terça-feira, 31 de janeiro de 2017

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * No tempo que passa...


Aqui chegado em anos vividos, já pouco me surpreende e já quase tudo me desgosta. Longe vai o tempo da esperança pela esperança ou da expectativa pela expectativa.

A vantagem dos anos vividos assenta no capital de desenganos e logros. Capital doloroso, evidentemente, mas indispensável como prevenção.

Um ou outro momento de ventura ou encantamento dulcifica a vida, suavizando o quotidiano, mas nada acrescenta à dignidade colectiva.

Não há pessimismo nem desalento, há, com a possível lucidez, a análise do dia a dia. Do meu dia a dia e do dia a dia dos demais.

Os determinismos da rotação e da translação são indiferentes e alheios ao objectivo humano de viver com dignidade e com a possível satisfação.

Com Bocage, aceito que «os homens não são maus por natureza». E reconheço ser o meio a condicionar o ser humano. Há valores que se ganham e há valores que se perdem. É imperioso conhecer as causas destes ganhos e destas perdas e não só enfrentar os seus efeitos.

Nos textos (ditos) sagrados e nos profanos, encontram-se relatos da condição humana. Dos seus fastos e das suas misérias. É de sempre o exemplo de quem vive uma vida inteira por uma causa nobre e/ou de quem muda de causas com a conveniência de quem muda de farpela.

Aqui, curvo-me perante a nobreza de carácter.

Aqui, e não por flagelação, tento estar atento a todas as acrobacias e grito não a quem quer o pão e circo de triste memória.

Enquanto vivos, é-nos indispensável a força moral da resistência e a capacidade de perspectivar a dignidade humana como um objectivo a construir dia a dia, incessantemente.


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 13 de Maio de 2012.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Reflexão de um cidadão versado em coisa nenhuma


Sou versado em coisa nenhuma. Cidadão comum das ruelas , aprendo com a vida, dia a dia, a furtar-me às arremetidas dos senhores da cidade. Na mesa modesta, que mais não consente o salário determinado pelos senhores da cidade, vou comendo o tal pão que o diabo amassou. Não invejo os senhores da cidade porque recuso ser um deles. Se os invejasse, talvez, por ínvios caminhos, viesse a ocupar um lugar na fortaleza e a ser pior do que eles. O importante para quem é versado em coisa nenhuma é arrasar a fortaleza e reduzir os senhores da cidade a cidadãos comuns das ruelas. E não será nivelar por baixo, mas anular aberrações.

Eu, cidadão versado em coisa nenhuma, sei que por muito que mude de senhores, nunca mudarei de condição. E o drama não está na minha condição, mas na minha permissão. Se os senhores da cidade são tão poucos e os cidadãos versados em coisa nenhuma são tantos, só uma permissividade aberrante consente que o oiro de um palácio seja a fome de um casebre. Esta grande verdade que coloquei em itálico é do poeta José Duro, alentejano de Portalegre, falecido em 1899, em Lisboa. Ele, se vivesse ainda, não se importaria de que me socorresse do seu verbo. Meu pobre José Duro que, quando já só ossos descarnados, foste parar à vala comum, triste destino dos ossos abandonados! Nem a subscrição pública surtiu. Para nossa vergonha.

Eu, cidadão versado em coisa nenhuma, sei que sou aluno aplicado da universidade da vida. E que só concluirei os meus estudos quando o nada me bater à porta.

Sou poeta quando canto: «Da terra sou devedor / a terra me está devendo / que a terra me pague em vida / que eu pago à terra em morrendo». E, depois, que faço eu? Pago à terra, mas, antes, permito que a terra me fique devendo...

Sou sábio quando afirmo: «Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo». Mas continuo parvo. E se tivesse um pouco de bom, seria bom para mim...

Sou indigno de mim e dos outros quando digo: A minha política é o trabalho, nefasta criação da mordaça salazarista. 

Quando eu souber, de uma vez por todas, que trabalho é uma actividade e que política é o governo da cidade, saberei, finalmente, que não posso nem devo esperar que os demais façam o que só eu tenho o dever e o direito de fazer.

Serei eu, digno de mim, quando assumir os meus deveres e os meus direitos de cidadão versado em coisa nenhuma.

Só nessa hora saberei quanta verdade encerra a parábola dos vimes.



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 23 de Abril de 2006.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * As Finanças


É ancestral o anseio de independência. O ouro do palácio do senhor em nada enriquece o servo. Por isso, este sonha ganhar a sua carta de alforria e erguer o seu casebre.

Assim agiram os povos submetidos, anelantes de liberdade. E de esforço em esforço, fizeram seus os montes e as planuras, os rios e outros caminhos. Foi a assumpção do ter para garantia do ser. Os que não lograram obter o seu objectivo, terão de rever o seu percurso e determinar as causas do insucesso relativo. Não há nostalgia da servidão, há sequelas. E quem perde ou aliena os montes e as planuras, os rios e outros caminhos, está regredindo ao palácio dourado do senhor e às algemas da servidão.

O grande poeta Fernando Pessoa recordou-nos que Jesus nada sabia de Finanças. Pois é, eu também nada saberei, mas será necessário saber de Finanças para perceber que quem perder aquilo que tem ficará sem nada? E ficar sem nada é perder o presente e hipotecar o futuro.

Recordo, aqui, uma lenda antiga, que resumo:

Um senhor, que passeava pelos campos, encontrou um velho camponês plantando uma árvore. Admirado, perguntou-lhe:

--- Pobre velho, na tua idade, para quê plantar uma árvore? Já não terás vida para comer os seus frutos.

Sábio, o camponês respondeu:

Pois não, eu sei que estou velho, senhor; mas os meus filhos e os meus netos irão comê-los. E isso me basta.

Não há notícia de os filhos ou netos do velho camponês terem alienado a árvore tão amorosamente plantada para eles. E também não há notícia destes filhos e netos saberem de Finanças. Pois…


José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Maio de 2012.

24 - CULTURA DE AFECTOS * Poetas


[Noticia en 4 idiomas] - La censura jordana acusa al gran poeta Ibrahim Nasrallah de haberse atrevido a tratar un tema tabú: Ofender al Estado jordano y las fuerzas armadas, de levantar conflictos...
***

Versos lejanos

Para Ibrahim  Nasrallah


Hay alas de libertad
con penas de terciopelo
y sangre de soledad
en los azules del cielo.

Viejos miedos sín edad,
asombros malos del vuelo.
No matarán la verdad
que, herida, irrumpe del suelo!

Mis ojos miran las flores
que nacen en tu jardín,
en una alba de colores.

Ay, el viento es un clarín,
anuncio de los albores
de mañanas de carmín... 


José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 6 de Julio de 2006.


*

Poetas

Para José-Augusto de Carvalho


En esa ciudad buena y distante
En un patio colmado de hierba
Todas las cosas cantan
Y todos bailan
Él dijo: Anda e invita a bailar a esa bella muchacha
Yo era tímido
Él dijo: si los poetas pierden
El mundo no ganará


15.Julio.2006
Ibrahim Nasrallah

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... ` Do criador e do seu trabalho


O criador nunca é o melhor crítico do seu trabalho. Consciente ou inconscientemente, é, via de regra, maternalmente benevolente. E entende-se, sem esforço. No momento da criação e no período de graça que lhe é subsequente, o criador não tem nem pode ter a distanciação que lhe permita, sem emoção nem afectividade, analisar criticamente o seu trabalho, o que vale dizer, sem reclamar a sua condição de criador.

O criador fica, nesse período de graça, tão vulnerável e sensível, que não resistirá, sem desgosto, a uma crítica que não seja agradável. É a situação da mãe perante os seus meninos, que são lindos, lindos... ainda que não o sejam.

Qualquer criador, independentemente da sua idade e da sua maturidade, é, nesse período de graça, um adorável adolescente. E ainda bem!

Ao crítico eu apelo para que atente na situação e não perturbe nem magoe o criador em "idade adolescente". Não lhe peço que minta, porque mentir é feio; e porque nada se constrói sobre os alicerces da mentira; mas que seja tolerante e aguarde que passe o período de graça. Se assim for, o criador agradecerá, pois, entretanto, também já terá reparado no seu trabalho e visto que era ou não era assim tão belo quanto o supusera.

O crítico e o leitor anónimo têm o dever de respeitar a fragilidade da inocência que preside a todo o acto criador. Olhar um trabalho recém-executado requer o mesmo carinho e a mesma contemplação que se observa numa criança abrindo os olhos para a vida, pela primeira vez. Porque o seu olhar está vestido de inocência e de espanto e porque o mundo em derredor, que vai acolher a criança, é o desconhecido acenando à promessa que chega, naturalmente indefesa, mas confiante.

Todos sabemos que, para um criador, nem sempre o seu melhor trabalho é o mais querido. Só o trabalho que tem do criador uma carga emocional avassaladora, que, passe o tempo que passar, esteja sempre palpitante e vivo como foi no acto de criação, será o trabalho mais amado, mais perturbado e perturbador. E se não é o melhor, porventura se apresenta como o mais autêntico, por mais sentido.

A sensibilidade dos criadores é muito variável quanto à divulgação dos seus trabalhos. Uns se apresentam ousados, outros timidamente. E há, ainda, os criadores que guardam tão ciosamente os seus trabalhos que parece terem pudor ou ciúme de que outros olhos os vejam. Tudo decorre da nossa condição humana e tudo deve merecer uma atenção cuidada.

Qualquer acto de criação se assemelha ao acto de parir. É um momento mágico, que nenhum malfeitor sem alma nem coração pode conspurcar com aleivosias ou grosserias ou indiferenças pétreas e obtusas.

Profetas da desgraça também houve sempre. Nem Homero ficou imune a Zoilo. Aliás, a História da Literatura está enublada de detractores e de profecias inconsequentes e porventura malévolas, quando não subterraneamente invejosas.

Oxalá esta "nota de leitura" possa merecer a ponderação de quem a ler. Se assim for, terá alcançado o seu único objectivo - o amor e a paz no coração de todos.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Setembro de 2003.

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O encargo de escrever


Escrever é comunicar. 

Quem escreve tem ou supõe ter algo a dizer ao outro. 

Quem lê determinará se o que leu foi útil ou uma perda de tempo, do seu tempo de cidadão e leitor.

Escrever é trabalhoso, é mal pago, pode ser um prejuízo material.

Vejamos:

É trabalhoso porque escrever exige horas de estudo e de ponderação, exige consultas e recolha de dados e despesas daí decorrentes;

É mal pago materialmente porque sempre se considerou de somenos o trabalho intelectual; e é mal pago ainda quando não há o reconhecimento por parte das entidades públicas e privadas que da Cultura se reclamam;

Pode ser um prejuízo material quando quem escreve tem de pagar as edições para o seu trabalho chegar ao leitor.

Além de quanto antecede, há ainda a situação de quem escreve evitar a edição dita de autor, daí preferir a chancela de uma editora. E esta preferência decorre de ser comum entender-se que a edição de autor determinará menor qualidade do texto editado, pois texto de qualidade terá sempre editora disposta a editar.

Esta verdade feita tem feito o seu caminho na nossa sociedade. Infelizmente.

E aqui levanta-se outra dificuldade para o autor se não for autor consagrado, logo dando garantia comercial ao editor. E a dificuldade é a de ter de pagar a edição e receber uns quantos exemplares do seu livro, os quais, se conseguir comercializá-los, lhe permitirá recuperar o dispêndio. Os restantes exemplares ficarão propriedade da editora, que os comercializará, deles pagando por direitos de autor 10% (ou pouco mais) do preço de capa. 

Ponderada esta situação relatada, pergunta-se por que motivo o Estado (do Ministério da Cultura às Juntas de Freguesia) não procura soluções para analisar as obras que lhe sejam submetidas por muitos autores que temos e a esse critério adiram? Depois, seria publicar as que fossem consideradas merecedoras do dispêndio do erário público. Por que tanto se dificulta o que é simples e, não raras vezes, se simplifica o que é difícil e dispendioso?

Seria a promoção da palavra escrita e um serviço público à Cultura. E mesmo que seja de atender ao binómio custo-benefício, retorno haverá, certamente.

Evidentemente que para além da palavra escrita, outras actividades na área da Cultura deverão merecer a mesma ponderada atenção.

Aqui fica, para que conste.

Até sempre!

José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 15 de Dezembro de  2014.

domingo, 22 de janeiro de 2017

11 - O MEU RIMANCEIRO * Sonho de Primavera!


(QUE VIVA O CORDEL!)








Quando tu acreditaste

que chegara a Primavera,

o medo gritou-te: espera!

e tu, confuso, esperaste.



Tiveste medo do medo,

do medo que te encarcera.

Foi porque tiveste medo

que perdeste a Primavera.



Depois, chegou o Verão,

muito quente, muito quente!

E tu, nessa lassidão,

dormias indiferente.



Quando acordaste, era Outono,

o tempo das azeitonas.

E tu, ainda com sono,

à modorra te abandonas!



Só quando em redor olhaste,

viste a paisagem mudada:

nua estava a débil haste,

no abandono desfolhada.



Ficaste sem entender

o que tinha acontecido,

como se pudesse haver

no não-ser algum sentido.



Hoje, nas águas paradas

do paul tentas sonhar

caravelas encantadas

sedentas por navegar.





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Janeiro de 2017.