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domingo, 16 de junho de 2019

28 - CLAVE DE SUL * Companheiro


(CLAVE DE SUL)

*
Companheiro… 





(À memória de Joaquim Soeiro Pereira Gomes)




Tu sabias, 

sabias desde o berço, 

que o pátrio chão está por resgatar… 



Tu sabias, 

sabias da pertença 

da futura seara por ceifar… 



Tu sabias, 

sabias por que a fome 

maior é sempre a fome da esperança… 



Tua sabias, 

sabias que tão pouco iam durar 

teus tempos de criança… 



Tu sabias, 

sabias que eras mais um entre os tantos 

privados do seu tempo de meninos… 



Tu sabias, 

sabias como eu sei que vamos juntos 

contra as vivas marés dos desatinos… 



Tu sabias, 

sabias, como eu sei, 

que a gente cai e a gente se levanta… 



Tu sabias 

e sabes, como eu sei, 

que o canto da sereia não nos perde, 

não nos seduz, 

não nos encanta…. 




José-Augusto de Carvalho 
15 de Junho de 2019 
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

03 - LIVRO ESTA LIRA DE MIM * Abandono


(CLAVE DE SUL) 

Abandono 






Só as árvores nuas 

a tremerem de frio 

no vazio 

destas ruas. 



Uma folha esvoaça, 

derradeira, o fatal movimento, 

sem um ai de doído lamento 

ante a morte que passa. 



Sob o céu enublado, 

só a aragem suspira, 

resistindo à mentira 

do sossego assombrado 



Na parede, cansado, 

o relógio parado. 





José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 7 de Setembro de 1996.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Este fascínio do Sul!


(CLAVE DE SUL) 


Este fascínio do Sul! 





Ah, todas as manhãs, o sol do Meio-dia 

deslumbra o Céu azul! 

O ardente sol que canta e encanta a melodia 

do fascínio do Sul. 



E os versos da canção 

dolentes afagando a calma dos caminhos 

e o candor da emoção 

das aves, ao sol-pôr, buscando a paz dos ninhos… 



No enleio que me enlaça, 

pressinto o palpitar da perdida inocência, 

tão longe da ameaça 

ao direito de ser e de sobrevivência. 





José-Augusto de Carvalho 
23 de Julho de 2018. 
Alentejo * Portugal

terça-feira, 10 de julho de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Fadário


Fadário 

(Foto internet, com a devida vénia) 



Aqui, sou um poeta 

que vegeta 

num matagal de versos. 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Abril de 2018.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * O malmequer silvestre


CLAVE DE SUL

O malmequer silvestre







Despetalo o silvestre malmequer:

bem me quer… mal me quer…



Neste apelo ancestral de tosco rito,

tento aqui perceber

as auroras ainda por nascer

de um devir que ao presente é interdito.



Bem me quer… mal me quer…

Sem render-me, eu serei o que puder…



A que angústias me dou e me macero?

Meu será este encontro de futuro!

Mais além do que dure eu sei que duro

no plural horizonte onde me quero!



Bem me quer… mal me quer…

Só depende de mim o bem me quer!...





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Setembro de 2017.



segunda-feira, 4 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Memória da errância







Tentei, ah se tentei

rasgar caminhos novos na distância!

Errei, ah tanto errei

pelos caminhos velhos da árdua errância!



Sujeito definido,

de queda em queda, sempre mais ousei

e mesmo escarnecido

jamais em desencontros me enredei.



A passo e por compasso reprimido,

insistente me dei.

Na noite, sempre o dia prometido,

convicto, procurei.



E em lágrimas de júbilo saudei

o amanhecer do dia prometido!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.
.
(Recuperação de um rascunho antigo)

sábado, 2 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * A Cidade






Não soubemos defender,

Não pudemos defender

A cidade

E os sitiantes entraram

E a ferro e fogo tomaram

A cidade





A história dos vencedores

Sem decoro pinta a cores 

A cidade

Dos vencidos não diz nada

Mal resiste resignada

A cidade



E tu, que chegaste agora,

Sabes o que foi outrora

A cidade?

Sim, talvez nem te interesse

A negação que arrefece

A cidade





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.

quarta-feira, 27 de abril de 2016

28 - CLAVE DE SUL * O Jogo dos Tempos






Todas as cartas na mesa.

Era o tempo, o tempo certo,

de jogar o jogo aberto

com verdade e sem surpresa.



Frente a frente, o destemor,

com louros de juventude,

e as cãs da decrepitude

a tresandar a bolor.



Era o confronto da vida:

a manhã que amanhecia

contra a noite que descia

toda de escuro vestida.




Era o sol que deslumbrava

a Primavera que vinha

contra o frio que sustinha

o passado que passava.




O jogo dos tempos era:

o que foi e se cumpriu;

o cravo que ao sol abriu

um sonho de Primavera.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Abril de 2016.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * Eu nunca tive escola...




Eu nunca tive escola.

Aluno nunca fui, mas tive muitos mestres, diversos no saber…

Com eles aprendi o pouco que devia, o pouco por bastante.



O muito recusei --- e tanto prometia!...



E eu que não tenho medo senão de me esquecer

Não poderia aceitar negar-me

E ser mais um pagador de promessas…



Eu quero ver a luz do sol e a tremulina!

Sentir o corpo quente e a vista encandeada…



A fome em que morri e de que renasci,

Matá-la nos trigais

Ao lado dos pardais

Que pousam atrevidos nos espantalhos que não receiam mais.



Eu quero ver a luz que logo pela manhã quer tudo incendiar

E disputar ao sol a sede duma gota puríssima de orvalho.



Eu nunca tive escola,

Aluno nunca fui, mas tive muitos mestres…

E a mestre não cheguei porque só quis saber o pouco por bastante

E porque não quis aprender o que quero esquecer.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1996/14 de Dezembro de 2015.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * O meu arroio



Ah, meu amado arroio! Eu sei, tu és um entre tantos arroios que deslizam nestas planuras da Pátria Transtagana. Um fio de água límpida correndo em doce leito de fundo arenoso e liso a permitir a partilha do espaço e a dar de beber e a refrescar quem passa nas horas de canícula.

Arroio que busca o mar e lá chegará sem angústias se a malvadez lhe não erguer represas inúteis ou lhe provocar desvios castradores que interrompam ou destruam o curso natural desde a titubeante nascente ao mergulho ousado e feliz no pélago que o cumpre.

Arroio que humedece com ternura as margens que o abraçam; que acaricia as raízes dos freixos e dos silvados; que dá de beber a quem tem sede; que é tina de quem quer lavar-se ou apenas refrescar-se, na partilha fraterna do leito acolhedor; que cede quanto de si necessita o camponês para a rega das suas culturas.

Arroio que não quer ser mais do que arroio: rumoroso no inverno; cantante e fresco na primavera; um fiozinho de água resistindo aflito ao solar incêndio do estio; alentado de novo pelas primeiras águas outonais.

Ah, meu arroio de alma! Ah, minha promessa de sonho e de evasão! Bem-hajas por seres, desde a minha meninice deslumbrada até a esta anciania sem horizonte, o êxtase da utopia impossível!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 10 de Setembro de 2015.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

28 - CLAVE DE SUL * O São Martinho


O Cante Alentejano * Escultura de Fernando Fonseca




Bem alto, ainda gritam as tonturas

no sol ardendo Outonos…



Pesados e ébrios, os tonéis.

São Martinho lambendo os lábios,

na longínqua delícia do mosto,

caminha claudicando a sede

que grita: vinho novo! Vinho novo!



Na venda, o vinho novo

provoca a cantoria:

«Rosa branca desmaiada

onde deixaste o cheiro…»

As vozes ganham a polifonia

de um rito secular

de comunhão profana.

E eu fico ouvindo a rosa desmaiada

até sentir o chão

florindo primaveras.

E uma doçura imensa me enternece

o coração contrito.

Tartamudeio só um obrigado

à Vida e vou andando

por estas ruas tristes e desertas…


*

José-Augusto de Carvalho
20 de Janeiro de 2015.
Viana*Évora*Portugal

domingo, 29 de setembro de 2013

28 - CLAVE DE SUL * Meu Alentejo!




Alentejo que não tinhas

sombra senão a do céu,

como outras coisas não tinhas,

que tens tu que seja teu?

A desilusão de um nome
e de filhos naturais,
uma bandeira de fome
e um céu distante de mais....

Mas na desgraça cantavas
um lamento em desvario
num coro de condenados...

Levava o vento as palavras...
Gemendo, num calafrio,
os assombros dos montados...


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 25 de Agosto de 1996.

28 - CLAVE DE SUL * Exortação




Foto Internet, com a devida vénia.


Há um tempo cumprido.
Há um tempo a cumprir.
Um minuto perdido
é andar e não ir...

Na boca que receia,
um grito sufocado,
no presente, semeia
um futuro adiado.

Quem ousa a não palavra
da renúncia grosseira
esmagando o clarão?

Num arado que lavra,
a esperança inteira
do milagre do pão!



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Maio de 1996.
Viana, 6 de Janeiro de 2011.

28 - CLAVE DE SUL * Os dias inúteis


Foto Internet, com a devida vénia.



São os campos imensos,
sem suor e sem pão!
São os músculos tensos,
tensos, tensos em vão!

São tão rudes e densos
estes campos de estevas!
São tão negros os lenços
de miséria e de trevas!

São inúteis os dias,
mortos de desencanto,
a gritar agonias
em sepulcros de espanto!

Amargurada terra,
quem de ti te desterra?


José-Augusto de Carvalho
30 de Abril de 1998.
Viana * Évora * Portugal

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

28 - CLAVE DE SUL * Catarina


Foto Internet, com a devida vénia.





Teu nome é uma bandeira

desfraldada à chuva e ao vento.

Uma estrela verdadeira

que desceu do firmamento

p'ra  rasgar a escuridão

da noite da servidão.



José-Augusto de Carvalho 
In arestas vivas, 1980

28 - CLAVE DE SUL * Na praça das jornas

Foto Internet, com a devida vénia.




Os homens, à boa vida,
juntam-se, em grupos, na praça.

Há braços, há mãos, há dedos
ansiando retesar-se...
Onde estão os arcos, onde,
que vão disparar as setas?

Quem quer alugar, quem quer?
Que dá mais? Quem arremata?


José-Augusto de Carvalho
In arestas vivas, 1980

terça-feira, 24 de setembro de 2013

28 - CLAVE DE SUL * Fim de tarde



     Alentejo em flor * Fonte Internet, com a devida vénia.


Os velhos cofiam as barbas nevadas pelos anos.
Da encosta do cerro, avista-se a limpa.
Os raros trigais ondulam ao sabor da brisa,
acenando o pão às bocas ansiosas
que esperam pelo milagre de Maio,
marcado no calendário dos homens
como a certeza duna promessa sempre cumprida.

Os velhos, com os olhos cansados
de olharem o passar gelado dos invernos,
fumam, em silêncio,
em cachimbos de cana,
um tabaco ruim e fedorento,
e cospem, para o chão poeirento,
grandes quantidades de saliva
impregnada de nicotina e de paciência.

Os velhos acariciam maquinalmente as crianças
que brincam no chão poeirento,
alheadas dos pensamentos que engelham
os rostos taciturnos e tisnados dos velhos.

A tarde está no fim.
O céu, incendiado, a poente, regista o adeus do sol.
A sombra, morna, abraça a limpa e o cerro.
Os velhos de barbas nevadas pelos anos
olham sempre em frente e em silêncio.
E a escuridão cai como uma cegueira irremediável.


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 5 de Maio de 1996.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

28 - CLAVE DE SUL * O açaimo

Foto Internet, com a devida vénia.


Media as encruzilhadas
dos caminhos já rasgados
nas solidões assombradas
da imensidão dos montados.

Na noite dos arvoredos,
as sombras mal entrevistas
eram furtivos segredos
de ousados contrabandistas.

Sob a noite, me escondia,
cavalgando à revelia
as leis impostas na Ibéria…

Vivi sem onde nem quando,
tecendo no contrabando
um açaimo prà miséria…


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 1 de Novembro de 2011.

domingo, 15 de setembro de 2013

28 - CLAVE DE SUL * Resistência

Foto Internet, com a devida vénia.


Jaziam amordaçadas,
nas trevas da negação,
as auroras orvalhadas
de liberdade e de pão.

O vento agreste trazia,
na noite de ódio vestida,
as notas da melodia
duma canção proibida.

Os versos da rebeldia,
nas bocas amordaçadas,
bailavam a ousadia
de auroras adivinhadas.

Era o quebrar das algemas
com a força dos poemas.


José-Augusto de Carvalho

Lisboa, 7 de Agosto de 2012.

sábado, 7 de setembro de 2013

28 - CLAVE DE SUL * Alentejo

Foto Internet, com a devida vénia

«O Alentejo não tem sombra
senão a que vem do céu…»
Se tanta lonjura assombra,
mais assombra a tremulina
que cai, em dourado véu,
sobre o espanto da campina.

São os caminhos dos olhos
a rasgar os horizontes,
onde o «alecrim aos molhos»
perfuma a sede das fontes
e a ternura das cantigas
doira a fome nas espigas.

É esta raia de Espanha
acendendo a tentação
de buscar em terra estranha
o alor que leveda o pão…
Sonho roendo as entranhas
em dorida punição.

É esta angústia que canto
da promessa dum país,
é este parto de espanto,
nos desolados adis,
um manto que tudo cubra,
sangrando, em papoilas rubras.


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 22 de Janeiro de 2013.