domingo, 30 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Os semi-deuses


1.

Todo o ser vivo, quando nasce, traz a certeza de que irá morrer. Porque assim é, a vida carrega a sua finitude. Não será destino nem sentença inexorável, será apenas da sua condição.

Não creio que esteja errado no que escrevo, mas, previdentemente, apelo: Vinde, amados mestres! Que caia sobre mim a correcção iluminada do vosso saber! E corrigirei feliz a evidência do meu mundo e da finitude que sempre vi, que sempre senti, que sei que me espera!...

Esta nossa condição de mortais demonstra-nos a efemeridade das nossas certezas, das nossas verdades, sempre modeladas conforme os condicionalismos redutores de quem não sabe nem poderá saber além do conhecimento existente e do conhecimento de um porvir próximo que pode enubladamente entrever.



2.

O curso milenar de um rio pode ser alterado por um qualquer inesperado cataclismo. E em segundos ou minutos o que era deixou de ser. O vulcão Vesúvio transformou a bela Pompeia numa cidade fantasma que podemos ver ainda. As convulsões na Natureza, ora destroem, ora criam e recriam na transformação constante de que nos falou Lavoisier.



3.

Hoje, de posse que estamos de poderes destruidores, um momento de raiva demente pode ser responsável pelo dedo que prime o botão que determina o fim de milénios de existência. E depois quem sobreviverá para contar a tragédia?

Hoje como ontem, há lampejos de florescências perfumadas e trevas de ansiedades e de medos.

Hoje como ontem, o tempo é de equilíbrios instáveis e de incertezas dolorosas.



4.

Os grandes do Pensamento vêm legando-nos obras-primas do Conhecimento.

Os grandes da Beleza vêm legando-nos obras-primas em todas as manifestações da Arte.

Os grandes da Ciência vêm-nos legando maravilhas que quase ofuscam o maravilhoso da fantasia.

E tudo isto faz ou parece fazer de nós semi-deuses.

Ah, mas são estes semi-deuses que continuam impotentes perante as erupções da vulgaridade, do obscurantismo, das vaidades e da jactância mais imbecil.

Ah, mas são estes semi-deuses que continuam impotentes perante as mesas sem pão, perante a inocência prostituída, perante a dignidade encarcerada, perante a palavra amordaçada, perante a Justeza reduzida a uma Justiça dispendiosa em demasia para dela se socorrerem os humilhados e ofendidos.

Ah, continua preponderante contra tudo e contra todos a verdade que li no poeta alentejano José Duro: “O oiro de um palácio é a fome de um casebre”.

Ah, de que valem as caridadezinhas, as «boas» intenções, os «bons» corações?

De que nos vale a perigosa recomendação bíblica “dá com a mão direita de modo que a mão esquerda não veja”? Que dar é este em segredo? Que dar é este senão aprovar a existência de quem pode dar a quem tem necessidade de receber? Que dar é este senão a confirmação de que «o oiro de um palácio é a fome de um casebre»?

Ah, que haja palácios, concedo, mas que nunca sejam erguidos pela fome dos casebres!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Outubro de 2016.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Soneto para Florbela Espanca




A mim me basta o frio que arrefeço.

E os dedos hirtos ficam caramelo!

Não temo nem contesto o meu regresso.

De pó, de cinza e nada não apelo.



Serei também um golpe do suão,

incêndio no vazio em movimento

gritando além de mim à solidão 

a nossa ardente condição de vento.



Iremos ver as sombras dos montados

e as limpas das espigas em promessa

mescladas de papoilas a sangrar…



Iremos às amoras nos valados

e que ninguém das hortas nos impeça

de nos amarmos ébrios de luar!...




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Outubro de 2016.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

02 * TEMPO DE SORTILÉGIO * A abóbada





Sempre vi esta abóbada assim:

um azul polvilhado de estrelas 

lucilando sinais para mim

e eu aqui sem poder entendê-las.



Desencontros fatais de evasão

a doerem de mais no meu peito.

O que faço do meu coração

na clausura do tempo imperfeito?



Se não posso ir além das tonturas

dos sinais, que me fique onde estou

e me baste este chão de planuras

onde sou e me cumpro e me dou.






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Outubro de 2016.

domingo, 23 de outubro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Balada das chagas



Há vidas que nunca morrem.

Ninguém as pode matar.

São chagas do nosso corpo,

sempre, sempre a supurar.



Chagas que nenhum unguento

irá conseguir sarar,

chagas que um golpe de vento

sempre, sempre faz sangrar.



Chagas que são carne viva

doendo só de as olhar,

chagas de voz aflitiva

e sempre, sempre a gritar.



Chagas de um tempo passado

e a nosso lado a passar,

chagas de um tempo parado

sempre, sempre a supurar.



São chagas de todos nós,

que ninguém pode calar.

São chagas sonhando a voz

que também sabe cantar.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Outubro de 2016.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Os medos

                                      



Tu tens medo e eu também tenho.

Temos todos nossos medos.

Tens medo do que há-de vir

envolto no nevoeiro

da manhã por descobrir?

Ou tens medo do que veio,

do que veio e se instalou

na cama da tua insónia

e te rouba antemanhãs

ruborizadas de luz?



Conta-me os passos que deste

e dize-me o que trouxeste

nos ontens da tua vida!



Mede os passos que vais dar

nos hojes da tua vida

p’ra mais tarde me dizeres

que sonhos de primavera

trouxeste no teu bornal

para perfumar à noite

a mesa da tua ceia!



Só depois, já noite adentro,

me falarás dos teus medos

que sufocam a manhã

que tu temes que amanheça…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Outubro de 2016




quarta-feira, 19 de outubro de 2016

11 - QUE VIVA O CORDEL!... * Isto é uma paródia!...


QUE VIVA O CORDEL!


Isto é uma paródia!...






Consigo trazem sempre a solução


Os donos da verdade são assim


Ficam vaidosos se dizemos sim


Ficam danados se dizemos não






Os donos da verdade não consentem


Sequer que se lhes peça um fundamento


Sequer o mais vulgar aclaramento


Protestam e trejuram que não mentem






E passam a olhar-nos de través


Como se fosse crime perguntar


Como se fosse crime reclamar


Sabermos em que chão pomos os pés






Eu quero que a verdade seja o pão


Pousado sobre a mesa e repartido


E dele comerei o meu quinhão


Que por direito é meu e me é devido.






Que sempre o que é verdade se revele


Sem artifícios e nenhum ornato


Se me dão lebre quero ver-lhe a pele


Gato por lebre nunca no meu prato








José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 19 de Outubro de 2016.

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Discorrendo...


O tempo passou sobre mim. É passado longínquo a ternura da meninice; é passado distante o verdor primaveril da mocidade; é passado os anos da labuta; é presente a anciania deste meu ocaso da vida. Tudo de acordo com o trajecto vulgar duma existência vulgar. A importância de uma existência não estará nas suas fases (meninice, mocidade, idade adulta e anciania), quando os fados não são por demais adversos e no-las permitem; a importância de uma existência estará nas safras do tal saber de experiência feito.

Na meninice tudo é doce; na idade moça ou na moça idade, de que decorre a palavra linda mocidade, tudo é perfume e deslumbramento de cores numa descuidada interpretação da existência; na idade adulta tudo é a descoberta de dificuldades, de contrariedades, de êxitos efémeros ou nem tanto, de frustrações e fugazes satisfações; a anciania é o pôr-do-sol e o subsequente vislumbrar da noite escura que vem aí.

Mais prosaica ou mais poética, a existência é esta caminhada para nenhures. O período entre a data da chegada e a data da partida é que importa avaliar. Que fiz eu da minha vida? Esta será uma pergunta difícil, mas é de todos nós. Que cada um, cotejados o deve e o haver, encontre o saldo definitivo.

Estarão perdidas as fantasias dos presentes no sapatinho, nas datas convencionais? Estará verificada a impossibilidade de voar metaforicamente no tapete voador com a Xerazade da nossa eleição? Estarão abandonadas desgraçadamente as esperanças na justeza, na meritocracia, no respeito pelo outro, no primado da dignidade? Será uma utopia consagrar de facto e de direito a defesa e a implantação dos direitos humanos?

E a verdade? Ah, esta palavra terrível que passa de boca em boca! Esta palavra ora absoluta, ora objectivamente relativizada. E aqui virá como exemplo porventura paradigmático o episódio bíblico que relata o encontro do Nazareno e Pilatos. O romano terá perguntado ao hebreu: o que é a verdade? E o Nazareno terá ficado mudo. Alguém se questionará sobre o motivo de tal mudez que atravessou dois milénios? Perante a pergunta de o representante máximo do Império Romano na Palestina seria ponderável uma resposta diferente do silencio? Será que a verdade para o Império Romano ocupante poderia ser igual à verdade da Palestina ocupada?

Há palavras terríveis.

Há perguntas terríveis.

Há silêncios terrivelmente ensurdecedores.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 10 de Outubro de 2016.

sábado, 8 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A mão canhestra


Canhestra mão é a minha que teima incorrigível na recusa da História escrita pelos vencedores. Não sei donde vim; não saberei ao certo para onde irei; mas sei onde estou e recuso a subjugação, venha donde vier, esta inventada e reinventada sempre no cadinho onde o embuste amalgama os despojos da violência.

O que ficou soterrado nos escombros? Por que não falam as cinzas? Por que não falam os ossos desconhecidos que resistiram até hoje? O que escondem os fragmentos do que foi destruído pela violência dos vencedores? Quantas palavras, hoje ditas de origem obscura, tiveram a sua definida etimologia? Que pretendem os vencedores apagando outras memórias senão destruir provas e testemunhos de outros saberes?

Hoje, felizmente para todos nós, a Arqueologia tenta, quantas vezes com extrema dificuldade?, encontrar o fio condutor e repor a possível verdade histórica.

Esta caminhada da imposição da força bruta sobre a inteligência, sobre o conhecimento, sobre a diferença, sobre o direito do outro de ser como é e como quer continuar a ser é a prova provada de que a barbárie continua. Até quando?

Situemo-nos neste drama actual dos dias de hoje:

Olhai aquele que foi expulso da sua casa! Quem se indigna? Sem um tecto, sem uma ocupação, sem hoje nem amanhã, vagueia pelos caminhos e logo é apontado como vagabundo, talvez como um perigoso vagabundo…

Olhai aqueles a quem tornaram impossível viver na sua terra! Desenraizados, eles partem e buscam sobreviver noutro lugar. Quem se indigna? Eles só querem viver, mas são apontados como um problema. Eles são um problema? Pois são? E quem responde pelo seu problema de não poderem viver na sua terra?

Há quem reclame dádivas para eles; há quem reclame refúgios para eles; há quem reclame hospitalidade para eles… Tudo manifestações de boa vontade, tudo reflectindo o «nosso» bom coração… Que seja! Mas ninguém parece reclamar para eles a recuperação do que lhes foi extorquido; e muito menos reclamar a punição dos responsáveis pela barbárie.

Olhai, eles são os vencidos!

Olhai, eles são os agentes da outra História!…



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Outubro de 2016.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Naquele distante verão...


Naquele distante verão de 1937, o sol queimava as esperanças. Suportar era o verbo conjugado. O tempo não parara, porque o sol vinha todas as manhãs arder os dias, porque o repouso de todas as noites alentava o novo dia que sobreviria. Indefinidamente? Não, evidentemente, porque a esperança, criada em tempos imemoriais, é um misto de teimosia e obstinação e sonho. E desta tríade surgiu o amanhã vago ou não, impreciso ou não, possível ou não. O amanhã existe, ainda que não se saiba quando virá nem como virá. Tudo depende de… E porque assim é, há quem espere o amanhã enquanto resignado suporta o hoje; há quem espere o amanhã enquanto inconformado resiste no hoje. E, como alerta a canção, há quem faça a hora e não espere pela hora que será feita não se sabe por quem nem quando… Paralelamente, há quem desista do amanhã, onírico ou não, e creia no hoje indefinidamente, por renúncia, por fatalismo, por rendição, porque sim…

Naquele distante verão, o sol queimava as esperanças e o desespero crescia. Houve quem morresse por nada, houve quem morresse por tudo, houve quem desistisse, houve quem suportasse resignado... e houve quem, numa indiferença cúmplice, não desse por nada.

A dita harmonia celeste continuou indiferente. Sucediam-se as rotações e as translações; sucediam-se as ilusões e as frustrações; sucediam-se os consertos dos desconcertos.

Depois daquele distante verão, outros vieram. E não se aprendeu nada. Como sempre, em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. E a receita parece simples: se não há pão, o caminho será semear, depois ceifar, depois debulhar, depois moer, depois amassar, depois cozer e… depois pôr o pão na mesa.

Depois daquele distante verão, muito mais tarde, eu descobri e escrevi:


“Quando tu gritaste Isto é meu!,

logo a discórdia corrompeu

o nosso da fraternidade.”


Não sei se tenho razão, mas sei que acredito no amanhã.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Outubro de 2016.