quinta-feira, 24 de setembro de 2015

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Os sinais





Das cinzas do tempo evadem-se os sinais...


Será Nero declamando os seus poemas medíocres

às chamas que devastam Apolo e Roma?


Será Petrónio burilando a elegância do verbo,

enquanto acaricia as veias que irá cortar?


Serão as sombras ignaras do pão e circo

expulsas pelo remorso dos tempos

do sossego do nada onde apodreceram?


Ou serei eu, aqui, a reinventar o pesadelo

do martírio intemporal dos impérios?






José-Augusto de Carvalho
4 de Agosto de 2008.
Viana do Alentejo * Évora * Portugal

05 - IN MEMORIAM * A vergonha de nós






Dilui-se na memória

o tempo dos algozes

que morreram na cama

que foi negada aos justos



No pó do esquecimento

há muito jaz a História

que espera o julgamento

dos carrascos impunes



No Letes da vergonha

a corrente ensanguentada

desliza para o mar

que salga os tons azuis

da utopia celeste



No chão nosso da vida

abrimos os covais

dos sonhos derradeiros

no adeus da despedida





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Setembro de 2015.

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Na esteira do Barão de Itararé (1)




Na esteira do Barão de Itararé (1)

«Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo», aviso incontornável do Barão de Itararé. Esta pérola caiu-me do céu, em queda livre, pela mão generosa do meu querido Amigo Professor Doutor José Augusto Carvalho, cidadão brasileiro de ascendência lusa.

Em qualquer tempo é bem-vinda uma pérola da inteligência, provinda do céu ou de outro lado qualquer. Mais bem-vinda será se vier quando estamos sitiados pela negação de um círculo de pedras e na iminência do martírio bíblico do apedrejamento. Grave, grave é saber que não se tem poder para re-dizer, e cito de cor, a miraculosa admoestação: quem tiver a consciência limpa que atire a primeira pedra.

Quem anda na vida de cabeça levantada não teme as pedradas. Por muito que elas firam e doam, não atingem o alvo que pretendem --- a humilhação.

Quem anda na vida respeitando-se e respeitando os seus semelhantes, não teme porque nada deve.

Nestes caminhos da vida, onde abundam as encruzilhadas e as emboscadas, convirá, como muito bem avisa o Barão de Itararé, conhecer os demais viandantes e decidir quais deles têm merecimento para companheiros de jornada. É que «nem todo o mato é (de) orégãos», como alerta o aforismo tão corrente aqui no meu muito amado Alentejo.

É da humana condição a defesa do que se entende ser a nossa verdade. Nem que para tanto se dê o peito às balas. Será um sacrifício menor por uma causa maior; mas já não é sacrifico nenhum dar o peito sabendo que não há balas. Donde é fácil concluir que vai uma distância de anos luz entre o sacrifício e a jactância.

Estas e outras verdades do nosso dia-a-dia são do conhecimento de todos. Aqui as trago para avivar a memória dos distraídos, até porque nunca tive a ousadia de ser professor seja de que matéria for; se para mim não sei eu, como poderia ter o que ensinar? Apenas dialogo e dialogando questiono-me e questiono os meus interlocutores... porque só todos juntos sabemos tudo.

Bem-hajam os que estão na vida para construir a Vida, desinteressadamente, como convém.

Até sempre!
Gabriel de Fochem
Alentejo, 17 de Setembro de 2015.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Balanço


Caim matando Abel ou o mito a ganhar vida



Neste fim de jornada, cada dia que passa mais relembro a  adolescência. Que feliz é o tempo da primavera da vida! Sabemos tudo! Tudo é possível! E somos cáusticos com os velhos e com as suas lamúrias de receios e temores. Não sabem nada, os velhos! O mundo mudou, cheiinho de coisas novas. Coisas que os velhos não entendem porque o seu tempo passou. Pois...

Ah, mas o tempo não pára! E a primavera não é eterna! Depois do sonho virá o despertar e aí, a primavera será a saudade dos arroubos e da vida cor-de-rosa. E quando aí, implacavelmente, surgirá, em todo o seu esplendor, a máxima: «Jovem és, velho serás, conforme fizeres, assim acharás.» Assim acharás, jovem, se te recusares a aprender com aqueles que já comeram o pão que o diabo amassou.

A vida a todos ensina: há os que aprendem, há os que não aprendem.

Quantos vezes dou comigo a pensar: há milénios que dura esta caminhada rumo à decência e à dignidade. Por que haverá tantos retrocessos? Por que haverá tantos pratos de lentilhas e tantos famintos deles?

E dou comigo a concluir: em cada esquina da vida há uma armadilha.

Quando se chega a velho, o balanço que se faz raramente é positivo. Os desgostos, as traições, os cadafalsos são pérolas do rosário que se desfia. E o corpo já nem dói. A mente, ai esta velha mente!, descobre entre os escombros o lenitivo desgraçado da resignação e com ele o convencimento não menos desgraçado de que a utopia é impossível.

E neste contexto, ocorre-me a leitura deprimente e perversa, mas possível, da carochinha que se exibe à janela, oferecendo-se a quem passa, como uma mercadoria, ao primeiro predador que lhe agrade.

Que decência na vida?

Que sublimação no amor?

Aqui chegam os incautos. Aqui chegam os que «sabem» tudo. Por que será tão difícil fazer da Vida o encontro abençoado com o outro?


Gabriel de Fochem
Alentejo, 16 de Setembro de 2015



terça-feira, 15 de setembro de 2015

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Às vezes...


Cada um de nós faz o seu caminho. Sozinho. Às vezes, sustentado em aconselhamentos alheios; às vezes, sem aconselhamentos ou contrariando os aconselhamentos recebidos.

Sabemos, todos sabemos, que depois das quedas que damos ou nos levantamos ou alguém nos levanta. Pois, assim é, mas as quedas são nossas e das suas consequências ninguém nos livra.

Há sempre quem nos critique quando paramos, por precaução, temendo a queda; há sempre quem nos critique, às vezes os mesmos, porque ousadamente avançamos e depois caímos. É o preso por ter cão e preso por não o ter.

Ah, esta sabedoria do Povo que sempre encontra forma de dizer sim e não ao mesmo tempo! Ou será que o Povo quer dizer que uma moeda tem sempre duas faces? Talvez. E se sim, até concordo, evidentemente.

Será que os manhosamente prevenidos, seguindo o conselho «dai a César o que é de César», recusam a moeda que o cambista gulosamente arrecada? E aqui vou eu nesta deriva canhestramente filosofante na intenção frustrada de descalçar esta bota que inadvertidamente calcei!...

Bem, seja como for! Descalçando ou não a bota, aqui fica a reflexão. Haja quem faça melhor, talvez eu aprenda... E digo isto porque já me ensinaram que só todos juntos sabemos tudo... e eu acredito que sim.

Saudações.

Gabriel de Fochem
Alentejo, 14 de Setembro de 2015.

domingo, 13 de setembro de 2015

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA * Meu amor!





Amor, vem adoçar o fel da minha insónia

com raios de luar e ritmos feiticeiros!

De novo vem florir ardores nos canteiros

dos nossos imortais jardins de babilónia.



De novo vem molhar os pés no nosso Odiana

e deslumbrar o azul celeste de Alcoutim.

Que amor e sedução derramem sobre mim

teus olhos verde-mar em rara filigrana.



Que o teu olhar me diga agora e sempre: aqui

estou, enquanto tempo houver, bem junto a ti,

até que nos dilua o caos na mesma massa.



Espera, meu amor, por mim, porque estou indo.

Aqui, aí, no caos... o nosso sonho lindo

será, no tempo vário, o tempo que não passa.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Setembro de 2015.




sexta-feira, 11 de setembro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * O meu arroio



Ah, meu amado arroio! Eu sei, tu és um entre tantos arroios que deslizam nestas planuras da Pátria Transtagana. Um fio de água límpida correndo em doce leito de fundo arenoso e liso a permitir a partilha do espaço e a dar de beber e a refrescar quem passa nas horas de canícula.

Arroio que busca o mar e lá chegará sem angústias se a malvadez lhe não erguer represas inúteis ou lhe provocar desvios castradores que interrompam ou destruam o curso natural desde a titubeante nascente ao mergulho ousado e feliz no pélago que o cumpre.

Arroio que humedece com ternura as margens que o abraçam; que acaricia as raízes dos freixos e dos silvados; que dá de beber a quem tem sede; que é tina de quem quer lavar-se ou apenas refrescar-se, na partilha fraterna do leito acolhedor; que cede quanto de si necessita o camponês para a rega das suas culturas.

Arroio que não quer ser mais do que arroio: rumoroso no inverno; cantante e fresco na primavera; um fiozinho de água resistindo aflito ao solar incêndio do estio; alentado de novo pelas primeiras águas outonais.

Ah, meu arroio de alma! Ah, minha promessa de sonho e de evasão! Bem-hajas por seres, desde a minha meninice deslumbrada até a esta anciania sem horizonte, o êxtase da utopia impossível!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 10 de Setembro de 2015.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * Fotos de Família


Adolescência.
Quando as almas gémeas ainda não se tinham encontrado.


Duze, no dia do Crisma * Alcoutim, 1953

José Augusto * Évora, 1951