domingo, 12 de agosto de 2018

07 - CALEIDOSCÓPIO * Exortação

CALEIDOSCÓPIO
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Exortação






Não te cales, protesta!


Não te rendas, resiste!


Ou ainda não viste


que essa gente não presta?






José-Augusto de Carvalho
12 de Agosto de 2018.
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * As palavras banais


O MEU RIMANCEIRO 
As palavras banais 

(Foto Internet, com a devida vénia)



Quando escrevo, em verdade, o que digo 

são palavras, palavras banais 

de bom-senso, visíveis sinais 

alertando: cuidado, há perigo! 



Nas estradas há curvas danadas, 

há travagens, piões e maus pisos, 

há os gestos de mão bem precisos, 

há manobras e acções desastradas. 



Todos andam sujeitos à pressa 

que nem sabem aonde vai dar… 

Menos sabem onde isto começa 

ou aonde isto vai acabar… 



Falo em vão, eu bem sei, mas insisto, 

que não é blasfemar nem delito 

sobre o nada deixar o meu grito 

que saúda o que existe além disto. 





José-Augusto de Carvalho 
10 de Agosto de 2018. 
Alentejo * Portugal

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

12 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * O Ti'Ernesto


(FANTASMAS DA MEMÓRIA)
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DIÁLOGOS DE CAFÉ


O Ti’Ernesto


Finais de Julho. Também esta tarde vinha quente. E também o movimento nas ruas era quase inexistente. Não havia clientes quando o homem entrou no Café. O empregado reconheceu-o e veio ao seu encontro com um sorriso de boas-vindas. Por casualidade ou preferência, o homem escolheu a mesma mesa que ocupara havia dias. O empregado desabafou:

-- Como vê, o marasmo continua.

O homem concordou com um movimento afirmativo de cabeça e tentou desvalorizar a situação:

-- É o verão, deve haver gente de férias e a emigração tem sangrado muito estas terras pequenas. Olhe, por favor, traga-me um café e um copo de água.

O empregado foi atender o pedido e passados momentos regressou com a chávena de café e o copo de água. Enquanto o cliente açucarava a bebida, quis saber:

-- O senhor tem muita gente conhecida aqui?

O homem esboçou um sorriso e satisfez a curiosidade do empregado do Café:

-- Os mais velhos, sim; eu ausentei-me há muito e os mais novos já me escapam, mas alguns ainda consigo saber quem são pela pinta…

O empregado lançou um ah exclamativo e, satisfeito, perguntou:

-- Nesse caso, o senhor conhece o Ti’Ernesto! Ele deve ser da sua idade ou um pouco mais velho…

O homem meditou uns segundos e depois confirmou:

-- Sim, sim, conheço, ele tem uns anitos a mais do que eu, mas lembro-me muito bem dele. Como está ele, agora? Continua rijo?

O empregado do Café estava visivelmente satisfeito por o cliente se recordar do Ti’Ernesto e abriu o jogo:

-- Sabe?, eu ouvi uma história dele em período eleitoral, no tempo da outra senhora…Como as coisas eram naquele tempo! Até me custa a acreditar em muitas coisas que se contam…

O homem tentou clarificar as coisas:

-- O meu caro devia ser muito novo quando ocorreu a Revolução dos Cravos, isto no caso de já andar cá neste mundo…

O empregado, assumindo um ar grave:

-- Já era deste mundo, sim senhor, até já andava na Escola; eu nasci em 1966. E lembro-me bem do alvoroço que foi aqui no final do dia 25 de Abril… Toda a miudagem estava contente por ver os adultos contentes. Foi um dia muito bonito para todos.

Nostalgicamente, o homem confirmou:

-- Sim, foi um dia muito bonito!

E assim ficaram largos momentos pensando naquele dia distante e, porventura, pensando também nos sonhos que amanheciam naquele dia… Depois, o empregado insistiu em saber o que sucedera naquele antigo período eleitoral:

-- O senhor desculpe, mas eu gostaria de saber se aquela história do Ti’Ernesto é verdadeira ou não. É que me contaram assim: era um domingo, dia de eleições; ele estava na herdade trabalhando; ainda da parte da manhã, o patrão chegou e disse-lhe: olha, vais à vila entregar esta carta ao senhor Fulano de tal, que está a esta hora na Escola tal. Ti’Ernesto recebeu o sobrescrito e lá foi entregá-lo. O senhor Fulano de tal recebeu o sobrescrito com um obrigado, podes ir… E só dias depois alguém lhe disse: essa foi boa, oh Ernesto! Foste votar e nem deste por nada! Foste bem enrolado, grande palerma!

O homem baixou os olhos e fixou-os na chávena vazia. O empregado percebeu naquele gesto a confirmação da veracidade da história. E num desabafo:

-- Até custa a acreditar!...

O homem meneando a cabeça com tristeza:

-- É verdade, aquele tempo foi mau de mais para se acreditar. E depois, quando tudo parecia poder finalmente entrar nos eixos, veio o ajuste de contas, o silêncio, aqui cúmplice, ali resignado, e este marasmo que parece querer impor-nos um marcar passo perante a História…

O empregado repetiu o ah exclamativo, recebeu o dinheiro que pagava a despesa e olhou o homem que saía sem uma palavra de despedida.



José-Augusto de Carvalho
31 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal

sábado, 28 de julho de 2018

12 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * Na Linha Ferroviária do Sul


FANTASMAS DA MEMÓRIA
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NA LINHA FERROVIÁRIA DO SUL

 Ponte ferroviária sobre o Rio Xarrama
(Foto Internet, com a devida vénia)

1.
Todas as semanas fazia aquelas viagens nocturnas: sexta-feira à noite para baixo; domingo à noite para cima. Ia e vinha no então chamado comboio-correio. Sem pressas, este comboio parava em todas as estações e apeadeiros. Era reduzido o movimento de passageiros subindo e descendo, mas era um tanto agitado o movimento de mercadorias. Eu sempre estava atento  quando, no sentido descendente,  chegava à estação de Casa Branca: aí era a corneta anunciando a partida iminente do comboio e logo após o aviso gritado ---  partida para o Algarve! Toda a gente, respeitando a orientação Norte-Sul, dizia vou para cima ou vou para baixo.
Nas noites de luar, quando em sentido descendente, eu ficava olhando o exterior, logo à saída da Estação Ferroviária de Casa Branca. Sentia um fascínio muito grande pela ribeira de Papa Galos e pelo rio Xarrama. Daí o meu persistente desejo de ver e rever as suas águas quando o comboio os cruzava. A ribeira de Papa Galos, cujo curso vai de Ocidente para Oriente, é afluente do rio Dgebe e este é afluente do  Odiana, o meu muito amado Odiana, rio mítico onde mais tarde seria construída uma barragem que é ou será o maior lago artificial da Europa --- a Barragem de Alqueva. A Barragem de Alqueva é uma das esperanças de uma significativa área do Alentejo devido à irrigação que pode proporcionar. O Xarrama corre de Nordeste para Ocidente e é afluente do Sado, rio inteiramente transtagano, que vem da Serra da Vigia, a Sul, e faz o seu trajecto para Norte até mergulhar no Oceano na nossa perdida Setúbal. E digo nossa perdida Setúbal como cidadão transtagano. Esta linda cidade marítima foi extorquida ao Alentejo, vá lá o Diabo saber o porquê, mistério insolúvel / aberração instalada que parece ninguém incomodar, da lavra de iluminado(s) que não sei identificar --- ah, as coisas que eu não sei! --- até porque Setúbal continua capital de um distrito que inclui vários municípios transtaganos.
No sentido ascendente, quando regressava a Lisboa, sentia o mesmo fascínio pelas águas. Quando o comboio partia da estação de Viana, eu ficava esperando pelo Xarrama. Tantas saudades daquelas águas, nas quais ensaiei as primeiras braçadas da minha incipiente condição de nadador e alimentei o meu sonho irrealizado de marinheiro!  Logo a seguir à estação de Alcáçovas, lá estavam as águas da Papa Galos me esperando…

2.
Dizia-me um amigo e primo já falecido: oh, parente, tu tens uma situação mal resolvida com o Guadiana e tanto assim que insistes em chamar-lhe Odiana.
Eu olhava-o, sorrindo. Quando ele nasceu, eu tinha quase dez anos. Andei com ele ao colo. Ele sabia o muito carinho que eu tinha por ele. E pacientemente eu lhe respondia sempre o mesmo: parente, tu sabes que eu tenho uma predilecção por Espanha. Tanto assim é que, em Espanha, eu nunca me senti estrangeiro, apenas sinto estar numa terra vizinha da minha. Afinal, para cá dos Pirenéus, nós somos todos iberos ou hispanos e muitos outros de nós ainda sefarditas e/ou andalusis,  mas eu não gosto nada de imposições e submissões. Em Portugal temos várias palavras com a mesma raiz: Odiana, Odeleite, Odemira, Odivelas, etc. E diz quem sabe dessas coisas da etimologia que a palavra árabe Uad (curso de água) entrou no português como Ode e no castelhano entrou como Guad. Em rigor, o português Odiana ou o castelhano Guadiana significa Rio Ana.  E também sabemos que a palavra castelhana Guadiana entrou (à força?) no idioma português depois de 1580, data em que perdemos a independência. Ora, eu até posso entender que durante os sessenta anos de soberania espanhola tivesse ocorrido esse desmando, mas já não entendo o porquê desse desmando de soberania espanhola prosseguir e se enraizar desde que recuperámos a independência nacional, em 1640. Passaram centenas de anos e continuamos assumindo uma palavra estranha e simultaneamente desprezando e relegando para o arquivo dos arcaísmos a nossa muito nossa palavra Odiana.

3
Os anos passaram. Agora, definitivamente nas pátrias terras transtaganas, mais só e chorando as perdas inerentes à nossa condição de existência efémera, perco-me e encontro-me nas recordações. Sei que sem memória nada somos, sei-o por experiência. Igualmente sei que muita gente vai considerar saudosista este texto e outros semelhantes. Não penso assim. Textos deste género apenas fixam no papel momentos de uma existência. Momentos merecedores de respeito, de compreensão e consideração, pela meridiana razão de que a vida merece respeito, a vida em si mesma. O que fazemos da vida ou o que fazemos na vida são patamares diferentes, estes passíveis de outras leituras, de outras interpretações, de outros juízos de valor.

José-Augusto de Carvalho
28 de Julgo de 2018.
Alentejo * Portugal


quarta-feira, 25 de julho de 2018

12 - FANTASMAS DA MEMÓRIA * O forasteiro



Diálogos de Café
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O forasteiro


Entrou e sentou-se a uma mesa próxima da porta de entrada do Café. Discretamente, circunvagou o olhar, num reconhecimento rápido, e esperou ser atendido. O empregado aproximou-se e disse, como era de uso: faz favor de dizer. O homem olhou o empregado e pediu: um café e um copo de água, por favor.
Enquanto esperava, observou a rua quase sem movimento àquela hora. Eram quatro da tarde e o sol de Julho ainda ardia. Se o dia tem vinte e quatro horas, em rigor eram dezasseis horas. Não sei deveras por que dividimos o dia em manhã e tarde, mas dividimos e por isso mesmo dizemos quatro da manhã ou da madrugada e quatro da tarde. Ora pois, o Povo é quem faz a língua. O que mais importa é que esteja tudo certo e que nos entendamos.
Sentados a uma outra mesa, dois clientes comentavam a transferência de um futebolista: Dizem que o país vai mal, mas os clubes gastam milhões em contratações. E o mais estranho é que os doentes da clubite não reclamam por salários justos, mas consideram muito natural esta indecência.
Insulto, queres tu dizer, corrigiu o outro. E em contratações, em salários, em prémios…
Verdade, confirmou o primeiro. É só quando um braço de trabalho pede aumento de salário que o patrão e o ministro falam em crise e na tal concertação que nada concerta nem conserta nem harmoniza e só  provoca a divisão sindical, a tal divisão para reinar. E, no final de um arremedo de controvérsia, concluem sempre o mesmo: quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão.
Estavam de acordo. Difícil era não estarem. Esgotada a conversa ou por afazeres que os reclamassem, pagaram a despesa e saíram.
O empregado acercou-se e quis saber: o senhor está de passagem? Aos dias de semana é isto que vê, não há movimento.
O homem esboçou um sorriso e respondeu: Sim, estou de passagem. Há muito que não vinha aqui. E vejo que tudo está na mesma, poucas ou nenhumas mudanças. Está tudo muito parado e barco parado não faz viagem.
O empregado encolheu os ombros com desânimo e interrogou-se: antes era o que era e agora é o que é…  até há quem afirme que vamos ser um país de serviços, como se algum país conseguisse sobreviver sem agricultura, sem indústria, sem pescas e sei lá que mais!… É isto: antigamente ainda se fazia alguma coisa, agora compramos tudo feito… O senhor ouviu aqueles dois clientes que saíram agora? Eles falam e têm razão, mas não chega ter razão. E quando há jogos na cidade, fazem um sacrifício e lá vão eles ajudar  a alimentar o desaforo que aí vai! Mal vai a coisa quando a bota não dá com a perdigota, que é como diz criticam aceitando ou aceitam criticando. O senhor entende isto?
O homem esboçou um gesto vago e devolveu a pergunta: quem entende isto? Nem sei se é para entender, mas a realidade que temos é esta. Qualquer interrogação parte duma situação concreta. É um passo em frente uma pessoa questionar e questionar-se, mas se se ficar pela interrogação, isto é se não der o segundo passo que será o de transformar ou tentar transformar ou ajudar a transformar a situação questionada de que adianta questionar? Alguém escreveu, não me lembro do nome do autor desta frase: o povo parece um cão que ladra muito, mas morde pouco. E não se trata de um apelo à violência, se bem entendo o alcance da frase. Eu interpreto-a como um apelo à firmeza, a uma atitude de consciente cidadania. E isto porque um cidadão consciente conjuga o pensamento com a postura, porque só ambos se completam.
Deve ser como diz, sim, consentiu o empregado.
Levantando-se, o homem  despediu-se: Agora tenho de ir. Quanto devo? Tenha uma boa tarde.


José-Augusto de Carvalho
25 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal


28 - CLAVE DE SUL * Este fascínio do Sul!


(CLAVE DE SUL) 


Este fascínio do Sul! 





Ah, todas as manhãs, o sol do Meio-dia 

deslumbra o Céu azul! 

O ardente sol que canta e encanta a melodia 

do fascínio do Sul. 



E os versos da canção 

dolentes afagando a calma dos caminhos 

e o candor da emoção 

das aves, ao sol-pôr, buscando a paz dos ninhos… 



No enleio que me enlaça, 

pressinto o palpitar da perdida inocência, 

tão longe da ameaça 

ao direito de ser e de sobrevivência. 





José-Augusto de Carvalho 
23 de Julho de 2018. 
Alentejo * Portugal

sexta-feira, 20 de julho de 2018

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Verificação


(Esta lira de mim!...)

*

Verificação




Meus sonhos que não couberam

nos horizontes sem fim,

caber afinal puderam

nesta saudade de mim.



Na ânsia que me consumia,

sei que não fui e não vim…

E hoje sou a cinza fria

do fogo que ardia em mim.



Há em nós tudo o que fomos,

numa pureza menina

que nos dói e determina

esta saudade que somos.



E após o drama da Vida,

que promessa foi cumprida?





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 6 de Julho de 1993.