quarta-feira, 23 de outubro de 2013

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * E esta fé!...




Hoje, um manto de nuvens cinzentas

anuncia o dilúvio aos gentios.

E sem barca, ai de nós!, que tormentas

no devir de fatais desvarios!...



E de pombas, no céu, nem sinal!

É de sombras a noite que cai!

Que profano juizo final

tão distante do Monte Sinai?



E esta fé, o que faço com ela,

se a distância que mal adivinho

das cortinas da minha janela

só de nada atapeta o caminho?



Do delírio dos cravos em festa,

o que resta? O que resta? O que resta?





José-Augusto de Carvalho
4 de Junho de 2008.
Viana * Évora * Portugal

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * A utopia


(A utopia ou o outro lado do ser humano)







Morria cada dia um poucochinho.

Falava de amanhãs que não veria.

Em cada flor da berma do caminho

só versos de canções de amor colhia.



E lágrimas de sangue e sal vertia,

doído, quando o débil passarinho,

nas ondas de furor da ventania,

caía, em perdição, do frágil ninho.



No entardecer das horas já cansadas,

o arrimo do cajado solidário

trazia forças novas às fraquezas.



Na sedução das noites estreladas,

buscava, impenitente visionário,

além do chão, as cósmicas certezas…



José-Augusto de Carvalho
21 de Outubro de 2013.
Viana*Évora*Portugal

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Manifesto pela Vida



É um imperativo de consciência juntar a minha voz à de todos os que proclamam os direitos inalienáveis da Vida.

Atentar contra os direitos inalienáveis da Vida é atentar contra a Vida.

Quem permite que atentem contra os direitos inalienáveis da Vida é cúmplice nesses atentados.

Quem se alheia dos atentados contra os direitos inalienáveis da Vida é cúmplice nesses atentados.

Quando estão em causa os direitos inalienáveis da Vida, não há neutralidade possível: ou estamos pela Vida ou contra a Vida.

Todos, sem excepção, somos responsáveis sempre que são violados os direitos inalienáveis da Vida.


José-Augusto de Carvalho
28 de Outubro de 2011.
Viana*Évora*Portugal

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Reflectindo...


1
Em sociedade, qualquer pessoa poderá ter o desejo legítimo de exercer um cargo público em uma das diversas instâncias da intervenção política. Recusar-lhe este direito é um absurdo. É o mínimo que se poderá dizer.
Seguramente, não bastará desejar. Carecerá de apoios para passar do desejo à candidatura e desta à vitória ou ao fracasso eleitoral.

2

Os méritos e os deméritos de qualquer pessoa para o desempenho dum cargo político serão reconhecidos ou não. Tudo dependerá do meio onde se insere.
Todos sabemos que há boas e más opções. Umas decorrerão de decisão consensual ou inequivocamente maioritária, outras de decisão passível de reparos, quer por deficientemente fundamentada, quer por suspeita de favoritismo, de considerações alheias ao processo, etc.

3
Vemos, ultimamente, pessoas preteridas por uns serem reconhecidas por outros. E reconhecidas pelo que são e não sei se com a intenção de deixarem de o ser.
Seja qual for esta intenção, uma pessoa só deixa de ser o que é se assim quiser e não por outros o quererem.

4
Não recusando a ninguém o direito de se avaliar e de avaliar os demais, é admissível (e até frequente, concedo) que uma pessoa se sinta preterida por outra que, na sua avaliação, não merece ser designada como candidata.
E se a sua capacidade de avaliação é reconhecida quando concorda com a designação de outrem, como admitir que se censure quando discorda e se apresenta como melhor opção?
E se a pessoa preterida encontrar noutra área a possibilidade de exercer o cargo político que deseja, quem se arroga a legitimidade de censurá-la ou de lhe recusar esse direito de cidadania?

Aqui fica esta reflexão.


Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
22 de Julho de 2013.

Alentejo * Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Só



Neste final de jornada, quando supunha nada mais caber no meu bornal, a surpresa vem. E já não valia a pena. Não porque a sobrecarga seja pesada; apenas porque já nada acrescenta. É aquela situação de quem é surpreendido por uma trovoada, num descampado: depois de chover uns minutos, os restantes, muitos ou poucos, já nada acrescentam à molha.

No monte, os dias trazem-me a monotonia de um tempo parado.


As notícias que me chegam, ainda que poucas, confirmam-me a monotonia.

O dia é o resultado do fatal movimento de rotação; o ano é o resultado do fatal movimento de translação. Assim sendo, nada de novo sob o sol. Mas os dias e os anos, para além do fatalismo planetário, dão-me coisas bonitas: os passarinhos chilreiam, felizes; as flores insistem em maravilhar-me com os seus aromas e as suas cores; «todo o sol do Alentejo» me encanta em apoteoses de cor. Pois, na contemplação, tudo bem.

Na acção, retenho do poema do grande Poeta Miguel Torga sobre Bartolomeu Dias, a fatal conclusão: um herói sem remate. Inevitável. É da sabedoria que não se pode pedir o que se não tem para dar.

Nestes dias quentes, fico-me, à sombra, olhando a estrada deserta. Uma andorinha ensaia acrobacias. Como lhe é fácil ser acrobata e como é difícil a tanta gente dar o passo certo no momento certo!

Só, deixo-me entontecer pela tremulina.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho

15 de Junho de 2013.
Alentejo * Portugal

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O silêncio


Quando imposto, o silêncio é coisa séria. Da minha passagem pela Imprensa diária, na já distante década de sessenta, recordo uma directiva recebida dos Serviços de Censura, que dizia mais ou menos, cito de memória: a partir deste momento, é expressamente proibida qualquer referência ao senhor dr. José Afonso. Assim mesmo, aqueles senhores silenciavam, mas tinham estes requintes, por vezes, claro, por vezes...

Sabemos que silenciar alguém é prática velha e serve, evidentemente, para anular as vozes incómodas. E a incomodidade tanto pode decorrer da falta de paciência para escutar dislates, como da considerada inoportunidade de algumas intervenções.

Sabemos do velho grito «O rei vai nu!» Todos viam, mas não era conveniente afirmá-lo. Ganhava a conveniente dissimulação.

Isto de dizer a verdade inconveniente é coisa perigosa e conhecida desde há muito. Quem não ouviu dizer que cortaram a cabeça a São João, o baptista, por dizer a verdade? Pois é, quem se mete por atalhos, mete-se em trabalhos.

Do meu canto, tento acompanhar o dia-a-dia desta inditosa pátria tão mal amada. Que me perdoe o Luís de Camões, mas veio a propósito distorcer a sua memorável e sentida manifestação de amor a Portugal. Amor não correspondido, aliás, ontem e hoje. Isto de amar o torrão natal e as suas gentes nem sempre é coisa pacífica. E o mais curioso é que esta inconveniência é como o vento -- sopra daqui, sopra dali... e, quantas vezes, já nem sabemos como e onde abrigar-nos da ventania.

Seja como seja, mais mal do que já fizeram não poderão fazer os agentes eólicos.

Do meu canto, tento estar atento e paciente, aguardando que passe o temporal. E de temporal em temporal, mais agredido, menos agredido, vou resistindo até ao juizo dito final. Até lá, siga a dança! E se a morte vier, que venha! Sabemos, também, é da sabedoria popular, que se queres ser bom, morre ou vai-te embora! Eu cá estarei quando vier esse consolo! Eu e muitos mais, porque não sou exemplar único...

Até sempre!


José-Augusto de Carvalho
Alentejo Portugal

domingo, 13 de outubro de 2013

03 - ESTA LIRA DE MIM!.. * Alquimista

Foto Internet, com a devida vénia.


De água e terra é a mistura. 
Quanto baste a quantidade. 
E na lama da procura 
amasso a minha vontade. 

Sou refém do meu passado 
quando inventei por caminho 
ser um austronauta ousado 
nas asas de um passarinho. 

Sou refém do meu presente 
e de mãos nuas enfrento 
este meu destino urgente 
de navegar contra o vento. 

Sou refém do meu futuro, 
onde diviso uma fonte 
de água pura que misturo 
com promessas de horizonte. 




José-Augusto de Carvalho 
8 de Junho de 2007. 
Viana * Évora * Portugal