segunda-feira, 18 de maio de 2020

17 - HARPEJOS * Paisagem



HARPEJOS~
.
.Paisagem




Do cimo de São Vicente

vejo o castelo de Beja,

quando um sol de estio ardente

ao inferno faz inveja.



Meus olhos mergulham fundo

na lonjura que me ganha.

Não há fronteiras no mundo!

Ninguém vive em terra estranha!



Nem pequenez, nem grandeza.

A dimensão verdadeira

que sopesa com firmeza

frágil mão duma ceifeira...




José-Augusto de Carvalho
8 de Março de 2006.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 15 de maio de 2020

25 - LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO * Em louvor da Poesia


Livro TEMPO DE SORTILÉGIO
.
Em louvor da Poesia




É quando o verso atinge a forma e ganha altura

em ritmos de manhã e de sonoridade

que o verbo se compraz em halos de ternura

e encontra para a Vida a rima em liberdade


É quando a Poesia autêntica revela

ser a raiz, a planta, a flor, a melodia

que a luz de cada dia entrando p’la janela

me serve embriagada a vida em Poesia


É quando a soluçar Eurídice me chama

das sombras do não-ser que sei que não morreu

a flor que se desfolha em versos nesta vida


É quando o coração se dilacera em chama

que sei que em todos nós ainda vive Orfeu

que nunca a Poesia em nós será perdida


*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Abril de 2005.

domingo, 26 de abril de 2020

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * O elogio da Mãe



ESTA LIRA DE MIM!...

*
O elogio da Mãe






Que dia pode haver que te consagre, 

se há tanto os dias todos já são teus? 

Se todos nós, quer crentes, quer ateus, 

em ti reconhecemos o milagre? 



Teu ventre é o sacrário da promessa 

que sempre, imperecível, é cumprida, 

na vida que se dá de novo à vida, 

num hino de louvor que nunca cessa. 



O teu regaço terno embala o mundo, 

o mundo que te esquece e que se perde 

na horas em que mais de ti carece. 



Do céu azul ao pélago profundo, 

do luto preto à esperança verde, 

até ausente, és tu quem permanece. 




José Augusto de Carvalho 
Alentejo, 29 de Abril de 2011. 




quinta-feira, 23 de abril de 2020

25 - LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO * Asa ferida



LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO


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Asa ferida







Os anos não passaram sobre ti.

És hoje e sempre assim eu te verei:

a rosa na roseira que entrevi,

olor e cor do sonho que sonhei.



Perfeita foi a Vida e eu me rendi. 

Ao fogo a consumir-me me entreguei. 

Nas cinzas onde ardido me perdi 

ainda abandonado me encontrei. 



Que importa agora o nada que ficou? 

Um dia só de sonho bastaria! 

Bendita sejas, asa que voou 

além do que sublima a fantasia! 






José-Augusto de Carvalho
Alentejo*Portugal

17 - HARPEJOS * Memória




No passado dia 15 de Dezembro de 2019, em Lisboa, sob o acolhimento inexcedível da Associação Salgueiro Maia, ocorreu o lançamento do livro Harpejos.


Aqui ficam esta memória de Abril e a minha reiterada homenagem aos valorosos Capitães que sonharam e continuam a sonhar uma Pátria e um Povo na identidade e na dignidade dos superiores anseios da nossa humana condição.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Abril de 2020.

sábado, 18 de abril de 2020

25 - LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO (HARPEJOS) ` Luísa Fernandes




Sessão de lançamento de Harpejos


Intervenção de Luísa Fernandes


A aventura de ficar / nesta terra espezinhada / ou o delírio de acordar / pelas três da madrugada” foi responsável por o José-Augusto e eu nos termos cruzado nos caminhos de cravos e de libertação que Abril rasgou.

A Revolução trouxe o sonho real de nos darmos as mãos e de sentirmos bater nos nossos peitos o coração de um País sedento de afirmação e de identidade.

Os heróis de Abril aqui saúdo com a mesma emoção com que saudei, nos meus vinte e seis anos a Revolução dos cravos.
O José-Augusto escreveu outros livros depois de arestas vivas, de 1980, livro do qual destaco o pequeno poema-registo da aurora libertadora com que iniciei esta minha intervenção.

Abril está em quase todos os seus livros. É natural. Tanto ele como eu nos reclamamos do Povo que somos, do Povo que muito amamos.

Quis o Destino que nos cruzássemos de novo e que o José-Augusto me pedisse para estar aqui presente e para  participar nesta sessão de lançamento do seu último livro --- Harpejos.

Harpejos é um livro de cantares de esperança e de mágoa que o militar de Abril Serafim Pinheiro prefaciou e que duas companheiras de jornada enriquecem com textos tocantes --- a Céu Pires e a Rosa Barros.

Do prefácio, permito-me destacar: “Passei momentos de exaltação, alegria, tristeza, fascínio e avistei cabos do desespero e sofrimento quando ouvi estes cantares de José-Augusto de Carvalho. Vivi. Aprendi. Assim, quero continuar companheiro deste poeta que a Poesia não abandonou e se afirma, por seu carácter, transtagano de coração e alma e português de verdade.”

Também Céu Pires escreve, na introdução: “Da harpa que os seus dedos tocam saem as notas a que já nos habituou: “O amor à terra, particularmente à sua (nossa) terra transtagana, o amor à vida, o amor à palavra, mas também a denúncia das barreiras, de todas as barreiras que impedem a realização da Humanidade em cada ser humano.”

E a finalizar, Rosa Barros, no posfácio, salienta: “ José-Augusto de Carvalho canta o duro solo, o calor da terra, a revolta do suor, a luta pelo pão de cada dia, a solidão do pensamento, a solidariedade pelo semelhante, a pertinência pela defesa de ideais.”

O livro aqui fica.

As minhas saudações.

Luísa Fernandes

Lisboa, 15 de Dezembro de 2019.

sábado, 21 de dezembro de 2019

25 - LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO * O derradeiro mito

LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO

*

O derradeiro mito






O Sol declina morno --- fim de tarde.

É tempo de vindimas --- cheira a mosto.

Há um rubor sagrado no teu rosto.

Teu corpo abandonado dá-se e arde.


Prosterno-me a teus pés e sou um círio

que um sacrifício de alma e luz consome.

Meus lábios balbuciam o teu nome

que dulcifica o fel do meu martírio...


Eu sei que vou morrer assim por ti.

Que dádiva dos deuses mereci

de em fumo me cumprir --- de ser o eleito!


Que importa agora quanto foi escrito?

Seremos nós o derradeiro mito...

...este princípio e fim mais que perfeito!



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, Dezembro de 2019.