quinta-feira, 31 de agosto de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O cordel

(QUE VIVA O CORDEL!)






Do cordel tu te sorris,

benévolo e tolerante?

Mas se não fora a raiz,

que perfume, que matiz

na flor que mais nos encante?




Por mais rústica que seja,

a teus olhos, a raiz,

qualquer planta que viceja

ou fruto que se deseja

é porque a raiz o quis.




A raiz é como um ovo:

o princípio rude e mudo

que, suando como o povo,

esforçado traz o novo

e, assim, perpetua tudo.






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Agosto de 2017.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Na roda da vida...

(QUE VIVA O CORDEL!)



Os poetas cantaram o grito

que varou o vazio sangrento.

Não morreu a raiz nem o vento

se calou num silêncio contrito.



Continua a figueira a dar fruto,

quando o tempo aprazado chegar.

Há um tempo maduro de amar:

é por ele e com ele que luto.



Em Setembro haverá as vindimas.

Quase findos os dias de Agosto…

Bem casadas de gosto e de mosto,

aprontemos as últimas rimas.



Em Novembro, as primícias do vinho,

na promessa do novo cumprida.

Vamos todos na roda da vida!

São Martinho já vem a caminho…







José Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Agosto de 2017.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA! * O sonho que morreu...





Bailava nos teus lábios de medronho

a dádiva da lenda que tu eras!

Sem condições, rendi-me à vida-sonho

de todas as sonhadas primaveras…



No verde-mar-assombro dos teus olhos

cruzei os mares todos da utopia…

Domei correntes, contornei escolhos,

cheguei ao mais além da fantasia…



No ninho dos teus braços virginais,

fui lenha, na lareira, a crepitar,

num sacrifício de alma… e tudo ardeu!



Depois, rumaste aos longes siderais…

Sem ti… sem mim… e lúgubre a pairar,

ficou a dor do sonho que morreu.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Agosto de 2017
*
(In "...e contigo eu morri nesse dia!", em preparação)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Na voragem







Ah, velho Cronos, todo o tempo é de viagem!

O tempo, em seu correr, passando vai por mim.

E eu vou com ele, queira ou não, porque se vim

foi para me encontrar na cósmica voragem.



Que causa provocou o efeito de viver?

Que sonho de aventura é este movimento?

Que importa, deslumbrado, olhar o firmamento,

se nunca poderei aos astros ascender?



Que sedução, em Maio, a brisa mitifica

para enlaçar a flor à luz do entardecer?

A mesma brisa que virá para a perder

no altar do outonecer que o Belo sacrifica.



Ah, velho Cronos, vão é ser, vão é ceder

ao teu mecanicista impulso de correr… 





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Agosto de 2017.

domingo, 20 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Cinzas





Dos confins das fatais profundezas

irromperam letais labaredas.

Que martírio de piras acesas!

Ah, Plutáo, que de nós não te apiedas!



A memória dos tempos longevos

ganha forma e semblante modernos!

É igual, desde os tempos primevos,

o pavor de na Terra os infernos.



São os autos-de-fé sem idade

repetindo os seus ritos de chamas

entre gritos de dor e piedade

na ficção do real que há nos dramas.



Que destino se cria e recria

entre as cinzas da nossa agonia?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Agosto de 2017.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * As estrelas





Não há chuva nem frio nem vento.

O fascínio da noite me chama.

Devagar, me levanto da cama. 

Seduzido me rendo ao momento.



Sem luar nem nocturnos ruídos,

o silêncio da noite me enlaça.

Sinto e sou, para além dos sentidos,

a verdade de ser que esvoaça.



E mergulho na noite, sem medos.

Nas alturas, um manto de estrelas

lucilando num cósmico rito…



Deslumbrado, desvendo segredos

de num êxtase de convencê-las

eu também me sentir infinito…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Agosto de 2017.

15 - CANTO REBELADO * Insubmissão





Nas entranhas obscuras palpita a raiz.


Indefesa, mal rompe a promessa da planta.

De tão frágil, ninguém, ao olhá-la, prediz

o destino feliz que do chão se levanta.




No mistério da vida, a ousadia acontece!

Cresce o caule, tenaz, rumo ao sol, rumo à luz!

Na severa invernia, ao relento arrefece,

desvalido entre os quais desvalidos e nus.



Vem o vento suão --- tanta sede flagela!

Céu ardente! Sequer uma nuvem promete

o milagre da chuva a cair das alturas.



Na incerteza da vida, a coragem revela

que a razão de viver não se rende ou submete

à prisão da raiz, sucumbindo às escuras!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Agosto de 2017.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

06 - TUPHY VIVE! * Nostalgia





A nostalgia que vem

cruzando este mar azul

traz-me o Cruzeiro do Sul

no sorriso do meu bem.



O sorriso que perdura

além da perda de nós

e me fala de ternura

como se tivesse voz.



Tanto céu e tanto mar

na ousadia definida

da urgência de navegar!



Fica a promessa cumprida

de em lágrimas te sonhar

enquanto a vida for vida!





Tuphy Mass
Al-Ândalus, 15 de Agosto de 2017.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Amigos!



(QUE VIVA O CORDEL!)






Amigos, venho por bem!

Atravessei este mar

por saber que o tempo tem

hora em que fica refém

de quem nos quer dominar.



Não é tempo de folgar

nem de ver passar a banda. 

É tempo de recusar

manobrismos de quem anda

querendo nos enganar.



Os relógios acertemos!

No momento --- à hora certa,

sem hesitação, ousemos,

porque o dia só desperta

quando o dia amanhecemos.



Sem nós não havia nada!

Do pão que todos comemos

até à nossa morada…

Se é assim, por que perdemos,

no jogo, sempre a parada?



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Agosto de 2017.

15 - CANTO REBELADO * O interminável caminho



Para um futuro sem amos nem fronteiras



Dos longes sem memória definida,

ainda este sabor de sal e lama

nos chega das entranhas e se inflama…

...na carne viva dói tanta ferida!



Se nunca nos cruzámos nesta vida,

a mesma estrela-guia foi a chama,

foi/é a mesma luz que se derrama

na noite quase em dia convertida.



Tu foste até tombar, eu te levanto,

a ti e aos mortos todos que estão vivos,

para cantarmos juntos a manhã!



Lavremos esta terra – campo santo,

memória de caídos e cativos

e glória das auroras do amanhã!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Agosto de 2017.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Ansiedade







De um manto de papoilas nasce o canto.

E sangram as palavras, sangra a voz.

Maduro canto que do chão levanto

p’ra vir cantar na voz de todos nós.



Um canto antigo de polifonia

que vem da mais recôndita raiz,

no canto matinal da cotovia,

dizer-nos o que mais ninguém nos diz.




No céu, ateia incêndios de futuro

a luz da antemanhã que se aproxima.

E eu, numa instante azáfama, procuro,

p’ra cada verso, a mais ardente rima.



Amado berço, minha vela ousada,

que te demora o sonho da largada!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Agosto de 2017.