sexta-feira, 20 de julho de 2018

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Verificação


(Esta lira de mim!...)

*

Verificação




Meus sonhos que não couberam

nos horizontes sem fim,

caber afinal puderam

nesta saudade de mim.



Na ânsia que me consumia,

sei que não fui e não vim…

E hoje sou a cinza fria

do fogo que ardia em mim.



Há em nós tudo o que fomos,

numa pureza menina

que nos dói e determina

esta saudade que somos.



E após o drama da Vida,

que promessa foi cumprida?





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 6 de Julho de 1993.



quinta-feira, 19 de julho de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS - 2 * O sonho que me sonha

DO MAR E DE NÓS-2

*
O sonho que me sonha 






Livre, navega o sonho que me sonha. 

O vento de feição --- icei as velas. 

Que o transe que me espera o Mar disponha 

de assombrações, de medos, de procelas… 



Que cantem as fatídicas sereias 

o fado que eu há muito sei de cor, 

o fado que eu herdei e em minhas veias 

palpita em dó menor, em dó maior. 



Meu fado que tens mastros e velames 

e um leme por desígnio e condição… 

Guitarra que por cordas tens cordames, 

por forma e por sentir meu coração! 



Que levas sob o céu e sobre as ondas 

as melodias que inventar o vento, 

as melodias com que insone sondas 

o lucilar do meu encantamento… 





José-Augusto de Carvalho 
19 de Julho de 2018. 

Alentejo * Portugal 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

21 - DOMAR E DE NÓS-2 * O sonho de um Povo


(DO MAR E DE NÓS – 2) 
O sonho de um Povo 



Para o Comandante Serafim Pinheiro, 
Capitão de Abril, meu Amigo 




Depois dos Cabos, veio o mar aberto: 

os ventos e o mar-chão e as calmarias... 

O Sol ardia e tu também ardias 

no mar e céu do teu futuro incerto... 



Dos longes vinham a fragrância rara 

e os paladares raros do Levante… 

Ai, se eu não posso, que Camões te cante: 

"e se mais Mundo houvera, lá chegara"! 



Amaste o Mundo além a que te davas… 

Um Mundo sem fronteiras reclamaste… 

E em cada caravela regressaste 

saudoso desse mundo que deixavas. 



De ti herdámos ser filhos do Mar 

e o sonho que porfia em nos sonhar… 





José-Augusto de Carvalho 
17 de Julgo de 2018. 
Alentejo `Portugal

domingo, 15 de julho de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS * Os nossos Cabos


DO MAR E DE NÓS-2

.

OS NOSSOS CABOS






À memória de Gil Eanes




Há sempre mais um cabo por dobrar...

Dobrado o Cabo Não, o Bojador

ergueu-se hostil e um trágico rumor

desceu, num pesadelo, sobre o mar.



O Gil tomou o leme e sem tremer

levou a caravela e um Povo todo

além do medo, além do sal e iodo,

até ao longe por amanhecer!...



E o dia por haver amanheceu,

lavado p'la procela que bramia,

cantado p'lo velame que gemia,

ousado porque ao medo não cedeu!...



De cabo em cabo, foi a ousadia

de ir mais além do sonho e da utopia...




José-Augusto de Carvalho
15 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal,
*
(O navegador Gil Eanes, natural de Lagos (?), cidade da Província do Algarve, comandou a caravela que dobrou o então temido Cabo Bojador em 1434.)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Exortação



O MEU RIMANCEIRO 


Exortação 



Há um tempo cumprido. 

Há um tempo a cumprir. 

Um minuto perdido 

é andar e não ir. 


A boca que consente 

o grito sufocado 

decide no presente 

um futuro adiado. 


A inércia não existe. 

Perpétuo, o movimento 

definido persiste 

ser acção, ser alento. 


Quem perder a coragem, 

sujeito à rendição, 

não irá de viagem 

dobrar o Cabo Não... 




José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Maio de 1996.
Corrigido, 13 de Julho de 2018.
Alentejo - Portugal

quarta-feira, 11 de julho de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Quase uma oração


Quase uma oração 



Eu pago a água que é uma dádiva do Céu 

Eu pago a energia que é uma dádiva da água 

que é uma dádiva do vento 

Eu pago o pão que é uma dádiva da Terra 

que é um dádiva de quem trabalha a Terra 

Senhor que és omnipresente e não me vês… 

Senhor que és omnisciente e deixas-me perdido nos meus porquês… 

Senhor, eu sei que sou o barro que amassaste 

naquele dia antigo que perdura ainda nos escombros caóticos da memória 

Tu sabes que também do mesmo barro que amassaste 

eu fiz tijolos e ergui casas… 

E outros meus irmãos ergueram muros e cárceres que perduram… 

Senhor, o velho bezerro de ouro do Sinai 

é um velho sempre em novas transfigurações e perversões 

Senhor, a tua obra está datada 

e o tempo sempre noutros tempos reinventado degenerou 

Senhor, talvez tenha morrido o sonho que sonhaste 

Talvez, num outro tempo, 

no tempo de hoje, 

eu tenha de amassar um outro barro 

e inventar um sonho novo… 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 11 de Julho de 2018.

terça-feira, 10 de julho de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Fadário


Fadário 

(Foto internet, com a devida vénia) 



Aqui, sou um poeta 

que vegeta 

num matagal de versos. 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Abril de 2018.