quinta-feira, 25 de junho de 2015

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A reflexão indispensável






Só as chamadas forças naturais têm poder para condicionar-nos. E algumas destas poderemos evitá-las ou enfrentá-las com maior ou menor êxito, assim haja engenho para amenizar os seus efeitos danosos; perante outras, teremos de suportá-las e tentar aprender como minorar os seus efeitos quase sempre devastadores.

Reconhecido o poder das forças da natureza, as demais forças ditas humanas ou sociais dependem do Homem. Como sabemos, o Homem tanto constrói uma cidade no deserto como desertifica uma região pujante de vida. 

Interesses particulares ou de grupo levam o Homem a dar razão a quem já o qualificou de lobo do Homem. Aliás, qualquer manual de História evidencia a dolorosa caminhada da Humanidade, no qual avultam as misérias e rareiam momentos de grandeza.

Ora estas tantas misérias e tão raras grandezas tanto ocorrem nos países como em cidades, vilas ou aldeias.

Aos povos incumbe criar condições (ou adequar experiências existentes, contemporâneas ou anteriores) conducentes à obtenção de resultados benéficos à sua condição e ao seu viver quotidiano. Afinal, o objectivo do Homem é viver em dignidade. Só que esse objectivo mais e mais se assemelha ao horizonte --- sempre à nossa frente, nunca ao nosso alcance.

Qualquer cidadão, inclusive o mais incauto, percebeu há muito que os povos são governados deficientemente, quer porque valores inaceitáveis tal determinam, quer porque os governantes revelam uma impreparação mais ou menos visível para os cargos que desempenham. Como dizia um velho amigo, já desaparecido: «Ser bom rapaz é um bom princípio, mas não passa disso e não chega.»

Há nas pessoas um azedume constante. Ouvimos queixas e lamentações, ouvimos criticas e acusações. Claro que haverá sempre insatisfação. Evidentemente que esta situação revela uma consciência crítica deficiente. E o motivo do que digo radica nesta outra situação: ninguém se considera co-responsável por tudo quanto critica. Ora num Estado de Direito os cidadãos são os primeiros responsáveis pelos governantes que têm. O acto de votar é determinante e responsabiliza seriamente o eleitor. Votar é escolher; logo, quem vota escolhe e se escolhe mal fica mal servido, naturalmente. 

Vivemos há quarenta anos em democracia. Não é mais aceitável a desculpa da impreparação ou do desconhecimento.

Hoje, temos o Presidente da República que a maioria escolheu; temos o Parlamento que a maioria escolheu; temos o Governo que a maioria escolheu; temos o Poder Local que a maioria escolheu. Tal qual!

Se temos tudo quanto a maioria escolheu, é uma falácia querermos ficar de fora. Assumamos o erro da péssima escolha em que incorremos há quarenta anos; e continuemos a caminhada para o abismo ou assumamos a ruptura definitiva com quem tão mal desempenha os cargos que entregámos com os nossos votos.

Há quarenta e um anos, vitoriámos os militares que nos libertaram da opressão; desde há quarenta anos, vimos votando maioritariamente em quem nos trouxe até aqui. Afinal, estávamos errados quando vitoriámos os militares ou estamos errados desde que vimos votando?

Será que ainda não percebemos que o 25 de Abril de 1974 (e com este dia inesquecível a Revolução dos Cravos) foi desfigurado em 25 de Novembro de 1975?

Será que ainda não percebemos que não vivemos Abril mas sim Novembro há quase quarenta anos?


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Junho de 2015.

terça-feira, 23 de junho de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Os nossos deuses






Ah, meu amor, os deuses que inventámos

longe moram.

Ficámos sós nas horas da carência,

nas horas em que só um deus teria

poder para valer-nos.



Ah, que indigência triste, meu amor!

Foi quando mais pediste

que nada recebeste!

E tão pouco pedias!

E nesse instante frio de invernia,

tão fria como a pedra do altar

em que tu crias,

ficaste fria, para sempre fria.



Ah, meu amor,

talvez tenham morrido antes de nós

os deuses que inventámos!



Ah, meu amor, talvez sejamos nós

os deuses que quisemos

e não pudemos!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo,19.6.2015

domingo, 21 de junho de 2015

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Na esteira de Holderlin







































(Primeira versão)


1

Quando eu canto a beleza da ternura

dum maternal sorriso...

Quando eu canto o perfume da manhã

nas pétalas da flor...

Quando eu canto a suave melodia

do arroio cristalino...

Quando eu canto

o sol que se deslumbra nos meus olhos...

Quando eu canto a chorar

a prisão já perdida dos teus braços...

em mim superlativo a inocência.



2

Quando eu recuso

as trapaças melífluas dos cambistas...

Quando eu contesto

as negaças fatais dos vendilhões...

Quando eu empunho

a força da razão contra a razão da força...

Quando eu não cedo

às oferendas áureas da traição...

Quando eu prefiro

tombar à ignomínia de negar-me...

eu assumo o mais perigoso bem,

o do verbo dizendo-me quem sou.



3

Rasguei muitas estradas

e em todas procurei o rumo certo...

Aos ombros carreguei

os fados por aspérrimas ladeiras...

Olhando o céu,

só astros vi no longe inacessível...

Nos ecos que supus

chegavam-me os clamores doutros eus...

e ouvindo os outros

eu percebi que não estava só...



4

A verdade de nós

é que nem tudo passa nesta vida...

A verdade de nós

é que da morte irrompe sempre a vida...

A verdade de nós é a raiz

do alento novo em cada primavera...

A verdade de nós

é que na vida efémera que somos

o grito dos poetas permanece.



5

Na angústia do passar

o verbo reverdece todas as manhãs

no esplendor da Poesia.

*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Junho de 2015.

terça-feira, 16 de junho de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Apelo






Dá-me um sinal,

que seja apenas um suspiro enternecendo,

vago,

a noite da vigília...

Talvez o sono venha

e eu sonhe no enleio dos teus braços

que me queres levar...

e eu quero que me leves

para não despertar

e perder-te outra vez.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17.6.2015

segunda-feira, 15 de junho de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Na amargura da espera



À memória de Casquinha e Caravela
assassinados no Escoural, 27/9/1979.




Quando a memória morre, a culpa é sempre nossa!

Quando o silêncio mata, a culpa é sempre nossa!

Ai, quantos mais terão ainda de cair

para que, neste chão, ao sol primaveril

que tudo em luz remoça,

irrompam a florir

rubros cravos de Abril?


*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Junho de 2015.

domingo, 14 de junho de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Interrogação





O Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu…





Os olhos semicerro à tremulina.

Que luz intensa! Cega a claridade!

Doída, a terra sonha-se e germina

a boa nova --- entranhas da verdade.



Atento, na vigília, o mundo antigo,

indaga até no vento que uiva rijo.

Que força tem um frágil grão de trigo

sonhando ser no seu esconderijo?



Amodorrado, o tempo das demoras

na pasmaceira espessa do abandono.

Nem o relógio marca já as horas.



Se há mantos de papoilas nos adis

sedentos dos teus lábios, por que o sono

te nega os êxtases primaveris?



*
Recuperando textos antigos
*
José-Augusto de Carvalho
13 de Junho de 2015.
Alentejo * Portugal