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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

17 - HARPEJOS * Cantares... (16)




Soletro, em cada verso, harpejos de inocência,

na pálida cadência

do vago anoitecer...

*

E vou, de verso em verso, ousando o meu poema,

silvestre, de alfazema,

num vago conceber...

*

Os ritmos são de acaso, arfando ou suspirando,

assim, sem onde ou quando,

num vago acontecer...

*

As rimas, sem matiz, são vãs sonoridades,

num manto de ansiedades

de vago entretecer...

*

Escrevo devagar. De dia ou a desoras.

Meu tempo tem por horas

um vago discorrer...

*

Na folha de papel, que branca me seduz,

revérberos de luz

num vago entontecer...

*

Meus olhos semicerro à luz que me encandeia.

No verso que tacteia

um vago debater...

*

No peito, o coração, aos poucos, esmorece

e o verso desfalece,

num vago adormecer...

*

O verso derradeiro, o verbo imperecível,

extingue-se, impossível,

num vago emudecer...

*



José-Augusto de Carvalho
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

17 - HARPEJOS * Cantares-2




Eu canto porque estou vivo


e porque recuso ser

dócil agente passivo

no direito de viver... 




Canto as asas altaneiras 

que ganham longes e espaço 

e canto o fim das barreiras 

que não me travam o passo... 




Canto com amor a terra, 

onde sou e donde vim, 

e se morrer contra a guerra, 

só paz haverá em mim... 




Canto a palavra certeira, 

mesmo que doa ou que fira... 

Canto a vida verdadeira 

que não conhece a mentira... 




Canto a coragem suada 

de quem ganha o pão que come... 

E a semente germinada 

é um grito contra a fome... 




José-Augusto de Carvalho 
Viana*Évora*Portugal

terça-feira, 8 de outubro de 2013

17 - HARPEJOS * Cantares - I



Eu canto as horas amargas
das cargas e das descargas
das barcas de arrojo e pinho…
Eu canto os longes das rotas
abertas pelas gaivotas
com asas de níveo linho…


Eu canto as horas sombrias
de medos e de agonias
no mais além da tormenta…
Eu canto as horas de luto,
naufrágios, febre, escorbuto,
sabor de cravo e pimenta…


Eu canto no Cabo Não
o sim de passar ou não,
mas nunca o retroceder…
Eu canto os Cabos da Dor!
Gil Eanes — Bojador,
tormentas de estarrecer…


Eu canto as Áfricas virgens,
feridas desde as origens
de mágoas e predadores…
Eu canto as Índias da História,
cobiças, dramas e glória
de incenso e de roxas cores…


Eu canto os áureos Brasis,
a cana em negro matiz
de açúcar de acres sabores…
Eu canto a nesga europeia
do Poeta e da Epopeia
do Fado das nossas dores…



José-Augusto de Carvalho 
Viana * Évora * Portugal