segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * A praga



(QUE VIVA O CORDEL!)






Um dia, p’la Primavera,

na festa de todos nós,

o povo soube quem era

e de novo teve voz.



Gritou a sua razão

há tanto tempo oprimida!

Não mais havia a prisão

p’ra quem reclamava a vida.



Declamaram-se os poemas

p’la tirania banidos…

E quebraram-se as algemas

dos caminhos proibidos…



Houve abraços e beijinhos

e também amor jurado

de quem, por outros caminhos,

andara a passo trocado.



Chegara a fraternidade

aos desavindos que houvera.

Chegara a claridade

vestida de Primavera.



Foi tudo assim tão bonito,

até à praga fatal:

isto assim é tão bonito

que só pode acabar mal…





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 27 de Fevereiro de 2017.




sábado, 25 de fevereiro de 2017

11 -- O MEU RIMANCEIRO * Evidência

(QUE VIVA O CORDEL!)






Por favor, não mintam mais! 

Com os anos aprendemos 

que são falsos os sinais 

que emitem e recebemos. 



No paul que nos atola, 

que valha a sabedoria: 

quando grande é a esmola, 

sempre o pobre desconfia. 



E se há muito isto aprendemos, 

nos falta agora aceitar 

que quando mal escolhemos 

não há de que reclamar. 



Quem sabe o que lhe convém, 

não poderá ignorar 

que não se pede a alguém 

o que não tem para dar. 





José-Augusto de Carvalho 
Alentejo, 25 de Fevereiro de 2017 


sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

36- VIVÊNCIAS DOS CAMINHOS * Luís Diogo

Novembro de 1998, numa povoação andaluza.
Identifico os Amigos Guilherme Camacho, à nossa esquerda, já falecido; 
Luís Diogo, de amarelo; e Augusto Chanoca, tb já falecido.
.
Aqui fica a memória de outros tempos e a minha saudade imperecível.




Memória da Revolução dos Cravos
Ao fundo da foto: da nossa esquerda para a nossa direita, 
Cunha, Ângelo e Crisanto.
à frente no foto: também da nossa esquerda para a nossa direita, 
?, dr. Pedrosa Ribeiro e Luís Diogo.
Penitencio-me por não recordar o nome do colega.
*
A imperecível amizade Luís Diogo enviou-me esta foto em 12 de Dezembro de 1998 e escreveu estas palavras que calaram fundo no meu coração: Faltaste tu. Para o próximo ano, tens de me dar a honra de estar aqui neste mesmo local.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

03 - ESTA LIRA DE MIM!... * A espera






Ensombra o teu sorriso um rictus de tristeza.


O teu olhar vagueia além do tempo-agora.

E sempre, num vaivém de espera e de incerteza,

ausente nos esconde a angústia da demora.



Teu corpo exausto e nu, doído de mazelas,

num vago estremecer de fera encurralada,

desmaia, num palor de antigas aguarelas,

anseios e clarões de antiga madrugada.



Das tuas hirtas mãos, suspenso ainda o alor

dum êxtase de luz que a noite enegreceu.

Amor, onde estará, sortílego, o pintor

que quis transfigurar-te e desapareceu?



Sem tinta nem pincéis, sem tela nem talento,

meu vivo coração te dou por alimento.





Alentejo, 18 de Dezembro de 2006

.José-Augusto de Carvalho


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

22 - O MEU CANCIONEIRO - 2 * A gula






A contas com seu repasto,

sem pudor nem temperança,

vai o frei enchendo a pança,

que de carne não é casto.



Atento à gula do frade,

diz-lhe el-rei: tende cuidado,

comer tanto é arriscado,

tanto mais na sua idade!



Ah, Senhor, este prazer,

confessa o frei seu pecado,

é nada se comparado

á dor de outro já não ter…



Ah, que prazer sobrevinha!

Que fome me consumia!

E quanto mais eu comia,

Mais era a fome que eu tinha!...



Divertido, olhando o frade,

El-rei, sorrindo, lhe diz:

Que o sabor dessa perdiz

Seja o da vossa saudade!...





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Dezembro de 2006.
.
(III - Canções de escárnio e maldizer)

15 - CANTO REBELADO * Aqui!






Aqui, se rende ao mar a terra despojada.

Os sonhos de luar, bordados na fragrância

florida dos jardins da lenda perfumada,

sucumbem ao furor da ignara intolerância.



Do ledo murmurar das fontes, a memória

esvai-se devagar, num tempo de clausura.

Dos tempos de esplendor à mácula censória,

que triste condição ainda em nós perdura!



Que faço agora aqui com esta liberdade,

se em tudo o verbo ter supera o verbo ser?

Que sonho de evasão eu posso desta grade,

se a força do poder está no verbo ter?



Resisto e grito: não! E, ao sol deste dilema,

com sangue escrevo, letra a letra, este poema…







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Outubro de 2006.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * O decreto



(QUE VIVA O CORDEL!)







Desde o princípio, este drama.

E nadinha se alterou:

se quem não chora não mama,

quem não chora já mamou?



Vem do berço a velha manha,

mais ainda enraizada

porque mais raízes ganha

com tanta e tanta mamada.



Que importa haver quem reclame?

Há até quem acredite

que decretado o desmame

se acaba tanto apetite.



O problema é o decreto.

Que valente agora vem

dizer ao povo eu decreto

que não mama mais ninguém?



Seria o bom e o bonito

ver tanto bebé-chorão

reclamando num só grito

por mama ou por biberão.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 12 de Fevereiro de 2017.