sábado, 19 de janeiro de 2019

10 - CANTO REVELADO * Memória do tempo parado


CANTO REVELADO 


Memória do tempo parado 




Para os Capitães que sonharam e continuam a sonhar Abril 





E tanto por dizer ficou estrangulado 

nas malhas do silêncio azul e da clausura! 

Do risco de falar ao de ficar calado, 

medrava em cada olhar o esgar duma censura. 



Era o tempo parado 

dos altares pagãos 

onde foi imolado 

por atávicas mãos 

o devir revelado. 



Difusa, em cada esquina, a sombra desenhava, 

na mancha que sangrava as pedras da calçada, 

o desvario insone e plúmbeo procurava 

a brisa que trazia a nova perfumada. 



Era o tempo parado 

dos desígnios fatais 

dum fantasma danado 

a negar os sinais 

do devir revelado. 



Ah, meu amigo, e tu, nos longes por haver, 

ainda do silêncio infausto tão distante, 

vivias, no mistério, a sedução de ser 

um astro mais do céu a lucilar errante. 



Era o tempo parado 

da vergonha de nós 

no estertor resignado 

e no medo sem voz, 

a render-se calado. 



Chegaste, agora, são e salvo, e o tempo é teu! 

Bem-vindo sejas! Vem, no tempo que em ti cresce, 

ser mais um cravo-Abril, que o dia amanheceu, 

e deixa-te orvalhar de auroras e floresce! 



José-Augusto de Carvalho 
19 de Maio de 2009.. 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

13 - NA PALAVRA É QUE VOU.. * O regresso ao caos?


NA PALAVRA É QUE VOU… 


O regresso ao caos? 





A desvalorização ostensiva de tudo o que não nos afecta directamente, a indiferença pela amargura do outro, o umbigocentrismo de tantos e tantos, é uma mazela social purulenta que reclama tratamento imediato. 

O humanitarismo religioso e profano definha e estás prestes a agonizar. 

Viva eu! 

Viva eu e os outros que se danem! 

Ai de mim se não for eu! 

O objectivo é cada um de per si safar-se ou virar-se como puder? 

Será que cada um de nós vive numa ilha deserta? 

Será que cada um de nós não é parte de um contexto social onde há direitos e deveres indeclináveis? 

Será mesmo uma realidade consagrada que “a pimenta no ânus do outro é refresco para mim”? (Reconheço a grosseria desta “sabedoria” dita popular, mas a sua brutalidade é deveras ilustrativa e soa como um grito de alarme.) 

E chegámos aqui depois de séculos e séculos de doutrinação religiosa; depois de Humanismos e Iluminismos; depois da Liberdade, Fraternidade e Igualdade da Grande Revolução Burguesa de 1789, em França; depois de manifestos e mais manifestos; depois de Declarações de Direitos e Deveres, da ONU; depois de Constituições Políticas em vigor proclamando o Direito, a Justiça, a Defesa da Vida, a Concórdia e a Paz… e eu sei lá mais o quê! 

Os raros reconhecidos como salvadores do ser humano, da fauna e da flora, do planeta que é o nosso lar maior, disseram e demonstraram a justeza dos seus ensinamentos. E que lhes sucedeu? Foram perseguidos, foram presos, foram condenados, foram sacrificados com requintes de crueldade como se fossem perigosos malvados a abater sem piedade. O mandamento “Não matarás” é uma das muitas utopias… 

Afinal, o que somos? 

Afinal, o que queremos ser? 

Todos os dias, a todas as horas proclamamos uma única revelação --- a perdição. 

Herdámos a Esperança de um futuro melhor; nem a perdição deixaremos por herança porque nos apressamos a matar também os nossos herdeiros. 

Será o regresso ao caos. 

Não me considero um pessimista; também não sou seguramente um optimista delirante; mas com a lucidez que considero ter, o que vejo e ouço e leio deixa-me profundamente preocupado. Há um desnorte instalado. Os povos, aqui e ali cirurgicamente alienados, engrossam as levas de cordeiros para os matadouros, para os açougues. E recordando um dos cruelmente injustiçados, também me surpreendo muito mais com o silêncio dos justos do que com as vociferações dos vis e dos acéfalos. 

Já não tenho idade para ter medo, mas enquanto for vivo sentirei um profundo desgosto vendo ruir o sonho maior da instauração da dignidade da Vida. 

Termino com a transcrição da frase que li ou ouvi a uma actriz brasileira: “se o mundo é isto, parem o bonde, porque eu quero descer.” 



José-Augusto de Carvalho 
10 de Janeiro de 2019.
Alentejo * Portugal

13 -NA PALAVRA É QUE VOU... * Sem pueris ingenuidades


NA PALAVRA É QUE VOU… 


Sem pueris ingenuidades 



Já não tenho idade para me surpreender facilmente. Sem pueris ingenuidades, aliás seriam inadequadas, deploro muito do que vejo em meu redor. E nada posso fazer, porque o mundo gira a seu bel-prazer, independentemente da minha concordância ou da minha discordância. Os mestres que tive sempre me ensinaram ser indispensável o conhecimento e o seu questionamento. Hoje, nesta época de informação ao segundo, o que mais vejo e ouço e leio é o primitivismo da banalidade, é o raciocínio elementar, é a prosápia convencida daqueles que encontraram aquela velha coisa que dá pelo nome de verdade. Não tenho a pretensão da sapiência, por isso mesmo me reduzo à celebrada frase atribuída a Sócrates --- eu só sei que nada sei. É verdade que sim, mas sempre adianto que não me considero tolo. Sustento que um efeito depende duma causa, que não há efeito sem causa, e por aí adiante. Mais sustento que a inércia não existe, logo a inércia que vamos vendo por aí não mais será do que o efeito de uma causa que no subsolo germina… 

Louvo os meus mestres, devo-lhes a possível lucidez que suponho ter e não lamento os desaires sofridos, resultantes dessa mesma lucidez. Nunca adoptei o cinismo, mas sempre entendi o porquê de duas frases vulgarmente usadas por alguns: às vezes, convém nos fazermos de tolos, 

e estoutra, mais vale cobarde vivo do que herói morto. Não arrisco qualquer juízo. Cada um sabe de si e responde por si. Eu não julgo ninguém, mas faço as minhas escolhas tal como os demais fazem as deles. 

As escolhas dos outros valem o que valem por elas mesmas. Se conflituam com as minhas, evidentemente que sustento as minhas escolhas e enfrento lealmente o debate que surgir. Aliás como toda a gente. 

O silêncio só é uma escolha quando agimos individualmente. Se inseridos num contexto mais amplo, o silencio que mantemos poderá ser lido como a inércia provocada, que mais não será do que o efeito de uma causa que se ignora ou talvez nem tanto… E aqui poderei ser apodado de especulador, mas há razões e não-razões para especular. E até posso adiantar que seria conveniente ponderarmos a possibilidade de algumas especulações serem mais da responsabilidade de quem é alvo delas do que de quem as tece. 

Aqui fica mais uma reflexão, uma entre tantas e tantas que cogito… 



José-Augusto de Carvalho 
9 de Janeiro de 2019. 
Alentejo * Portugal 

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O elogio do poeta


TEMPO DE SORTILÉGIO 


O elogio do poeta 




Poeta sem diploma que te valha 

nem estatuto que te recomende 

na feira franca do consumo espalha: 

um verso não se compra nem se vende. 



Que a tua voz ressoe como um grito 

e assombre ou incendeie a multidão: 

um verso nunca pode ser maldito 

se nele fala livre um coração. 



Rebelde, o verso nunca se conforma 

com o silêncio inerte da mortalha. 

Se amante, faz da vida a sua norma, 

que tão-somente o puro Amor lhe valha! 



E o verso seja enleio enamorado, 

quando, pela tardinha, o sol declina, 

ou seja, ao meio-dia, um sol irado, 

quando inclemente cega a tremulina… 



Ou seja, no fulgor da rebeldia, 

a mesa, que sem pão, protesta -- basta! 

Ou seja o rio, em louca correria, 

que além das margens cresce e tudo arrasta!… 



Que um verso seja um verso além da rima! 

Que além do metro e ritmo, seja tudo! 

Importa que o poeta se redima… 

…e a redimir-se nunca fique mudo! 





José-Augusto de Carvalho 
9 de Janeiro de 2019. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Na queda


TEMPO DE SORTILÉGIO 


Na queda 





Sem rede ou outra protecção --- a queda! 

No circo, o povo aplaude, delirante! 

O pão e o circo, em Roma, por bastante! 

A negação por si mesma leveda! 



Com Ceres, haja pão, vindima e vinho! 

Com Baco, venha, trágico, o delírio! 

Com César, haja arenas de martírio! 

Que a perdição se cumpra por caminho! 



Saturno, indiferente, o tempo mede. 

O livre arbítrio é doutra dimensão 

e condição, parcela doutra soma… 



O bárbaro não pode e fraco cede… 

Sem tempo, arenas, circo, vinho e pão 

o império glorificam --- Viva Roma! 







José-Augusto de Carvalho 
2 de Janeiro de 2019. 
Alentejo * Portugal 

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

21 - DO MAR E DE NÓS * Coração desfeito


DO MAR E DE NÓS 


Coração desfeito 







No impulso de encontrar-me além do pátrio chão, 

soltei-me da raiz e mergulhei no rio. 

Senti-me a flutuar. Que assombro de evasão 

sem peias encontrar o cais do desafio! 



E na corrente fui! Inábil mas ousado, 

ganhei, no meu arrojo, as artes marinheiras. 

Além da barra, o céu no pélago espelhado 

e as ondas desmaiando em seduções matreiras… 



Tudo era novo, dum alvoroçado espanto! 

Também eu era novo e o mundo me chamava! 

E eu fui além, bebendo as lágrimas do pranto 

daquela que sozinha aqui no cais deixava… 



E fui… e trouxe o mundo inteiro no meu peito! 

No peito onde hoje bate um coração desfeito… 







José-Augusto de Carvalho 
31 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

domingo, 30 de dezembro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * O jogo


TEMPO DE SORTILÉGIO 


O jogo 





Que vivas as certezas que te deste, 

no espaço e neste tempo que é o teu! 

Efémero é o tempo que me veste, 

o tempo que só dúvidas me deu. 



Certezas tenho duas, que não mais! 

Sei que nasci e sei que vou morrer. 

No meu percurso, enxergo alguns sinais: 

quais devo preterir ou escolher? 



Um jogo que é de azar me deu a vida. 

O acaso que é dos dados desconheço. 

Não tenho alternativa na partida: 

dependo do que for cada arremesso. 



Na sorte arrisco tudo --- ou ganho ou perco… 

Que existe além da angústia deste cerco? 





José-Augusto de Carvalho 
30 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal