sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

13 - NA PALAVRA É QUE VOU..., * A pressa


O Flávio passou agora mesmo por mim. Iluminou a face com um sorriso e lá foi pedalando. Já nem se apercebeu do meu aceno que era um cumprimento e um adeus. Esta gente anda sempre com pressa. Não sei se é a Vida que apressa esta gente, se é esta gente que apressa a Vida. Num contraponto indiferente, o dia continua a ter 24 horas. E tanto quanto posso observar, a natureza mantém o mesmo ritmo. A natureza onde os manobrismos humanos (ainda?) não interferem para acelerar, retardar, alterar, modificar o seu ancestral modo de ser e estar.

Lá mais à frente, a estrada se cruza com um ribeiro. O Flávio já deve ter passado a ponte. E quero crer que, com a pressa, nem olhou o leito deste pequeno curso de água.

É, com certeza, um ribeiro igual a tantos outros que serpenteiam a planura. Eu gosto muito de arroios, de ribeiros e ribeiras, de rios e de mar. É o fascínio da água. Este meu fascínio me leva a ficar horas e horas olhando este ou aquele curso de água, a tentar imaginar percursos evadidos, a criar exaltadas ousadias, a recusar destinos parados de prostração e renúncias. Ora foi num dia que nem sei precisar que vi estupefacto, neste mesmo ribeiro, uma represa canhestramente erguida. Estupefacto porque a represa não tinha a finalidade transitória de aproveitar água para rega. Olhando mais atentamente, percebi: o ribeiro, naquela área, atravessa uma propriedade rústica e a represa nada mais é do que um passadiço para um tractor agrícola. Com certeza, o passadiço poderia ter usado manilhas na estrutura para deixar a água livremente correr. Mas o autor do passadiço não pensou nisso ou não quis pensar. E em nome do utilitarismo estreito e de um inaplicável direito de propriedade, cortou uma linha de água que é um bem público.

E estas coisas e tantas outras existem e persistem anónimas por vontade de quem não vê, de quem não quer ver…

Eu sei, é a pressa… Mas serão seguramente os apressados da Vida, serão os distraídos da Vida, serão os indiferentes da Vida os primeiros a apontar o indicador acusador aos outros, aos tais outros que tinham o dever de ter visto e não viram; que tinham o dever de ter previsto e não previram; que tinham o dever de ter agido e não agiram…

O Flávio passará por aqui, no regresso, pela tardinha. Hoje já não o verei, está arrefecendo e eu tenho de resguardar a minha anciania.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Janeiro de 2018.

sábado, 16 de dezembro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A banda que passa…



O MEU RIMANCEIRO
.
(Que viva o cordel!)

*
A banda que passa… 






Meu amigo, tens razão:

deixemos passar a banda!

Marcha atrás a multidão

e mais quem p’las ruas anda

e é alheia à diversão.



Nas ruas, como nas feiras,

há sempre galos sem crista,

que, atrevidos nas maneiras,

exibem a longa lista

de maravilhas matreiras.



No fim, segue um cão vadio,

alheio a tanto alvoroço.

De passadio sombrio,

espera que sobre um osso

do animado desvario….





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Dezembro de 2017.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * A saia da Marianita




(ESTA LIRA DE MIM!...)

*
A saia da Marianita





Mas que saia tão bonita

hoje traz a Marianita!



Saia rodada, amarela,

que quando lhe dá o sol

fica dourada, tão bela

como um grande girassol.



Saia amarela, rodada,

é de oiro como uma espiga

que na hora de ser ceifada

é pão, é verso, é cantiga…



Apenas tem doze aninhos

e um lindo e moreno rosto

a deslumbrar os caminhos

deste Sul, no mês de Agosto.



Que em seus lábios sempre baile

um sorriso puro e terno,

até quando vem de xaile

nos dias frios de Inverno.



Mas Março virá trazer

o novo por que se espera

e a Marianita irá ser

outra vez a Primavera.



Ai, que esta página escrita,

seja sempre, sempre assim!

E a sua saia bonita

me amortalhe no meu fim…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 14 de Dezembro de 2017.

domingo, 10 de dezembro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO, * Rimance do imenso mar



(O MEU RIMANCEIRO)

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Rimance do imenso mar







Era imenso, imenso o mar

que se abria à nossa frente!

Gritava o vento: é urgente,

é urgente navegar!



Mães, esposas, prometidas,

em lágrimas e oração,

previam a perdição

nas águas desconhecidas.



E num balbucio aflito,

imploravam: não nos tente

este mar à nossa frente

com seu apelo maldito!



E que se cale este vento

de lamentos de sereias

vestindo as nossas areias

de luto e de sofrimento!



Mas o mar, o imenso mar

que se abria à nossa frente

escutava indiferente

tanto medo e tanto orar.



Filho da terra, o arvoredo,

cortado e bem trabalhado,

era agora um novo arado

sulcando as águas do medo.



Como um berço, sobre as águas

baloiçava docemente…

E não via à sua frente

um mar de medos e mágoas.



Quando içou as brancas velas,

sentiu o afago do vento

e sonhou nesse momento

o sonho das caravelas.



Um sonho ainda menino,

mas tão grande como o Mundo!

E o sonho não foi ao fundo…

O sonho era o seu destino!



Mais tarde, quando outra gente

baniu o sonho menino,

ergueu este desatino

que agoniza decadente…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2017.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * Em louvor da Vida



(TEMPO DE SORTILÉGIO)

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Em louvor da Vida





Na dimensão do todo, encontro-me plural.

Deveras quero ser uma acha da fogueira.

Anónima, uma acha, entre outras, da lareira

ardendo no teu lar em noite de natal.



Que importa se o natal apenas é um mito?

Importa é que no frio o fogo te acalente

e que no teu sonhar não sintas interdito

o mágico devir que alente o teu presente.



No ventre da mulher germina a utopia

da vida que floresce em cada primavera,

num ciclo que se cumpre em transe natural.



Na tua/minha voz suave a melodia

que a condição de ser e de mistério gera,

louvando em cada parto o mito do natal.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 7 de Dezembro de 2017.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Com Florbela...



(NA ESTRADA DE DAMASCO)
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Com Florbela…







Sou um traço de união

a ligar o chão que piso

à lonjura de evasão

do impossível impreciso. 



Amassado o barro vil,

pó cozido ao sol do estio,

quando o céu azul de anil

mais adensa o meu vazio.



Foi inútil a procura

que tentei além de mim.

Sou princípio da urdidura,

da urdidura serei fim.



E seguindo a tua estrada,

sou também «pó, cinza e nada».





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Dezembro de 2017.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

10 - CANTO REVELADO * A perpétua construção


(CANTO REVELADO)

A perpétua construção 


Dórdio Gomes, Pintor alentejano, com a devida vénia




Nem pratos de ilusões ou de lentilhas…

Nem taças do elixir dos desvarios…

Só quero do pão asmo das partilhas,

em sopas, no gaspacho, p’los estios.



O vinho e o pão devidos ao sustento,

para que o meu labor de cada dia

não sofra reduções de rendimento

nem mal augure os tempos de invernia.



O vinho e o pão do ajuste equitativo

que me garante a força do meu braço

e a minha condição que assumo e vivo

no que recuso e no que inteiro faço.



Que eu saiba ser plural na dimensão

multímoda e em perpétua construção.





José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 29 de Novembro de 2017.