terça-feira, 15 de julho de 2014

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Paisagem

Rio Grande do Sul*Brasil
Mulher gaúcha (Prenda)
Foto Internet, com a devida vénia




Dançando, rodopias na leveza 
dos dias enlaçados na ternura, 
dourando de alegrias a candura, 
ganhando em melodias a beleza. 


Doçuras encantadas nos teus olhos, 
caiadas as brancuras dos casais. 
São duras as arestas dos abrolhos, 
agruras decantadas por jograis. 


Murmuram as correntes dos riachos 
frescura dos teus dentes brancos, brancos... 
As uvas amaduram... cheira a mosto!... 


As chuvas são de pérolas nos cachos... 
Embriaga-se o vinho nos estancos... 
E a vida ressumando no teu rosto! 




José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2002
Porto Alegre*Rio Grande do Sul*Brasil

06 - TUPHY VIVE! * Oração






Chegaste definida na surpresa. 
Na boca, a travessura dum sorriso. 
Suspenso da neblina da incerteza, 
olhei-te na miragem indeciso. 


Lavava a minha mágoa sem altar 
no pátio profanado p’la descrença. 
Na noite dos silêncios a pairar, 
o meu não-ser velava a treva densa. 


No teu olhar suave a claridade 
banhava de carinho a minha espera. 
No teu sorriso, alvura e mocidade 
florindo perfumada a primavera 


Na bênção de te ver acreditei 
e aos pés da vida em ti me ajoelhei




José-Augusto de Carvalho 
10 de Novembro de 2002 
Porto Alegre*Rio Grande do Sul*Brasil

06 - TUPHY VIVE! * Na solidão da vida...

Foto Internet, com a devida vénia



Aqui, na solidão da vida, me enterneço, 
cantando a tua ausência em versos de saudade. 
E quando a noite cai na noite que adormeço, 
me sonha e vela a luz da tua claridade. 

Lucila o setestrelo em mágico adereço 
e as curvas do teu corpo exalam ansiedade. 
No fogo em que crepito, em êxtase enlouqueço 
e vejo definida a nossa eternidade. 

Seremos nós mortais ou transe e paradigma 
de um sonho que se quer lendário e se projecta 
além do nada e pó que temos por limite? 

Efémero viver! Que deslumbrante enigma 
nasceu dentro de nós e freme asa inquieta 
clamando por um deus que nele habite? 



José-Augusto de Carvalho
Novembro de 2002
Porto Alegre
Rio Grande do Sul * Brasil

15 - CANTO REBELADO * Aqui

Sagres, Portugal * Foto Internet, com a devida vénia


Aqui, se rende ao mar a terra despojada.

Os sonhos de luar bordados na fragrância

florida dos jardins da lenda perfumada

sucumbem ao furor da ignara intolerância.



Do ledo murmurar das fontes a memória

esvai-se devagar num tempo de clausura.

Dos tempos de esplendor à mácula censória,

que triste condição ainda em nós perdura!



Que faço agora aqui com esta liberdade

se em tudo o verbo ter supera o verbo ser?

Que sonho de evasão eu posso desta grade

se a força do poder está no verbo ter?



Resisto e grito não! E ao sol deste dilema,

com sangue escrevo, letra a letra, este poema...





José-Augusto de Carvalho
15 de Outubro de 2006.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 2 de julho de 2014

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Pentacríptico




1.
No princípio, o verbo quis,

em conjugações obscuras,

ser grão e depois raiz

do chão projectando alturas...


Desnudo, no paraíso,

o par de divina essência

cantava, no tom preciso,

o elogio da indolência.


Do seu cume imperativo

e projectando o perfil

pelas lonjuras de anil,

deus olhava o par cativo.


E, certo da tentação,

provocou a transgressão.



2.
Expulso do paraíso

no primeiro alvorecer,

era ainda um improviso

a vida que houve de ser.


Adão pesou, pensativo,

o gesto da divindade

e a condição de ex-cativo,

encontrada a liberdade.


E naquela antemanhã,

que mal podemos supor,

percebeu por que a maçã

tinha um estranho sabor:


o sabor da inteligência

acordando a consciência.



3.
Pródiga era a natureza!

Tudo dava, hospitaleira...

Viver era uma beleza,

sem transtorno nem canseira.


Sentia às vezes saudade

do paraíso perdido...

Mas fora a sua vontade:

assim tinha decidido.


Lá, tinha que obedecer,

ser aplicado no estudo

e ouvir e não rebater...


A liberdade era assim:

não se podia ter tudo

dentro ou fora do jardim...



4.
Sem armas e sem abrigos,

um ninho nos ramos altos,

prevenia os sobressaltos

dos mais diversos perigos.


Nessa arte da construção

imitou os primos símios,

que eram astutos e exímios,

arquitectos de eleição.


Gozando a paz absoluta,

descobriu ser bom pensar:

e concluiu que uma gruta

era o lar a conquistar,


por ser melhor tal intento

do que viver ao relento.



5.
Um dia, o par decidiu

o que há de mais natural:

Eva emprenhou e pariu

o pecado original...


E do seu cálido ninho,

recendendo a puridade,

foi descoberto o caminho

terrestre da humanidade.


E tudo assim sem alarde,

nem hosanas nem prebendas...

Não foi cedo nem foi tarde.

Depois vieram as lendas,


vestindo de cor e rito

o simbolismo do mito.




José-Augusto de Carvalho
9 de Junho de 1998.
Viana*Évora*Portugal