quinta-feira, 19 de julho de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS - 2 * O sonho que me sonha

DO MAR E DE NÓS-2

*
O sonho que me sonha 






Livre, navega o sonho que me sonha. 

O vento de feição --- icei as velas. 

Que o transe que me espera o Mar disponha 

de assombrações, de medos, de procelas… 



Que cantem as fatídicas sereias 

o fado que eu há muito sei de cor, 

o fado que eu herdei e em minhas veias 

palpita em dó menor, em dó maior. 



Meu fado que tens mastros e velames 

e um leme por desígnio e condição… 

Guitarra que por cordas tens cordames, 

por forma e por sentir meu coração! 



Que levas sob o céu e sobre as ondas 

as melodias que inventar o vento, 

as melodias com que insone sondas 

o lucilar do meu encantamento… 





José-Augusto de Carvalho 
19 de Julho de 2018. 

Alentejo * Portugal 

quarta-feira, 18 de julho de 2018

21 - DOMAR E DE NÓS-2 * O sonho de um Povo


(DO MAR E DE NÓS – 2) 
O sonho de um Povo 



Para o Comandante Serafim Pinheiro, 
Capitão de Abril, meu Amigo 




Depois dos Cabos, veio o mar aberto: 

os ventos e o mar-chão e as calmarias... 

O Sol ardia e tu também ardias 

no mar e céu do teu futuro incerto... 



Dos longes vinham a fragrância rara 

e os paladares raros do Levante… 

Ai, se eu não posso, que Camões te cante: 

"e se mais Mundo houvera, lá chegara"! 



Amaste o Mundo além a que te davas… 

Um Mundo sem fronteiras reclamaste… 

E em cada caravela regressaste 

saudoso desse mundo que deixavas. 



De ti herdámos ser filhos do Mar 

e o sonho que porfia em nos sonhar… 





José-Augusto de Carvalho 
17 de Julgo de 2018. 
Alentejo `Portugal

domingo, 15 de julho de 2018

21 - DO MAR E DE NÓS * Os nossos Cabos


DO MAR E DE NÓS-2

.

OS NOSSOS CABOS






À memória de Gil Eanes




Há sempre mais um cabo por dobrar...

Dobrado o Cabo Não, o Bojador

ergueu-se hostil e um trágico rumor

desceu, num pesadelo, sobre o mar.



O Gil tomou o leme e sem tremer

levou a caravela e um Povo todo

além do medo, além do sal e iodo,

até ao longe por amanhecer!...



E o dia por haver amanheceu,

lavado p'la procela que bramia,

cantado p'lo velame que gemia,

ousado porque ao medo não cedeu!...



De cabo em cabo, foi a ousadia

de ir mais além do sonho e da utopia...




José-Augusto de Carvalho
15 de Julho de 2018.
Alentejo * Portugal,
*
(O navegador Gil Eanes, natural de Lagos (?), cidade da Província do Algarve, comandou a caravela que dobrou o então temido Cabo Bojador em 1434.)

sexta-feira, 13 de julho de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Exortação



O MEU RIMANCEIRO 


Exortação 



Há um tempo cumprido. 

Há um tempo a cumprir. 

Um minuto perdido 

é andar e não ir. 


A boca que consente 

o grito sufocado 

decide no presente 

um futuro adiado. 


A inércia não existe. 

Perpétuo, o movimento 

definido persiste 

ser acção, ser alento. 


Quem perder a coragem, 

sujeito à rendição, 

não irá de viagem 

dobrar o Cabo Não... 




José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 13 de Maio de 1996.
Corrigido, 13 de Julho de 2018.
Alentejo - Portugal

quarta-feira, 11 de julho de 2018

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Quase uma oração


Quase uma oração 



Eu pago a água que é uma dádiva do Céu 

Eu pago a energia que é uma dádiva da água 

que é uma dádiva do vento 

Eu pago o pão que é uma dádiva da Terra 

que é um dádiva de quem trabalha a Terra 

Senhor que és omnipresente e não me vês… 

Senhor que és omnisciente e deixas-me perdido nos meus porquês… 

Senhor, eu sei que sou o barro que amassaste 

naquele dia antigo que perdura ainda nos escombros caóticos da memória 

Tu sabes que também do mesmo barro que amassaste 

eu fiz tijolos e ergui casas… 

E outros meus irmãos ergueram muros e cárceres que perduram… 

Senhor, o velho bezerro de ouro do Sinai 

é um velho sempre em novas transfigurações e perversões 

Senhor, a tua obra está datada 

e o tempo sempre noutros tempos reinventado degenerou 

Senhor, talvez tenha morrido o sonho que sonhaste 

Talvez, num outro tempo, 

no tempo de hoje, 

eu tenha de amassar um outro barro 

e inventar um sonho novo… 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 11 de Julho de 2018.

terça-feira, 10 de julho de 2018

28 - CLAVE DE SUL * Fadário


Fadário 

(Foto internet, com a devida vénia) 



Aqui, sou um poeta 

que vegeta 

num matagal de versos. 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Abril de 2018.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Meus versos



(Ícaro, Chagall)


Pediste-me um poema original

como se eu fosse um mago jardineiro

cuidando com desvelo, num canteiro,

de raro e fascinante roseiral.


Quem dera eu fosse o mágico poeta

que em rosas as palavras transfigura!

Vermelhas rosas ébrias da ternura

que dissimula uma paixão secreta.


Dos deuses enjeitado, como ousar

as siderais alturas onde os astros

são círios a velar ainda Orfeu?


Perdidos neste chão de malmedrar,

meus versos são efémeros os rastros

de quem não teve a graça de voar...



José-Augusto de Carvalho
20 de Junho de 2018.
Alentejo * Portugal