segunda-feira, 27 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * No palanque



(QUE VIVA O CORDEL!)







O palanque costumeiro

pode erguer-se em qualquer praça,

donde o verbo do embusteiro

vende a quem está ou passa

o produto milagreiro.



Para os calos é pomada;

para os calvos é loção;

e para a vida azarada,

que anda sempre em contra mão,

uma cautela premiada.



No desencontro do amor,

faz a leitura da sina:

Estenda a mão, por favor!

Esta linha muito fina. 

pobre dela, está sem cor!



Não tem de que se afligir.

Eu tenho o que lhe convém.

Vai tomar este elixir,

que logo, logo, o seu bem,

nos seus braços vem cair.



No nosso amado país,

há remédio para tudo:

este mesmo que ontem fiz,

veja que até leva o mudo

a pensar o que não diz…







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Março de 2017.

quinta-feira, 23 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Lume brando



(QUE VIVA O CORDEL!)




Agora, juntos, nós fazemos as partilhas:

pataca para ti, pataca para mim.

Nem o Ali Baba soube de Ben Saharín, (1)

para poder sonhar com tantas maravilhas!



Sem grutas no deserto ou senhas de magia,

sem medo do sultão nem da sua justiça,

é certo que custou, mas conseguimos – chiça!

com muita inteligência e com cabeça fria!



Iremos, doravante, agir como convém:

é dar uma no cravo, outra na ferradura,

ora cedendo aqui, ora privando além,

tal qual como as marés, num rítmico vaivém.



E sem que se perceba, o sono vem chegando…

…e nós sempre mantendo assim o lume brando…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Março de 2017.
*
1- Ben Saharín / Lugar dos feiticeiros

11 - O MEU RIMANCEIRO * O farsante


(QUE VIVA O CORDEL!)






O pecado original

é quereres instaurado

por tempo indeterminado

o tempo do Carnaval,

para andares disfarçado

e a ninguém pareça mal.



Se presunção e água benta

cada um toma as que quer,

ignorar, quando se intenta,

as limitações que houver,

será como na tormenta:

que se salve quem puder!



De enganos e de artifícios 

não se vive a vida inteira!

E pedir os bons ofícios

à honrada gente ordeira

é procurar benefícios

que absolvam a maroteira.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Março de 2017.

quarta-feira, 22 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O testemunho



(QUE VIVA O CORDEL!)







Vinha descendo a lavada

escadaria de pedra

onde, sem ser semeada,

qualquer faz de conta medra.



Media a sua importância,

seja importante o que for,

supondo que a circunstância

faz honesto o malfeitor.



Olhava e tudo o que via,

do topo da escadaria,

que era seu já o supunha…



Porque é pecado a cobiça,

conta comigo a Justiça:

do que vi sou testemunha…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo 22 de Março de 2017.

11 - O MEU RIMANCEIRO * O embusteiro



(QUE VIVA O CORDEL!)





Eu não canto por cantar

nem para espantar meus males.

Eu canto para evitar

que com mentiras embales

quem andas a desgraçar.



Canto para desmontar

teu verbo até às entranhas

e aos incautos demonstrar

que artimanhas e patranhas

não terão pés para andar…



Disfarçado de cordeiro,

és o lobo predador

que, sorrindo prazenteiro,

do sol nascente ao sol pôr,

dizima o rebanho inteiro.



Sou velho! Muito vivi!

A mim não me enganas tu!

Por isso é que eu grito aqui:

Olhem bem que o rei vai nu,

vejam bem o que eu já vi!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Março de 2017.

sábado, 18 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Advertência



QUE VIVA O CORDEL! 







Quem és tu que não conheço 

e me dizes conhecer-me? 

Eu sou e aqui permaneço 

neste dever de dever-me. 



Conheceste-me, talvez, 

no princípio da jornada, 

quando o tempo da nudez 

era sonho e madrugada. 



Ou quando o tempo da usura 

o verbo me retraía 

e a treva da noite escura 

os meus passos protegia. 



Ou quando as banalidades 

se exibiram sem decoro, 

numa feira de vaidades 

de histeria e desaforo. 



Eu sou, no alor que persiste, 

só mais um que, nesta estrada, 

não se cansa nem desiste 

de cumprir a caminhada. 



E tu? Serás o comparsa 

que, mimético no agir, 

em cada farsa disfarça 

a tragédia de trair? 






Viana*Évora*Portugal 
8 de Janeiro de 2000. 
José-Augusto de Carvalho

sexta-feira, 17 de março de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * As minhas penas




Eu sei que não pôde ser.

Todas as penas são minhas,

luto que visto a sofrer,

diverso no entretecer

do negro das andorinhas.



Penas negras, negras penas,

por natural condição,

são diferenças apenas,

não são luto, não são penas

enlutando o coração.



Quem me dera ter as penas

que vestem as andorinhas!

Seriam penas apenas,

azeviche de melenas,

e não o luto das minhas.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Março de 2017.