sexta-feira, 20 de maio de 2016

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Escuta-me, meu amor!





Não tenho para dar-te opalas e rubis

nem horas de lazer em barcos de recreio.

Não tenho para ti palácios em Paris

nem te prometo em Punta Arenas veraneio.



Não tenho nem suor nem sangue nem troféus

de saques e festins de lucros e de esbulhos.

Não tenho noite adentro acesos lumaréus

afugentando a treva, as sombras e os barulhos.



Só tenho o campo aberto ao sol do meio-dia

e as noites de luar ornadas de marfim

ouvindo os rouxinóis cantar a melodia

que trouxe no princípio a voz dum querubim.



É pouco o que te dou --- a dádiva do dia

e a noite para amar nos braços da Poesia?





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 19 de Maio de 2016.



quarta-feira, 18 de maio de 2016

23 - NOSTAlGIA * Os caminheiros


Os caminheiros
ou a saudade imperecível do«duo maravilha»
*
José-Augusto de Carvalho 
Apolo (Dezembro de 1996 - 2 de Junho de 2010).

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Sonho de uma noite de Primavera






Deitada a meu lado,

menina-mulher,

cabelo doirado,

rosto acetinado

de alvo malmequer.



Olhos de veludo

querendo enxergar

em cálido ludo

o sonho que é tudo

na hora de se dar.



Um brando tremor

nos lábios romã,

buscando o dulçor

de orvalho e de cor

que veste a manhã.



Por fim, de mansinho,

o doce abandono

virá no carinho

velar o teu sono

em lençóis de linho,



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Maio de 2016.

sábado, 7 de maio de 2016

28 - CLAVE DE SUL * Os Tempos Velhos


Memórias

Os Tempos Velhos

O nosso muito amado Odiana


I

Uma mancha de arvoredo…

Treme o caminho de medo!



Um grito de raiva corta

o silêncio do montado.

Quem supunha a noite morta

neste sossego assombrado?



II

Numa janela da aldeia

tremeluz uma candeia…



Que sombra furtiva passa,

tragada pela escuridão?

Há um silêncio de ameaça

que perturba a solidão.




III

Andam malteses a monte

nas terras sem horizonte!

.

Soam secos estalidos…

navalhas de ponta e mola!

Há abafados ruídos

de passos que a lama atola…



IV

Cicatrizes purpurinas

de balas de carabina!



Homens de pele trigueira,

curtida pelo relento!

Aventuras de fronteira

e entregas sem juramento…



Nos beijos livres da noite,

sangram flores do laranjal!

Que amor na sombra se acoite,

na pureza natural…



V

O medo, o medo guardando

no arrojo do contrabando!



Malteses de olhos sombrios

assumindo a perdição

de ousios e desvarios

que lhes levedam o pão!



Uma sombra no arvoredo…

Treme o caminho de medo!



/

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Setembro de 1996
Alentejo, revisto em 7 de Maio de 2016