domingo, 10 de dezembro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO, * Rimance do imenso mar



(O MEU RIMANCEIRO)

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Rimance do imenso mar







Era imenso, imenso o mar

que se abria à nossa frente!

Gritava o vento: é urgente,

é urgente navegar!



Mães, esposas, prometidas,

em lágrimas e oração,

previam a perdição

nas águas desconhecidas.



E num balbucio aflito,

imploravam: não nos tente

este mar à nossa frente

com seu apelo maldito!



E que se cale este vento

de lamentos de sereias

vestindo as nossas areias

de luto e de sofrimento!



Mas o mar, o imenso mar

que se abria à nossa frente

escutava indiferente

tanto medo e tanto orar.



Filho da terra, o arvoredo,

cortado e bem trabalhado,

era agora um novo arado

sulcando as águas do medo.



Como um berço, sobre as águas

baloiçava docemente…

E não via à sua frente

um mar de medos e mágoas.



Quando içou as brancas velas,

sentiu o afago do vento

e sonhou nesse momento

o sonho das caravelas.



Um sonho ainda menino,

mas tão grande como o Mundo!

E o sonho não foi ao fundo…

O sonho era o seu destino!



Mais tarde, quando outra gente

baniu o sonho menino,

ergueu este desatino

que agoniza decadente…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2017.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Em louvor da Vida



(TEMPO DE SORTILÉGIO)

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Em louvor da Vida





Na dimensão do todo, encontro-me plural.

Deveras quero ser uma acha da fogueira.

Anónima, uma acha, entre outras, da lareira

ardendo no teu lar em noite de natal.



Que importa se o natal apenas é um mito?

Importa é que no frio o fogo te acalente

e que no teu sonhar não sintas interdito

o mágico devir que alente o teu presente.



No ventre da mulher germina a utopia

da vida que floresce em cada primavera,

num ciclo que se cumpre em transe natural.



Na tua/minha voz suave a melodia

que a condição de ser e de mistério gera,

louvando em cada parto o mito do natal.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 7 de Dezembro de 2017.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Com Florbela...



(NA ESTRADA DE DAMASCO)
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Com Florbela…







Sou um traço de união

a ligar o chão que piso

à lonjura de evasão

do impossível impreciso. 



Amassado o barro vil,

pó cozido ao sol do estio,

quando o céu azul de anil

mais adensa o meu vazio.



Foi inútil a procura

que tentei além de mim.

Sou princípio da urdidura,

da urdidura serei fim.



E seguindo a tua estrada,

sou também «pó, cinza e nada».





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Dezembro de 2017.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

10 - CANTO REVELADO * A perpétua construção


(CANTO REVELADO)

A perpétua construção 


Dórdio Gomes, Pintor alentejano, com a devida vénia




Nem pratos de ilusões ou de lentilhas…

Nem taças do elixir dos desvarios…

Só quero do pão asmo das partilhas,

em sopas, no gaspacho, p’los estios.



O vinho e o pão devidos ao sustento,

para que o meu labor de cada dia

não sofra reduções de rendimento

nem mal augure os tempos de invernia.



O vinho e o pão do ajuste equitativo

que me garante a força do meu braço

e a minha condição que assumo e vivo

no que recuso e no que inteiro faço.



Que eu saiba ser plural na dimensão

multímoda e em perpétua construção.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 29 de Novembro de 2017.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Em louvor do movimento



(TEMPO DE SORTILÉGIO)
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Em louvor do movimento



Tela de Siqueiros, com a devida vénia





Não trago no bornal renúncias e atropelos.

Não trago no cantil as sedes saciadas.

Caminho com a lama até aos tornozelos.

Nos campos ermos, domo angústias, rasgo estradas.



Saúda a cotovia os arrebois do dia.

O seu cantar feliz desperta os meus sentidos.

Levanto-me da cama ao som da cantoria.

Meus passos não serão incertos nem perdidos.



Difícil é andar ao frio que enregela

por mais que seja belo o manto de brancura,

mas mais difícil é tomar pincéis e tela

e ser a dimensão de nós ganhando altura



Difícil é andar ao vento que flagela,

(o látego zurzindo injúrias e inclemências), 

mas mais difícil é domar o leme e a vela

da nau que aporte ao fim de todas as urgências.



Importa caminhar, a vida é movimento.

É mero pormenor, chegar ou não ao fim.

Os passos que eu não der, jamais por desalento,

mais tarde, outros darão, por eles e por mim.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Novembro de 2017.

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

13-NA PALAVRA É QUE VOU..., * Todos somos hispanos


NA PALAVRA É QUE VOU..., 
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Os nacionalismos em Espanha são uma questão mal resolvida desde o princípio. Um após outro, os nacionalismos foram mal absorvidos pelo Reino de Leão, depois pelo Reino de Castela e Leão e finalmente pela união do Reino de Castela e Leão com o Reino de Aragão. Desta última união resultou a Espanha que conhecemos hoje, união ocorrida na segunda metade do século XV.


O centralismo de Madrid foi e continua sendo uma tentativa desesperada de lutar contra a identidade dos povos que integram o todo da Espanha.

A nossa Poetisa Natália Correia recordou certa vez a realidade da Península Ibérica: “Todos somos hispanos”. Ou iberos, digo eu. Mas todos sermos hispanos ou iberos é diferente de sermos todos espanhóis ou de todos reverenciarmos a identidade leonesa-castelhana.

A Catalunha integrava o antigo reino de Aragão.

A legitimidade reconhecida hoje a todos os povos de escolherem o seu destino colide frontalmente com a rigidez arcaica do Poder Espanhol. Um povo não está contra outro povo quando reclama o legítimo direito de escolher o seu destino sem tutelas.

Madrid está numa encruzilhada: ou aceita os legítimos anseios dos outros nacionalismos hispanos ou esmaga aquela legitimidade. E aqui chegados, a questão é outra: o confronto entre a força da razão e a razão da força.

A Espanha poderá ser uma Federação de Estados Independentes, voluntária e fraternalmente juntos numa caminhada comum.

Eu assumo a minha identidade de português e de hispano sem contradições nem complexos.

Cordialmente,

José-Augusto de Carvalho.
Alentejo, 3 de Novembro de 2017.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * De jornada



O MEU RIMANCEIRO

(QUE VIVA O CORDEL!)


De jornada






Perguntas-me se eu vou na contramão…

Entrei na via de único sentido

apenas, podes crer, por distracção.

Que pena eu ser assim tão distraído.



Mas, à cautela, já saí da via…

Quem nesta vida andar por distracção,

arrisca-se a entrar na romaria,

ainda que sem fé nem devoção.



De alforge e de cantil e de cajado,

sem bússola estelar, cá vou sozinho.

Apenas tenho os astros por telhado

e o longe que me acena por caminho.



E se vou ter ou não a alegria

de ao longe que me acena além chegar,

não sei, mas sei que certa é esta a via

e por agora que me baste ousar.







José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 26 de Outubro de 2017.