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terça-feira, 1 de janeiro de 2019

21 - DO MAR E DE NÓS * Coração desfeito


DO MAR E DE NÓS 


Coração desfeito 







No impulso de encontrar-me além do pátrio chão, 

soltei-me da raiz e mergulhei no rio. 

Senti-me a flutuar. Que assombro de evasão 

sem peias encontrar o cais do desafio! 



E na corrente fui! Inábil mas ousado, 

ganhei, no meu arrojo, as artes marinheiras. 

Além da barra, o céu no pélago espelhado 

e as ondas desmaiando em seduções matreiras… 



Tudo era novo, dum alvoroçado espanto! 

Também eu era novo e o mundo me chamava! 

E eu fui além, bebendo as lágrimas do pranto 

daquela que sozinha aqui no cais deixava… 



E fui… e trouxe o mundo inteiro no meu peito! 

No peito onde hoje bate um coração desfeito… 







José-Augusto de Carvalho 
31 de Dezembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS * Epitáfio


(DO MAR E DE NÓS...)
*
Epitáfio 


(Evocação do trágico naufrágio de Bartolomeu Dias, 
porventura o maior navegador português,
o “Capitão do Fim”, como lhe chamou Fernando Pessoa) 



Os medos enublados da procela. 

O mastro geme, inúteis leme e vela. 



O frágil lenho sobe as altas vagas, 

para descer aos vales quase a pique! 

Que acima da procela, de ti fique 

o sonho no momento em que naufragas! 



As horas em que vive a perdição, 

benditas já p’la derradeira prece… 

O frio que te abraça e te arrefece, 

memória e lenda em trágico padrão… 



E foi mais do que as Índias e os Brasis 

e as ânsias de conquistas e as usuras, 

o alor imperecível dum país, 

o fel e o mel de todas as loucuras… 



José-Augusto de Carvalho 
28 de Janeiro de 1997. 
Alentejo * Portugal

quinta-feira, 19 de julho de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS - 2 * O sonho que me sonha

DO MAR E DE NÓS-2

*
O sonho que me sonha 






Livre, navega o sonho que me sonha. 

O vento de feição --- icei as velas. 

Que o transe que me espera o Mar disponha 

de assombrações, de medos, de procelas… 



Que cantem as fatídicas sereias 

o fado que eu há muito sei de cor, 

o fado que eu herdei e em minhas veias 

palpita em dó menor, em dó maior. 



Meu fado que tens mastros e velames 

e um leme por desígnio e condição… 

Guitarra que por cordas tens cordames, 

por forma e por sentir meu coração! 



Que levas sob o céu e sobre as ondas 

as melodias que inventar o vento, 

as melodias com que insone sondas 

o lucilar do meu encantamento… 





José-Augusto de Carvalho 
19 de Julho de 2018. 

Alentejo * Portugal 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

21 - DOMAR E DE NÓS-2 * O sonho de um Povo


(DO MAR E DE NÓS – 2) 
O sonho de um Povo 



Para o Comandante Serafim Pinheiro, 
Capitão de Abril, meu Amigo 




Depois dos Cabos, veio o mar aberto: 

os ventos e o mar-chão e as calmarias... 

O Sol ardia e tu também ardias 

no mar e céu do teu futuro incerto... 



Dos longes vinham a fragrância rara 

e os paladares raros do Levante… 

Ai, se eu não posso, que Camões te cante: 

"e se mais Mundo houvera, lá chegara"! 



Amaste o Mundo além a que te davas… 

Um Mundo sem fronteiras reclamaste… 

E em cada caravela regressaste 

saudoso desse mundo que deixavas. 



De ti herdámos ser filhos do Mar 

e o sonho que porfia em nos sonhar… 





José-Augusto de Carvalho 
17 de Julgo de 2018. 
Alentejo `Portugal

domingo, 15 de julho de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS * Os nossos Cabos


DO MAR E DE NÓS-2

.

OS NOSSOS CABOS






À memória de Gil Eanes




Há sempre mais um cabo por dobrar...

Dobrado o Cabo Não, o Bojador

ergueu-se hostil e um trágico rumor

desceu, num pesadelo, sobre o mar.



O Gil tomou o leme e sem tremer

levou a caravela e um Povo todo

além do medo, além do sal e iodo,

até ao longe por amanhecer!...



E o dia por haver amanheceu,

lavado p'la procela que bramia,

cantado p'lo velame que gemia,

ousado porque ao medo não cedeu!...



De cabo em cabo, foi a ousadia

de ir mais além do sonho e da utopia...




José-Augusto de Carvalho
15 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal,
*
(O navegador Gil Eanes, natural de Lagos (?), cidade da Província do Algarve, comandou a caravela que dobrou o então temido Cabo Bojador em 1434.)

quarta-feira, 8 de abril de 2015

21 - DO MAR E DE NÓS - II * A promessa jurada







Deste cais de partida diviso,

na distância, a promessa jurada.

Que ansiedade em minh'alma preciso

e me arrasta das trevas do nada?




Em redor, o abandono ferido...

Onde o sal, onde o iodo destas águas?

E a guitarra de cordas de mágoas

derramando insistente gemido!...




Venham medos, angústias, procelas!...

Venham céus de negrume, sem astros!...

Venha até o que nem imagino!...




Ai, se os ventos rasgarem as velas!...

Ai, se inúteis forem os mastros,

que se cumpra este mar --- meu destino!






José-Augusto de Carvalho
23 de Agosto de 2010.
Viana * Évora * Portugal

21 - DO MAR E DE NÓS - II * Fadário









Provei no meu baptismo o símbolo do sal.

Provei e não gostei, decerto, do amargor.

Provei, bebé ainda, o gosto a Portugal.

Provei, sem crer no Fado, o fel do seu sabor.




O Bem fugaz provei no leite maternal.

O duradouro Mal depois se soube impor.

E nem no tempo vão do breve Carmaval

eu vi de novo o Bem, num cântico de amor.




Meu ânimo de bravo ousou o Bojador.

Ao Cabo Não gritei: Arreda! O meu fanal

é mais além de ti e até do Adamastor!




Às Índias arribei! Além do chão natal,

sofri, morri, sonhei e amei com tanto ardor

que em todo o mundo existo ainda Portugal!








José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 9 de Outubro de 2010.

21 - DO MAR E DE NÓS - II * Odisseia








De mar em mar, as quilhas temerárias

vergaram medos, mitos e procelas.

E os novos mundos, ao sabor das velas,

ao sonho deram dimensões lendárias.




E cada nau rumava mais distante,

num transe de aventura e de miragem.

Em cada vela o símbolo e a mensagem

do verbo feito carne, agonizante...




Um povo que se erguia e transcendia,

cumprindo por missão e por vontade

o voto de rasgar da vista as vendas...



Chegou ao longe mais além que havia!

Nas pedras esculpiu a claridade:

padrões que deram vida a novas lendas!







José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 19 de Março de 1996.

21 - DO MAR E DE NÓS - II * Farol



Foto Internet, com a devida vénia.





Que trémulo farol inventa os medos?

Que dor doendo todos os degredos?




Os ídolos extáticos na lenda.

Cinzéis impondo formas aquilinas.

E a Vida, sempre em transe, só desvenda

a luz que mal espreita nas esquinas...




As portas da cidade estão guardadas.

Quem abre e quem revela o santo e a senha?

Muralhas que não dou por escaladas...

Ai, que renúncia assim de mim desdenha?




Que dor ou que torpor me dói e desce

até ao imo, envolto em desespero?

Oh, braço do temor prisioneiro,

no chão raizes ganha e livre cresce!






José-Augusto de Carvalho
11 de Março de 1997.
Viana * Évora * Portugal

21 - DO MAR E DE NÓS - II * O velho lenho






Do vento que enfunou as níveas velas

das velhas caravelas de Quinhentos

só resta o Fado triste das vielas 

vestido de saudades e lamentos.




Poetas loucos há, de Norte a Sul,

buscando no sabor da maresia,

com Sá-Carneiro, um pouco mais de azul

no céu da decadência amarga e fria.




Na minha voz ecoam outras vozes,

as vozes que eu herdei e que mantenho

perenes de manhãs de apoteoses.




Memória do que foi o velho lenho,

nas asas haverá dos albatrozes

ou viva no palor de algum desenho...





José-Augusto de Carvalho
13 de Janeiro de 2007.
Viana * Évora * Portugal

segunda-feira, 9 de março de 2015

21 - DO MAR E DE NÓS - II * Brasil





Não temas que eu caminhe! A bússola é segura.
E a minha mão domina o leme com mestria.
O vento, de feição, garante a travessia.
E o teu olhar lucila até na noite escura.

Há muito que este mar conhece a barca lusa…
E não me vai perder em trágico baixio.
Agora já não há sereia que seduza…
A barca irá chegar às águas do teu Rio!

O largo mar será e sempre muito estreito…
Distâncias a vencer, meu único destino.
No verbo navegar só eu sou o sujeito…

Sossega o teu temor! Eu chegarei ao fim!
Procela e medo e mar há muito que domino.
Há séculos que sou o delírio de mim!...



José-Augusto de Carvalho
Abril de 2002.
Viana*Évora*Portugal