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quarta-feira, 14 de agosto de 2019

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O afã da procura



TEMPO DE SORTILÉGIO

.

O afã da procura 






Caminheiro tenaz, perpétuo movimento, 

eu vou e, aqui e além, desvendo e me desvendo. 

Que bom, mesmo que doa angústia ou sofrimento, 

se, a cada instante, for o ser que esteja sendo! 



Que eu saiba recusar a inércia sufocante 

que quer empedernir a lava do vulcão 

e seja, em cada transe, o alor determinante 

da rútila manhã duma revelação! 



E que no fim da minha efémera jornada, 

regresse ao nada, sem remorso nem censura, 

porque rasguei em cada aclive a minha estrada 

e me cumpri no afã instante da procura… 



De herança, apenas deixo esta inquietação 

da lava onde não morre o fogo do vulcão. 





José-Augusto de Carvalho 
13 de Agosto de 2019. 
Alentejo*Portugal 

sexta-feira, 21 de junho de 2019

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Traço de união


TEMPO DE SORTILÉGIO 

Traço de união 





Escavo os subterrâneos da ausência 

em busca de vestígios e de escombros 

que jazem nos covais da decadência, 

ornados de mistérios e de assombros… 



Ossadas que me dizem ser o nada 

que resta do que foi vivido outrora… 

Memória sem memória, abandonada, 

e que nenhuma lágrima hoje chora… 



Escavo e não encontro nem um grito, 

um eco de algum ai aqui que diga 

eu sou de ti, ainda que proscrito, 

a génese perdida, a mais antiga… 



E não me deves nada, nem a prece 

que no recolhimento se murmura… 

Em ti, apenas, sou quem permanece, 

quem vai contigo, quem contigo dura… 



Agora que de mim não há mais nada, 

pára de procurar --- já tudo viste. 

E cumpre-te semente germinada, 

que tudo o que já foi em ti existe… 



Atónito, descubro que Sibila 

me trouxe a mítica revelação: 

que nem a morte que nos aniquila, 

destrói o nosso traço de união. 




José-Augusto de Carvalho 
19 de Junho de 2019. 
Alentejo * Portugal

sábado, 26 de janeiro de 2019

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O encontro


TEMPO DE SORTILÉGIO

*

O encontro 



Este texto, agora terminado, corresponde a uma promessa incumprida 
que fiz a Lizete Abrahão, em Porto Alegre, na primavera de 2002. 
Que me valha o conforto de a Lizete ter lido grande parte dele. 




No silêncio, adormece o sossego. 

O deserto parece assombrado. 

O meu branco albornoz aconchego 

e caminho no tempo parado. 



É de pedras o solo que piso. 

Pedras soltas, dispersas, vadias… 

Uma sombra, e tão mal a diviso, 

me garante que não há vigias. 



Nem sinal de uma entrada na gruta. 

É enorme o lendário rochedo! 

Meu olhar, sob a noite, perscruta. 

Sinto o frio suado do medo. 



Frente a frente, o Passado e o Presente. 

Balbucio as palavras da senha 

e, ante mim, a surgir, de repente, 

a verdade que a lenda desenha. 



Devagar, passo a passo, franqueio 

o portal que se abriu por encanto. 

Circunvago o olhar, sem receio, 

e respiro um Passado de espanto. 



Das pegadas de Ali nem vestígio. 

Das riquezas da lenda nem rastro. 

Entre o ser e o não-ser, o litígio 

da firmeza do vento e do mastro. 



E contrárias as forças serão 

das firmezas do mastro e do vento, 

quando a vela se enfuna evasão 

e nas ondas se vai movimento? 



E se falo de mar, o Simbad, 

da penumbra do tempo lendário, 

vem velar, nos jardins de Bagdad, 

o estertor do ladrão sanguinário. 



Mas eu quero bem junto de mim, 

neste transe de angústia e de espera, 

a lanterna que foi de Aladim, 

inventando no caos a quimera. 



Lá do fundo da gruta, o ruído 

se aproxima de uns passos seguros… 

Não é sonho, é alguém decidido 

que regressa aos instantes futuros. 



Aproxima-se um velho de mim. 

Traz nas mãos a lanterna apagada. 

Reconheço o lendário Aladim 

no seu rosto de barba nevada. 



Com um gesto me manda sentar 

nas areias ocultas da gruta. 

Só um raio de níveo luar 

nos observa em silêncio de escuta. 



Quando o velho me fala, estremeço: 

--- Alá seja contigo, meu filho! 

Do Passado que sou reconheço, 

no Presente que fores, o trilho. 



Quando intento a resposta, num gesto 

me remete ao silêncio. Obedeço. 

E prossegue num claro requesto 

de uma angústia em que me reconheço: 





--- Na magia sem tempo da vida, 

são um só o Passado e o Presente. 

Somos ambos, na espera sofrida, 

o caminho de nós, livremente. 



O murmúrio do Tigre se expande 

pelas terras do Fértil Crescente. 

E não há quem o cale ou lhe mande 

suspender ou mudar a corrente. 



Nestas terras de sonhos e lendas, 

sob um céu polvilhado de estrelas, 

há milénios que erguemos as tendas 

na ilusão de senti-las e tê-las. 



Neste berço nasceu Abrahão, 

que foi pai de Ismael e de Isaque… 

Novas hordas de hodierna agressão 

nos flagelam em bárbaro ataque. 



É o Inferno de portas abertas. 

Jorra o sangue na fúria ululante, 

desenhando as auroras incertas 

neste céu cada vez mais distante. 



Talvez seja a sentença já vista 

do martírio em Sodoma e Gomorra: 

p’ra que a vida na graça persista 

é preciso que a mácula morra! 



Sem palavras, no tempo medito: 

no que fomos, no quanto sonhámos… 

E pergunto-me, incrédulo e aflito: 

onde foi que nós todos errámos? 



Aladim, em silêncio, se afasta. 

Lá vai ele, lanterna na mão. 

Só, na dúvida que me desgasta, 

sinto a dor que devasta o meu chão. 




José-Augusto de Carvalho 
Porto Alegre, Primavera de 2002 
Alentejo, Janeiro de 2019.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O elogio do poeta


TEMPO DE SORTILÉGIO 


O elogio do poeta 




Poeta sem diploma que te valha 

nem estatuto que te recomende 

na feira franca do consumo espalha: 

um verso não se compra nem se vende. 



Que a tua voz ressoe como um grito 

e assombre ou incendeie a multidão: 

um verso nunca pode ser maldito 

se nele fala livre um coração. 



Rebelde, o verso nunca se conforma 

com o silêncio inerte da mortalha. 

Se amante, faz da vida a sua norma, 

que tão-somente o puro Amor lhe valha! 



E o verso seja enleio enamorado, 

quando, pela tardinha, o sol declina, 

ou seja, ao meio-dia, um sol irado, 

quando inclemente cega a tremulina… 



Ou seja, no fulgor da rebeldia, 

a mesa, que sem pão, protesta -- basta! 

Ou seja o rio, em louca correria, 

que além das margens cresce e tudo arrasta!… 



Que um verso seja um verso além da rima! 

Que além do metro e ritmo, seja tudo! 

Importa que o poeta se redima… 

…e a redimir-se nunca fique mudo! 





José-Augusto de Carvalho 
9 de Janeiro de 2019. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Na queda


TEMPO DE SORTILÉGIO 


Na queda 





Sem rede ou outra protecção --- a queda! 

No circo, o povo aplaude, delirante! 

O pão e o circo, em Roma, por bastante! 

A negação por si mesma leveda! 



Com Ceres, haja pão, vindima e vinho! 

Com Baco, venha, trágico, o delírio! 

Com César, haja arenas de martírio! 

Que a perdição se cumpra por caminho! 



Saturno, indiferente, o tempo mede. 

O livre arbítrio é doutra dimensão 

e condição, parcela doutra soma… 



O bárbaro não pode e fraco cede… 

Sem tempo, arenas, circo, vinho e pão 

o império glorificam --- Viva Roma! 







José-Augusto de Carvalho 
2 de Janeiro de 2019. 
Alentejo * Portugal 

domingo, 30 de dezembro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O jogo


TEMPO DE SORTILÉGIO 


O jogo 





Que vivas as certezas que te deste, 

no espaço e neste tempo que é o teu! 

Efémero é o tempo que me veste, 

o tempo que só dúvidas me deu. 



Certezas tenho duas, que não mais! 

Sei que nasci e sei que vou morrer. 

No meu percurso, enxergo alguns sinais: 

quais devo preterir ou escolher? 



Um jogo que é de azar me deu a vida. 

O acaso que é dos dados desconheço. 

Não tenho alternativa na partida: 

dependo do que for cada arremesso. 



Na sorte arrisco tudo --- ou ganho ou perco… 

Que existe além da angústia deste cerco? 





José-Augusto de Carvalho 
30 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

02 -TEMPO DE SORTILÉGIO * Tanto me tardas!...


TEMPO DE SORTILÉGIO 


Tanto me tardas!... 





Tanto me tardas --- e tão longe moras! 

Olho o relógio --- lentos, os ponteiros… 

Mais me parecem séculos as horas! 



Na noite dos silêncios carcereiros, 

uivam os cães a dor da solidão, 

alheios a relógios e ponteiros… 



E tu me tardas tanto na ilusão 

de nos sonharmos vivos outra vez, 

aquém e além da nossa perdição… 



Não tardes mais --- será que tu não vês, 

dos longes onde moras, 

que os séculos das horas 

nos perdem… e de vez? 





José-Augusto de Carvalho 
25 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

sábado, 22 de dezembro de 2018

02 -TEMPO DE SORTILÉGIO * Uma partícula de céu


(Tempo de Sortilégio) 


Uma partícula de céu 







Azul é cor de céu, variam os matizes, 

num jogo que é de luz – que singular talento! 

A tarde está no fim -- é quando tu me dizes: 

será que Deus existe e nele aqui me invento? 



E neste arroubo, és tu, tão solta das raízes 

deste materno chão, no cósmico momento 

ganhando a dimensão que inventes e que irises 

do indivisível todo – enigma e envolvimento… 



Nem quando o vento arrasta as nuvens mais cinzentas 

e o todo sobre nós é um espesso véu 

de raios e trovões, tumultos e tormentas, 



tu deixarás de ser, além do espesso véu, 

um pedacinho azul do eterno que acalentas, 

partícula do todo -- enigma deste céu! 





José-Augusto de Carvalho 
21 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Representação


TEMPO DE SORTILÉGIO
.
Representação 




O tempo está mudado, meu amor. 

Olha, começa a representação: 

ao céu azul o chumbo rouba a cor, 

sem luz já se angustia o coração. 



As nuvens se acastelam, uiva o vento; 

não tarda já horríssono o trovão; 

não tarda já o látego sedento 

e em fogo as piras da devastação. 



Estamos nós aquém - além da cena 

ou seremos também no palco actores? 

Quem contigo ou comigo contracena 

o Bem e o Mal --- a preto e branco e a cores? 



A fuga é impossível, meu amor! 

O Tudo e o Nada aqui representamos. 

O que tiver de ser, seja o que for, 

vai depender do quanto aqui nos damos. 



E a queda, se ocorrer, que se redima 

na força da semente que carrega… 

que possa ser ou seja o verso e a rima 

do amor que não se rende nem se nega. 



José-Augusto de Carvalho 
14 de Novembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O lumaréu!


(TEMPO DE SORTILÉGIO) 

O lumaréu! 









A Leste, um deslumbrante lumaréu 

sacralizando a fronte da manhã! 

Que lindo, assim rosado, fica o Céu! 

Sinto o sabor maduro de romã! 



O Paraíso existe mesmo, sim! 

É este desafio de infinito 

que vejo aqui olhando para mim, 

é este céu que fascinado fito. 



Nem Eva nem Adão eu descortino, 

que nesta dimensão não cabe o mito. 

Aqui só sinto e vejo e me alucino 

com estes horizontes de infinito! 



Rastejam por aqui serpentes várias… 

Nos ramos, baloiçantes, há maçãs… 

Que importa? Eu louvo e canto em minhas árias 

a luz e a cor de todas as manhãs. 



Ah, que ninguém apague o lucilar 

dos astros e o carmim do amanhecer! 

Que eu sinta no meu peito a palpitar, 

agora e sempre, o dia por nascer!... 





José-Augusto de Carvalho 
16 de Agosto de 2018. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 20 de junho de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Meus versos



(Ícaro, Chagall)


Pediste-me um poema original

como se eu fosse um mago jardineiro

cuidando com desvelo, num canteiro,

de raro e fascinante roseiral.


Quem dera eu fosse o mágico poeta

que em rosas as palavras transfigura!

Vermelhas rosas ébrias da ternura

que dissimula uma paixão secreta.


Dos deuses enjeitado, como ousar

as siderais alturas onde os astros

são círios a velar ainda Orfeu?


Perdidos neste chão de malmedrar,

meus versos são efémeros os rastros

de quem não teve a graça de voar...



José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2018.
Alentejo * Portugal



domingo, 29 de abril de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O trágico delírio


(TEMPO DE SORTILÉGIO) 


O trágico delírio 


Pintura que descreve o momento em que
a cavalaria portuguesa é cercada e envolvida 
pelas forças muçulmanas. 





Antiga, jaz a terra despojada. 

O Sol em chamas --- arde o céu azul! 

Dói em minh’alma ainda angustiada 

o fascínio do Sul. 



Que ceptros, que linhagens, que deidades 

caminhos de desterro determinam? 

Que feiras de opulências e vaidades 

amanhãs exterminam? 



Calaste a voz do Velho do Restelo 

que no poema grita ainda viva. 

Tragou-te o caos --- ergueste o pesadelo 

duma pátria cativa. 



No desamparo, a noite triste vela. 

Na imensidão do céu, lucilam círios. 

De Leste, o vento as nuvens acastela 

predições e martírios. 



Oh ânsia tresloucada de poder! 

Oh trágico delírio a sucumbir 

no palco inconquistado do não-ser, 

em Alcácer-Quibir? 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 28 de Abril de 1018.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Para sempre


(TEMPO DE SORTILÉGIO) 


Para sempre 






Longe ou perto, a pegada que houver 

é a prova da minha passagem. 

Sim, fui eu, na obsessiva viagem 

p’los caminhos de mim que eu puder… 



P’los caminhos que são ou que invento 

é que eu vou a cumprir-me no afã 

de acender para sempre a manhã 

do meu deslumbramento. 





José-Augusto de Carvalho 

Alentejo, 18 de Abril de 2018.

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Dlim-dlão!





A Torre da Má Hora tem um sino. 

Esventram os silêncios os seus dobres… 

Dlim-dlão! Dlim-dlão! Dlim-dlão! 

Se olhares bem, na solidão descobres 

a dor do fim nuns olhos de menino 

que nada já conseguem ver… Dlim-dlão! 



São olhos velhos de esperar cansados 

que se cumprisse o sonho de menino… 

O sonho vão chegando ao fim… Dlim-dlão! 

E tremem os silêncios despojados- 

Na Torre da Má-Hora toca o sino: 

Dlim-dlão! Dlim-dlão! Dlim-dlão! 



Manhã após manhã, promete o dia 

a renovada chama da esperança, 

e, à ceia, serve a noite a frustração. 

E assim, é nesta intérmina porfia 

que dói, que desespera mas não cansa, 

que se resiste ao lúgubre dlim-dlão… 



Ah, mas em todos nós palpita e grita 

o testemunho ousado e solidário 

da força do querer em construção… 

Ousemos ir além desta desdita 

que nos mantém reféns deste fadário 

e há tanto nos imola no dlim-dlão. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Fevereiro de 2018. 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Ousadia



A memória rompeu o negrume 

e chegou com as vestes do mito. 

É História nas lendas que assume 

um Passado a querer-se interdito. 



São imagens dos tempos perdidos? 

São palavras ou ecos vadios 

que martelam os nossos ouvidos, 

alta noite, a carpir desvarios? 



Somos isto: um alforge pesado, 

carregado de angústias e medos 

ou a herança do Pégaso alado 

que cantaram os velhos aedos? 



Que com Pégaso ousemos os astros 

e os vindouros nos sigam os rastros!... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Fevereiro de 2018.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Em louvor da Vida



(TEMPO DE SORTILÉGIO)

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Em louvor da Vida





Na dimensão do todo, encontro-me plural.

Deveras quero ser uma acha da fogueira.

Anónima, uma acha, entre outras, da lareira

ardendo no teu lar em noite de natal.



Que importa se o natal apenas é um mito?

Importa é que no frio o fogo te acalente

e que no teu sonhar não sintas interdito

o mágico devir que alente o teu presente.



No ventre da mulher germina a utopia

da vida que floresce em cada primavera,

num ciclo que se cumpre em transe natural.



Na tua/minha voz suave a melodia

que a condição de ser e de mistério gera,

louvando em cada parto o mito do natal.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 7 de Dezembro de 2017.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Em louvor do movimento



(TEMPO DE SORTILÉGIO)
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Em louvor do movimento



Tela de Siqueiros, com a devida vénia





Não trago no bornal renúncias e atropelos.

Não trago no cantil as sedes saciadas.

Caminho com a lama até aos tornozelos.

Nos campos ermos, domo angústias, rasgo estradas.



Saúda a cotovia os arrebois do dia.

O seu cantar feliz desperta os meus sentidos.

Levanto-me da cama ao som da cantoria.

Meus passos não serão incertos nem perdidos.



Difícil é andar ao frio que enregela

por mais que seja belo o manto de brancura,

mas mais difícil é tomar pincéis e tela

e ser a dimensão de nós ganhando altura



Difícil é andar ao vento que flagela,

(o látego zurzindo injúrias e inclemências), 

mas mais difícil é domar o leme e a vela

da nau que aporte ao fim de todas as urgências.



Importa caminhar, a vida é movimento.

É mero pormenor, chegar ou não ao fim.

Os passos que eu não der, jamais por desalento,

mais tarde, outros darão, por eles e por mim.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Novembro de 2017.

domingo, 24 de setembro de 2017

2 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Catarse


TEMPO DE SORTILÉGIO

Catarse





Para mim,

a jornada que tento cumprir

se aproxima do fim.

Não importa que eu veja ou não veja

primaveras de vida a florir.

O que importa é que eu seja

mais um grão

que germina tenaz neste chão.

O que importa é eu ser, resoluto,

entre tantas, mais uma raiz

que se cumpra na planta, na flor e no fruto

que a criança feliz

vai um dia comer descuidada…

…e eu sossegue na paz do meu nada.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Setembro de 2017.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

02- TEMPO DE SORTILÉGIO * A barca da utopia





Na barca da utopia,

eu vou e tu também comigo vais.

Nos uivos da ventania,

o canto da sereia, que são ais

e perdição, naufrágio pressagia

nos longes --- mar e céu --- do nunca mais.



Deixámos na renúncia do ficar

o velho cais --- impulso de segredos

instantes a chamar.

Nas vagas alterosas gritam medos.

Dilúvios casam nuvens com o mar.



À capa, a barca enfrenta, aguenta, espera

que amaine a fúria infrene da procela.

Urgente é navegar!

Na espera que exaspera,

a rota corrigida, içada a vela,

ousemos, rumo ao porto por achar!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Setembro de 2017.