quarta-feira, 2 de junho de 2021

09 - CA NTAREMOS * Quero ser o passarinho...


CANTAREMOS
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Quero ser o passarinho...




Quero ser, quero ser o passarinho

que tem asas, que tem asas de distância

e me leve, e me leve, do seu ninho,

nas alturas, ao meu sonho de criança.


Mais além, mais além, corre uma estrada

perfumada com raminhos de alecrim

e, nos ares, numa nuvem prateada,

uma fada acenando para mim...


...se aproxima e me diz: linda menina,

o que fazes tu aqui, neste caminho?

E eu respondo: venho ver se tu me ensinas

a tecer, mas sem penas, o meu ninho.




Lisboa, 1 de Junho de 2021
(Dia Mundial da Criança)


terça-feira, 25 de maio de 2021

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Nas margens do Rio Xarrama

 

ESTA LIRA DE MIM!...

(Esta deriva a partir de "Saudades", de Bernardim Ribeiro.)


Nas margens do Rio Xarrama




Morreram de desgosto as Primaveras.

De lágrimas, as águas do Xarrama

levaram para o Mar que longe as chama

o morto rouxinol que Amor quisera.

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Saudades tantas da Menina e Moça

que se deixou levar do amado ninho

para sonhar um tálamo de arminho

e ousios que nem Eros veja ou ouça.

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Angústias idas, num sussurro instante,

as horas das memórias emolduram.

Saudades soluçadas amarguram...

Perdido o rouxinol que as ame e cante.

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Se em tudo houve Princípio, haverá Fim!

Apenas tu ficaste, Bernardim!...

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José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Maio de 2021.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

06 - TUPHY VIVE! * Amargura

 


A pedrada certeira atordoa,

ainda hoje, a memória sofrida

do candor que existiu na lagoa

que foi vida na lenda esquecida.

 

Os concêntricos círculos vários

agitaram as águas tranquilas.

Que caminhos de fim, arbitrários,

foram dores na dor de supor admiti-las?

 

Era um dia sem luz nem cor primaveril, 

dia triste nos olhos chorados,

sob a sede de inútil cantil, 

já em cacos, p'la turba calcados.

 

 

Dia triste que triste trazia

a notícia nos olhos chorados,

mensageira que em fel se fundia

na mensagem dos tempos negados.

 

Era a chaga que ardia no peito 

e perversa matava o proscrito!

Era o peito morrendo desfeito

na agressão dum desígnio maldito.

 

E no lodo que emerge, delira,

em suspiros obscenos, a farsa…

Em suspiros que nem a mentira,

sem pudor nem decência, disfarça.


Tuphy Mass

A-A, Abril de 2021

domingo, 11 de abril de 2021

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Oração

NA ESTRADA DE DAMASCO
Oração



Na farsa da serpente, repetida,
Senhor, caí, incauta, em tentação!
E quando, aflita, supliquei guarida,
a graça recebi na provação.

Em dor e sal, cumpri a penitência.
Saída da caverna, o dia claro
as sombras extinguiu sem complacência
e a luz foi graça e foi o meu amparo.


Perdida regressei e salva sigo
na tua estrada austera de exigência,
que é minha direcção e meu abrigo.



E na verdade pura da decência,
escrevo os versos dum cantar de amigo,
com o candor sublime da inocência.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 7 de Abril de 2021

sábado, 10 de abril de 2021

05 - IN MEMORIAM * Movimento

 MOVIMENTO

(A longa Marcha da Humanidade)

Para o SINAPSA, nesta data comemorativa, 

esta modesta lembrança do associado 



Desde o princípio a desbravar caminhos...

E sempre sobrevindo outros caminhos...


Do quanto recebi ao quanto dei

vai a distância, em défice, do insulto!

O templo do cifrão impõe o culto

e a força ardil e vil da sua lei!


A luta é desigual, mas não na essência...

E dói reconhecer nesta contenda

haver quer quem se alheie, quer se renda,

erguendo por destino a desistência!


Aqui, nesta trincheira, a dignidade!

As singularidades são plurais!

Se não hesitas, se não te retrais,

rejeita o culto e a lei da impunidade!


José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 8 de Junho de 2001.


Este soneto inglês não foi publicado pela estrutura do SINAPSA por absoluta falta de espaço. O autor recebeu esta piedosa informação|justificação telefonicamente. No âmbito literário, foi a primeira e derradeira experiência do autor com o SINAPSA. Aqui fica esta memória,

quinta-feira, 11 de março de 2021

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * A coragem na História

 Esta lira de mim!...

A coragem na História

À memória de Fernando Salgueiro Maia




A Cidade acordou ao sol da Primavera.
Inocente, um olhar de criança resgata
a raiz que palpita e palpitando gera
o devir que redime o Presente que mata.

Olhos de água brotando em lágrimas de espanto.
Correrias de ludo, arrancada a mordaça...
Sem angústias na voz, polifónico o canto
canta livre e fraterno a Cidade que abraça.

Sob o golpe letal, das entranhas da fera
eis que irrompe o furor de mais sangue sedento.
Resistindo, estremece o sol de Primavera
e a coragem na História sublima o momento.

Um audaz capitão decidindo sozinho
enfrentar, cara a cara, o perigo iminente,
desafia o furor que barrava o caminho
que se abria no olhar da criança inocente.

Foi assim que a Cidade, atónita esperando,
nesse dia, te viu e te guarda, Fernando...


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 22 de Fevereiro de 2021.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

03 - LIVRO ESTA LIRA DE MIM!... * Que sonho lindo!




ESTA LIRA DE MIM!...

*

Que sonho lindo!



O sonho lindo veio na cadência

de enternecido canto de sereia,

que se espraiava na deliquescência

ensolarada da dourada areia.



Abril sonhara Maio sazonado.

Pendentes, verdes frutos baloiçavam...

Aqui, ali, um ramo derreado

vergava ao peso e quase soçobrava.



Era a promessa doce da Mãe-Terra!

Nos olhos ávidos da esperança,

a Lei-Revelação que se descerra

em ancestral e mítica aliança.



No Céu azul e livre das alturas,

comi o doce fruto apetecido.

Voei, numa ousadia sem tonturas,

e nunca, como Adão, fiquei perdido.


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José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 9 de Fevereiro de 2021.