sexta-feira, 15 de julho de 2022

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * As estrelas apagadas

 



NA ESTRADA DE DAMASCO

*

As estrelas apagadas





Tantos anos depois, me interrogo:
Que desígnio fatal nos maldisse?
Nem de Deus, o supremo a quem rogo,
um sinal que eu ouvisse ou que eu visse.


Primaveras, estios, outonos
ou invernos sucedem-se iguais:
em catarses, morrendo abandonos;
em ousios, inépcias demais.


De naufrágios e de perdições
falam fartas as folhas volantes.
Vagalumes sonhando-se estrelas,
no silêncio sem luz nem pregões,
alumiam uns pés claudicantes
que se arrastam tentando acendê-las.




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Julho de 2022.

terça-feira, 12 de julho de 2022

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * In extremis



NA ESTRADA DE DAMASCO
*
In extremis





De sobressalto em sobressalto, aqui cheguei.
Foi quando, morto de exaustão, adormeci.
Depois, aos poucos, entrevi a Tua Lei
e a graça dada, confortado, agradeci.


Nos quatro rios do teu Éden mergulhei.
Nas mansas águas cristalinas, percebi
quantas vorazes tentações em mim lavei
para sentir-me, aqui, mais próximo de Ti!...


Tentei usar o livre arbítrio que me deste,
sem infringir a rectidão da Tua Lei,
na comunhão do verbo e sacros mandamentos.


Sem culpa nem pecado, a lama que em mim reste
lavada seja no mar morto onde salguei
o fel que insiste em perdurar no uivar dos ventos...



José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 11 de Julho de 2022.

terça-feira, 21 de junho de 2022

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * As pétalas

 



ESTA LIRA DE MIM!...
*
As pétalas



Estou envelhecendo! Onde terei guardado
as ressequidas pétalas do amor-perfeito?
Talvez, perdidas, durmam no esquecido leito
das folhas de um antigo livro abandonado...
 

Tantas estantes! Tento, em vão, localizá-las.
Oh, meu perdido amor-perfeito, onde te escondes?
Que mágoa guardas tu de mim que não respondes?
Por que tu não me vês? E por que tu te calas?


A noite não tem sono e dá-se companhia.
A nossa insónia vela os justos que repousam.
E que aparente paz se evola das paredes!


Ausentes, somos, a varar, na areia fria,
as naus que já não são e logo já não ousam
ir saciar o ardor de insuportáveis sedes...



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Junho de 2022,

quinta-feira, 9 de junho de 2022

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Blasfémia?

 



NA ESTRADA DE DAMASCO


Blasfémia?




Da sarça ardente, trouxe-nos Moisés,

no verbo que perdura, a Tua Lei.

Ficámos todos a saber Quem és.

Quem somos? que seremos? Eu não sei.



Avanços e recuos, já conheço.

E temos que nos bastem ladainhas.

De lutos no direito e no avesso,

um bando delirante de andorinhas.



No cume da pirâmide tremula

ao vento do quadrante há muito imposto

a tutelante flâmula da gula,

difusa, sem entranhas e sem rosto.



Falastes com Moisés da sarça ardida,

morreu sem ver a Terra Prometida...




Alentejo, 9 de Junho de 2022.

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Blasfémia?



NA ESTRADA DE DAMASCO
*
Blasfémia?



Da sementeira do sonho
à safra do pesadelo...
E que primícias deponho
agora no Teu altar
se labor e se desvelo
tiveram tao mal medrar?

Senhor, que campo daninho
reservaste para mim?
Ou me deste por caminho
a aridez deste chão
para eu sofrer com Caim
a mesma condenação?

Mas de que culpas me acusas
e severo me condenas?
De que justeza Tu usas?
Foi este o chão que me deste...
Que culpa tenho p'ra penas,
Senhor, que este chão não preste?


Alentejo, 9 de Junho de 2022.

domingo, 5 de junho de 2022

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * As ruínas



ESTA LIRA DE MIM!...

*
As ruínas




Parado, vejo o Temp(l)o nas ruínas...
Que nada mais restou do que ruínas.

Incólume, um degrau me desafia
aos êxtases do sonho prometido,
como se houvesse ainda a escadaria
de acesso ao paraíso destruído...

Num instintivo gesto de defesa,
desvio o meu olhar da tentação.
E rumo aos horizontes de incerteza,
que há muito herdei do meu amado chão.

Sem forças p´ra lutar, que congeminas,
agora, quando tudo está perdido?
Restaram-te os assombros das ruínas...
E o que restou, agora, faz sentido!



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6 de Junho de 2022.






sexta-feira, 3 de junho de 2022

09 - Livro CANTAREMOS * Revelação




Tu foste o princípio de luz.

De perfume e cor, num sagrado altar.

És a minha cruz,

onde vai rezar

o meu coração

fervorosa oração.

Sedutora flor do Jardim,

mulher ou poema, sonho encantador,

se em verdade existes e humana me tentas,

deixa-me pecar, amor!



José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 1 e 2 de Julho de 2021.