessa da planta.

De tão frágil, ninguém, ao olhá-la, prediz

o destino feliz que do chão se levanta.




No mistério da vida, a ousadia acontece!

Cresce o caule, tenaz, rumo ao sol, rumo à luz!

Na severa invernia, ao relento arrefece,

desvalido entre os quais desvalidos e nus.



Vem o vento suão --- tanta sede flagela!

Céu ardente! Sequer uma nuvem promete

o milagre da chuva a cair das alturas.



Na incerteza da vida, a coragem revela

que a razão de viver não se rende ou submete

à prisão da raiz, sucumbindo às escuras!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Agosto de 2017.