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quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * O Fado


ESTA LIRA DE MIM!...

*

O Fado






Cumprida a rotação,

marcava mais um dia o calendário.

E sempre este fadário

de versos na tristeza da canção. 



É noite, agora? Ou dia? Quem o sabe?

Dolentes guitarradas

gemem desesperadas

no tempo do silêncio que lhes cabe. 



A voz se solta rouca e chora o canto

fatal do sofrimento,

enquanto o xaile negro, em negro manto,

enluta o desespero do lamento. 



E assim, no desencontro da existência,

monótona se cumpre a rotação,

sofrida no fadário da cadência

que marca o calendário da canção. 




José-Augusto de Carvalho
6 de Março de 2009.
Viana * Évora * Portugal

sexta-feira, 20 de julho de 2018

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Verificação


(Esta lira de mim!...)

*

Verificação




Meus sonhos que não couberam

nos horizontes sem fim,

caber afinal puderam

nesta saudade de mim.



Na ânsia que me consumia,

sei que não fui e não vim…

E hoje sou a cinza fria

do fogo que ardia em mim.



Há em nós tudo o que fomos,

numa pureza menina

que nos dói e determina

esta saudade que somos.



E após o drama da Vida,

que promessa foi cumprida?





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 6 de Julho de 1993.



sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * A saia da Marianita




(ESTA LIRA DE MIM!...)

*
A saia da Marianita





Mas que saia tão bonita

hoje traz a Marianita!



Saia rodada, amarela,

que quando lhe dá o sol

fica dourada, tão bela

como um grande girassol.



Saia amarela, rodada,

é de oiro como uma espiga

que na hora de ser ceifada

é pão, é verso, é cantiga…



Apenas tem doze aninhos

e um lindo e moreno rosto

a deslumbrar os caminhos

deste Sul, no mês de Agosto.



Que em seus lábios sempre baile

um sorriso puro e terno,

até quando vem de xaile

nos dias frios de Inverno.



Mas Março virá trazer

o novo por que se espera

e a Marianita irá ser

outra vez a Primavera.



Ai, que esta página escrita,

seja sempre, sempre assim!

E a sua saia bonita

me amortalhe no meu fim…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Dezembro de 2017.

sábado, 7 de outubro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Declaração



(ESTA LIRA DE MIM!...)
.
Declaração




Não convoco favores de musas

nem sublimes acordes de Orfeu.

Sem assomos de ingratas recusas,

digo apenas, aqui, que sou eu.

Venho só, sem escudo nem lança,

sem ardores de raiva e vingança.



Não ensaio nenhum madrigal

nem as ninfas acordo nas fontes.

Já morreram no meu laranjal

os virgínios adornos das frontes.

Que ficou do que Amor concebeu?

Em que incêndios profanos ardeu?



Em caminhos inóspitos ando,

sem alforge de magro sustento.

Só as aves, em lúdico bando,

cantam hinos de audaz movimento,

acrobatas sem medo nem rede…

…e eu no chão a morrer-me de sede!



Não acuso os arroios calados

nem receio o matiz dos assombros.

Cada passo de passos mal dados,

mais a carga me pesa nos ombros.

Subo ao cume do monte num rito

de ganhar o horizonte infinito.



Entre perdas e ganhos encontro

discernível o saldo de mim.

Oxalá que nenhum desencontro

de mais pese nas contas do fim!

E de contas saldadas e em fumo,

seja o céu o meu último rumo.



Simulacro de inútil história,

nada importa ao devir que se apronte.

Seja viva e perene a memória

da futura manhã que desponte.

Seja Amor a plantar laranjais

que floresçam rubis virginais.





José-Augusto Carvalho

Alentejo, 7 de Outubro de 2017.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Catarse


ESTA LIRA DE MIM!...

Catarse



Naquele dia, do meu pátrio chão,

quase menino ainda, me arrancou

um desígnio malsão.

E ninguém protestou.



Quase ainda menino,

um soluço na voz,

suspeitei do destino.

Ao tempo, eu nem sabia

que o destino podia

ser erguido por nós.



Também eu, Bernardim,

da casa de meus pais fui arrancado,

arrancado e levado

para tão longe deles e de mim.



E ninguém protestou

quando a renúncia ergueu o meu destino

e me sacrificou…

e eu era ainda quase um menino!



Porque um homem não chora,

tolices ensinadas às crianças,

quase matei o coração naquela hora,

que estavam mortas já as esperanças..



E fui a desfolhar a débil planta

como se Outono fora a minha Primavera.

Numa gaiola, um rouxinol não canta,

por mais que seja longa a espera

do cruel carcereiro

que impõe à liberdade o cativeiro.



Ficaram cicatrizes,

roxas de iniquidades sem perdão.

A tudo resistiram as raízes,

sempre gritando --- Não!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Setembro de 20017.

quinta-feira, 18 de maio de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Nos silêncios nocturnos



Esta lira de mim!...

Nos silêncios nocturnos





Sob as vestes tão gastas, no fio,

tu sabias o tempo que tinhas.

Era pouco, mas não te detinhas

nem temias o abraço do frio.



Baloiçavam sinistros sincelos

nos silêncios nocturnos parados.

Brancos, brancos, no frio nevados

os perfis de tomados castelos.



Entre inúteis despojos caminhas.

E nenhum por teus pés é pisado.

Passo a passo, dobrado o cuidado,

entre lágrimas, tudo acarinhas.



Todos falam de ti no abandono

do letárgico sono do Outono.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Maio de 2017.

sábado, 6 de maio de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Não me abandones, Mãe!


(Neste Dia da Mãe, 7 de Maio de 2017, o meu poema possível…)




ESTA LIRA DE MIM!...

Não me abandones, Mãe!





Chamo por ti, na noite abandonada.

Solícita, tu vens: querido filho!

O tempo pára. Trémulo, partilho

o som que chega dos confins do nada.



Cego de lágrimas, soluço e rio,

e neste transe de alma me consolo.

Num êxtase esquecido balbucio:

Não me abandones, Mãe, eu quero colo!



Um halo de ternura me agasalha

e um sono antigo desce sobre mim.

Suspensa, tremeluz uma poalha

de estrelas e perfumes de jasmim.



Que abandonado sono de verdade,

p’ra sempre, assim nos queira eternidade!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Maio de 2017.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Anelo vão






Sem manta, sem bornal e sem cantil,

há muito, p’las estrelas, sigo o rumo.

É meio-dia! O sol está a prumo

e mal, no chão, desenha o meu perfil.



Que importa que no chão não fiquem rastros?

Nesta efemeridade, o meu afã

é descobrir-me nesta antemanhã

que me anuncia o lucilar dos astros.



Importa é definido exacto o rumo

e não temer as dores e sofrê-las

como as benditas dores de nascer.



E se tiver de me evolar em fumo,

ah, deixem-me sonhar com as estrelas

e ao seu regaço cósmico ascender!







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Abril de 2017.

sexta-feira, 17 de março de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * As minhas penas




Eu sei que não pôde ser.

Todas as penas são minhas,

luto que visto a sofrer,

diverso no entretecer

do negro das andorinhas.



Penas negras, negras penas,

por natural condição,

são diferenças apenas,

não são luto, não são penas

enlutando o coração.



Quem me dera ter as penas

que vestem as andorinhas!

Seriam penas apenas,

azeviche de melenas,

e não o luto das minhas.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Março de 2017.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * A espera






Ensombra o teu sorriso um rictus de tristeza.


O teu olhar vagueia além do tempo-agora.

E sempre, num vaivém de espera e de incerteza,

ausente nos esconde a angústia da demora.



Teu corpo exausto e nu, doído de mazelas,

num vago estremecer de fera encurralada,

desmaia, num palor de antigas aguarelas,

anseios e clarões de antiga madrugada.



Das tuas hirtas mãos, suspenso ainda o alor

dum êxtase de luz que a noite enegreceu.

Amor, onde estará, sortílego, o pintor

que quis transfigurar-te e desapareceu?



Sem tinta nem pincéis, sem tela nem talento,

meu vivo coração te dou por alimento.





Alentejo, 18 de Dezembro de 2006

.José-Augusto de Carvalho


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Soneto para Florbela Espanca




A mim me basta o frio que arrefeço.

E os dedos hirtos ficam caramelo!

Não temo nem contesto o meu regresso.

De pó, de cinza e nada não apelo.



Serei também um golpe do suão,

incêndio no vazio em movimento

gritando além de mim à solidão 

a nossa ardente condição de vento.



Iremos ver as sombras dos montados

e as limpas das espigas em promessa

mescladas de papoilas a sangrar…



Iremos às amoras nos valados

e que ninguém das hortas nos impeça

de nos amarmos ébrios de luar!...




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Outubro de 2016.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Ansiedade




Ansiedade




Se eu tivesse a coragem bastante

de inventar-me e inventado ser eu,

cantaria a aventura exaltante

de me ter encontrado

no caminho sonhado

por que anseio e que é meu.



Se pudesse matar esta fome

que é de angústia e de barro amassado,

eu daria o meu nome

ancestral

que é de céu, que é de mar, que é de sal

a este tempo incumprido e parado.







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Novembro de 1994.
Alentejo, 9 de Setembro de 2016.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Ser poeta



(Do baú do esquecimento)

Ser poeta






Um verso, um simples verso de um poema

não nasce por vontade de escrevê-lo.

Um verso é sempre a angústia de um apelo

na redenção de nós em hora extrema.



Um verso canta harmónico no peito

ou dói e é um soluço na garganta.

Um verso é um alor que se levanta

e contra o tempo voa ou cai desfeito.



A ti que julgas belo ser poeta,

e esquece aqui juízos de valor,

repara: quando a planta dá a flor,

é sempre uma promessa que projecta.



Na vida sempre somos a procura

que além nos ares ganha ou perde altura!







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 12 de Julho de 1993.
Alentejo, 7 de Setembro de 2016.

domingo, 14 de agosto de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Dia outonal






O tempo voa célere na pressa



de entretecer futuros no presente!

Que juvenil loucura de promessa

esgota o devaneio de repente?




As rugas olho e as cãs da decadência

e dói um sobressalto no meu peito.

Por quê tanta loucura na premência

se o devaneio agora está desfeito?




Que tempo louco assim não se extasia

no olor primaveril do encantamento?

Que pressa pelo fim da fantasia?




Nos braços hoje estou do sofrimento,

agonizante folha da utopia

que voa efémera ao sabor do vento.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Agosto de 2016.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Génese


Tanto quanto sei, vem de muito longe o hábito de associar os versos também à ternura. Os versos abaixo foram escritos a pedido de um colega de profissão já então aposentado. Disse-me ter um pedido para me fazer e que eu não poderia recusar. Olhei-o surpreso e esperei: aí ele adiantou, tenho um netinha e muito lhe agradeço que escreva uns versos para ela. Não poderia recusar e escrevi-os. É uma memória linda que tenho deste avô que considerou uma grande prenda para a sua netinha uns versos escritos por mim. Aqui fica a partilha. Obrigado.



(Do baú do esquecimento)

Génese






Quando nasce uma criança,

o longe fica mais perto

e um caminho de esperança

rasga as dunas do deserto.



Um vagido acorda a Vida

do seu letargo profundo

e uma terra prometida

é do tamanho do mundo.



Quando uma criança chora,

seus olhos são duas fontes

e a sede que nos devora

naufraga em vales e montes.



Um sorriso terno e puro

é no tempo, é no espaço

a dívida de futuro

da força do nosso abraço.



Na criança que se gera,

há a promessa enlevada

de um sonho de primavera

ser a vida transformada.



Soprem ventos de mudança

e o Mundo seja um regaço

onde um sonho de criança

seja Tempo, seja Espaço.





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, Outubro de 1986.

domingo, 3 de maio de 2015

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Efemeridade







No ocaso,

o dia diz adeus e cede às sombras.

A noite tece os fios enlutados

e aos poucos entretece o manto escuro

que cobre de silêncio e de pesar

ausências e caminhos de ninguém.



Da frágil haste tomba a flor inerme.

As pétalas doídas emurchecem

e já mal lembram êxtases de cor

de orvalhos e frescores,

viçosos perfumando a primavera.



Não mais o sol dourando

as pétalas viçosas de outras primaveras!

E tudo assim finito

morrendo nos meus olhos.



Nos amanhãs vindouros,

auroras novas sonharão os sonhos novos...

Nos amanhãs vindouros,

o mesmo sol irá arder delírios...

Nos amanhãs vindouros,

a memória dos mortos

mal tremeluz no arder dos círios...




José-Augusto de Carvalho
Abril de 2015.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 27 de março de 2015

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Em nome de mim






Os oráculos dispenso

e dispenso as profecias.

Se são meus estes meus dias,

aos meus dias não pertenço.



Nunca mais sol nem luar,

nem céu que por seu me tome.

Nem a pedra tumular,

nem a lembrança de um nome!



Que tudo regresse ao nada

ao que o tudo se resume,

em derradeira alvorada

de espanto, de luz, de lume…



E que tudo se consuma

no fundo deste meu mar,

onde almejo naufragar

entre ondas e nívea espuma.





José-Augusto de Carvalho
27 de Março de 2015.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 15 de março de 2015

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Depoimento




(Foz do Rio Sado * Foto Internet, com a devida vénia)





Bocage, aqui, na foz do nosso pátrio Sado,

eu tento, em minha lira, acordes de harmonia.

E canta em minha voz o solo calcinado,

dolente, exausto e nu ao sol da maresia.



Cortado foi o meu cordão umbilical

E, assim, eu despertei ferido para a Vida.

A roxa cicatriz, a chaga dum vitral

gritando a minha fé na cruz ainda erguida.



Em todo o tempo meu de primavera em flor,

em todo o meu verão só de trigais maduros,

comi o pão da Vida e o sal do meu labor 

numa epopeia instante e só de heróis obscuros.



Na longa caminhada, o pélago foi vário, 

mas nunca sucumbi, rumando para diante.

O Cabo Bojador do meu imaginário

rendeu-se à minha nau e ao sonho do Infante.



Errei aqui e ali. Fui tudo quanto pude!

Eu sei que Bem ou Mal em toda a parte medra.

Aquele que estiver em graça e em virtude

que atire sobre mim a vil primeira pedra…



Veloz correu o Tempo. Outono sou agora.

Memória do que fui, que mais serei ainda?

Resisto à Lei da Vida e quero ser a aurora

do dia por nascer e da manhã mais linda!



Meus sonhos sem idade! O Tempo é convenção.

Morrer –- mentira estulta e vã que só entende

quem nunca conheceu a força e a dimensão

perene de viver – e a Vida não se rende!



*

José-Augusto de Carvalho
25 de Outubro de 1991.
Tróia, município de Grândola

(I Encontro Sénior da Seguradora Fidelidade)

quarta-feira, 11 de março de 2015

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Prece







Um sopro, um sopro só, sagrado, Poesia!

Um raio, um raio só, de luz e meio-dia!



O verbo a rescender, lavrado em doces rimas.

O céu a derramar azuis aveludados.

Nas pétalas da flor matizes deslumbrados.

No altar da Vida a fé onde hoje me redimas.



No murmuro trovar das tuas fontes frias

a sede da canção que a minha voz ensaia.

No longe deste cais, a naufragar na praia

de areias de cetim doirando o mel dos dias.



Aqui, no canto ausente, a tua sinfonia

no amor dos rouxinóis que as noites incendeia.

Consente que a minha alma intua a melopeia

dum sopro, um sopro só de ti, oh Poesia!





José-Augusto de Carvalho
5 de Novembro de 2003.
Várzea, São Pedro do Sul

terça-feira, 10 de março de 2015

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * No tempo chão...






Caíram as sombras frias 

sobre os espantos dos montes.

As fogueiras que acendias

nem ao sol de Agosto as contes!



Hoje, são outros os dias,

já sem espantos nem montes.

E a sede que não sacias

no morto encanto das fontes?



É outro o tempo de agora,

tempo chão, tempo fractura,

onde a vida se demora…



Na saudade que perdura,

o romper da bela aurora

orvalhada de ternura…





José-Augusto de Carvalho
19 de Junho de 2006.
Viana*Évora*Portugal