segunda-feira, 4 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * Memória da errância







Tentei, ah se tentei

rasgar caminhos novos na distância!

Errei, ah tanto errei

pelos caminhos velhos da árdua errância!



Sujeito definido,

de queda em queda, sempre mais ousei

e mesmo escarnecido

jamais em desencontros me enredei.



A passo e por compasso reprimido,

insistente me dei.

Na noite, sempre o dia prometido,

convicto, procurei.



E em lágrimas de júbilo saudei

o amanhecer do dia prometido!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.
.
(Recuperação de um rascunho antigo)

02- TEMPO DE SORTILÉGIO * A barca da utopia





Na barca da utopia,

eu vou e tu também comigo vais.

Nos uivos da ventania,

o canto da sereia, que são ais

e perdição, naufrágio pressagia

nos longes --- mar e céu --- do nunca mais.



Deixámos na renúncia do ficar

o velho cais --- impulso de segredos

instantes a chamar.

Nas vagas alterosas gritam medos.

Dilúvios casam nuvens com o mar.



À capa, a barca enfrenta, aguenta, espera

que amaine a fúria infrene da procela.

Urgente é navegar!

Na espera que exaspera,

a rota corrigida, içada a vela,

ousemos, rumo ao porto por achar!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 4 de Setembro de 2017.

sábado, 2 de setembro de 2017

28 - CLAVE DE SUL * A Cidade






Não soubemos defender,

Não pudemos defender

A cidade

E os sitiantes entraram

E a ferro e fogo tomaram

A cidade





A história dos vencedores

Sem decoro pinta a cores 

A cidade

Dos vencidos não diz nada

Mal resiste resignada

A cidade



E tu, que chegaste agora,

Sabes o que foi outrora

A cidade?

Sim, talvez nem te interesse

A negação que arrefece

A cidade





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Setembro de 2017.

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O cordel

(QUE VIVA O CORDEL!)






Do cordel tu te sorris,

benévolo e tolerante?

Mas se não fora a raiz,

que perfume, que matiz

na flor que mais nos encante?




Por mais rústica que seja,

a teus olhos, a raiz,

qualquer planta que viceja

ou fruto que se deseja

é porque a raiz o quis.




A raiz é como um ovo:

o princípio rude e mudo

que, suando como o povo,

esforçado traz o novo

e, assim, perpetua tudo.






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 31 de Agosto de 2017.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Na roda da vida...

(QUE VIVA O CORDEL!)



Os poetas cantaram o grito

que varou o vazio sangrento.

Não morreu a raiz nem o vento

se calou num silêncio contrito.



Continua a figueira a dar fruto,

quando o tempo aprazado chegar.

Há um tempo maduro de amar:

é por ele e com ele que luto.



Em Setembro haverá as vindimas.

Quase findos os dias de Agosto…

Bem casadas de gosto e de mosto,

aprontemos as últimas rimas.



Em Novembro, as primícias do vinho,

na promessa do novo cumprida.

Vamos todos na roda da vida!

São Martinho já vem a caminho…







José Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Agosto de 2017.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

30 - ...E CONTIGO EU MORRI NESSE DIA! * O sonho que morreu...





Bailava nos teus lábios de medronho

a dádiva da lenda que tu eras!

Sem condições, rendi-me à vida-sonho

de todas as sonhadas primaveras…



No verde-mar-assombro dos teus olhos

cruzei os mares todos da utopia…

Domei correntes, contornei escolhos,

cheguei ao mais além da fantasia…



No ninho dos teus braços virginais,

fui lenha, na lareira, a crepitar,

num sacrifício de alma… e tudo ardeu!



Depois, rumaste aos longes siderais…

Sem ti… sem mim… e lúgubre a pairar,

ficou a dor do sonho que morreu.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Agosto de 2017
*
(In "...e contigo eu morri nesse dia!", em preparação)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Na voragem







Ah, velho Cronos, todo o tempo é de viagem!

O tempo, em seu correr, passando vai por mim.

E eu vou com ele, queira ou não, porque se vim

foi para me encontrar na cósmica voragem.



Que causa provocou o efeito de viver?

Que sonho de aventura é este movimento?

Que importa, deslumbrado, olhar o firmamento,

se nunca poderei aos astros ascender?



Que sedução, em Maio, a brisa mitifica

para enlaçar a flor à luz do entardecer?

A mesma brisa que virá para a perder

no altar do outonecer que o Belo sacrifica.



Ah, velho Cronos, vão é ser, vão é ceder

ao teu mecanicista impulso de correr… 





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Agosto de 2017.