domingo, 13 de maio de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * A estrada


O MEU RIMANCEIRO 


A estrada… 





Quando se nasce, inventa-se uma estrada. 

É uma estrada aberta, passo a passo, 

mesclada de ansiedade e de cansaço, 

que dura enquanto dura a caminhada. 



Das flores e gorjeios infantis 

à moça idade idílica de enleios 

que frustrações, que angústias, que receios 

o sol maculam dum devir feliz? 



Mais tarde, o céu se nubla e o vento agreste 

ensaia a sua dança de procelas. 

As portas rangem, rangem as janelas, 

de fumo negro a chaminé se veste. 



Dezembro traz no manto saturnal 

as prendas e as oníricas miragens. 

O mito novo traz, noutras roupagens, 

a derradeira prenda… a de natal… 






José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 12 de Maio de 2018.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

38 - A MINHA ANTOLOGIA * A LUIS DE CAMOENS


(A MINHA ANTOLOGIA)
.

A LUIS DE CAMOENS

(A Luís de Camões)








Sin lástima y sin ira el tiempo mella


Sem compaixão nem ira, o tempo oxida


Las heroicas espadas. Pobre y triste


as heróicas espadas. Pobre e triste


A tu patria nostálgica volviste,


à nostálgica pátria regressaste,


Oh capitán, para morir en ella


oh capitão, para morreres nela


.


Y con ella. En el mágico desierto


e com ela. No mágico deserto


La flor de Portugal se había perdido


a flor de Portugal perdida estava.


Y el áspero español, antes vencido,


E o áspero espanhol, antes vencido,


Amenazaba su costado abierto.


ameaçava o teu dorso sem defesa.


.


Quiero saber si aquende la ribera


Quero saber se aquém da ribeira


Última comprendiste humildemente


última compreendeste humildemente


Que todo lo perdido, el Occidente


que o todo que perdeste, o Ocidente


.


Y el Oriente, el acero y la bandera,


e o Oriente, o aço e a bandeira,


Perduraría (ajeno a toda humana


perduraria (alheio a toda a humana


Mutación) en tu Eneida lusitana.


mutação) na tua Eneida lusitana.




*

Jorge Luís Borges

(Tradução de José-Augusto de Carvalho)

domingo, 6 de maio de 2018

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA! * O mesmo canto



(…e contigo eu morri nesse dia!) 


O mesmo canto 






Quis dar-te o sol de Julho, o sol do meio-dia! 

O mesmo sol que ardia 

naquele dia já antigo em que eu nasci. 

Eu sei que é utopia 

querer que seja teu o mesmo sol que ardia 

e que eu também perdi. 





Irrepetível foi --- fugaz deslumbramento, 

aquele meu momento, 

que quis que fosse teu, de natalício espanto. 

Que valha a comunhão 

de só um coração 

palpitar no teu peito e no meu o mesmo canto! 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 6 de Maio de 2018.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

15 - CANTO REBELADO * Auroras boreais

(TEMPO REBELADO)

*


Auroras boreais



Para o Luiz Inácio 



Tu sabes, eles nunca toleraram 

que fosses tu o verde da esperança 

e o maduro amarelo da mudança… 

…o sonho que as hienas sufocaram. 





Mas tu herdaste o sangue da memória 

dos ofendidos todos que caíram, 

daqueles que sabiam mas não viram 

que a luta acende sóis e escreve a História. 



Com sangue e com suor se amassa o pão, 

se amassam os tijolos, se erguem casas, 

se erguem escolas, se erguem hospitais! 



Nas mãos de quem trabalha há céu e chão, 

há sonhos onde a vida ganha as asas 

de espanto das auroras boreais. 




José-Augusto de Carvalho 

Alentejo, 4 de Maio de 2018.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

15 - CANTO REBELADO * Manifesto da evasão


(CANTO REBELADO) 


Manifesto da evasão 




Nos campos ermos, onde o tempo mais parece 

alento já não ter, não sei se vou sozinho 

ou se partilho com alguém este caminho 

que desafia ousar --- que nunca desfalece… 



Não leio nos jornais notícias do futuro! 

Não vejo nas tevês imagens de albas novas 

nem na telefonia escuto as vivas trovas 

cantando a luz e a cor do dia que procuro… 



Aqui, apenas me pergunto e nada mais? 

Que inércia ou prostração no tempo que não pára? 

Que demissão de ser ou que renúncia ignara 

ferrou as velas que palpitam neste cais? 



Não quero acreditar na angústia dos meus olhos… 

Quero outra vez o mar de vento e rebeldia! 

Quero outra vez o mar de longe e de ousadia! 

Quero outra vez o mar ainda que de escolhos! 





José-Augusto de Carvalho 

Lisboa, 3 de Maio de 2018.

domingo, 29 de abril de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O trágico delírio


(TEMPO DE SORTILÉGIO) 


O trágico delírio 


Pintura que descreve o momento em que
a cavalaria portuguesa é cercada e envolvida 
pelas forças muçulmanas. 





Antiga, jaz a terra despojada. 

O Sol em chamas --- arde o céu azul! 

Dói em minh’alma ainda angustiada 

o fascínio do Sul. 



Que ceptros, que linhagens, que deidades 

caminhos de desterro determinam? 

Que feiras de opulências e vaidades 

amanhãs exterminam? 



Calaste a voz do Velho do Restelo 

que no poema grita ainda viva. 

Tragou-te o caos --- ergueste o pesadelo 

duma pátria cativa. 



No desamparo, a noite triste vela. 

Na imensidão do céu, lucilam círios. 

De Leste, o vento as nuvens acastela 

predições e martírios. 



Oh ânsia tresloucada de poder! 

Oh trágico delírio a sucumbir 

no palco inconquistado do não-ser, 

em Alcácer-Quibir? 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 28 de Abril de 1018.

quarta-feira, 18 de abril de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Para sempre


(TEMPO DE SORTILÉGIO) 


Para sempre 






Longe ou perto, a pegada que houver 

é a prova da minha passagem. 

Sim, fui eu, na obsessiva viagem 

p’los caminhos de mim que eu puder… 



P’los caminhos que são ou que invento 

é que eu vou a cumprir-me no afã 

de acender para sempre a manhã 

do meu deslumbramento. 





José-Augusto de Carvalho 

Alentejo, 18 de Abril de 2018.