quarta-feira, 26 de agosto de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * O sinal






O sinal implacável chegou. 

Quando a luz se apagou, 

o regresso do caos percebi. 

Apesar do negrume, entrevi 

a corrente do rio, ausente, a deslizar 

rumo ao mar. 

O silêncio absoluto 

e sem paz das alturas, 

às escuras, 

parecia vestido de luto 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Agosto de 2015. 

domingo, 23 de agosto de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Meu Alentejo





No tempo da palavra, os versos são papoilas

que alindam mais ainda os lábios das moçoilas.



A força da palavra inteira que te canta

no tempo feminino, 

no tempo masculino

que vivo se levanta!



No tempo da palavra, o grito que desperta

o dia, à hora certa! 



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Agosto de 2015.

sábado, 22 de agosto de 2015

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Tormento


Como se fosse uma obsessão, assalta-me a dúvida: terá valido a pena tanta entrega? O Passado volta, agora, com insistência. Regresso à década de quarenta; regresso à década de cinquenta; regresso à década de sessenta. Foram tempos de desespero e de esperança no Futuro. Aquele Presente resistia e nele germinava o Futuro. Para todos, era inquestionável o fim do desespero que se vivia. E resistia-se; e morria-se para que os demais conhecessem o Futuro. Conheci muitos que me diziam: talvez eu não veja, mas tu verás! Um deles, um tipógrafo de assinalável cultura obtida nos muitos textos que compunha de escritores e poetas e ensaístas. Tuberculizara na prisão e a sua vida estava por um fio que teimou em resistir mais do que os médicos previam. Deixou-nos nos meados da década de sessenta, mas deixou também uma saudade imensa em quantos o conheceram, o estimaram, o admiraram.

Em Portugal, o Estado Novo implantara-se em 1933, tal como o Nacional-socialismo, na Alemanha. Em Julho de 1936, a tragédia começava na Espanha Republicana e o seu Governo Popular, legitimado em eleições livres, foi questionado por uma minoria rebelde, mas apoiada pela Itália fascista e pela Alemanha nazi; as Democracias europeias ficaram olhando como se nada fosse. Em Março de 1939, a Espanha Republicana sucumbia. O celebrado grito de Dolores Ibarruri, La Pasionaria, «No pasarán», era sufocado pelas forças alemãs e italianas. Vencera a fórmula desgraçadamente célebre: «Abaixo a inteligência! Viva a morte!» O grande poeta Federico Garcia Lorca era executado nos arredores da sua amada Granada, em Agosto de 1936. A última geração romântica, como ficou conhecida, acorreu a Espanha, em defesa da legitimidade democrática. Muitos e muitos das celebradas Brigadas Internacionais deram as suas vidas, derramaram o seu sangue pelo martirizado povo de Espanha. Acreditaram no Futuro, que não veio; acreditaram nas democracias europeias e americanas, mas em vão. O Futuro não veio e as Democracias tinham mais que fazer do que preocupar-se com o destino do povo de Espanha.

Quem ler «Por quem os sinos dobram», de Hemingway; «Homenagem à Catalunha», de Orwell; «Os grandes cemitérios sob a lua», de Bernanos; «A Esperança», de Malraux... e muitos outros textos de autores que viram claramente vista a tragédia, in loco, poderá perceber muito do que aconteceu.

Nasci durante a Guerra dita Civil de Espanha; cresci ouvindo falar nesses horrores e nos horrores piores ainda, estes a partir de 1 de Setembro de 1939, quando Hitler iniciava a carnificina que foi a II Grande Guerra (1939-1945).

Apesar de todas as tragédias, os povos tinham esperança e acreditavam no Futuro! Extraordinário! Por cá, foi o Tarrafal, foi a perseguição, foi a fome, foi a emigração, foi a Guerra Colonial... outro calvário! Um dia, os cravos floriram e todos sonhámos! Outro dia, os cravos murcharam em nome da democracia e todos perdemos. E hoje? Por onde anda a Esperança? E que Futuro germina nos nossos peitos? Olhemos em derredor e contemos pelos dedos os povos que se consideram felizes e os povos que têm esperança num Futuro de felicidade!

Este meu texto nada mais pretende do que partilhar a desesperança e apontar estes tempos em negação. Não me demito nem me rendo. Nunca o fiz e não será agora, quase aos oitenta anos, que irei corar de vergonha. E deixo este desejo que me foi transmitido: Muitos verão o fim da tragédia e o alvorecer da dignidade! Eu não terei essa felicidade, o meu tempo está a esgotar-se.

Cordiais saudações.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Agosto de 2015.

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família


                               
             
                                   José-Augusto de Carvalho e Duze Pereira de Carvalho
                            A criança é o sobrinho Alberto Augusto, então com 2 anos de idade                          
Caneças, 1960.

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família


José-Augusto de Carvalho, 1960, Odivelas

domingo, 16 de agosto de 2015

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família


Dois momentos de ternura:
Duze Pereira de Carvalho e uma menina que não consigo identificar neste momento-


30 - ...E CONTIGO MORRI NESSE DIA * Desgosto




Muerte de Ophelia (Hamlet)



Frias, frias, de agreste invernia

são as mãos da ternura

repousando a brancura

da pureza nesta hora tão fria.



Orvalhadas, as pétalas choram.

Choram pérolas belas e mansas

onde moram

as saudades das tranças

e a verdade que fomos um dia

e morreu quando tu me morrias...

...e contigo eu morri nesse dia.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Agosto de 2015.

sábado, 15 de agosto de 2015

28 - CLAVE DE SUL * O Cais



Para Maria Eugénio



Quando cheguei, o cais estava em festa.

O sol já deslumbrava ao meio-dia!

Nos campos calmos, uma paz honesta

que tudo envolve e mansa acaricia.



Esperavam por mim! Que terno abraço!

Que bom, na Vida, é sermos esperados!

Havia na corrente mais um laço!

Um laço entre outros laços apertados.



Cumpria-se a parábola dos vimes,

saber acumulado dos antigos...

Oh, Torre de Marfim, por mais que rimes,

rimar não sabes nuvens com castigos!...



Só este cais que tanto sofre e canta

cada manhã acorda e o sol levanta!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Agosto de 2015.




quinta-feira, 13 de agosto de 2015

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Os olhos do dono...


«Os olhos do dono engordam o cavalo», aforismo que me chegou, na minha já distante adolescência, como de proveniência árabe, continua válido no seu real contexto e em muitos outros contextos.

Delegar competências é uma responsabilidade comum nos tempos actuais, comum e arriscada como muito bem se comprova no dia-a-dia.

Há afirmações do delegante distante da realidade, estas só possíveis porque o delegado «viu o cavalo» com «olhos» seguramente diferentes dos «olhos do dono do cavalo».

E estas situações nem sempre revelarão incúria do delegado, mas, apenas, uma percepção diversa ou relativizante da realidade.

Abordar esta questão é desagradável tal como será desagradável ler sobre ela. Efectivamente, constrange colocar alguém em xeque, talvez tanto como alguém que é colocado em xeque.

Pese embora, e muito, quanto antecede, é indubitável o imperativo que nos obriga a dizer que «o rei vai nu». Se o erro não for detectado, não mais será corrigido. E ninguém desejará viver no erro só porque constrange apontá-lo.

Hoje, é este registo que deixo à reflexão.

Saudações.


José-Augusto de Carvalho


Alentejo, 13 de Agosto de 2015.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

29 - ACÇÃO LITERÁRIA E CÍVICA * Fotos e Textos (Estremoz)

Na apresentação do livro «Pátria Transtagana» * Estremoz, 11 de Dezembro de 2014.

*
Rosa Barros, Professora de Filosofia do Ensino Secundário e Bibliotecária 
do Agrupamento de Escolas de Viana do Alentejo, na Escola Rainha Santa Isabel, 
Estremoz, aquando da apresentação do livro «Pátria Transtagana».
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Na foto, da esquerda para a direita: O Capitão de Abril Coronel João Andrade da Silva, 
autor do prefácio; José-Augusto de Carvalho; Professora Rosa Barros; 
Professora Doutora Maria do Céu Pires, autora do posfácio.

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Na intervenção de José-Augusto de Carvalho

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Na intervenção do Capitão de Abril Coronel João Andrade da Silva

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A assistência, na maioria alunos.

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Dialogando eu e a Professora Doutora Maria do Céu Pires

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Eu e a Professora (Bibliotecária) Cláudia Marçal comentando 
o livro «Pátria Transtagana», depois da apresentação.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Mi Palomita!






Palomita, Palomita,

por que eres tú tan bonita?



Palomita, novia mia,

alas blancas de alabanza,

milagros de dulce danza,

embrujos de Andalucía



Adonde vas en tu vuelo,

en cielos de maravillas,

si me dejas de rodillas,

llorando acá en el suelo?



Palomita, no te vayas

en tus vuelos de ilusión!

Palomita, no te vayas,

que matas mi corazón!


*
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Julho de 2015.
*
Com a preciosa revisão linguística de Nora Arias Alarcò,
querida Amiga argentina, de Buenos Aires.

sábado, 1 de agosto de 2015

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família


Eu, Duze Pereira de Carvalho e o Fiel, 1963, arredores de Lisboa.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A fadiga e os princípios



Os anos que já vivi, os desgostos que carrego e o rosário de frustrações sociais que desfio (desfiamos?) causam-me uma fadiga difícil de suportar e mais difícil de debelar.


Dos anos, dos desgostos, das frustrações sociais não poderei mais livrar-me --- são parte integrante do meu percurso. Não poderei viver uma outra primavera e as perdas que sofri e provocaram os meus desgostos são irreparáveis. Quanto às frustrações sociais, será diferente porque aconteceram independentemente da minha vontade e nada nem ninguém poderá garantir-me que não se altere o concerto que as determinou. Se depois da tempestade vem a bonança, haja esperança!, que, segundo dizem, é a última a morrer. E não confundo aqui optimismo com esperança.

Na minha idade, posso dizer estar cansado já de esperar, tantas têm sido as frustrações sociais, mas concedo esta minha «fé» no ditado popular –- depois da tempestade vem a bonança. Que chegue a tempo!

O concerto das frustrações sociais decorre, muitas vezes, de acções e atitudes que muito ficaram a dever à postergação dos princípios particulares e gerais eticamente consagrados e reclamados pelo cidadania.

Nunca interesses materiais ou outros determinaram a minha entrega à cidadania. Para mim, a participação cívica é um imperativo. Outras vontades e outros concertos determinaram o meu afastamento. E esta minha postura não é exemplar único. Muitos se afastaram quando tiveram de afrontar essas vontades e esses concertos. A recusa é uma opção. Cidadão que sou, recusei caminhos que nunca foram os meus, que nunca serão os meus. Hoje, estou onde sempre estive. Afastado? Não, não estou afastado. Quando me chamarem os caminhos que sempre percorri, eu direi «presente!» Aos outros, direi sempre a famosa recusa, ainda que noutro contexto, do Poeta José Régio: «Eu não vou por aí!»

*
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Julho de 2015.