quinta-feira, 13 de setembro de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Terra antiga


CLAVE DE SUL
.
Terra antiga 

Dórdio Gomes, Pintor Alentejano
(Com a devida vénia)


Para

Andrade da Silva e Serafim Pinheiro,

Capitães de Abril, meus Amigos






Na manhã sem palavras, a brisa 

orvalhada desliza 

no meu rosto. 

Na carícia de honesta ternura, 

sinto o gosto 

e o perfume da fruta madura. 

Terra antiga, 

suada e desnuda, 

que não muda 

quando a noite é de treva e castiga. 

Terra antiga de mágoas carpindo 

quando a força esmorece… 

Terra antiga do sonho mais lindo 

que entre mágoas e dor se levanta 

e manhã na manhã que amanhece 

polifónica canta. 

Terra antiga de Abril e de Maio maduro, 

que é de mar e de pão e de vinho! 

Terra antiga inventando o caminho 

do futuro 

com açordas de audácia e pão duro… 







José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Setembro de 2018. 

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

16 . NA ESTRADA DE DAMASCO * Pesadelo


NA ESTRADA DE DAMASCO

Pesadelo 






Avanços e recuos --- as propostas. 

O tom dum nepotismo autoritário. 

O trunfo é copas, ouros, paus, espadas… 

No pano verde sobem as apostas. 

O lucro fácil --- hausto perdulário 

exibe, em transe, as faces alteradas, 



Às portas da cidade, as sentinelas 

garantem a desordem ordenada. 

Além do fosso, jaz a terra imensa, 

exausta e quase estéril por querelas, 

rasgada e dividida em cada tença 

devida à hidra nunca saciada. 



E deus, que vive em glória nas alturas, 

nem olha por receio das tonturas 





José-Augusto de Carvalho 
In Vivo e desnudo, Editorial Escritor, 1996.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

29 - ACÇÃO LITERÁRIA E CÍVICA * A roseira


ACÇÃO LITERÁRIA E CÍVICA
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A roseira 




Para Rochele Hey, minha Amiga




Latejam minhas têmporas. E agora? 

Não posso acreditar no pesadelo, 

não!, mas estou a vê-lo e a vivê-lo! 

Que negação me chega nesta hora? 



Que negação da vida vem e diz 

que o viço da roseira que floriu, 

da dádiva que foi se despediu, 

que os frios lhe secaram a raiz? 



Que ventos invernais de perdição 

devastam as roseiras do jardim? 

Que gelo de abandono resta em mim, 

nesta saudade de alma e coração? 



E a Vida pára neutra e inanimada, 

rendida ao que ficou --- rendida ao Nada. 





José-Augusto de Carvalho 
2 de Setembro de 2018. 
Alentejo * Portugal

domingo, 2 de setembro de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Confissão


NA ESTRADA DE DAMASCO

.

Confissão 






Confesso que não sei,
assim, na praça pública e desnudo.
e sem recurso à lei
que impõe saber de mim o nada e o tudo.


Não sei por que reclamo o sol do estio,
as chuvas outonais,
as neves da invernia - céus, que frio
doendo-me de mais!


E o sol da primavera
beijando cada ninho em construção
enquanto o Tempo espera
o parto, em oração.


E quando cada espiga me mitiga
a fome só de vê-la,
escrevo uma cantiga
no lucilar ardente duma estrela.






José-Augusto de Carvalho
14 de Junho de 2011
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 31 de agosto de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Agnus Dei



NA ESTRADA DE DAMASCO
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Agnus Dei

(Zurbaran, com a devida vénia)




Foi cumprindo calendário

que chegaste à hora certa.

Foi o verbo milenário

presente nesta hora incerta.



Foi mais um aniversário

da Verdade que, desperta,

fustiga, no tempo vário,

a tua igreja deserta.



Igreja que é assembleia

e não o Templo onde outrora

os doutores de outroragora

uiva(va)m em alcateia.



Da treva ainda na cruz,

Agnus Dei, instante luz!







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, Dezembro de 1998.

domingo, 26 de agosto de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Pátria transtagana

CLAVE DE SUL 

Pátria Transtagana 






Parti quase indefinido, 

a buscar-me algum sentido... 



Não tinha rosa dos ventos 

para o rumo precisar… 

Ousei vagas e tormentos, 

perigos de naufragar… 



Do Algarve passei as passas 

mais as fomes transtaganas. 

À arenga das trapaças 

gritei: vai-te, não me enganas! 



Hoje, não presto, estou velho. 

Voltei p’ra morrer aqui, 

que só dobra o meu joelho 

esta terra onde nasci… 








José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 7 de Setembro de 1996. 
Alentejo, revisão em 25 de Agosto de 2018.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

28 -CLAVE DE SUL * Abandono


(CLAVE DE SUL) 

Abandono 






Só as árvores nuas 

a tremerem de frio 

no vazio 

destas ruas. 



Uma folha esvoaça, 

derradeira, o fatal movimento, 

sem um ai de doído lamento 

ante a morte que passa. 



Sob o céu enublado, 

só a aragem suspira, 

resistindo à mentira 

do sossego assombrado 



Na parede, cansado, 

o relógio parado. 





José-Augusto de Carvalho 
Lisboa, 7 de Setembro de 1996.