sábado, 18 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Advertência



QUE VIVA O CORDEL! 







Quem és tu que não conheço 

e me dizes conhecer-me? 

Eu sou e aqui permaneço 

neste dever de dever-me. 



Conheceste-me, talvez, 

no princípio da jornada, 

quando o tempo da nudez 

era sonho e madrugada. 



Ou quando o tempo da usura 

o verbo me retraía 

e a treva da noite escura 

os meus passos protegia. 



Ou quando as banalidades 

se exibiram sem decoro, 

numa feira de vaidades 

de histeria e desaforo. 



Eu sou, no alor que persiste, 

só mais um que, nesta estrada, 

não se cansa nem desiste 

de cumprir a caminhada. 



E tu? Serás o comparsa 

que, mimético no agir, 

em cada farsa disfarça 

a tragédia de trair? 






Viana*Évora*Portugal 
8 de Janeiro de 2000. 
José-Augusto de Carvalho

sexta-feira, 17 de março de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * As minhas penas




Eu sei que não pôde ser.

Todas as penas são minhas,

luto que visto a sofrer,

diverso no entretecer

do negro das andorinhas.



Penas negras, negras penas,

por natural condição,

são diferenças apenas,

não são luto, não são penas

enlutando o coração.



Quem me dera ter as penas

que vestem as andorinhas!

Seriam penas apenas,

azeviche de melenas,

e não o luto das minhas.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 18 de Março de 2017.

quinta-feira, 16 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O desafio



QUE VIVA O CORDEL!





Por que tentas limitar-me

às velhas rotas de outrora?

Por que não posso encontrar-me

nas rotas que invento agora?



Velhos caminhos me apontas,

que já sei onde vão dar…

Se supões que me amedrontas,

não tenho medo de ousar.



Escrito está nas estrelas:

há sempre uma rota nova.

Só o que recusa lê-las

no desafio reprova.



Se só temos uma vida,

cumpri-la é nosso dever.

Vida que não é cumprida,

não se soube merecer.



Se o relâmpago é tão breve

e quase nos quer cegar,

é a vida longa ou breve?

Que seja enquanto durar!





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Março de 2017.

quarta-feira, 15 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Aguarela da Vida


QUE VIVA O CORDEL!








Nenhum rouxinol cantou 

e era noite de luar. 

No silêncio que pesou, 

só um mocho que agoirou 

errâncias de mal andar… 



Vem rompendo agora o dia. 

Uma brisa sopra branda. 

Já há muito a cotovia, 

em voos de rebeldia, 

p’los ares lavados anda. 



A Leste, o céu ruboriza. 

É o sol, que sonolento, 

devagarinho mal pisa, 

em caminhada precisa, 

o aclive do firmamento. 



Soam passos bem ritmados. 

É um jumento novinho 

de passos alvoroçados 

como se fossem bailados 

na quietude do caminho. 



Atrás dele, vem ligeira 

uma moça camponesa, 

rosa ainda na roseira, 

olhos negros, tez trigueira, 

hino silvestre à Beleza. 



Mais além, a passarada 

descuidada já chilreia, 

ensaiando a revoada, 

na alegria deslumbrada 

que, terno, o sol encandeia. 



Ai, que linda esta aguarela 

que tantos recusam ver! 

Quando a vida se revela 

e ninguém quer dar por ela, 

que sentido tem viver? 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 15 de Março de 2017.

quarta-feira, 8 de março de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Que difícil é...!


Às vezes, sinto uma vontade danada de gritar: Que difícil é confiar!

Tenho a minha experiência pessoal; e, naturalmente, cada pessoa terá a sua experiência pessoal, que partilha ou guarda para si. Sei muito bem que é doloroso remexer em infortúnios e ou frustrações. Concedo que pode ser preferível calar e tentar esquecer. Afinal, é bem certo que crescemos e vamos aprendendo com tudo quando encontramos no caminho. Não raro ouvimos esta expressão metafórica: eu já vivi muitos carnavais ou eu já conheço isso de outros carnavais. E desta situação partirá o afastamento ou o alheamento de muitas pessoas no âmbito familiar, no âmbito social restrito ou no âmbito social mais alargado. Há feridas que doem e demoram a sarar; e depois de saradas, a cicatriz fica para sempre como um velho marco assinalando que em tempos houve aqui algo que correu mal.

O grande Poeta Miguel Torga, no seu poema De profundis, regista superiormente, ainda que noutro contexto, esta ferida de que venho falando:

Eu, esta ovelha ranhosa 
que remói silenciosa
a lembrança dolorosa
do pastor que lhe bateu… 


Esta citação que me permito fazer remete-me para esta evidência: perdoar um agravo não significa esquecer esse mesmo agravo. E tanto assim será que sabiamente o Povo declara que quem não se sente não é filho de boa gente.

Ninguém duvida de que há valores a respeitar e que a dignidade de cada pessoa não pode nem deve ser menosprezada ou agredida.

Evidentemente que além da citação e do aforismo, a Declaração Universal dos Direitos do Homem (ONU) e a Constituição da República Portuguesa são claras no respeito devido ao ser humano.

Infelizmente, são demasiadas as pessoas que se auto-excluíram. E a pergunta que inevitavelmente se coloca é esta: que benefícios trazem essas exclusões? Ou estoutra: quem beneficia com estas exclusões?

Neste tempo de incertezas, de desencantos, de inconformismos mudos deveremos ou não ponderar um pouco no que somos e no que queremos ser enquanto espécie gregária?

Aqui fica.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Março de 2017.

quinta-feira, 2 de março de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O vazio



(QUE VIVA O CORDEL!)






Se eu soubesse escrever um poema,

um poema de amor e louvor,

cantaria a beleza suprema

deste sol ao nascer e ao sol-pôr.



Cantaria o vermelho da aurora,

que de enleios o céu ruboriza,

e o sangrar do sol-pôr que precisa

o negrume que já não demora.



Cantaria depois as estrelas

que pontilham o longe infinito

neste sonho infantil de colhê-lhas

na pureza sagrada de um rito.



Cantaria noite alta o luar

num absurdo e falaz fingimento

de esperar que virias sarar

as feridas do meu sofrimento.



Mas eu sei que não vens nunca mais.

Se foi Deus que te trouxe e levou,

de que servem agora os sinais

no vazio de nós que restou?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 2 de Março de 2017.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A praga



(QUE VIVA O CORDEL!)






Um dia, p’la Primavera,

na festa de todos nós,

o povo soube quem era

e de novo teve voz.



Gritou a sua razão

há tanto tempo oprimida!

Não mais havia a prisão

p’ra quem reclamava a vida.



Declamaram-se os poemas

p’la tirania banidos…

E quebraram-se as algemas

dos caminhos proibidos…



Houve abraços e beijinhos

e também amor jurado

de quem, por outros caminhos,

andara a passo trocado.



Chegara a fraternidade

aos desavindos que houvera.

Chegara a claridade

vestida de Primavera.



Foi tudo assim tão bonito,

até à praga fatal:

isto assim é tão bonito

que só pode acabar mal…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Fevereiro de 2017.