sexta-feira, 11 de outubro de 2013

15 -CANTO REBELADO * Assombração




Caem noites nas sombras da insónia.
Solitárias, bocejam as ruas.
Erram bruxas infrenes e nuas,
em febril e fatal cerimónia.

Doem ermos os montes sombrios.
Uivam feras agouros danados.
Atrevidos, há répteis alados
inventando cruéis desafios.

Fixamente, o insondável medita.
O delírio das bruxas porfia.
É o mundo no fim, pressagia
a crendice... e o lapuz acredita.

E o poeta, a cabeça meneando,
rosna, incrédulo: oh, Povo, até quando?


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 8 de Dezembro de 2012.

18 - NOTAS DE VIAGEM * A primeira partida



                                                       
                   













Solitária,

sobrejaz na planura inerme da evasão negada.

Contempla o Poente,

adivinhando o mergulho no pélago frio,

muito para além dos horizontes estreitos.

O vento Sul traz o grito estridente

do movimento resfolegante, rumo a Norte.

O desconforto de um arrepio

envolve a plataforma com o seu manto inquieto.

Ninguém viera deixar-me um adeus...

E era a minha primeira viagem!

Arrancadas as raízes,

ficava para trás a ternura do ninho

para sempre perdido.

O primeiro amanhecer de um dia sem arrimo

estava prestes.

Um céu sem nuvens

alardeava o desafio da amplidão.

E fui, sozinho...




José-Augusto de Carvalho
2 de Fevereiro de 2006.
Viana * Évora* Portugal

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

25 * LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO * Por ti



Amor, por ti, eu dou a paz, o leite e o mel
e todas as demais delícias do Jardim!
Por ti, eu queimo os papagaios de papel
que podem permitir o descobrir-me em mim!

Por ti, sou o poeta amante, ausente e triste,
por quem tu choras, louca, as lágrimas mais puras!
Sou dentro de ti mesma o amor que em ti existe,
que sempre está contigo e tu sempre procuras...

Por ti, sou a fraqueza terna do menino
que só te quer a ti em noites breu de medo
e dorme em teu regaço um sono de pureza.

Por ti, sou a certeza e a fome do destino,
crescendo sem temer alturas de incerteza,
morrendo sem temer angústias de degredo...


José-Augusto de Carvalho
Viana*Évora*Portugal

25 - LIVRO TEMPO DE SORTILÉGIO * De Inês e de nós...

Pormenor do túmulo de Inês de Castro
Foto Internet, com a devida vénia


Aqui, e muito para além do mito,
Amor teceu a flor da fantasia,
bordada de delírios de ambrosia,
viçosa de arrebois e de infinito!

Sortílegas, as águas do Mondego
ainda rememoram melopeias
que foram sangue a circular nas veias
do nosso mais fatal desassossego!

Na Fonte dos Amores, que secou,
na Quinta que das Lágrimas perdura,
no peito, a rubra flor que já murchou...

Sofrido de saudade e de amargura,
eu sou a nau que foi e não voltou
do sonho de evasão e de loucura...


José-Augusto de Carvalho
24 de Maio de 2006. 
Viana * Évora * Portugal

18 - NOTAS DE VIAGEM * Os meus passos















Mecânico é o movimento dos meus passos.

Rasguei todas as estradas

e nem sabia que fosse a rosa dos ventos!…

Nem sempre se conhece o que se procura…

O caminho é o desafio só porque é caminho.

O horizonte é a chama que chama

e desalenta a parança

do anquilosamento imóvel da pedra cravada no chão.

Caminho e no meu caminhar

demonstro que a inércia não existe.

Caminho e demonstro

que sou, nesta interminável caminhada,

o movimento da laranja azul que gira, gira, gira,

num rodopio de dança embriagada.


José-Augusto de Carvalho
27.11.2005, Viana * Évora * Portugal


***
© José-Augusto de Carvalho
© Tradução: Alberto Peyrano


Mecánico es el movimiento de mis pasos.

Atravesé todos los caminos

sin saber lo que era la rosa de los vientos!…

No siempre se conoce lo que se busca…

El camino es desafío sólo porque es camino.

El horizonte es la luz que convoca

y desalienta la demora

de la inerte parálisis de la piedra clavada en el suelo.

Camino, y en mi caminar,

demuestro que la inercia no existe.

Camino y demuestro

que soy, en esta interminable caminata,

el movimiento de la naranja azul que gira, gira, gira,

en un remolino de embriagada danza.


30.11.2005

Buenos Aires * Argentina

18 - NOTAS DE VIAGEM * Nas Rotas da Vida


















Caminheiro das rotas da vida,

guiado pelas estrelas ou à deriva nas horas de céu enublado,

bebi água nas fontes silvestres,

comi esperanças nas bermas dos caminhos evadidos,

dormi à sombra das esperas, coberto por mantas de angústia.

Encontrei portas fechadas em todas as direcções.

Vi sentinelas alerta nas fortalezas do Tempo.

Chorei as almas penadas da mendicância das preces,

sepultei as ilusões nas valas comuns do esquecimento,

colhi o desprezo astuto nos ramos da ostentação.

Vi tudo o que era feio nas rotas desta vida.

E vi como é possível aninhar as víboras geladas no calor do peito...

as víboras que insistem em envenenar os caminheiros das rotas da vida.


24.11.2005
© José-Augusto de Carvalho

                                * * *

© Tradução: Alberto Peyrano

Caminante de las rutas de la vida,

guiado por las estrellas o a la deriva en horas de nublado cielo,

bebí agua de las agrestes fuentes,

comí esperanzas en los terraplenes de los caminos evadidos,

dormí a la sombra de las esperas, cubierto con las mantas de la angustia.

Encontré puertas cerradas en todas direcciones.

Vi centinelas alertas en las fortalezas del Tiempo.

Lloré las almas en pena de la mendicidad de las oraciones,

sepulté las ilusiones en las acequias comunes del olvido,

coseché el desprecio astuto en las ramas de la ostentación.

Vi todo lo que era feo en las rutas de esta vida.

Y vi cómo es posible anidar a las víboras heladas en el calor del pecho...

las víboras que insisten en envenenar a los caminantes de las rutas de la vida.


27.11.2005 © 2005 Viana do Alentejo (Portugal) - Buenos Aires (Argentina)

18 - NOTAS DE VIAGEM * Don Ramón

Na Guerra (dita) Civil de Espanha
Miliciano (1936-1939)

Ensaiava os primeiros passos, incertos e perplexos.

Era o começo da jornada.

Na berma do caminho, jazia, sufocada, a Liberdade.

Ao longe, na Espanha ensanguentada,

Guernica esperava pelo talento de Pablo Picasso…

Federico tombava, assassinado,

porque Granada tem dois rios:

um de pranto

e um de sangue...

Dolores gritava: No Pasarán!

Mas eles passaram e a Espanha ficou viúva.

Don Ramón andou comigo ao colo.

Aqui encontrou guarida e pão sem sabor a sangue.

Don Ramón, perdoa aquele menino

que não guardou na memória

a imagem do teu rosto macerado.

Obrigado, Don Ramón, porque gravaste em meu peito,

com tinta de lágrimas,

o coração ferido da tua amada Espanha.




José-Augusto de Carvalho
14 de Dezembro de 2005.
Viana * Évora * Portugal



***


Ensayaba los primeros pasos, inciertos e perplejos.

Era el comienzo de la jornada.

En el borde del camino, yacía, sufocada, la Libertad.

A lo lejos, en la España ensangrentada,

Guernica esperaba el talento de Pablo Picasso...

Federico se desplomaba, asesinado,

porque Granada tiene dos rios:

uno de llanto

e otro de sangre.

Dolores gritaba: ¡No pasarán!

Pero ellos pasaron y España se quedó viuda.

Don Ramón ando conmigo en sus brazos.

Aqui encontró guarida y pan sin sabor a sangre.

Don Ramón, perdona a aquel niño

que no guardó en la memoria

la imagen de tu rostro macerado.

Gracias, Don Ramón, porque grabaste en mi pecho,

con tinta de lágrimas,

el corazón herido de tu amada España.



Francisco Javier Fontalva 
Málaga, España, 11. Abril. 2012