sábado, 17 de novembro de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Ali Baba


O MEU RIMANCEIRO
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(QUE VIVA O CORDEL!)

*
ALI BABA




Ali Baba, a lenda que ficou
do chefe dos ladrões – eram quarenta.
D’As mil e uma noites transitou
a lenda para a vida e tanto bem medrou
que por feitiço dia a dia aumenta.

O roubo ganhou formas e matizes
e tanto medra a solo e medra em coro!…
As vítimas se queixam: que juízes,
perante as nossas roxas cicatrizes,
acabam com tamanho desaforo?

Ecoam pelas ruas, pelas praças,
protestos e lamúrias, mas em vão.
São de raiz os males e as trapaças.
Com panos quentes, faças o que faças,
não mudas nunca a sua condição.

Arranca o que é daninho, o que não presta,
permite que germine outra semente,
e colherás suado mas em festa
o pão e o vinho, as flores da giesta,
cumprido como vida e como gente…


José-Augusto de Carvalho
17 de Novembro de 2018.
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

06 - TUPHY VIVE! * Esta Ponte!


TUPHY VIVE! 
Esta Ponte! 




Há uma ponte que liga 

as duas margens do abismo 

que foi cavado no tempo 

da severa intolerância. 



Há um abismo que quer 

separar-nos para sempre… 

Para sempre é muito tempo 

e nós nem fomos ouvidos 

por quem cavou este abismo 

para separar o corpos 

que estiveram sempre unidos. 



Há uma ponte que erguemos 

desde os tempos da discórdia 

dos impérios e das crenças 

para separar os corpos 

que sempre tanto se amaram. 



Há uma ponte de Vida 

que não será destruída 

enquanto a Vida for Vida. 



José-Augusto de Carvalho 
16 de Novembro de 2018 
Alentejo » Portugal

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Representação


TEMPO DE SORTILÉGIO
.
Representação 




O tempo está mudado, meu amor. 

Olha, começa a representação: 

ao céu azul o chumbo rouba a cor, 

sem luz já se angustia o coração. 



As nuvens se acastelam, uiva o vento; 

não tarda já horríssono o trovão; 

não tarda já o látego sedento 

e em fogo as piras da devastação. 



Estamos nós aquém - além da cena 

ou seremos também no palco actores? 

Quem contigo ou comigo contracena 

o Bem e o Mal --- a preto e branco e a cores? 



A fuga é impossível, meu amor! 

O Tudo e o Nada aqui representamos. 

O que tiver de ser, seja o que for, 

vai depender do quanto aqui nos damos. 



E a queda, se ocorrer, que se redima 

na força da semente que carrega… 

que possa ser ou seja o verso e a rima 

do amor que não se rende nem se nega. 



José-Augusto de Carvalho 
14 de Novembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS * Epitáfio


(DO MAR E DE NÓS...)
*
Epitáfio 


(Evocação do trágico naufrágio de Bartolomeu Dias, 
porventura o maior navegador português,
o “Capitão do Fim”, como lhe chamou Fernando Pessoa) 



Os medos enublados da procela. 

O mastro geme, inúteis leme e vela. 



O frágil lenho sobe as altas vagas, 

para descer aos vales quase a pique! 

Que acima da procela, de ti fique 

o sonho no momento em que naufragas! 



As horas em que vive a perdição, 

benditas já p’la derradeira prece… 

O frio que te abraça e te arrefece, 

memória e lenda em trágico padrão… 



E foi mais do que as Índias e os Brasis 

e as ânsias de conquistas e as usuras, 

o alor imperecível dum país, 

o fel e o mel de todas as loucuras… 



José-Augusto de Carvalho 
28 de Janeiro de 1997. 
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * Eu, aqui!


NA PALAVRA É QUE VOU...
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 Eu, aqui!



Eu, português, aqui me situo:

Nesta Península europeia, banhada a Norte e Ocidente pelo Oceano Atlântico e a Sul e Oriente pelo mesmo Oceano e pelo Mar Mediterrâneo, eu sou, hoje, resultante de todos os que existiram antes de mim.

Fui ibero, quando a Península assumiu a designação de Ibéria; fui hispano quando o Império Romano decidiu designar a Ibéria como Hispânia; fui andalusi quando a dominação muçulmana chamou Al-Ândalus à velha Ibéria e à romana Hispânia; subsidiariamente, até poderei ter sido sefardita, já que a migração hebraica chamou Sefarad a esta minha muito amada e mátria península.

Não sei o que os rigorosos Historiadores pensarão do que eu digo; mas eu sei que a nostalgia dos tempos passados me leva a reclamar toda esta ascendência, para o Bem e para o Mal.

E não estou sozinho nesta nostalgia. Dos nossos tão antigos avoengos sobressai, entre outros, o lusitano Viriato, ibero e integrante da Lusitânia, chefe assassinado da resistência ao invasor Império Romano mais de um século antes da nossa era. Ora pois! Se a independência de Portugal remonta a 1.143, século XII, falamos de um ibero-lusitano que viveu e morreu (grosso modo) 1.200 anos antes de Portugal existir como país. E aqui chego à nostalgia dos tempos idos. A célebre resposta “Roma não paga a traidores” que terão recebido os assassinos de Viriato quando pretenderam receber o prémio da acção para que haviam sido aliciados está conforme as relações entre vencedores e vencidos. “Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes”.

O Império Romano procedeu como sempre procedem os dominadores: autoridades pela razão da força, trouxeram inegavelmente saber e desenvolvimento e exploraram as riquezas naturais como proprietários que eram de facto.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades / ganhando sempre novas qualidades”, precisou lucidamente Luís de Camões num dos seus sonetos mais famosos.

Está estudada a romanização de muitos e muitos países que surgiram na fase pós-romana. E não tenho conhecimento de os naturais destes países reclamarem o pouco ou o muito de que se apropriou o Império Romano ou de se permitirem apodá-lo de ladrão. E o motivo é claro: conforme o tempo que se vivia, os territórios ocupados eram propriedade do ocupante.

Ao que me consta, corre por aí uma “bem-pensante” teoria de que se deve reescrever a História e, mais ainda, ler o Passado com os olhos do Presente. E assim sendo, avante o julgamento do Passado! Ora do passado mais remoto ao mais recente se reclama a evolução da Humanidade. O Presente não mais é do que o resultado das lutas evolutivas, ora ganhas, ora perdidas, lutas onde venceram ou foram vencidos aqueles que querem hoje sentar no banco dos réus do tribunal do Presente.

Nesta miscigenação actual, quem me garante que no meu sangue não há vestígios de mártires ou de verdugos, de justiceiros ou de rendidos com honra ou sem ela?

Eu, português, aqui me situo como consequência do tudo que me gerou.

Sem preconceitos, sem jactâncias nem penitências e para o Bem e para o Mal, aqui estou na afirmação do que sou, conforme o tempo que vivo.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Setembro de 2018.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Terra antiga


CLAVE DE SUL
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Terra antiga 

Dórdio Gomes, Pintor Alentejano
(Com a devida vénia)


Para

Andrade da Silva e Serafim Pinheiro,

Capitães de Abril, meus Amigos






Na manhã sem palavras, a brisa 

orvalhada desliza 

no meu rosto. 

Na carícia de honesta ternura, 

sinto o gosto 

e o perfume da fruta madura. 

Terra antiga, 

suada e desnuda, 

que não muda 

quando a noite é de treva e castiga. 

Terra antiga de mágoas carpindo 

quando a força esmorece… 

Terra antiga do sonho mais lindo 

que entre mágoas e dor se levanta 

e manhã na manhã que amanhece 

polifónica canta. 

Terra antiga de Abril e de Maio maduro, 

que é de mar e de pão e de vinho! 

Terra antiga inventando o caminho 

do futuro 

com açordas de audácia e pão duro… 







José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Setembro de 2018. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

16 . NA ESTRADA DE DAMASCO * Pesadelo


NA ESTRADA DE DAMASCO

Pesadelo 






Avanços e recuos --- as propostas. 

O tom dum nepotismo autoritário. 

O trunfo é copas, ouros, paus, espadas… 

No pano verde sobem as apostas. 

O lucro fácil --- hausto perdulário 

exibe, em transe, as faces alteradas, 



Às portas da cidade, as sentinelas 

garantem a desordem ordenada. 

Além do fosso, jaz a terra imensa, 

exausta e quase estéril por querelas, 

rasgada e dividida em cada tença 

devida à hidra nunca saciada. 



E deus, que vive em glória nas alturas, 

nem olha por receio das tonturas 





José-Augusto de Carvalho 
In Vivo e desnudo, Editorial Escritor, 1996.