quinta-feira, 21 de novembro de 2013

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * A jornada de mim


(Rimance) 


Tela de Dórdio Gomes, Pintor Alentejano





Venho dos longes da Vida,

idos longes sem memória!

Que caminhada sofrida,

hoje apenas presumida

em hipóteses da História!



Na certeza de que sou

há os longes donde vim.

Quanto o tempo amortalhou

e a memória não guardou

resiste dentro de mim.



Na Terra por condição,

sou da Terra criatura.

Aqui ergui o padrão

que assinala a comunhão

do berço e da sepultura.



Desde sempre como o pão

pelo diabo amassado.

O diabo da traição

quando na desunião

por minha mão é criado.



Na Terra por condição,

desavindo perco a Terra

quando em sangue amasso pão,

quando nego o meu irmão

e, traindo, faço a guerra.



Quem é que come o meu pão

nas horas da minha fome?

Quem me impõe a privação

se a minha fome é o pão

que quem decide me come?




José-Augusto de Carvalho
21 de Novembro de 2013.
Viana * Évora * Portugal

terça-feira, 12 de novembro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Da memória vigilante...


Impenitente aprendiz, registo os sinais da memória vigilante: aqui, é um caminho sem pressa de chegar; ali, é um valado bem guardado de silvas, amodorradas ao sol, enquanto as suas amoras amadurecem a saborosa guloseima da passarada; além, é o monte silencioso, no abandono da terra; mais além, em todo o derredor, é o azul, numa campânula celeste de parada beleza.

Ah, querido Amigo, querida Amiga de outras paragens...



Se fores ao Alentejo,
não bebas em Castro Verde, 
que as fontes cheiram a rosas
e a água não mata a sede.


O silvo de um comboio corta o silêncio. Os carris rasgam a imensidão das herdades. São raras as povoações servidas neste percurso ferroviário do Barreiro à Funcheira. Muitas das estações ficam a uma distância de quilómetros. Algumas já foram desactivadas e, ao abandono, arruinam-se. O critério que determinou o rasgar desta Linha de Sul não teve seguramente a finalidade de servir as populações. Assim foi no século XIX, assim foi no século XX, assim continua neste século XXI.

Aqui, as minhas primeiras idas a Lisboa eram uma aventura: de churrião, cumpria os quatro quilómetros da vila até à estação, estação que foi desactivada, se a memória me não trai, na década de sessenta do século XX.


Para utilizar a linha férrea, terei de cumprir seis quilómetros de táxi até à estação ferroviária mais próxima, em Vila Nova da Baronia, situada no concelho de Alvito.

Antes da activação do tabuleiro ferroviário da Ponte 25 de Abril, a linha de Sul levava-me ao Barreiro. Lá chegado, era a aventura da travessia do rio Tejo. Agora, mais comodamente, embarco em Vila Nova da Baronia  e desembarco em Lisboa. 

Que maravilha de serviço público!

Há mais de ano e meio, devido a internamento hospitalar de minha mulher, em Évora, durante o mês de Março, utilizei, diariamente, o transporte colectivo rodoviário. Apenas de segunda a sexta-feira, por não haver esse transporte aos sábados, domingos e feriados.


Longe, o Poder Central não tem disponibilidade para olhar para esta situação; perto, o Poder Local, que me conste, também não se preocupa com a situação deste município estar privado da sua estação ferroviária. E os munícipes aqui
permanecem esperando...

Outra maravilha de serviço público!

Este é, entre muitos, um quadro do país real.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
Novembro de 2009.


Nota: Este texto é de Novembro de 2009. Em Novembro de 2013, a situação permanece

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

04 - PÁTRIA TRANSTAGANA * Rimance na madrugada

Via Láctea
(Foto Internet, com a devida vénia)




Com a noite adormecia.

De madrugada, acordava,

sob este céu de magia,

que de estrelas pontilhava

a cósmica fantasia…



A estrada já conhecia

a sua certa passada.

E, diligente, lá ia, 

a estrada por companhia,

no frescor da madrugada.



Já alerta estava o gado.

Os seus passos conhecia.

Depois de limpo e tratado,

estaria preparado

para o trabalho do dia.



Ao cantar da cotovia,

começava a dura lida.

Quando mal rompia o dia,

a charrua já abria,

na terra, as rugas da vida.



E de sol a sol, doía,

por tão pouco, tal dureza.

Tantas horas num só dia!

Dia que apenas valia

uma jorna de tristeza!



Quanto podia a lembrança

das histórias dos antigos,

sempre houvera por herança

esta desgraçada andança

dum rosário dos castigos.



Triste história desta Vida!

Alcatruzes duma nora,

ora vindo de subida,

ora indo de descida,

gemendo como quem chora!



Ai, que fatal movimento,

insistente, rodopia?

Onde encontra tanto alento

p’ra manter o movimento

que sufoca cada dia?



Os dias passam em vão.

E sempre iguais no passar.

Nesta fatal rotação

vai girando a negação

de não sair do lugar.



Ai, tanta sede! Onde a fonte

em que se possa ir beber?

Perdido de monte em monte,

quem roubou o horizonte

da manhã a amanhecer?



José-Augusto de Carvalho
10 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 5 de novembro de 2013

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * O remorso de Tomé

O avisado e incrédulo Tomé sabia que a sua terra vivia tempos difíceis. A nostalgia da promessa do pão repartido ameaçava desvanecer-se como uma miragem? A velha Estrada de Damasco perdera também o fascínio de outras eras? Sem memória nem alento, o tempo parara? As legiões estrangeiras impunham a Lei estrangeira. Os vendilhões reverenciavam os opressores e comiam sofregamente as migalhas da mesa da abastança paga pelos impostos que esmagavam o povo sob a divisa trágica: A César o que é de César! Numa ironia obscena, era de César o dinheiro do povo subjugado à Lei opressiva e estrangeira…

Ah, mas os velhos falavam da utopia, segurando nas mãos trémulas os cajados que iam amparando o que restava do alento de outros tempos.

Os meninos já não jogavam ao berlinde nem ao pião; as meninas já não jogavam as sete pedrinhas nem cantavam de roda o jardim da celeste; os adolescentes já não disputavam o espaço com os seus papagaios de papel; as adolescentes já não olhavam para a sombra nem sonhavam ruborizadas com os enleios da puberdade. Já não! Agora, desgraçadamente, os novos absorviam valores estranhos, que os envileciam e descaracterizavam; valores que mais e mais provocavam a sua dependência e a sua pobreza.

Da mesa da abastança estrangeira continuavam caindo as migalhas caritativas. Quem dá aos pobres, empresta a Deus! E assim persistiam, num desafio, os reverenciados esmoleres e os seus indispensáveis mendigos. A caridadezinha dos poderosos impunha-se e esmagava os direitos de um povo!

Por oposição à utopia dos velhos, os novos, formatados pela opressão alienante, acreditavam ter descoberto que as estradas eram só estradas e recusavam-lhes o fascínio do simbolismo duma direcção.

E o mar, ah, o mar!, era apenas o ócio da praia ensolarada e os mergulhos nas ondas que vinham desmaiar docemente no areal. O mar já não era mais a largada nem o regresso! O mar já não era mais o ponto de partida e o ponto de chegada!

E os campos, ah os campos!, eram a faina ultrapassada das searas de pão; eram a labuta ultrapassada das hortas donde vinham as couves e as batatas, as alfaces e o feijão, os espinafres e o grão de bico; eram os perdidos pomares, sempre melindrosos, donde vinham os frutos maduros, suculentos e doces; eram as vinhas imensas dourando ao sol no milagre do vinho a haver; eram os hoje cada vez mais raros animais mansos e os animais bravios numa partilha nem sempre harmoniosa do espaço; eram, afinal, o pão suado e honesto da ceia que a Lei estrangeira e os vendilhões haviam tornado impossível.

Os velhos interrogavam-se: como chegámos aqui? Onde errámos na preparação dos nossos filhos e, por eles e com eles, a construção dos Tempos? Que força impõe um templo de fariseus e de cambistas? Para quando um novo chicote expulsando de vez os vendilhões do Templo da Pátria?

Exausto, o velho Tomé, meneando cabeça, dizia de si para si: de que me serviu ser avisado? De que me serviu ser incrédulo? O meu remorso será sempre não ter deixado a mensagem fundamental: Quem não luta, perde sempre!



José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

01 - PÓRTICO * O meu (primeiro) testamento





Introdução

Ninguém pode encontrar-se ou perder-se em caminhos que sempre recusou percorrer.


Cidadania

Estou onde sempre estive, progressivamente mais firme nas convicções e mais decidido na sua defesa sustentada.

No caminho percorrido, deparei-me, como era inevitável, com perspectivas que recusei subscrever. É dura esta difícil caminhada! Mas ceder a cantos de sereia acaba sempre em perdição.

Hoje como ontem, reclamo-me aluno da Escola da Vida: estudo e aprendo. Numa constante revisão da matéria dada, corto aqui, acrescento ali.

Aceito como boa orientação a dúvida sistemática. Sou um daqueles que entendem haver muitas dúvidas e raras certezas. Sem nunca perder de vista o objectivo último, a correcção da rota é uma tarefa de todos as horas.

Não carrego no meu bornal a obstinação nem a auto-suficiência; são mantimentos que rejeito por indigestos.

Prezo a ponderação e a discussão; delas sempre nasce a luz possível que nos alumia. E, entre companheiros de jornada, não perco nem ganho debates de ideias: contribuo; não imponho e não tolero imposições. Na grande jornada da Humanidade, o contributo de todos é indispensável. Por dever e por respeito por mim e pelos outros.


Literatura 


Leio desde criança; escrevo desde criança.

Quanto ao que li, li de tudo, em boa verdade, mas tentei privilegiar a qualidade; a qualidade sempre relativa que o peso dos anos intenta sublimar.

Quanto ao que escrevo, ajuizará quem me ler. Não sou nem pretendo ser juiz em causa própria. Apenas posso garantir que procuro ser decente. Será pouco? Para mim, é um tudo de que não abdico.

No meu percurso, há livros publicados e textos em antologias. É o meu passado atestando etapas cumpridas.

Posteriormente, tive ofertas de publicação que recusei. E soube, até, de quem tivesse a pretensão de ajudar-me, confundindo divulgação de um trabalho com benemerência.

Distante de tertúlias por opção, comigo conto. E porque assim é, suporto o encargo deste isolamento que escolhi.

Na Literatura, serei ou não o que tiver de ser, mas sempre por merecimento e nunca por favor.

Quase tudo quanto escrevo está publicado em alguns espaços da Internet. Se, um dia, algum editor me ler e desejar editar-me, estarei disponível para ponderar a hipótese. Se tal oportunidade não surgir, talvez, um dia, eu decida assumir o encargo da publicação ou arrumar as centenas de páginas escritas na gaveta das inutilidades.

Se optar pela publicação, o favor ou desfavor dos meus concidadãos será da sua exclusiva responsabilidade. Sem recriminações, aceitarei o seu veredicto. E por uma óbvia razão: se a eles decidir destinar o resultado deste meu labor, a eles competirá aceitá-lo ou recusá-lo.

Hoje, é assim. Nada de definitivo existe sob o Sol.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
1 de Novembro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * No princípio...



Naquele tempo, os senhores

ainda eram só pastores.


Sofriam o tempo agreste

lado a lado com os servos

e olhavam os seus acervos

como uma bênção celeste.


Já nesse tempo a riqueza

era um privilégio raro

e afrontava a natureza

com loas ao desamparo.


Já então o verbo erguia,

em armadilhas e ardis,

o poder que anestesia

os rebanhos nos redis.




José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 29 de outubro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Há um barco rumando a nenhures!


Estive a reler o período da nossa História definido como Regeneração. Como todos sabemos, e também assim no-lo confirma Houaiss, no seu Dicionário da Língua Portuguesa, regenerar significa efectuar nova organização em, reorganizar, etc.

Agora, não valerá a pena deter-me no que li, mas, tão-só, deter-me na palavra regeneração, no seu significado e no modo como se perfila e me exige que a pondere nestes nossos tempos de hoje.

Com o decorrer dos tempos, com as sempre nefastas intromissões da rotina, com as influências dos incautos ou impreparados, etc., as degenerescências instalam-se, gradualmente. E é isto que reclama a regeneração.

É saudável parar para avaliar cada troço do caminho percorrido. Fazer, afinal, aquilo que os mareantes designam por correcção da rota.

Os condutores da marcha, aqueles a quem incumbe determinar as escolhas do caminho adequado, são os mesmos de quem Fernando Pessoa nos fala no seu poema O Mostrengo quando coloca na boca do piloto da nau estas palavras decisivas: «Aqui ao leme sou mais do que eu: Sou um povo que quer o mar que é teu...»

Confiar nos condutores da marcha significa uma delegação de um poder e não uma sujeição. O condutor de uma marcha não é uma autoridade arbitrária sobre os demais, é uma capacidade, capacidade que deve ser avaliada a todo o momento. Sabemos que errar é humano; e também sabemos ser humana a decisão de corrigir esse erro. Se bem que também seja humano, insistir no erro é atitude pouco inteligente e sempre prejudicial. Daqui se extrai a meridiana conclusão de ter de ser substituído quem não cumpre a tarefa que lhe foi confiada. E quando o erro não é corrigido ou quando o condutor da marcha não é substituído devido à sua inépcia, aqueles que abandonam um barco sem rota ou à deriva fazem-no porque não têm poder para alterar a situação, restando-lhes assumir a sua indisponibilidade de continuar a caminhar para nenhures.

Que trágico é olharmos um barco navegando rumo a nenhures!



José-Augusto de Carvalho
28 de Outubro de 2013.
Alentejo * Portugal

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

15 - CANTO REBELADO * A recusa





Recuso ser, na noite, a sombra que desenha

a angústia indefinida e fria deste cais.

O que tiver de vir, se mais houver, que venha,

Mostrengo, Adamastor e Fim do Nunca Mais!



O leme se quebrou. Ao vento, as rotas velas

ensaiam os sinais das barcas à deriva.

Que velhas perdições?! Na consciência delas,

assombram predições doendo em carne viva.



Que venham os pinhais gritar o desafio

do tempo por haver que acena o amanhecer

além deste torpor indefinido e frio!



Que venha a tentação sortílega tecer,

com arte e com engenho, o já lendário fio

da espera que germina um novo acontecer!...




José-Augusto de Carvalho
20 de Abril de 2010
Viana*Évora*Portugal

domingo, 27 de outubro de 2013

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Perturbação




O leite e o mel... as delícias 


decantadas do Jardim! 

As origens adventícias 

e subvertidas de mim... 


Sou e existo porque vim. 

Quantas certezas fictícias, 

esculpidas no marfim, 

doem mais do que sevícias! 


Mitologias propícias 

ao meu delírio de mim... 

porque não foram, mas disse-as, 

decantaram o Jardim! 


Que doído encantamento 

vivo e sou porque me invento! 




José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

sábado, 26 de outubro de 2013

10 - CANTO REVELADO * Revelação



A dúvida foi sempre o meu escudo.

A dúvida de ser e perceber.

Com nuvens prenhes de água não me iludo,

por não poder chegar-lhes e beber.



E quando a chuva cai a prometer

o fim da tentação, eu testo tudo,

na dúvida constante de saber

se comprovado está ou se me iludo.



Minh’alma sempre à dúvida se deve,

numa ânsia angustiada de manhã!

Os sonhos de infinito em que se atreve

quer livres da serpente e da maçã!



No Céu há tanta estrela a lucilar

sorrindo da inconstância do luar!




José-Augusto de Carvalho
12 de Julho de 2002.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

10 - CANTO REVELADO * Rimance de um Povo singular



Era um povo singular

nesta faixa acantonado,

erecta e rectangular,

desenhada à beira-mar

com notas de ausência e Fado.



Um dia, mais atrevido,

ousou ir molhar os pés.

Depois, apurou o ouvido

para entender o sentido

do vai e vem das marés.



A dolente melodia

era um canto de embalar

que de longe prometia

um barco de fantasia

e sonhos de céu e mar.



E este povo singular,

indeciso, ponderava

a renúncia de ficar

na segurança do lar

que a terra firme lhe dava



ou aceitar a aventura

do desafio do mar

e ganhar-se na tontura

das lonjuras da loucura

onde ousar já é chegar…



Largou enxadas e arados,

largou trigais e moinhos,

e por mares encapelados

e ventos desesperados,

na distância, abriu caminhos…



Dobrou os Cabos da Dor,

da Desgraça e da Tormenta.

Ganhou promessas de amor

doutra cor e com sabor

a noz moscada e pimenta.



Deu à Pátria a dimensão

das partes todas do Mundo.

Foi por sonho e condição

caravela de evasão

que jamais irá ao fundo.



Quando os ventos da mudança

sopraram do pátrio chão

numa danada aliança,

ficou presa a esperança

neste cais em negação…



Que pesadelo te amarra

a urgência de navegar?

Que plangência de guitarra

em renúncia encerra a barra

a um povo filho do mar?




José-Augusto de Carvalho
25 de Outubro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

19 - O LIVRO DAS MINHAS INQUIETAÇÕES * I

Primeira inquietação



Era uma vez um menino de uma povoação rural da Região do Alentejo, em Portugal. Embalou-lhe dolorosamente o berço o drama que enlutou o povo espanhol; horrorizou-lhe os passos incertos da meninice a tragédia de que foi protagonista maior o nazi-fascismo; envenenou-lhe a mocidade o horizonte que se queria sem esperança de um país amordaçado; lavou-lhe a alma, apenas, a múrmura corrente da Poesia.

Deslumbrado desde a juventude com as notícias das tertúlias de um tempo que não era o seu, de Antero a Pessoa, de Pessoa a Régio e Torga, etc, aquele menino, agora já encandeado pelos poentes da vida, sonhou reinventar uma tertúlia sem fronteiras. E assim nasceu CantOrfeu. O sonho de uma caminhada de amigas e amigos, falando de si e para si, das coisas da Arte, duma Arte viva, logo assumidamente diferente dos arraiais, onde a multidão se acotovela e se ensurdece, num descaminho vulgar e efémero; o sonho de gozar o silêncio, na meditação e na rememoração; o sonho no prazer de lembrar os «outros em quem poder não teve a morte».

Uma tertúlia prevenida contra o tumultuar da vida, onde o som pode ser música, mas também pode ser ruído, onde a palavra pode ser oração, mas também blasfémia, onde a voz pode ser canto, mas também gritaria, onde o ser e o não-ser se digladiam...

Ah, CantOrfeu, que sonho é o teu? E que realidade é a tua?


José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal
25 de Novembro de 2006.

19 - O LIVRO DAS MINHAS INQUIETAÇÕES * VI

Sexta inquietação



O meu querido Amigo José Augusto Carvalho, Professor Universitário em Vitória, Brasil, recordou-me, em oportuno comentário à minha quinta inquietação, a face negativa que regista a História sobre a imortalidade. Disse-me ele: Às vezes o tempo é cruel, permitindo que se imortalize o crápula em detrimento do homem honesto que criou belezas. Todos sabemos quem destruiu o templo de Diana em Éfeso, uma das sete maravilhas do mundo antigo: Eróstrato. Mas ninguém sabe quem o construiu... Todos sabem quem foi Nero, mas pouquíssimos sabem quem foi Constantino... A imortalidade é uma armadilha... Um abraço fraterno.

Este precioso alerta não poderia ficar confinado a uma página de correspondência particular. A todos os que não sabiam, a todos os que sabiam e já haviam esquecido, aqui fica, para nossa meditação.

Sempre nos ensinaram que da memória tudo deve constar: desde os fastos, para nossa admiração e respeito, às desgraças e misérias, para nosso aviso precavido. Inclusive, a dita sabedoria popular está presente, a todo o momento. Pois apesar de tantos alertas, o autismo grassa por aí . Há muita gente preocupada com o seu umbigo, nada ouvindo nem lendo do que os outros dizem e escrevem. É uma "enfermidade" que urge combater, com determinação. Cuida ela que tudo se resume ao eu, que além do eu apenas existe a paisagem circundante... Pobre dela! A grande verdade é que o Homem é um animal gregário, que só existe e permanece em grupo. E esta mesma verdade no-la recordou Manuel da Fonseca, no seu romance A seara de vento, colocando na boca da velha Amanda o grito/alerta que ela atirou aos ares da planície alentejana: Digam à minha neta que ela tinha razão: Um homem sozinho não vale nada.

Felizmente que nasci numa vila rural, pois, assim, pude aprender a conhecer o sabor do pão nos ombros vergados dos ceifeiros, a um sol de 40 graus; pude confirmar a existência sofrida dos que garantem tudo aos bem instalados na vida; pude compreender o amargor de quem moureja a troco de salários de desalento; pude aprender a revoltar-me com eles contra a hipocrisia dos tais direitos humanos, discutidos e aprovados pelos ainda senhores do mundo e dos destinos de quem trabalha.


José-Augusto de Carvalho
28 de Dezembro de 2006.
Viana * Évora * Portugal

19 - O LIVRO DAS MINHAS INQUIETAÇÕES * V

Quinta inquietação



A supremacia do conteúdo sobre a forma parece-me ser um dado adquirido. No poema, que importa que siga as normas dos manuais da versificação ou siga caminhos outros? Será sempre um tentame nos complexos caminhos da Poesia. Com ou sem forma definida, com ou sem metro, com ou sem rima, a Poesia acontece. Ao poeta cabe a escolha da forma ou da ausência dela.

Sei haver gente que se compraz em catalogar os poemas com base na forma que vestem. Para os indefectíveis da autopoclamada modernidade, o soneto já foi! Para os indefectíveis da versificação, o poema sem forma, sem rima, sem metro, é um naco de prosa entrecortada aleatoriamente, presumindo-se versos. Uns e outros quase sempre esquecem o conteúdo e a Poesia. Falam de versos.

Todos sabemos que um pôr de sol, além da beleza pictórica, pode ser um poema sem palavras. Há que encontrar o sortilégio da Poesia onde ele efectivamente está. Na minha perspectiva, é belo este grito de Luís de Camões --- Ah, minha Dinamene, assim deixaste quem nunca deixar pode de querer-te... --- independentemente do espaço e do tempo em que seja lido. A sensação de perda do Poeta é absolutamente clara e dolorosamente bela. Assim foi entendido no século XVI, assim é entendido no século XXI.

Longa é a caminhada, muitos são os caminheiros. A Poesia a todos deslumbra. A maioria ficará pelo caminho; uns, poucos, alcançarão o patamar reservado aos eleitos. Todos são credores do nosso respeito; alguns são credores da nossa admiração. O Tempo, indiferente aos interesses e aos conluios, determinará sempre os que passam e os que permanecem. Zoilo só ficou na História porque tentou denegrir Homero.


José-Augusto de Carvalho
27 de Dezembro de 2006.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

17 - HARPEJOS * Cantares-2




Eu canto porque estou vivo


e porque recuso ser

dócil agente passivo

no direito de viver... 




Canto as asas altaneiras 

que ganham longes e espaço 

e canto o fim das barreiras 

que não me travam o passo... 




Canto com amor a terra, 

onde sou e donde vim, 

e se morrer contra a guerra, 

só paz haverá em mim... 




Canto a palavra certeira, 

mesmo que doa ou que fira... 

Canto a vida verdadeira 

que não conhece a mentira... 




Canto a coragem suada 

de quem ganha o pão que come... 

E a semente germinada 

é um grito contra a fome... 




José-Augusto de Carvalho 
Viana*Évora*Portugal

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * E esta fé!...




Hoje, um manto de nuvens cinzentas

anuncia o dilúvio aos gentios.

E sem barca, ai de nós!, que tormentas

no devir de fatais desvarios!...



E de pombas, no céu, nem sinal!

É de sombras a noite que cai!

Que profano juizo final

tão distante do Monte Sinai?



E esta fé, o que faço com ela,

se a distância que mal adivinho

das cortinas da minha janela

só de nada atapeta o caminho?



Do delírio dos cravos em festa,

o que resta? O que resta? O que resta?





José-Augusto de Carvalho
4 de Junho de 2008.
Viana * Évora * Portugal

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A utopia


(A utopia ou o outro lado do ser humano)





Morria cada dia um poucochinho.

Falava de amanhãs que não veria.

Em cada flor da berma do caminho

só versos de canções de amor colhia.



E lágrimas de sangue e sal vertia,

doído, quando o débil passarinho,

nas ondas de furor da ventania,

caía, em perdição, do frágil ninho.



No entardecer das horas já cansadas,

o arrimo do cajado solidário

trazia forças novas às fraquezas.



Na sedução das noites estreladas,

buscava, impenitente visionário,

além do chão, as cósmicas certezas…



José-Augusto de Carvalho
21 de Outubro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Manifesto pela Vida



É um imperativo de consciência juntar a minha voz à de todos os que proclamam os direitos inalienáveis da Vida.

Atentar contra os direitos inalienáveis da Vida é atentar contra a Vida.

Quem permite que atentem contra os direitos inalienáveis da Vida é cúmplice nesses atentados.

Quem se alheia dos atentados contra os direitos inalienáveis da Vida é cúmplice nesses atentados.

Quando estão em causa os direitos inalienáveis da Vida, não há neutralidade possível: ou estamos pela Vida ou contra a Vida.

Todos, sem excepção, somos responsáveis sempre que são violados os direitos inalienáveis da Vida.


José-Augusto de Carvalho
28 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Reflectindo...


1
Em sociedade, qualquer pessoa poderá ter o desejo legítimo de exercer um cargo público em uma das diversas instâncias da intervenção política. Recusar-lhe este direito é um absurdo. É o mínimo que se poderá dizer.
Seguramente, não bastará desejar. Carecerá de apoios para passar do desejo à candidatura e desta à vitória ou ao fracasso eleitoral.

2

Os méritos e os deméritos de qualquer pessoa para o desempenho dum cargo político serão reconhecidos ou não. Tudo dependerá do meio onde se insere.
Todos sabemos que há boas e más opções. Umas decorrerão de decisão consensual ou inequivocamente maioritária, outras de decisão passível de reparos, quer por deficientemente fundamentada, quer por suspeita de favoritismo, de considerações alheias ao processo, etc.

3
Vemos, ultimamente, pessoas preteridas por uns serem reconhecidas por outros. E reconhecidas pelo que são e não sei se com a intenção de deixarem de o ser.
Seja qual for esta intenção, uma pessoa só deixa de ser o que é se assim quiser e não por outros o quererem.

4
Não recusando a ninguém o direito de se avaliar e de avaliar os demais, é admissível (e até frequente, concedo) que uma pessoa se sinta preterida por outra que, na sua avaliação, não merece ser designada como candidata.
E se a sua capacidade de avaliação é reconhecida quando concorda com a designação de outrem, como admitir que se censure quando discorda e se apresenta como melhor opção?
E se a pessoa preterida encontrar noutra área a possibilidade de exercer o cargo político que deseja, quem se arroga a legitimidade de censurá-la ou de lhe recusar esse direito de cidadania?

Aqui fica esta reflexão.


Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
22 de Julho de 2013.

Alentejo * Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Só



Neste final de jornada, quando supunha nada mais caber no meu bornal, a surpresa vem. E já não valia a pena. Não porque a sobrecarga seja pesada; apenas porque já nada acrescenta. É aquela situação de quem é surpreendido por uma trovoada, num descampado: depois de chover uns minutos, os restantes, muitos ou poucos, já nada acrescentam à molha.

No monte, os dias trazem-me a monotonia de um tempo parado.


As notícias que me chegam, ainda que poucas, confirmam-me a monotonia.

O dia é o resultado do fatal movimento de rotação; o ano é o resultado do fatal movimento de translação. Assim sendo, nada de novo sob o sol. Mas os dias e os anos, para além do fatalismo planetário, dão-me coisas bonitas: os passarinhos chilreiam, felizes; as flores insistem em maravilhar-me com os seus aromas e as suas cores; «todo o sol do Alentejo» me encanta em apoteoses de cor. Pois, na contemplação, tudo bem.

Na acção, retenho do poema do grande Poeta Miguel Torga sobre Bartolomeu Dias, a fatal conclusão: um herói sem remate. Inevitável. É da sabedoria que não se pode pedir o que se não tem para dar.

Nestes dias quentes, fico-me, à sombra, olhando a estrada deserta. Uma andorinha ensaia acrobacias. Como lhe é fácil ser acrobata e como é difícil a tanta gente dar o passo certo no momento certo!

Só, deixo-me entontecer pela tremulina.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho

15 de Junho de 2013.
Alentejo * Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O silêncio


Quando imposto, o silêncio é coisa séria. Da minha passagem pela Imprensa diária, na já distante década de sessenta, recordo uma directiva recebida dos Serviços de Censura, que dizia mais ou menos, cito de memória: a partir deste momento, é expressamente proibida qualquer referência ao senhor dr. José Afonso. Assim mesmo, aqueles senhores silenciavam, mas tinham estes requintes, por vezes, claro, por vezes...

Sabemos que silenciar alguém é prática velha e serve, evidentemente, para anular as vozes incómodas. E a incomodidade tanto pode decorrer da falta de paciência para escutar dislates, como da considerada inoportunidade de algumas intervenções.

Sabemos do velho grito «O rei vai nu!» Todos viam, mas não era conveniente afirmá-lo. Ganhava a conveniente dissimulação.

Isto de dizer a verdade inconveniente é coisa perigosa e conhecida desde há muito. Quem não ouviu dizer que cortaram a cabeça a São João, o baptista, por dizer a verdade? Pois é, quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.

Do meu canto, tento acompanhar o dia-a-dia desta inditosa pátria tão mal amada. Que me perdoe o Luís de Camões, mas veio a propósito distorcer a sua memorável e sentida manifestação de amor a Portugal. Amor não correspondido, aliás, ontem e hoje. Isto de amar o torrão natal e as suas gentes nem sempre é coisa pacífica. E o mais curioso é que esta inconveniência é como o vento -- sopra daqui, sopra dali... e, quantas vezes, já nem sabemos como e onde abrigar-nos da ventania.

Seja como seja, mais mal do que já fizeram não poderão fazer os agentes eólicos.

Do meu canto, tento estar atento e paciente, aguardando que passe o temporal. E de temporal em temporal, mais agredido, menos agredido, vou resistindo até ao juizo dito final. Até lá, siga a dança! E se a morte vier, que venha! Sabemos, também, é da sabedoria popular, que se queres ser bom, morre ou vai-te embora! Eu cá estarei quando vier esse consolo! Eu e muitos mais, porque não sou exemplar único...

Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
Alentejo Portugal

domingo, 13 de outubro de 2013

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Alquimista

Foto Internet, com a devida vénia.


De água e terra é a mistura. 
Quanto baste a quantidade. 
E na lama da procura 
amasso a minha vontade. 

Sou refém do meu passado 
quando inventei por caminho 
ser um austronauta ousado 
nas asas de um passarinho. 

Sou refém do meu presente 
e de mãos nuas enfrento 
este meu destino urgente 
de navegar contra o vento. 

Sou refém do meu futuro, 
onde diviso uma fonte 
de água pura que misturo 
com promessas de horizonte. 




José-Augusto de Carvalho 
8 de Junho de 2007. 
Viana * Évora * Portugal 

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

15 -CANTO REBELADO * Assombração




Caem noites nas sombras da insónia.
Solitárias, bocejam as ruas.
Erram bruxas infrenes e nuas,
em febril e fatal cerimónia.

Doem ermos os montes sombrios.
Uivam feras agouros danados.
Atrevidos, há répteis alados
inventando cruéis desafios.

Fixamente, o insondável medita.
O delírio das bruxas porfia.
É o mundo no fim, pressagia
a crendice... e o lapuz acredita.

E o poeta, a cabeça meneando,
rosna, incrédulo: oh, Povo, até quando?


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Dezembro de 2012.