quinta-feira, 17 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * As estrelas





Não há chuva nem frio nem vento.

O fascínio da noite me chama.

Devagar, me levanto da cama. 

Seduzido me rendo ao momento.



Sem luar nem nocturnos ruídos,

o silêncio da noite me enlaça.

Sinto e sou, para além dos sentidos,

a verdade de ser que esvoaça.



E mergulho na noite, sem medos.

Nas alturas, um manto de estrelas

lucilando num cósmico rito…



Deslumbrado, desvendo segredos

de num êxtase de convencê-las

eu também me sentir infinito…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Agosto de 2017.

15 - CANTO REBELADO * Insubmissão





Nas entranhas obscuras palpita a raiz.


Indefesa, mal rompe a promessa da planta.

De tão frágil, ninguém, ao olhá-la, prediz

o destino feliz que do chão se levanta.




No mistério da vida, a ousadia acontece!

Cresce o caule, tenaz, rumo ao sol, rumo à luz!

Na severa invernia, ao relento arrefece,

desvalido entre os quais desvalidos e nus.



Vem o vento suão --- tanta sede flagela!

Céu ardente! Sequer uma nuvem promete

o milagre da chuva a cair das alturas.



Na incerteza da vida, a coragem revela

que a razão de viver não se rende ou submete

à prisão da raiz, sucumbindo às escuras!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Agosto de 2017.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

06 - TUPHY VIVE! * Nostalgia





A nostalgia que vem

cruzando este mar azul

traz-me o Cruzeiro do Sul

no sorriso do meu bem.



O sorriso que perdura

além da perda de nós

e me fala de ternura

como se tivesse voz.



Tanto céu e tanto mar

na ousadia definida

da urgência de navegar!



Fica a promessa cumprida

de em lágrimas te sonhar

enquanto a vida for vida!





Tuphy Mass
Al-Ândalus, 15 de Agosto de 2017.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

11 - QUE VIVA O CORDEL! * Amigos!


QUE VIVA O CORDEL!

Amigos!




Amigos, venho por bem!

Atravessei este mar

por saber que o tempo tem

hora em que fica refém

de quem nos quer dominar.



Não é tempo de folgar

nem de ver passar a banda. 

É tempo de recusar

manobrismos de quem anda

querendo nos enganar.



Os relógios acertemos!

No momento --- à hora certa,

sem hesitação, ousemos,

porque o dia só desperta

quando o dia amanhecemos.



Sem nós não havia nada!

Do pão que todos comemos

até à nossa morada…

Se é assim, por que perdemos,

no jogo, sempre a parada?



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Agosto de 2017.

15 - CANTO REBELADO * O interminável caminho



Para um futuro sem amos nem fronteiras



Dos longes sem memória definida,

ainda este sabor de sal e lama

nos chega das entranhas e se inflama…

...na carne viva dói tanta ferida!



Se nunca nos cruzámos nesta vida,

a mesma estrela-guia foi a chama,

foi/é a mesma luz que se derrama

na noite quase em dia convertida.



Tu foste até tombar, eu te levanto,

a ti e aos mortos todos que estão vivos,

para cantarmos juntos a manhã!



Lavremos esta terra – campo santo,

memória de caídos e cativos

e glória das auroras do amanhã!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Agosto de 2017.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Ansiedade







De um manto de papoilas nasce o canto.

E sangram as palavras, sangra a voz.

Maduro canto que do chão levanto

p’ra vir cantar na voz de todos nós.



Um canto antigo de polifonia

que vem da mais recôndita raiz,

no canto matinal da cotovia,

dizer-nos o que mais ninguém nos diz.




No céu, ateia incêndios de futuro

a luz da antemanhã que se aproxima.

E eu, numa instante azáfama, procuro,

p’ra cada verso, a mais ardente rima.



Amado berço, minha vela ousada,

que te demora o sonho da largada!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Agosto de 2017.