terça-feira, 23 de maio de 2017

35 - AL ANOCHECER * Aquí!





Aquí, yo soy el hambre

de la tierra que es mia!



Hay siglos, siglos viejos,

bajo mis pies heridos!



Las piedras del camino

estan rojas, rojas, rojas,

empapadas de sangre!

Y del suelo tanto tarda

un ramito de amapolas

para lucir en tus manos

de madre del sufrimiento!



Mañana tras mañana,

todos los dias me llaman!



Por qué yo sigo olvidando

que nadie puede hacer

solamente lo que yo puedo?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Fevereiro de 2008.
Do livro em construção: “Al anochecer”

domingo, 21 de maio de 2017

10 - CANTO REVELADO * O Manifesto do Homem






Eu nunca quis a paz do medo e das afrontas.

Nem caridade eu quero ou quis por alimento.

Eu quero e sempre quis que me prestasses contas

pelas manhãs por ti vestidas de cinzento.



Não quis nem quero ser a fome que aborrece

a mesa do teu lar --- arfante de iguarias…

Não quis nem quero ser a renúncia que tece,

prostrada, a contrição das noites e dos dias.



É tempo de ir além do medo do teu leito, 

mofando-te num caos de insónias e pavores

em gargalhadas de fatal assombração…



É tempo, neste chão, de facto e de direito,

tu seres como eu sou, eu ser como tu fores,

do berço do principio ao termo do caixão.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo,

quinta-feira, 18 de maio de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Nos silêncios nocturnos



Esta lira de mim!...

Nos silêncios nocturnos





Sob as vestes tão gastas, no fio,

tu sabias o tempo que tinhas.

Era pouco, mas não te detinhas

nem temias o abraço do frio.



Baloiçavam sinistros sincelos

nos silêncios nocturnos parados.

Brancos, brancos, no frio nevados

os perfis de tomados castelos.



Entre inúteis despojos caminhas.

E nenhum por teus pés é pisado.

Passo a passo, dobrado o cuidado,

entre lágrimas, tudo acarinhas.



Todos falam de ti no abandono

do letárgico sono do Outono.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Maio de 2017.

domingo, 7 de maio de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Na magia de Natal…



NA ESTRADA DE DAMASCO

Na magia de Natal…




É o tempo da boa vontade.

Pascem lobos nos prados da aurora.

Do redil, o cordeiro se evade.

A verdade já não se demora.



Um lobito, de orelhas fitando,

o cordeiro divisa à distância.

Sortilégio sem onde nem quando,

o candor comovente da infância



E, felizes, o encontro festejam.

Uma estrela, no céu, rejubila.

Passarinhos, em bandos, adejam

sob a paz que floresce, tranquila.



Fico a vê-los, rendido à magia

deste sonho que aquece o meu dia…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 16 de Dezembro de 2003.




sábado, 6 de maio de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * Não me abandones, Mãe!


(Neste Dia da Mãe, 7 de Maio de 2017, o meu poema possível…)




ESTA LIRA DE MIM!...

Não me abandones, Mãe!





Chamo por ti, na noite abandonada.

Solícita, tu vens: querido filho!

O tempo pára. Trémulo, partilho

o som que chega dos confins do nada.



Cego de lágrimas, soluço e rio,

e neste transe de alma me consolo.

Num êxtase esquecido balbucio:

Não me abandones, Mãe, eu quero colo!



Um halo de ternura me agasalha

e um sono antigo desce sobre mim.

Suspensa, tremeluz uma poalha

de estrelas e perfumes de jasmim.



Que abandonado sono de verdade,

p’ra sempre, assim nos queira eternidade!




José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 5 de Maio de 2017.

16 -NA ESTRADA DE DAMASCO * Naquele dia...


NA ESTRADA DE DAMASCO


Naquele dia...


Caim matando Abel 
Foto internet, com a devida vénia




Naquele dia, Deus olhou e duvidou.

O barro que amassara o caos lhe devolvia.

O livre-arbítrio ria,

gritando --- aqui estou!



O lobo não pastou

ao lado do cordeiro

nem com ele brincou,

feliz e companheiro.



Das feras e festins,

do sangue e dos vampiros,

do vírus dos cains

e mais nefastos vírus…



…fica o meu grito --- não

ao crime sem perdão!






José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 7 de Dezembro de 2003.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Dos aforismos


(QUE VIVA O CORDEL!)










Pela boca morre o peixe

diz o saber popular…

Assim, que ninguém se queixe

se ousa o que não deve ousar…



Palavras leva-as o vento?

Quem o disse mal supunha,

elas resistem ao vento

quando alguém as testemunha.



Palavras são argumento,

quantas vezes são arpão

que crava o ressentimento

ou que empunha a delação…



Quando alguém se junta ao coro

que a falta de senso instala,

lesa o silêncio que é de ouro,

que é de ouro e que também fala.



Sigo o saber popular.

Às vezes, quero-me mudo,

que é mais saudável calar

quando o calado diz tudo.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Maio de 2017.