segunda-feira, 19 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Da barbárie...



O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o cordel!) 


Da barbárie... 




Atroam as trombetas e os tambores. 

Solícitos, com destemor, acorrem 

os bélicos actores: 

uns matam, outros morrem. 



Imposta a causa, agora definidos 

os trágicos efeitos: 

os insepultos corpos dos vencidos 

e o júbilo em desfile dos eleitos. 



Nas torres de menagem dos castelos 

hasteiam-se os pendões de vivas cores: 

são verdes e vermelhos e amarelos. 

Ufanos, rufam-rufam os tambores. 



A noite cai, alheia ao desvario. 

Desdobra-se um silêncio de mortalha. 

Um mocho lança um agoirento pio 

que sobre os mortos lúgubre se espalha. 



Não mais “honra aos vencidos”. 

Palavras velhas de idos estertores 

são símbolos banidos. 

Que glória aos vencedores? 



Se um justo não perdoa, mas aplica 

as normas da Justeza e da razão, 

merece punição quem edifica 

um ser e estar da vida em negação. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 19 de Março de 2018.

segunda-feira, 12 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * O boato


O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o cordel!) 

*

O boato 




Diz-se que disse… Quem disse? 

É suspeita ou é verdade? 

Se fica na obscuridade 

o autor que se diz que disse, 

qual é a veracidade 

deste diz-se que alguém disse? 



Tudo quanto se propala 

ou o sustenta o rigor 

ou a suspeita se instala 

como eco perturbador 

que sem provas assinala 

agente difamador 



Quanto do que é suspeitado 

é intriga ou é despeito? 

Ninguém só porque é suspeito 

em Juízo é condenado 

Apenas o que é provado 

em Juízo é de Direito. 



Será réu de alta traição 

ao primado da justeza 

quem ousar a subversão 

e amordaçar a defesa 

a interesses de facção 

ou de ardilosa torpeza. 



José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 12 de Março de 2018. 



sábado, 10 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * De viagem…


O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o cordel!) 


De viagem… 









Vai o tempo de longada. 

O velho Cronos assume 

a rota determinada, 

haja aplauso, haja queixume. 



Tão velho como a velhice, 

cumpre a rota decisiva, 

como se ninguém ouvisse 

dos milhões da comitiva. 



É o chefe que se aferra 

à condição que detém. 

Quem não quer, que fique em terra! 

Não se obriga aqui ninguém! 



Todo o tirano é assim: 

quem não lhe aceita as vontades 

ou tem a morte por fim 

ou definha atrás das grades… 



Fez escola esta conduta: 

disse um, o Estado sou eu; 

outros há de forma astuta 

o comum fazendo seu. 



Daqui terá derivado, 

já milenar, todo o mal, 

desde os circos do Passado 

ao presente carnaval. 



Haja pão, haja folia, 

tudo o mais logo se vê! 

Viva quem assim se adia, 

morra sem saber por quê!... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 9 de Março de 2018. 

segunda-feira, 5 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Das sentenças...



O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o Cordel!) 


Das sentenças… 


(Magister dixit) 




É boa a diversidade. 

Poder escolher é bom, 

da cor à intensidade 

dos tons, da luz ou do som. 



Se de escolhas é a Vida, 

pese ou não a qualidade 

da que for a preferida, 

que viva a diversidade! 



Cada escolha tem um preço. 

Tudo se paga na Vida! 

Até a Vida do avesso 

pode ter sido escolhida. 



No início da caminhada, 

todo o caminho é incerto; 

saberemos à chegada 

o que deu errado ou certo. 



Antecipar as certezas 

é querer a supressão 

de incertezas e surpresas 

de insuspeita condição. 



Se ninguém foi ao futuro, 

que certezas pode haver 

dum tempo são e maduro 

que queremos conhecer? 



Pedra a pedra se erguem casas 

que serão o nosso lar, 

tal como só quem tem asas 

ousa seguro voar 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 5 de Março de 2018.

sábado, 3 de março de 2018

11 - O MEU RIMANCEIRO * Pão salgado



O MEU RIMANCEIRO 

(Que viva o Cordel!) 


Pão salgado 








É assim o dia a dia: 

todos iguais, nada muda! 

É uma monotonia 

ou é um “Deus nos acuda”? 



Não sei bem por que razão 

se espera que os outros tragam 

a mezinha ou a unção 

para os males que nos chagam… 



Esperar um salvador 

é do domínio da crença, 

mas viver, seja onde for, 

a nossa acção não dispensa. 



Quem quer isto ou quer aquilo, 

lute para o conquistar; 

ficando alheio e tranquilo, 

não tem por que protestar? 



Se alguém não fizer por mim 

o que por mim nem eu faço, 

como posso achar ruim 

sofrer o mau por que passo? 



Só quem come o pão suado 

sabe o gosto que o pão tem! 

Pão pelo suor salgado 

nunca fez mal a ninguém. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 2 de Março de 2018. 


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Dlim-dlão!





A Torre da Má Hora tem um sino. 

Esventram os silêncios os seus dobres… 

Dlim-dlão! Dlim-dlão! Dlim-dlão! 

Se olhares bem, na solidão descobres 

a dor do fim nuns olhos de menino 

que nada já conseguem ver… Dlim-dlão! 



São olhos velhos de esperar cansados 

que se cumprisse o sonho de menino… 

O sonho vão chegando ao fim… Dlim-dlão! 

E tremem os silêncios despojados- 

Na Torre da Má-Hora toca o sino: 

Dlim-dlão! Dlim-dlão! Dlim-dlão! 



Manhã após manhã, promete o dia 

a renovada chama da esperança, 

e, à ceia, serve a noite a frustração. 

E assim, é nesta intérmina porfia 

que dói, que desespera mas não cansa, 

que se resiste ao lúgubre dlim-dlão… 



Ah, mas em todos nós palpita e grita 

o testemunho ousado e solidário 

da força do querer em construção… 

Ousemos ir além desta desdita 

que nos mantém reféns deste fadário 

e há tanto nos imola no dlim-dlão. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 26 de Fevereiro de 2018. 

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Ousadia



A memória rompeu o negrume 

e chegou com as vestes do mito. 

É História nas lendas que assume 

um Passado a querer-se interdito. 



São imagens dos tempos perdidos? 

São palavras ou ecos vadios 

que martelam os nossos ouvidos, 

alta noite, a carpir desvarios? 



Somos isto: um alforge pesado, 

carregado de angústias e medos 

ou a herança do Pégaso alado 

que cantaram os velhos aedos? 



Que com Pégaso ousemos os astros 

e os vindouros nos sigam os rastros!... 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 13 de Fevereiro de 2018.