quarta-feira, 18 de abril de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Para sempre


(TEMPO DE SORTILÉGIO) 


Para sempre 






Longe ou perto, a pegada que houver 

é a prova da minha passagem. 

Sim, fui eu, na obsessiva viagem 

p’los caminhos de mim que eu puder… 



P’los caminhos que são ou que invento 

é que eu vou a cumprir-me no afã 

de acender para sempre a manhã 

do meu deslumbramento. 





José-Augusto de Carvalho 

Alentejo, 18 de Abril de 2018.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Olhai



O MEU RIMANCEIRO 


Olhai 






Olhai as minhas mãos vazias e enrugadas 

que já perderam tudo. 

Não mais as infantis manhãs alvoroçadas 

do mais estreme ludo… 



Não mais as trovas de alma e coração rendido 

no ardor primaveril em asas de andorinha 

ousando amor além do régio permitido 

na bela que depois de morta foi rainha… 



Não mais a sedução de longes e sereias 

nas minhas mãos abertas, 

gretadas pela flor de sal das marés cheias 

de arrojo e descobertas… 



Olhai agora e vede as minhas mãos tão frias, 

num desespero de ais, 

enquanto enfrentam já sem força as agonias 

do nosso amado cais. 



Olhai que não vos peço esmola ou pia prece. 

Sem nada, tudo tive! 

De nada mais careço aqui onde se tece 

a vida de quem vive. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 16 de Abril de 2018.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Das manhãs...


O MEU RIMANCEIRO 


Das manhãs… 




Há manhãs assim: 

diferente acorda o dia, 

mais intenso o carmesim, 

como há muito se não via. 

Mais parece no sangrar 

que este Mundo em vil desmando 

não mais é do que um altar 

outro mártir imolando 




Outras há de nevoeiro, 

de tamanha cerração, 

que confunde um timoneiro 

que precisa a direcção. 

Horas são de calafrios 

e mão firme p’ra valer, 

que encobertos os baixios 

lá estão p’ra nos perder! 




Há quem diga haver também 

as manhãs puras e belas 

que este céu sim fim sustém 

como a mais bela das telas. 

Que talento de pintor 

deslumbrando o céu sem fim? 

Quem me dera a luz e a cor 

duma só manhã assim! 




Que sonho lindo leveda 

no dulçor da nostalgia 

do Jardim antes da queda… 

…o jardim que então havia! 

Nunca mais o leite e o mel! 

Sem Jardim, ficámos sós. 

Preferindo Deus Abel, 

com Caim ficámos nós. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 5 de Abril de 2018.

sábado, 24 de março de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * A fisga



(Histórias de um tempo perdido para sempre) 


A fisga 



O Lourenço jogava ao berlinde e ao pião, como todos os rapazinhos da sua idade, mas não usava fisga. Um dia, quando regressavam da Feira anual, um seu colega de Escola, o Anastácio, quis saber:

--- Lourenço, por que não usas fisga?

A resposta foi seca:

--- Não uso porque não quero.

Anastácio não aceitando a resposta como esclarecedora, insistiu provocante:

--- Tu não sabes atirar, é por isso que não tens uma fisga.

Lourenço olhou interrogativamente o colega e precisou:

--- Eu não disse que não tenho uma fisga, eu disse que não uso fisga.

Anastácio ficou calado, perplexo. E Lourenço, friamente, clarificou:

--- Tu perguntaste por que não uso fisga e não se eu tenho uma fisga.

Anastácio compreendendo o ardil em que caíra, tentou sair dele com um desafio:

--- Se tens fisga, sabes atirar como nós sabemos…

Lourenço acenou que sim com um movimento de cabeça.

Nesta altura da conversa todos pararam na expectativa do que se adivinhava. E o que se adivinhava chegou quando Anastácio lançou o repto:

--- Se sabes atirar, vamos ver qual de nós dois tem melhor pontaria.

Lourenço encolheu os ombros, com indiferença.

Anastácio concretizou o repto:

--- À melhor de cinco fisgadas. Quem perder tem direito a desforra. Se houver empate, uma terceira série de cinco fisgadas decide o vencedor.

Todos concordaram à excepção de Lourenço que de novo encolheu os ombros num sinal evidente de indiferença.

Foi fácil a escolha de um alvo --- uma rolha de cortiça colocada numa das muitas fendas de um muro não rebocado de uma horta. Os atiradores alvejariam a rolha a vinte passos de distância.

Lourenço propôs usar a fisga de Anastácio para ficarem ambos em total igualdade. A proposta foi aceite. Por sorteio, Anastácio seria o primeiro a alvejar a rolha.

Pouco demorou a recolha de projécteis, pequenas pedras escolhidas no chão, arredondadas e de dimensão um pouco inferior â de um berlinde.

Anastácio era conhecido de todos como um bom atirador de fisga; Lourenço era para eles um grande ponto de interrogação; não tinham memória de o ter visto com uma fisga na mão.

Anastácio cumpriu a primeira série de cinco fisgadas. Acertou quatro vezes. Era um bom resultado.

Todos os olhares se concentraram curiosos em Lourenço. Que iria suceder?

Lourenço acertou as primeiras quatro fisgadas e olhando fixamente Anastácio disse:

--- Pronto, empatámos.

Surpreendidos, todos disseram:

--- Lourenço, ainda te falta uma fisgada…

Lourenço encolheu os ombros e justificou:

--- Pode ser, mas eu devo errar a rolha, não vale a pena arriscar. Está bom assim, empatámos.

Anastácio ficou apreensivo. Afinal, Lourenço o surpreendera. Era um bom atirador de fisga e agora até recusava a possibilidade de vencer; mas a sua ânsia de superação prevaleceu e aprestou-se para a segunda série de fisgadas.

Uma dúvida assaltou os demais colegas: seria que Lourenço não queria perder mas também não queria ganhar para não desgostar Anastácio?

Os dois atiradores ocuparam os seus lugares para a segunda série de fisgadas.

Anastácio repetiu o resultado. Errou de novo a primeira fisgada e acertou as quatro restantes.

Havia ansiedade evidente em Anastácio e um mal-estar contido nos demais.

Lourenço atirou certeiramente quatro vezes e entregou a fisga a Anastácio.

--- Toma lá a tua fisga. Já chega de fisgadas, ficámos empatados.

Todos ficaram calados, excepto Anastácio, que protestou:

--- Quem desiste, perde!

Calados, os colegas adivinhavam situação desagradável. Lourenço sossegou-os ao se dirigir ao adversário com um sorriso:

--- Está bem, Anastácio, tu ganhaste, és um bom atirador. Podes levar a taça.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Março de 2018.

terça-feira, 20 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Maré-cheia!



O MEU RIMANCEIRO 


Maré-cheia! 


Marielle 



A noite acende as luzes da ansiedade. 

O medo tranca portas e janelas. 

O grito emudeceu das sentinelas. 

As rondas não patrulham a cidade. 



Galopam pelas ruas da cidade 

sem lei os pesadelos assassinos, 

assombração dos leitos dos meninos. 

suplício de letal impunidade. 



Sofrem e morrem sem saber por quê 

as indefesas gentes da cidade. 

Que cívico poder da Autoridade? 

E que Ordem? Que progresso? Ninguém vê? 



Por quanto tempo mais a impunidade? 

De quantas vítimas carece a Ordem 

para se impor à sanha da desordem, 

para haver paz e vida na cidade? 



Caíste agora tu, mulher e voz 

dos ofendidos todos da cidade. 

Morreu contigo o verbo da verdade! 

Sem ti, ficámos órfãos e mais sós! 



Inunda a ruas todas da cidade 

a dádiva sangrenta --- maré-cheia! 

E um povo adulto indómito semeia 

searas de amanhã e liberdade! 



Há sempre páscoa em tempo de cordeiros 

e sacrifícios velhos de impiedade. 

Que a paz floresça livre na cidade! 

Banidos sejam cruzes e madeiros! 







José-Augusto de Carvalho 

Alentejo, 20 de Março de 2018.

segunda-feira, 19 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Da barbárie...



O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o cordel!) 


Da barbárie... 




Atroam as trombetas e os tambores. 

Solícitos, com destemor, acorrem 

os bélicos actores: 

uns matam, outros morrem. 



Imposta a causa, agora definidos 

os trágicos efeitos: 

os insepultos corpos dos vencidos 

e o júbilo em desfile dos eleitos. 



Nas torres de menagem dos castelos 

hasteiam-se os pendões de vivas cores: 

são verdes e vermelhos e amarelos. 

Ufanos, rufam-rufam os tambores. 



A noite cai, alheia ao desvario. 

Desdobra-se um silêncio de mortalha. 

Um mocho lança um agoirento pio 

que sobre os mortos lúgubre se espalha. 



Não mais “honra aos vencidos”. 

Palavras velhas de idos estertores 

são símbolos banidos. 

Que glória aos vencedores? 



Se um justo não perdoa, mas aplica 

as normas da Justeza e da razão, 

merece punição quem edifica 

um ser e estar da vida em negação. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 19 de Março de 2018.

segunda-feira, 12 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * O boato


O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o cordel!) 

*

O boato 




Diz-se que disse… Quem disse? 

É suspeita ou é verdade? 

Se fica na obscuridade 

o autor que se diz que disse, 

qual é a veracidade 

deste diz-se que alguém disse? 



Tudo quanto se propala 

ou o sustenta o rigor 

ou a suspeita se instala 

como eco perturbador 

que sem provas assinala 

agente difamador 



Quanto do que é suspeitado 

é intriga ou é despeito? 

Ninguém só porque é suspeito 

em Juízo é condenado 

Apenas o que é provado 

em Juízo é de Direito. 



Será réu de alta traição 

ao primado da justeza 

quem ousar a subversão 

e amordaçar a defesa 

a interesses de facção 

ou de ardilosa torpeza. 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 12 de Março de 2018.