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sexta-feira, 4 de maio de 2018

15 - CANTO REBELADO * Auroras boreais

(TEMPO REBELADO)

*


Auroras boreais



Para o Luiz Inácio 



Tu sabes, eles nunca toleraram 

que fosses tu o verde da esperança 

e o maduro amarelo da mudança… 

…o sonho que as hienas sufocaram. 





Mas tu herdaste o sangue da memória 

dos ofendidos todos que caíram, 

daqueles que sabiam mas não viram 

que a luta acende sóis e escreve a História. 



Com sangue e com suor se amassa o pão, 

se amassam os tijolos, se erguem casas, 

se erguem escolas, se erguem hospitais! 



Nas mãos de quem trabalha há céu e chão, 

há sonhos onde a vida ganha as asas 

de espanto das auroras boreais. 




José-Augusto de Carvalho 

Alentejo, 4 de Maio de 2018.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

15 - CANTO REBELADO * Manifesto da evasão


(CANTO REBELADO) 


Manifesto da evasão 




Nos campos ermos, onde o tempo mais parece 

alento já não ter, não sei se vou sozinho 

ou se partilho com alguém este caminho 

que desafia ousar --- que nunca desfalece… 



Não leio nos jornais notícias do futuro! 

Não vejo nas tevês imagens de albas novas 

nem na telefonia escuto as vivas trovas 

cantando a luz e a cor do dia que procuro… 



Aqui, apenas me pergunto e nada mais? 

Que inércia ou prostração no tempo que não pára? 

Que demissão de ser ou que renúncia ignara 

ferrou as velas que palpitam neste cais? 



Não quero acreditar na angústia dos meus olhos… 

Quero outra vez o mar de vento e rebeldia! 

Quero outra vez o mar de longe e de ousadia! 

Quero outra vez o mar ainda que de escolhos! 





José-Augusto de Carvalho 

Lisboa, 3 de Maio de 2018.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

15 - CANTO REBELADO * Insubmissão





Nas entranhas obscuras palpita a raiz.


Indefesa, mal rompe a promessa da planta.

De tão frágil, ninguém, ao olhá-la, prediz

o destino feliz que do chão se levanta.




No mistério da vida, a ousadia acontece!

Cresce o caule, tenaz, rumo ao sol, rumo à luz!

Na severa invernia, ao relento arrefece,

desvalido entre os quais desvalidos e nus.



Vem o vento suão --- tanta sede flagela!

Céu ardente! Sequer uma nuvem promete

o milagre da chuva a cair das alturas.



Na incerteza da vida, a coragem revela

que a razão de viver não se rende ou submete

à prisão da raiz, sucumbindo às escuras!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Agosto de 2017.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

15 - CANTO REBELADO * O interminável caminho



Para um futuro sem amos nem fronteiras



Dos longes sem memória definida,

ainda este sabor de sal e lama

nos chega das entranhas e se inflama…

...na carne viva dói tanta ferida!



Se nunca nos cruzámos nesta vida,

a mesma estrela-guia foi a chama,

foi/é a mesma luz que se derrama

na noite quase em dia convertida.



Tu foste até tombar, eu te levanto,

a ti e aos mortos todos que estão vivos,

para cantarmos juntos a manhã!



Lavremos esta terra – campo santo,

memória de caídos e cativos

e glória das auroras do amanhã!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Agosto de 2017.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

15 - CANTO REBELADO * Aqui!






Aqui, se rende ao mar a terra despojada.

Os sonhos de luar, bordados na fragrância

florida dos jardins da lenda perfumada,

sucumbem ao furor da ignara intolerância.



Do ledo murmurar das fontes, a memória

esvai-se devagar, num tempo de clausura.

Dos tempos de esplendor à mácula censória,

que triste condição ainda em nós perdura!



Que faço agora aqui com esta liberdade,

se em tudo o verbo ter supera o verbo ser?

Que sonho de evasão eu posso desta grade,

se a força do poder está no verbo ter?



Resisto e grito: não! E, ao sol deste dilema,

com sangue escrevo, letra a letra, este poema…







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Outubro de 2006.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Caminhos velhos




Por que insistes nas velhas estradas



que já sabes aonde vão dar?



Por que tanto receias ousar



rasgar novas estradas



no abandono das terras cansadas



de esperar?







José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 29 de Setembro de 2016.


domingo, 25 de setembro de 2016

15 - TEMPO REBELADO * Tempo clandestino




Para todos aqueles que se deram na luta contra o fascismo 

no rigor da clandestinidade





As ruelas de terra batida

ocultaram a minha partida.



O negrume da noite tragou-me

numa cúmplice fuga.

Uma sombra furtiva e sem nome

que do rosto uma lágrima enxuga.



Em redor, o silêncio pesado

dos malteses do medo e do espanto

e os rafeiros rosnando ao cajado

que à distância mantém o levanto.



Chego, enfim, à estrada deserta.

Doravante, o caminho é obscuro.

E assim vou, de sentidos alerta…

E assim vou esventrando o futuro…





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 18 de Março de 1997.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Do verbo








Saber!... e levo a vida a conjugar

o verbo encadeado nos seus tempos…



Confunde-me o presente afirmativo,

duma falaz jactância impertinente…



Diverte-me o pretérito insolente,

dourando as ignorâncias atrevidas…



Agrada-me o futuro na vontade,

de uma indulgência cúmplice e longínqua…



Detesto o autoritário imperativo,

explícito ordenado na desordem…

(… quando temor que baste já eu sofro

tentando conjugar em vão o verbo,)



Serei a vida inteira um aprendiz…

Benditos sejam os supostos mestres!





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 14 de Abril de 1997.
Alentejo, 23 de Setembro de 2016.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Proposição








A roda desta mentira,

que aliena e que destrói,

é verdade porque gira,

só porque gira e me dói.





Entontece-me a lonjura

tão fatal da translação

onde a luz e noite escura

são fases da rotação.





O Sol em chamas aquece,

a Lua morta reflecte,

sonhar não é proibido.





Servil, o servo obedece,

a superstição submete.

Ser em não-ser faz sentido?







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 24 de Novembro de 1994.
Alentejo, 8 de Setembro de 2016.


15 - CANTO REBELADO * Catarse (3)




Não há porto de mim por achar.

Da distância que as velas venceram

só as quilhas na areia a varar

choram naus que no mar se perderam.



A distância de mim desvendada

é de terra e de mar, é de estrelas,

é de mãos estendidas no nada

sempre e sempre querendo colhê-las.



Neste chão, neste mar há os rastros

que doridos gravaram em mim

lucilares de angústias e de astros

de procelas e névoas de fim.



E porfio e suporto o cansaço

porque eu sou o que faço e não faço.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 5 de Setembro de 1996.
Alentejo, 7 de Setembro de 2016.

sábado, 3 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Da resistência








Nesta minha correria,

correndo atrás de quem foge,

que antemanhã antever?



Para mim, o tempo é hoje!

Sempre ser o mesmo dia…

angústia de o merecer.



Se recuso obediência

aos tempos que o tempo quer

é por sempre estar aqui!



Rebelde na resistência,

faça a força o que fizer…

não me perderá de ti!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Julho de 2002.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

15 - CANTO REBELADO * Naqueles tempos incertos...



Na esteira de Brecht...


Naqueles tempos incertos,

vieram as grandes fomes,

agudizando a paixão

de séculos de calvário.



As notícias que chegavam

traziam de longe o sangue

e os escombros amassados

de dor, metralha e desgraça.



Para cá dos Pirenéus,

a mordaça dos tiranos

impunha o silêncio e a paz

de grades e cemitérios.



A cobiça dos senhores

alardeava as vitórias

de assassinos e verdugos

de um império de mil anos.



E o medo gerava o medo…

E os passos da delação

silenciavam as bocas

uivantes dos deserdados.



Daqueles tempos incertos

há ainda os estertores…

Quem não viveu esses tempos

mantenha-se em guarda e evite

perversas ressurreições.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 2 de Setembro de 1996.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Manifesto






Escrevo como quem abraça a Terra inteira,

assim, do Norte ao Sul, do Leste ao Ocidente...

Meus versos não são meus, serão de toda a gente

que, por amar Orfeu, talvez também me queira...



Não quero para mim apreço singular.

Um entre todos sou, no ser pluralidade.

Em campo raso ou, por desgraça, atrás da grade,

de peito aberto, a luz da vida hei-de cantar.



De pé, enfrento sempre a lama que me agride.

Nos lábios, um esgar, e de ansiedade apenas,

diverso no respeito enorme, nas arenas,

ao sol do meu ardor, em perigosa lide....



Se canto a liberdade ainda por haver

é porque a sinto, em mim, sonhada, acontecer...







José-Augusto de Carvalho 
8 de Agosto de 2004.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

15 CANTO REBELADO * Ao frio...




Para os meus Amigos 

João Andrade da Silva e Serafim Pinheiro, Capitães de Abril!






Só, inerme e desnudo.

A seus pés, os farrapos inúteis.

Só, o ser por escudo

e o sarcasmo dos fúteis.




Ah, que importa

o silêncio que esta hora ensurdece!

O sincelo,

que nos ramos baloiça, entretece

a aguarela que mora

no rubor do anelo

que em Abril reverdece.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2015.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

15 - CANTO REBELADO * Estes dias...





Os dias acontecem devagar,

ao ritmo do relógio que inventámos.

Em Maio vem o tempo de ceifar

o trigo que em Novembro não semeámos.


O ciclo natural do nosso pão,

alheio à míngua em dor da nossa mesa.

Ah, pátria minha, tanta provação

e tantos horizontes de incerteza!


Um rictus quase obsceno e vil enruga

a massa levedada que nos fita.

No velho cais, em lágrimas, a fuga

acena a rendição desta desdita...


Que dias estes que não reconheço!

Serão não-dias --- dias do avesso?...




José-Augusto de Carvalho
5 de Janeiro de 2012.
Viana * Évora * Portugal

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

15 - CANTO REBELADO * Opção





Nunca quis

a utopia

da raiz

que morria.



Quero o ser

que palpita

e acredita

que há-de ser.



Quero ser,

no sujeito

resoluto,



o nascer

do direito

absoluto.



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Dezembro de 1994.

15 - CANTO REBELADO * Ao Paço!







Sineiro deste burgo sem burgueses,

que esperas, que não tocas a rebate?

Talvez o bronze acorde alguns malteses

que uma salada sirvam de tomate.


Que temes tu, sineiro, que vacilas

nas horas em que mais é proibido

o vacilar, nas horas intranquilas,

em que a nós todos tudo é exigido?


Apressa-te, sineiro! O sino é nosso!

Ou vais ou outro vai em teu lugar

chamar as gentes todas ao terreiro!


Ainda que já velho, até eu posso

correr ao campanário p’ra puxar

a corda e sufocar mais um andeiro!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Outubro de 2015.

domingo, 3 de maio de 2015

15 - CANTO REBELADO * Esta luta!





Inteiro, nesta luta sem quartel,

a luta que encontrei e deixarei...

Esculpo, na ternura do cinzel,

o rosto que entrevi e não verei.



O rosto de um menino que caminha.

E traz em cada mão um sol de Agosto.

Dois sóis iguais ao sol que doura a vinha.

Nos lábios, seu sorriso sabe a mosto.



Encanta-me o milagre que desvendo

nas asas desta brisa que me afaga

numa carícia morna de cetim...



Na força desta luta, num crescendo,

diviso a maré viva onde naufraga

o tudo que na luta dei de mim.





José-Augusto de Carvalho
2 de Maio de 2005.
Viana*Évora*Portugal

sábado, 28 de março de 2015

15 - CANTO REBELADO * Rimance de um homem aflito







Vivi os tempos escuros,

quando as palavras proscritas

amanheciam nos muros

as verdades interditas.



Vivi os tempos parados,

quando o medo proibia

os alvores incendiados

da manhã que amanhecia.



Vivi os tempos cinzentos,

monotonia incolor

negando aos olhos sedentos

caleidoscópios de cor.



Vivi os tempos sem horas

dos relógios sem ponteiros

eternizando em demoras

o poder dos carcereiros.



Vivi a aurora vestida

de pétalas carmesim

e acreditei que era a Vida

que sorria para mim.



Vivi depois o desgosto

de me darem a beber

vinagre que não o mosto

que a aurora dizia ser.



E vivi o despertar,

que sempre o sonho envenena,

de armas na mão, a gritar

que o sonho não vale a pena.



Fiquei incrédulo e aflito

com semelhante dislate!

Este sonho em que acredito

adia-se, mas não se abate.





José-Augusto de Carvalho
28 de Março de 2015
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 25 de março de 2015

15 -CANTO REBELADO * A Praça do Desplante







A Praça do Desplante está vazia.

Apenas o cansaço do pregão

do velho cauteleiro que porfia

na venda da miragem da evasão.




Quem passa afasta a sorte com um gesto.

O gesto de quem diz não vale a pena.

E o velho aceita o não sem um protesto

ou um esgar de continência obscena.




E vai, por entre as sombras, à deriva,

oferecendo a sorte, no vazio

sonâmbulo da Praça do Desplante.




Mas ninguém quer a grande, a grande esquiva!

E as sombras, num instante corrupio,

aguardam que outro Dante as veja e cante...







José-Augusto de Carvalho
31 de Julho de 2008.
Viana * Évora * Portugal