terça-feira, 31 de janeiro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Memorial


A grande questão que se nos coloca é por onde começar. 


As situações que se nos deparam são várias. 

Graduar as prioridades não será tarefa fácil porque divergem as perspectivas de análise e graduação. Ora porque assim é, decididamente será preferível ir abordando as situações, não ao acaso, mas como elas nos ocorrerem. E sem preocupação de interesses outros que não os da cidadania, estes, sim, os únicos que nos movem. 

Não buscamos prebendas nem aplausos.

Aprendemos a viver com pouco; deixamos os aplausos para os que se exibem em palanques.

Não diremos nada de original. Lá diz o rifão que nada de novo há sob o sol. Apenas nos limitaremos a salientar o que foi soterrado, designadamente valores e bom-senso.


Entre diversas lacunas, salientamos, agora, a de um memorial dos filhos desta terra que deram a vida por causas ponderáveis ou não. Falamos dos mortos na I Grande Guerra e na Guerra Colonial. Falamos de cidadãos que foram chamados a intervir em conflitos. As causas que os provocaram já foram ajuizadas pela História.

Considerando que Viana é sede de município, a lacuna referida será semelhante nas povoações de Aguiar e Alcáçovas, exactamente porque integram este município. 

Trata-se duma homenagem devida e consensual, evidentemente. 

É muito séria a decisão que provoca o derramamento de sangue. 

Da reparação de tamanho dano, falamos da perda de vidas, as entidades públicas ajuizarão. Para tanto (também) servem. 

A bem da justeza, oxalá que bem ajuízem.

Até sempre!


José-Augusto e Carvalho
2 de Abril de 2012.
Viana*Évora*Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O Largo (dito) de São Luís


Todos sabemos que os espaços urbanos públicos exigem embelezamento e que muitos são, por definição, áreas de convívio das populações em suas horas de lazer.


Aqui, em Viana, um espaço que poderemos, sem favor, qualificar de nobre é o Largo de São Luís.

Encostado à muralha Sul do Castelo, logo um espaço soalheiro, nada tem que o dignifique. E é uma pena.

Também a sua designação toponímica dará que pensar. São Luís? Certamente São Luís de França, rei gaulês que morreu no Norte de África, ao tempo das Cruzadas. 

O porquê desta homenagem estará por justificar. 

Melhor seria, opino eu, ser Largo Dom João II, o Príncipe Perfeito por vontade do Povo e que comprovadamente muito apreciava esta vila. 

Ora pois, rever a toponímia, alindar devidamente o Largo, inclusive com um busto deste monarca, seria obra a exigir parco dispêndio.

Aqui ficam o reparo e a sugestão.

Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
12 de Dezembro de 2011.
Viana * Évora * Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Carta de longe (2)


Pergunta-me, na sua carta sob resposta, o motivo por que tanta gente anda alheada. Pois é, não havendo efeito sem causa, será indispensável saber o porquê do alheamento que grassa por aí.

Sabemos que há muitas perguntas e poucas respostas, mas este tempo é deveras um tempo de perguntas, mais exactamente, um tempo de interrogação.

Ora, este tempo assentará numa crescente perda de valores. Estaremos numa encruzilhada? Talvez. Tal como os impérios têm as três fases clássicas -- ascensão, apogeu e queda, também a sociedade terá o ímpeto, o auge e a decadência. O ímpeto será a construção; o auge, a fruição; a decadência, o fim do ciclo.

A fase do ímpeto caracterizar-se-á pela entrega empenhada, onde todos são indispensáveis e concertados num todo conforme as suas capacidades; a fase da fruição será a satisfação pelo êxito obtido; a decadência será a fase da penalização de quem não percebeu que a efemeridade do presente exige que se prepare o futuro, incessantemente.

Consumada a decadência, outro ímpeto se impõe. Para lhe dar corpo e vigor, de novo se impõe a entrega empenhada, onde todos são indispensáveis e concertados num todo conforme as suas capacidades. E quando obtido novo êxito, que seja comedida a fase da fruição e incessantemente preparado o futuro, prevenindo a fase da decadência, porque esta sempre estará à espreita.

Meu Amigo, os responsáveis pela decadência não são as vítimas da jactância e da irresponsabilidade no Poder. Certo?

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Agosto de 2013.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Carta de longe (1)


Amigo, de longe escrevo estas linhas.

Chegaram-me as suas notícias e só acredito no que li porque o meu Amigo as subscreveu. Eu sei que todo o tempo é composto de mudanças. Quem o não sabe?

Comecemos pelos jovens. Naquele tempo, eram protegidos e acarinhados. Eram o Futuro e o Futuro prepara-se. Sabíamos que a impetuosidade e a inexperiência não eram atavios apropriados. Ser arguto e experimentado aprende-se. Todo o mestre começou por ser aprendiz; e aprendiz que se preze irá além do mestre. E assim é porque o saber não é uma rotina mas um processo de progressão sustentada.

Diz-me o Amigo que houve alterações e que os jovens corrigirão os erros enquanto progridem. Não conhecia estas novas artes da progressão. E, deixe-me dizer-lhe, não creio que se haja mudado para melhor. E por aqui me fico. Mais tarde, me dirá. Mais tarde, quando for o tempo da safra; agora, é o tempo da sementeira.

Quanto à empresa, recordo-lhe que semear ilusões é diferente de semear a esperança. Da primeira sementeira colherá apenas a frustração; da segunda colherá a certeza de que quem porfia sempre alcança.

Motivos ponderáveis trouxeram-me para longe. Não foi uma escolha, foi uma decisão imposta pelas circunstâncias. A vida é o que é e nunca será o que gostaríamos que fosse.

O caminho é sempre fértil de encontros e desencontros, mas chegarão os caminheiros que resistem ao cansaço e ao desalento. É da Vida e a História comprova-o. Por isso, espero e desejo que persevere, sem desfalecimentos.

Até sempre!

Abraço.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Julho de 2013.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Hora política


Andam por aí uns quantos reclamando que a Constituição da República Portuguesa carece de revisão. 

Até eu concordo, a bem do primado da Lei e da Democracia.

Aos doutos reclamantes proponho esta alteração fundamental, a ser referendada, de modo deliberativo e não consultivo, a fim de que o Povo sem voz se pronuncie de vez:

Artigo - Todos os governantes, seja Poder Central, seja Poder Regional, seja Poder Local, cumprirão escrupulosamente os seus programas sufragadas pelo Povo Eleitor.

Único – O incumprimento total ou parcial sem justificação inequívoca provocará a sua destituição pelo Tribunal Constitucional, com efeitos imediatos, e a convocação de novo acto eleitoral.

Vamos a isto?



José-Augusto de Carvalho
4 de Janeiro de 2014.
Alentejo * Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Tempos difíceis


Nestes tempos que vivemos, os acontecimentos que nos desgostam e/ou nos indignam sucedem-se a um ritmo avassalador.

Sei que é recorrente esta afirmação, mas nem sempre há a predisposição para o silêncio. Como diz o velho rifão: Um homem não é de ferro!

Vivemos tempos difíceis!

Vivemos tempos difíceis, fundamentalmente devido à acção despudorada do Homem.

Em todas as latitudes, há violência: a violência da fome; a violência da carência; a violência da intolerância; a violência do esbulho; a violência dos conflitos armados; a violência dos jogos obscenos de poder e de opressão.

Hoje, os telejornais abrem, via de regra, com notícias de desgraça, de desprezo pela Vida, de insulto e humilhação.

Vivemos tempos difíceis!

A globalização da desumanidade e da infâmia é a realidade de todas as horas.

E se é verdade em termos globais, adentro do nosso pequeno mundo também as coisas não irão melhor.

Hoje, pessoa amiga visitou-me para me dar a notícia da morte de alguém que bem conhecíamos. Este facto não motivaria a redacção de qualquer texto. Afinal, morrer é a consequência natural de qualquer ser vivo. A Morte vive connosco. É a única certeza que temos nesta vida!

O que motivou estas linhas foi constar que a pessoa morreu há três ou quatro dias e só ontem se ter sabido.

Esta funesta ocorrência levanta a interrogação: os Centros de Saúde, as Juntas de Freguesia, as Câmaras Municipais não têm sinalizadas as pessoas em risco, designadamente as que vivem sozinhas?

É com desgosto e indignação que vivo estes dias de desumanidade e violência.

Li, há anos, um texto de autor brasileiro, cujo nome não recordo, no qual, uma personagem dizia: «Se o mundo é isto, parem o «bonde» (carro eléctrico), porque eu quero sair.»
.

José-Augusto de Carvalho
3 de Setembro de 2014.
Alentejo * Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O candidato


A reflexão que o leitor lerá a seguir decorre de uma casualidade, casualidade relevante, porque me permitiu alinhavar estas considerações, que partilho.

Ouvi, há dias, um diálogo curioso. Não cometo nenhuma inconfidência ao referi-lo, porque ocorreu em lugar público e sem qualquer indício de sigilo. Nem o tema era merecedor de recato.

O tema em discussão era definir o perfil de um candidato a um cargo directivo. Como bem se compreende, tema importante; e a preocupação igualmente compreensível.

É importante o perfil de um candidato e não menos importante é votar num candidato com perfil ajustado à função a que se propõe.

O interessante do diálogo era a preocupação incidir sobre a popularidade do candidato a encontrar. Em boa verdade, não foi manifestada preocupação pela capacidade.

Este meu reparo coincidirá com algumas observações habituais de muitos eleitores sobre candidatos: “este é simpático”; “aquele nunca se ri”; “não gosto da cara daqueloutro” ; e por aí…

Nada tenho a opor às apreciações que cada um faz e declara ou cala. Tenho, sim, que sejam ou possa ser determinantes na sua decisão de votar.

Sustento, e muitos me acompanham nesta posição, que a decisão de votar, de escolher, afinal, deve assentar na competência e nos valores que qualquer candidato comprovadamente defende.

Mais sustento, e aqui também não estou sozinho, que deveremos mais privilegiar a prática quotidiana do candidato do que os seus discursos de campanha.

Sustento ainda, e finalmente, que será sempre ideal questionar o candidato, de preferência em sessões de esclarecimento, porque as respostas que der às perguntas que lhe forem dirigidas serão matéria para reflexão e posterior decisão quando o eleitor for chamado a votar, isto é, a escolher quem considera mais apto para o cargo, seja cargo político ou outro qualquer.

Espero que o leitor não esteja propondo meditação sobre a inexistência de sessões de esclarecimento. Se for esse o caso, dir-lhe-ei que um candidato que se oponha a sessões de esclarecimento não terá o meu voto.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 7 de Setembro de 2014.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * No tempo que passa...


Aqui chegado em anos vividos, já pouco me surpreende e já quase tudo me desgosta. Longe vai o tempo da esperança pela esperança ou da expectativa pela expectativa.

A vantagem dos anos vividos assenta no capital de desenganos e logros. Capital doloroso, evidentemente, mas indispensável como prevenção.

Um ou outro momento de ventura ou encantamento dulcifica a vida, suavizando o quotidiano, mas nada acrescenta à dignidade colectiva.

Não há pessimismo nem desalento, há, com a possível lucidez, a análise do dia a dia. Do meu dia a dia e do dia a dia dos demais.

Os determinismos da rotação e da translação são indiferentes e alheios ao objectivo humano de viver com dignidade e com a possível satisfação.

Com Bocage, aceito que «os homens não são maus por natureza». E reconheço ser o meio a condicionar o ser humano. Há valores que se ganham e há valores que se perdem. É imperioso conhecer as causas destes ganhos e destas perdas e não só enfrentar os seus efeitos.

Nos textos (ditos) sagrados e nos profanos, encontram-se relatos da condição humana. Dos seus fastos e das suas misérias. É de sempre o exemplo de quem vive uma vida inteira por uma causa nobre e/ou de quem muda de causas com a conveniência de quem muda de farpela.

Aqui, curvo-me perante a nobreza de carácter.

Aqui, e não por flagelação, tento estar atento a todas as acrobacias e grito não a quem quer o pão e circo de triste memória.

Enquanto vivos, é-nos indispensável a força moral da resistência e a capacidade de perspectivar a dignidade humana como um objectivo a construir dia a dia, incessantemente.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Maio de 2012.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Reflexão de um cidadão versado em coisa nenhuma


Sou versado em coisa nenhuma. Cidadão comum das ruelas , aprendo com a vida, dia a dia, a furtar-me às arremetidas dos senhores da cidade. Na mesa modesta, que mais não consente o salário determinado pelos senhores da cidade, vou comendo o tal pão que o diabo amassou. Não invejo os senhores da cidade porque recuso ser um deles. Se os invejasse, talvez, por ínvios caminhos, viesse a ocupar um lugar na fortaleza e a ser pior do que eles. O importante para quem é versado em coisa nenhuma é arrasar a fortaleza e reduzir os senhores da cidade a cidadãos comuns das ruelas. E não será nivelar por baixo, mas anular aberrações.

Eu, cidadão versado em coisa nenhuma, sei que por muito que mude de senhores, nunca mudarei de condição. E o drama não está na minha condição, mas na minha permissão. Se os senhores da cidade são tão poucos e os cidadãos versados em coisa nenhuma são tantos, só uma permissividade aberrante consente que o oiro de um palácio seja a fome de um casebre. Esta grande verdade que coloquei em itálico é do poeta José Duro, alentejano de Portalegre, falecido em 1899, em Lisboa. Ele, se vivesse ainda, não se importaria de que me socorresse do seu verbo. Meu pobre José Duro que, quando já só ossos descarnados, foste parar à vala comum, triste destino dos ossos abandonados! Nem a subscrição pública surtiu. Para nossa vergonha.

Eu, cidadão versado em coisa nenhuma, sei que sou aluno aplicado da universidade da vida. E que só concluirei os meus estudos quando o nada me bater à porta.

Sou poeta quando canto: «Da terra sou devedor / a terra me está devendo / que a terra me pague em vida / que eu pago à terra em morrendo». E, depois, que faço eu? Pago à terra, mas, antes, permito que a terra me fique devendo...

Sou sábio quando afirmo: «Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo». Mas continuo parvo. E se tivesse um pouco de bom, seria bom para mim...

Sou indigno de mim e dos outros quando digo: A minha política é o trabalho, nefasta criação da mordaça salazarista. 

Quando eu souber, de uma vez por todas, que trabalho é uma actividade e que política é o governo da cidade, saberei, finalmente, que não posso nem devo esperar que os demais façam o que só eu tenho o dever e o direito de fazer.

Serei eu, digno de mim, quando assumir os meus deveres e os meus direitos de cidadão versado em coisa nenhuma.

Só nessa hora saberei quanta verdade encerra a parábola dos vimes.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Abril de 2006.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * As Finanças


É ancestral o anseio de independência. O ouro do palácio do senhor em nada enriquece o servo. Por isso, este sonha ganhar a sua carta de alforria e erguer o seu casebre.

Assim agiram os povos submetidos, anelantes de liberdade. E de esforço em esforço, fizeram seus os montes e as planuras, os rios e outros caminhos. Foi a assumpção do ter para garantia do ser. Os que não lograram obter o seu objectivo, terão de rever o seu percurso e determinar as causas do insucesso relativo. Não há nostalgia da servidão, há sequelas. E quem perde ou aliena os montes e as planuras, os rios e outros caminhos, está regredindo ao palácio dourado do senhor e às algemas da servidão.

O grande poeta Fernando Pessoa recordou-nos que Jesus nada sabia de Finanças. Pois é, eu também nada saberei, mas será necessário saber de Finanças para perceber que quem perder aquilo que tem ficará sem nada? E ficar sem nada é perder o presente e hipotecar o futuro.

Recordo, aqui, uma lenda antiga, que resumo:

Um senhor, que passeava pelos campos, encontrou um velho camponês plantando uma árvore. Admirado, perguntou-lhe:

--- Pobre velho, na tua idade, para quê plantar uma árvore? Já não terás vida para comer os seus frutos.

Sábio, o camponês respondeu:

Pois não, eu sei que estou velho, senhor; mas os meus filhos e os meus netos irão comê-los. E isso me basta.

Não há notícia de os filhos ou netos do velho camponês terem alienado a árvore tão amorosamente plantada para eles. E também não há notícia destes filhos e netos saberem de Finanças. Pois…


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Maio de 2012.

24 - CULTURA DE AFECTOS * Poetas


[Noticia en 4 idiomas] - La censura jordana acusa al gran poeta Ibrahim Nasrallah de haberse atrevido a tratar un tema tabú: Ofender al Estado jordano y las fuerzas armadas, de levantar conflictos...
***

Versos lejanos

Para Ibrahim  Nasrallah


Hay alas de libertad
con penas de terciopelo
y sangre de soledad
en los azules del cielo.

Viejos miedos sín edad,
asombros malos del vuelo.
No matarán la verdad
que, herida, irrumpe del suelo!

Mis ojos miran las flores
que nacen en tu jardín,
en una alba de colores.

Ay, el viento es un clarín,
anuncio de los albores
de mañanas de carmín... 


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 6 de Julio de 2006.


*

Poetas

Para José-Augusto de Carvalho


En esa ciudad buena y distante
En un patio colmado de hierba
Todas las cosas cantan
Y todos bailan
Él dijo: Anda e invita a bailar a esa bella muchacha
Yo era tímido
Él dijo: si los poetas pierden
El mundo no ganará


15.Julio.2006
Ibrahim Nasrallah

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... ` Do criador e do seu trabalho


O criador nunca é o melhor crítico do seu trabalho. Consciente ou inconscientemente, é, via de regra, maternalmente benevolente. E entende-se, sem esforço. No momento da criação e no período de graça que lhe é subsequente, o criador não tem nem pode ter a distanciação que lhe permita, sem emoção nem afectividade, analisar criticamente o seu trabalho, o que vale dizer, sem reclamar a sua condição de criador.

O criador fica, nesse período de graça, tão vulnerável e sensível, que não resistirá, sem desgosto, a uma crítica que não seja agradável. É a situação da mãe perante os seus meninos, que são lindos, lindos... ainda que não o sejam.

Qualquer criador, independentemente da sua idade e da sua maturidade, é, nesse período de graça, um adorável adolescente. E ainda bem!

Ao crítico eu apelo para que atente na situação e não perturbe nem magoe o criador em "idade adolescente". Não lhe peço que minta, porque mentir é feio; e porque nada se constrói sobre os alicerces da mentira; mas que seja tolerante e aguarde que passe o período de graça. Se assim for, o criador agradecerá, pois, entretanto, também já terá reparado no seu trabalho e visto que era ou não era assim tão belo quanto o supusera.

O crítico e o leitor anónimo têm o dever de respeitar a fragilidade da inocência que preside a todo o acto criador. Olhar um trabalho recém-executado requer o mesmo carinho e a mesma contemplação que se observa numa criança abrindo os olhos para a vida, pela primeira vez. Porque o seu olhar está vestido de inocência e de espanto e porque o mundo em derredor, que vai acolher a criança, é o desconhecido acenando à promessa que chega, naturalmente indefesa, mas confiante.

Todos sabemos que, para um criador, nem sempre o seu melhor trabalho é o mais querido. Só o trabalho que tem do criador uma carga emocional avassaladora, que, passe o tempo que passar, esteja sempre palpitante e vivo como foi no acto de criação, será o trabalho mais amado, mais perturbado e perturbador. E se não é o melhor, porventura se apresenta como o mais autêntico, por mais sentido.

A sensibilidade dos criadores é muito variável quanto à divulgação dos seus trabalhos. Uns se apresentam ousados, outros timidamente. E há, ainda, os criadores que guardam tão ciosamente os seus trabalhos que parece terem pudor ou ciúme de que outros olhos os vejam. Tudo decorre da nossa condição humana e tudo deve merecer uma atenção cuidada.

Qualquer acto de criação se assemelha ao acto de parir. É um momento mágico, que nenhum malfeitor sem alma nem coração pode conspurcar com aleivosias ou grosserias ou indiferenças pétreas e obtusas.

Profetas da desgraça também houve sempre. Nem Homero ficou imune a Zoilo. Aliás, a História da Literatura está enublada de detractores e de profecias inconsequentes e porventura malévolas, quando não subterraneamente invejosas.

Oxalá esta "nota de leitura" possa merecer a ponderação de quem a ler. Se assim for, terá alcançado o seu único objectivo - o amor e a paz no coração de todos.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Setembro de 2003.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O encargo de escrever


Escrever é comunicar. 

Quem escreve tem ou supõe ter algo a dizer ao outro. 

Quem lê determinará se o que leu foi útil ou uma perda de tempo, do seu tempo de cidadão e leitor.

Escrever é trabalhoso, é mal pago, pode ser um prejuízo material.

Vejamos:

É trabalhoso porque escrever exige horas de estudo e de ponderação, exige consultas e recolha de dados e despesas daí decorrentes;

É mal pago materialmente porque sempre se considerou de somenos o trabalho intelectual; e é mal pago ainda quando não há o reconhecimento por parte das entidades públicas e privadas que da Cultura se reclamam;

Pode ser um prejuízo material quando quem escreve tem de pagar as edições para o seu trabalho chegar ao leitor.

Além de quanto antecede, há ainda a situação de quem escreve evitar a edição dita de autor, daí preferir a chancela de uma editora. E esta preferência decorre de ser comum entender-se que a edição de autor determinará menor qualidade do texto editado, pois texto de qualidade terá sempre editora disposta a editar.

Esta verdade feita tem feito o seu caminho na nossa sociedade. Infelizmente.

E aqui levanta-se outra dificuldade para o autor se não for autor consagrado, logo dando garantia comercial ao editor. E a dificuldade é a de ter de pagar a edição e receber uns quantos exemplares do seu livro, os quais, se conseguir comercializá-los, lhe permitirá recuperar o dispêndio. Os restantes exemplares ficarão propriedade da editora, que os comercializará, deles pagando por direitos de autor 10% (ou pouco mais) do preço de capa. 

Ponderada esta situação relatada, pergunta-se por que motivo o Estado (do Ministério da Cultura às Juntas de Freguesia) não procura soluções para analisar as obras que lhe sejam submetidas por muitos autores que temos e a esse critério adiram? Depois, seria publicar as que fossem consideradas merecedoras do dispêndio do erário público. Por que tanto se dificulta o que é simples e, não raras vezes, se simplifica o que é difícil e dispendioso?

Seria a promoção da palavra escrita e um serviço público à Cultura. E mesmo que seja de atender ao binómio custo-benefício, retorno haverá, certamente.

Evidentemente que para além da palavra escrita, outras actividades na área da Cultura deverão merecer a mesma ponderada atenção.

Aqui fica, para que conste.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 15 de Dezembro de  2014.

domingo, 22 de janeiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Sonho de Primavera!


(QUE VIVA O CORDEL!)








Quando tu acreditaste

que chegara a Primavera,

o medo gritou-te: espera!

e tu, confuso, esperaste.



Tiveste medo do medo,

do medo que te encarcera.

Foi porque tiveste medo

que perdeste a Primavera.



Depois, chegou o Verão,

muito quente, muito quente!

E tu, nessa lassidão,

dormias indiferente.



Quando acordaste, era Outono,

o tempo das azeitonas.

E tu, ainda com sono,

à modorra te abandonas!



Só quando em redor olhaste,

viste a paisagem mudada:

nua estava a débil haste,

no abandono desfolhada.



Ficaste sem entender

o que tinha acontecido,

como se pudesse haver

no não-ser algum sentido.



Hoje, nas águas paradas

do paul tentas sonhar

caravelas encantadas

sedentas por navegar.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Janeiro de 2017.




sábado, 21 de janeiro de 2017

20 - VENCENDO BARREIRAS * Urgência




Nesta encruzilhada global,

é urgente questionar.



Nesta encruzilhada global,

é urgente interpretar o Passado,

é urgente situar o Presente,

é urgente prevenir o Futuro.



Nesta encruzilhada global,

é urgente regressar à rosa-dos-ventos,

é urgente definir a rota,

é urgente enfrentar as borrascas,

é urgente dobrar o cabo da negação.



Nesta encruzilhada global,

é urgente recusar os feitiços dos cantos das sereias,

é urgente recusar as tentações,

é urgente evitar o naufrágio da perdição

é urgente dobrar outra vez o Cabo das Tormentas





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2016.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A balança


(QUE VIVA O CORDEL!)







Põe os pratos na balança!

Pesa-me um quilo de pão

e dez gramas de esperança

para eu comer ao serão.



Põe os pratos na balança

e deixa a dança parar.

Se não parares a dança,

no peso vais me enganar.



Sei que de pobre não passo,

quer tu me enganes ou não,

enquanto tolhe o meu braço

a insana resignação.



Talvez este tempo mude,

porque a inércia não existe,

e eu podendo o que não pude

faça o que tu nunca viste.



E quanto hoje tão mal aprontas,

numa gula sem parança,

serão parcelas das contas

a pesar noutra balança.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo. 21 de Janeiro de 2017.




11 - O MEU RIMANCEIRO * O jumento



(QUE VIVA O CORDEL!)





Tão manso, sobe a ladeira! 

Manso, manso, mansidão! 

Vai à feira, vem da feira, 

leva ou traz a servidão. 



Sobre o dorso, pesa a albarda. 

Sobre a albarda vai o dono. 

Só a noite alta lhe guarda 

algumas horas de sono. 




No estábulo solitário 

espera a magra ração: 

é o mísero salário 

de quem vive em servidão. 




Cale-se a palavra gasta 

incensando a compaixão! 

De tantas loas já basta! 

É tempo de dizer não! 




E que venha o que vier 

na mudança anunciada! 

Traga a vida o que trouxer, 

sempre será outra estrada. 






José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 20 de Janeiro de 2017.