segunda-feira, 3 de abril de 2017

16 - NA ESTRADA DE DAMASCO * Natal




…e a distância foi nada

na sua dimensão

absoluta…



…e o Verbo foi balada

de amor na imensidão

impoluta…



…e os grilhões do proscrito

sentimo-los nos pulsos

a ceder…



…rendidos aos impulsos

da Verdade no mito

a nascer…





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 31 de Outubro de 1970.

quarta-feira, 29 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Povo sou!...



(QUE VIVA O CORDEL!)








Eu olho e mal acredito

no filme que estou a ver…

Nem sei que dizer… hesito…

Melhor não me intrometer.



Um anónimo qualquer

limita-se só a ver…

Se ousar mais, o que disser

que audiência pode ter?



Falar só por desfastio

ou p’ra não ficar calado,

para mim, é desafio

à partida recusado.



Manda o são comedimento

nunca se ir a baptizado,

a festa ou a casamento

se não se for convidado…



É do povo esta sentença

e eu sou povo --- povo sou!

Por isso, peço licença

para ficar onde estou.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 29 de Março de 2017.

terça-feira, 28 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O sobreiro



(QUE VIVA O CORDEL!)





Não cedo porque não quero.

Vem do berço, e assim mantenho,

este princípio severo

de te dizer ao que venho.



Sou assim como o sobreiro

destas terras transtaganas:

por mais que sejas matreiro,

o meu tronco não abanas.



Sou produto deste chão,

as intempéries aguento:

do frio ao vento suão

e aos vorazes que sustento.



Sem cobrar nada a ninguém,

minha cortiça ofereço,

embora eu saiba haver quem

sempre a vende por bom preço.



E mesmo depois de morto,

serei fogo nas lareiras:

darei calor e conforto

durante noites inteiras.



Tudo dá a Natureza,

em fraterna comunhão:

se te falta o pão na mesa,

quem comeu o teu quinhão?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 28 de Março de 2017.

segunda-feira, 27 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * No palanque



(QUE VIVA O CORDEL!)







O palanque costumeiro

pode erguer-se em qualquer praça,

donde o verbo do embusteiro

vende a quem está ou passa

o produto milagreiro.



Para os calos é pomada;

para os calvos é loção;

e para a vida azarada,

que anda sempre em contra mão,

uma cautela premiada.



No desencontro do amor,

faz a leitura da sina:

Estenda a mão, por favor!

Esta linha muito fina. 

pobre dela, está sem cor!



Não tem de que se afligir.

Eu tenho o que lhe convém.

Vai tomar este elixir,

que logo, logo, o seu bem,

nos seus braços vem cair.



No nosso amado país,

há remédio para tudo:

este mesmo que ontem fiz,

veja que até leva o mudo

a pensar o que não diz…







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Março de 2017.

quinta-feira, 23 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Lume brando



(QUE VIVA O CORDEL!)




Agora, juntos, nós fazemos as partilhas:

pataca para ti, pataca para mim.

Nem o Ali Baba soube de Ben Saharín, (1)

para poder sonhar com tantas maravilhas!



Sem grutas no deserto ou senhas de magia,

sem medo do sultão nem da sua justiça,

é certo que custou, mas conseguimos – chiça!

com muita inteligência e com cabeça fria!



Iremos, doravante, agir como convém:

é dar uma no cravo, outra na ferradura,

ora cedendo aqui, ora privando além,

tal qual como as marés, num rítmico vaivém.



E sem que se perceba, o sono vem chegando…

…e nós sempre mantendo assim o lume brando…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Março de 2017.
*
1- Ben Saharín / Lugar dos feiticeiros

11 - O MEU RIMANCEIRO * O farsante


(QUE VIVA O CORDEL!)






O pecado original

é quereres instaurado

por tempo indeterminado

o tempo do Carnaval,

para andares disfarçado

e a ninguém pareça mal.



Se presunção e água benta

cada um toma as que quer,

ignorar, quando se intenta,

as limitações que houver,

será como na tormenta:

que se salve quem puder!



De enganos e de artifícios 

não se vive a vida inteira!

E pedir os bons ofícios

à honrada gente ordeira

é procurar benefícios

que absolvam a maroteira.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Março de 2017.

quarta-feira, 22 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O testemunho



(QUE VIVA O CORDEL!)







Vinha descendo a lavada

escadaria de pedra

onde, sem ser semeada,

qualquer faz de conta medra.



Media a sua importância,

seja importante o que for,

supondo que a circunstância

faz honesto o malfeitor.



Olhava e tudo o que via,

do topo da escadaria,

que era seu já o supunha…



Porque é pecado a cobiça,

conta comigo a Justiça:

do que vi sou testemunha…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo 22 de Março de 2017.