domingo, 15 de julho de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS * Os nossos Cabos


DO MAR E DE NÓS-2

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OS NOSSOS CABOS






À memória de Gil Eanes




Há sempre mais um cabo por dobrar...

Dobrado o Cabo Não, o Bojador

ergueu-se hostil e um trágico rumor

desceu, num pesadelo, sobre o mar.



O Gil tomou o leme e sem tremer

levou a caravela e um Povo todo

além do medo, além do sal e iodo,

até ao longe por amanhecer!...



E o dia por haver amanheceu,

lavado p'la procela que bramia,

cantado p'lo velame que gemia,

ousado porque ao medo não cedeu!...



De cabo em cabo, foi a ousadia

de ir mais além do sonho e da utopia...




José-Augusto de Carvalho
15 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal,
*
(O navegador Gil Eanes, natural de Lagos (?), cidade da Província do Algarve, comandou a caravela que dobrou o então temido Cabo Bojador em 1434.)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Exortação



O MEU RIMANCEIRO 
Exortação 



Há um tempo cumprido. 

Há um tempo a cumprir. 

Um minuto perdido 

é andar e não ir. 


A boca que consente 

o grito sufocado 

decide no presente 

um futuro adiado. 


A inércia não existe. 

Perpétuo, o movimento 

definido persiste 

ser acção, ser alento. 


Quem perder a coragem, 

sujeito à rendição, 

não irá de viagem 

dobrar o Cabo Não... 




José-Augusto de Carvalho 
Alentejo - Portugal

quarta-feira, 11 de julho de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Quase uma oração


Quase uma oração 



Eu pago a água que é uma dádiva do Céu 

Eu pago a energia que é uma dádiva da água 

que é uma dádiva do vento 

Eu pago o pão que é uma dádiva da Terra 

que é um dádiva de quem trabalha a Terra 

Senhor que és omnipresente e não me vês… 

Senhor que és omnisciente e deixas-me perdido nos meus porquês… 

Senhor, eu sei que sou o barro que amassaste 

naquele dia antigo que perdura ainda nos escombros caóticos da memória 

Tu sabes que também do mesmo barro que amassaste 

eu fiz tijolos e ergui casas… 

E outros meus irmãos ergueram muros e cárceres que perduram… 

Senhor, o velho bezerro de ouro do Sinai 

é um velho sempre em novas transfigurações e perversões 

Senhor, a tua obra está datada 

e o tempo sempre noutros tempos reinventado degenerou 

Senhor, talvez tenha morrido o sonho que sonhaste 

Talvez, num outro tempo, 

no tempo de hoje, 

eu tenha de amassar um outro barro 

e inventar um sonho novo… 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 11 de Julho de 2018.

terça-feira, 10 de julho de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Fadário


Fadário 

(Foto internet, com a devida vénia) 



Aqui, sou um poeta 

que vegeta 

num matagal de versos. 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Abril de 2018.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Meus versos



(Ícaro, Chagall)


Pediste-me um poema original

como se eu fosse um mago jardineiro

cuidando com desvelo, num canteiro,

de raro e fascinante roseiral.


Quem dera eu fosse o mágico poeta

que em rosas as palavras transfigura!

Vermelhas rosas ébrias da ternura

que dissimula uma paixão secreta.


Dos deuses enjeitado, como ousar

as siderais alturas onde os astros

são círios a velar ainda Orfeu?


Perdidos neste chão de malmedrar,

meus versos são efémeros os rastros

de quem não teve a graça de voar...



José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2018.
Alentejo * Portugal



domingo, 13 de maio de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * A estrada


O MEU RIMANCEIRO 


A estrada… 





Quando se nasce, inventa-se uma estrada. 

É uma estrada aberta, passo a passo, 

mesclada de ansiedade e de cansaço, 

que dura enquanto dura a caminhada. 



Das flores e gorjeios infantis 

à moça idade idílica de enleios 

que frustrações, que angústias, que receios 

o sol maculam dum devir feliz? 



Mais tarde, o céu se nubla e o vento agreste 

ensaia a sua dança de procelas. 

As portas rangem, rangem as janelas, 

de fumo negro a chaminé se veste. 



Dezembro traz no manto saturnal 

as prendas e as oníricas miragens. 

O mito novo traz, noutras roupagens, 

a derradeira prenda… a de natal… 






José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 12 de Maio de 2018.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

38 - A MINHA ANTOLOGIA * A LUIS DE CAMOENS


(A MINHA ANTOLOGIA)
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A LUIS DE CAMOENS

(A Luís de Camões)








Sin lástima y sin ira el tiempo mella


Sem compaixão nem ira, o tempo oxida


Las heroicas espadas. Pobre y triste


as heróicas espadas. Pobre e triste


A tu patria nostálgica volviste,


à nostálgica pátria regressaste,


Oh capitán, para morir en ella


oh capitão, para morreres nela


.


Y con ella. En el mágico desierto


e com ela. No mágico deserto


La flor de Portugal se había perdido


a flor de Portugal perdida estava.


Y el áspero español, antes vencido,


E o áspero espanhol, antes vencido,


Amenazaba su costado abierto.


ameaçava o teu dorso sem defesa.


.


Quiero saber si aquende la ribera


Quero saber se aquém da ribeira


Última comprendiste humildemente


última compreendeste humildemente


Que todo lo perdido, el Occidente


que o todo que perdeste, o Ocidente


.


Y el Oriente, el acero y la bandera,


e o Oriente, o aço e a bandeira,


Perduraría (ajeno a toda humana


perduraria (alheio a toda a humana


Mutación) en tu Eneida lusitana.


mutação) na tua Eneida lusitana.




*

Jorge Luís Borges

(Tradução de José-Augusto de Carvalho)