sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O desaforo


Aos Autores antologiados não será solicitada nem oferecida nenhuma contrapartida para a participação na obra, não serão igualmente ofertados exemplares da mesma.




Todos sabemos que a escrita é anterior à actividade editorial.

Todos sabemos que a actividade editorial decorre da escrita ou, dito de outra maneira, sem autores não há editores.

Assente esta realidade que não oferece contestação, chega-me a surpresa absurda de uma editora convidar autores para colaboração numa amostragem de autores actuais, vulgo antologia, mas desde logo informando que esses mesmos autores não terão direito a receber um volume de oferta ou, mínimo dos mínimos, não terão direito direito a um volume a custo reduzido.

Ocorre, assim, esta situação: a editora recebe a colaboração, edita-a, comercializa-a e os autores recebem o prazer de ver os seus trabalhos editados. 

Edificante!

Que imperativos legais impedem os autores de se associarem e combaterem este desaforo?

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Fevereiro de 2005.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Os feriados

Advertência: o texto abaixo é de Dezembro de 2014. Ficam os considerandos sobre os feriados.
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A questão dos feriados não poderá ser analisada com a leviandade que se anuncia e que prefigura uma ameaça grosseira à memória colectiva de um povo.

--- O 5 de Outubro não assinala, apenas, a implantação da República(1910); assinala, também, tanto quanto sei, a independência, no recuado século XII (1143);


--- O 1º. de Dezembro (de 1640) assinala a recuperação da independência perdida e não constitui qualquer afronta a Espanha;


--- O 14 de Agosto (de 1385), que deveria ser feriado e não é, vá lá a gente entender o porquê de tamanha desconsideração, assinala a manutenção da nossa condição de país independente na Batalha de Aljubarrota;


--- O 10 de Junho assinala Camões e a pátria imortalizada n'Os Lusíadas;


--- O 25 de Abril (1974) assinala a recuperação da dignidade perdida.


Que querem matar, afinal?


Os nossos maiores coram de vergonha! É esta afronta que devemos ao seu denodo e à nossa identidade?


Indignado, aqui fica meu protesto.


José-Augusto de Carvalho

29 de Dezembro de 2014.
Viana * Évora * Portugal


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Importante: Não se incluem no texto acima os feriados internacionalmente consagrados: o 1º. de Janeiro, o 1º. de Maio e o 25 de Dezembro, na certeza, se é que vivemos em tempo de certezas, de que não serão objecto de represália.
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Nota: Desenho do Escultor José Dias Coelho, resistente anti-fascista assassinado pela PIDE, na década de sessenta do século XX.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Considerandos



Recupero de texto já publicado a excelente frase de um meu conterrâneo: «Só todos juntos sabemos tudo.»

Arrisco afirmar que esta frase tem um alcance invulgar e, por isso mesmo, deveria figurar em todos os manuais de conduta.

Várias vezes, em conversas com gente da minha gente, encontro sugestões que considero de grande valia conducentes a aprofundar situações e a estudar soluções.

Evidentemente que estas conversas dificilmente chegarão ao conhecimento de quem conduz os nossos destinos colectivos.

E se aqui não discuto a legitimidade de quem tem o poder de decidir, já discuto a perda destas sugestões, até porque relevarão em valia muitas das decisões que são tomadas.

Todos sabemos ser tarefa de qualquer poder político a gestão quanto baste das necessidades correntes; mas também todos sabemos que qualquer força política tem a sua ideologia e desta decorrem definidas propostas de melhoria de uma qualquer situação em análise, das muitas situações que existem e que vão muito para além das supracitadas necessidades genéricas e correntes.

Por tudo isto, será de colocar estas interrogações:

Como chegámos aqui?

Por que chegámos aqui?

Será que o Povo aceita passivamente quanto o Poder Político decide?

Que motivos levaram o Povo ao distanciamento, ao afastamento da res publica?

Que motivos levaram o Povo a assumir posições claras nos actos eleitorais, quer abstendo-se, quer votando em branco, quer votando nulo, em percentagens relevantes?

Será que as forças políticas estão esticando a corda até esta se partir?

Será que as forças políticas se recusam a ver que estão deficientemente servindo a democracia --- Democracia enquanto Poder do Povo?

Se, etimologicamente falando, Democracia é igual a Poder do Povo, fica claro que democracia sem povo é coisa nenhuma. E é isto que me preocupa enquanto cidadão.

Até sempre!


José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 26 de Setembro de 2014.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Posição


A minha identificação incondicional com o Homem de todas as latitudes, independentemente do credo, da cor, da raça, não me cerceia o dever de dignificar a minha condição de cidadão português e a língua portuguesa.

Serei modesto em conhecimentos, eu sei. Nem estou aqui pretendendo competir nesse campo ou noutros e muito menos pretendendo ensinar seja o que seja.

Estou aqui, sim, para verberar todos aqueles que supõem ter o poder de impor, em Portugal, qualquer língua estrangeira como meio de comunicação nacional.

Dizia o Poeta Fernando Pessoa: «A minha pátria é a língua portuguesa.» E eu subscrevo, sem reservas, esta sua afirmação, não por ser dele, mas por a considerar certa.

E esta minha postura em nada colide com a aprendizagem de outras línguas, aliás bem necessárias nestes tempos de hoje. 
Atribuir-me tamanho desaforo é confundir as coisas. 

Evidentemente que há responsáveis por esta tentativa de menorização da língua portuguesa, a começar por alguns políticos, alguns comentadores e por aí adiante…

Muitos homens grados do passado, de Luís de Camões ao padre António Vieira, por exemplo, se revolverão no túmulo, indignados. 

E também, no presente, muitos homens de mérito corarão de vergonha. Sei não estar sozinho ao subscrever esta postura.


José-Augusto de Carvalho
4 de Agosto de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Encruzilhada


Eu sei onde nasci, foi aqui, nestas planuras transtaganas, ao sol escaldante do meio-dia de um há muito passado dia do mês de Julho. 

Hoje, sozinho, não sei onde irei morrer. Talvez aqui onde nasci, talvez nalguma lonjura perdida em algum recanto deste mundo. 

O Padre António Vieira disse, e cito de cor, que os portugueses têm um pequeno país por berço e o mundo inteiro para morrerem. É uma grande verdade e não sei se eu irei demonstrar isso mesmo.

Pátria-cais de inquietação, quem irá saber onde cada um de nós irá rumar?

Pátria-desafio, quem irá saber o dia de amanhã?

Diz a sabedoria que a mais difícil procura é a interior, aquela angústia que nos leva à procura de nós mesmos.

Quiseram os fados que eu perdesse tudo quanto dava sentido à vida, à minha vida. 

Irão querer esses mesmos fados a minha renúncia? Por minha vontade, não.

Enquanto estamos vivos, há sempre um amanhã por haver. E porque assim é, eu quero ver esse amanhã. Traga o que trouxer, eu enfrentarei. 

A vida é um caminho, logo temos de caminhar enquanto tivermos um sopro de vida. Virá o dia que descansaremos na berma do caminho e adormeceremos a interminável noite que nos espera. Sem dramatismos. E resistiremos enquanto houver memória de nós naquelas e naqueles que nos amaram. Depois, será o absoluto silêncio.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Fevereiro de 2017.

31 - NAS ÁGUAS DO NOSSO ODIANA * Encantamento




Antes de ti, as águas deste rio

cumpriam-se correndo sem parar.

Tinham por condição o desafio

de regressar aos caos --- o imenso mar. 



Cumpriam por cumprir o ciclo antigo,

vazias de emoção e sentimento,

como se a vida fosse, por castigo,

comer o pão sem sal e sem fermento.



Só quando tu chegaste a luz raiou.

E tudo em derredor ganhou sentido.

Até um passarinho desenhou

no céu azul as flor’s do teu vestido.



As águas, num murmúrio apaixonado,

beijavam as pedrinhas que rolavam 

num cálido bailar desordenado

em que, sem se ferir, se entrechocavam.



Os olhos do jumento que bebia

fixando a sua imagem com surpresa,

supunham encontrar a companhia

da sua condição e natureza.



Os patos que nadavam prazenteiros

mais pareciam ser de porcelana

no sonho de alma que a sondar roteiros

pintava de magia o nosso Odiana.



E eu era um marinheiro destemido

nas ondas dos teus olhos verde-mar,

a descobrir, indómito, o sentido

de me perder no porto por achar.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Fevereiro de 2017.



13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A minha Pátria é a Língua Portuguesa


A minha pátria é a língua portuguesa. Esta celebrada frase de Fernando Pessoa será o melhor título para esta minha reflexão. Com ela, o Poeta rasga horizontes próximos e distantes. Desde este cais inquieto, no extremo ocidental europeu, até aos confins do mundo a haver. Ou, como disse Camões, E se mais mundo houvera lá chegara.

Não sei se Portugal é uma pátria de poetas, mas é, seguramente, uma pátria muito amada pelos seus poetas.

Chegámos a todos os povos e com eles nos misturámos. Para nós, não há raças nem credos erguendo barreiras, há gente, há a humanidade toda, rica na sua pluralidade, única na sua singularidade. Por isso nos misturámos, por isso nos misturamos.

É esta herança que temos, lavada de sal e de inquietação, vestida de assombros e de naufrágios, cantada pelos desafios de antemanhãs enfeitiçadas e chorada pelos crepúsculos da tal apagada e vil tristeza de que também nos fala Camões.

Estes Poetas e tantos outros filhos desta mesma pátria fizeram e fazem da língua portuguesa o seu altar e nele rezaram e rezam os seus poemas, poemas de amor e dor, de sonho e pesadelo.

No verbo destes Poetas não há a estreiteza nacionalista. Há, sim, a assunção duma identidade reconhecida desde há séculos. Uma identidade ferida aqui e ali por gente ou incauta ou desavisada. E para não sair desta minha terra natal, pois, saindo, mais encontraria, infelizmente, aqui fixo a vulgaridade de Abana Viana, a comunhão incompreensível de Viana Summer ou o inadequado Cinema dos Avós.

Talvez este e outros reparos publicados ou a publicar neste meu espaço sejam ignorados ou tidos por irrelevantes. Que sejam! Tal não me levará a abdicar do direito à opinião.


Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
23 de Junho de 2012.
Alentejo*Portugal