terça-feira, 31 de janeiro de 2017
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... ` Do criador e do seu trabalho
O criador nunca é o melhor crítico do seu trabalho. Consciente ou inconscientemente, é, via de regra, maternalmente benevolente. E entende-se, sem esforço. No momento da criação e no período de graça que lhe é subsequente, o criador não tem nem pode ter a distanciação que lhe permita, sem emoção nem afectividade, analisar criticamente o seu trabalho, o que vale dizer, sem reclamar a sua condição de criador.
O criador fica, nesse período de graça, tão vulnerável e sensível, que não resistirá, sem desgosto, a uma crítica que não seja agradável. É a situação da mãe perante os seus meninos, que são lindos, lindos... ainda que não o sejam.
Qualquer criador, independentemente da sua idade e da sua maturidade, é, nesse período de graça, um adorável adolescente. E ainda bem!
Ao crítico eu apelo para que atente na situação e não perturbe nem magoe o criador em "idade adolescente". Não lhe peço que minta, porque mentir é feio; e porque nada se constrói sobre os alicerces da mentira; mas que seja tolerante e aguarde que passe o período de graça. Se assim for, o criador agradecerá, pois, entretanto, também já terá reparado no seu trabalho e visto que era ou não era assim tão belo quanto o supusera.
O crítico e o leitor anónimo têm o dever de respeitar a fragilidade da inocência que preside a todo o acto criador. Olhar um trabalho recém-executado requer o mesmo carinho e a mesma contemplação que se observa numa criança abrindo os olhos para a vida, pela primeira vez. Porque o seu olhar está vestido de inocência e de espanto e porque o mundo em derredor, que vai acolher a criança, é o desconhecido acenando à promessa que chega, naturalmente indefesa, mas confiante.
Todos sabemos que, para um criador, nem sempre o seu melhor trabalho é o mais querido. Só o trabalho que tem do criador uma carga emocional avassaladora, que, passe o tempo que passar, esteja sempre palpitante e vivo como foi no acto de criação, será o trabalho mais amado, mais perturbado e perturbador. E se não é o melhor, porventura se apresenta como o mais autêntico, por mais sentido.
A sensibilidade dos criadores é muito variável quanto à divulgação dos seus trabalhos. Uns se apresentam ousados, outros timidamente. E há, ainda, os criadores que guardam tão ciosamente os seus trabalhos que parece terem pudor ou ciúme de que outros olhos os vejam. Tudo decorre da nossa condição humana e tudo deve merecer uma atenção cuidada.
Qualquer acto de criação se assemelha ao acto de parir. É um momento mágico, que nenhum malfeitor sem alma nem coração pode conspurcar com aleivosias ou grosserias ou indiferenças pétreas e obtusas.
Profetas da desgraça também houve sempre. Nem Homero ficou imune a Zoilo. Aliás, a História da Literatura está enublada de detractores e de profecias inconsequentes e porventura malévolas, quando não subterraneamente invejosas.
Oxalá esta "nota de leitura" possa merecer a ponderação de quem a ler. Se assim for, terá alcançado o seu único objectivo - o amor e a paz no coração de todos.
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 4 de Setembro de 2003.
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * O encargo de escrever
Escrever é comunicar.
Quem escreve tem ou supõe ter algo a dizer ao outro.
Quem lê determinará se o que leu foi útil ou uma perda de tempo, do seu tempo de cidadão e leitor.
Escrever é trabalhoso, é mal pago, pode ser um prejuízo material.
Vejamos:
É trabalhoso porque escrever exige horas de estudo e de ponderação, exige consultas e recolha de dados e despesas daí decorrentes;
É mal pago materialmente porque sempre se considerou de somenos o trabalho intelectual; e é mal pago ainda quando não há o reconhecimento por parte das entidades públicas e privadas que da Cultura se reclamam;
Pode ser um prejuízo material quando quem escreve tem de pagar as edições para o seu trabalho chegar ao leitor.
Além de quanto antecede, há ainda a situação de quem escreve evitar a edição dita de autor, daí preferir a chancela de uma editora. E esta preferência decorre de ser comum entender-se que a edição de autor determinará menor qualidade do texto editado, pois texto de qualidade terá sempre editora disposta a editar.
Esta verdade feita tem feito o seu caminho na nossa sociedade. Infelizmente.
E aqui levanta-se outra dificuldade para o autor se não for autor consagrado, logo dando garantia comercial ao editor. E a dificuldade é a de ter de pagar a edição e receber uns quantos exemplares do seu livro, os quais, se conseguir comercializá-los, lhe permitirá recuperar o dispêndio. Os restantes exemplares ficarão propriedade da editora, que os comercializará, deles pagando por direitos de autor 10% (ou pouco mais) do preço de capa.
Ponderada esta situação relatada, pergunta-se por que motivo o Estado (do Ministério da Cultura às Juntas de Freguesia) não procura soluções para analisar as obras que lhe sejam submetidas por muitos autores que temos e a esse critério adiram? Depois, seria publicar as que fossem consideradas merecedoras do dispêndio do erário público. Por que tanto se dificulta o que é simples e, não raras vezes, se simplifica o que é difícil e dispendioso?
Seria a promoção da palavra escrita e um serviço público à Cultura. E mesmo que seja de atender ao binómio custo-benefício, retorno haverá, certamente.
Evidentemente que para além da palavra escrita, outras actividades na área da Cultura deverão merecer a mesma ponderada atenção.
Aqui fica, para que conste.
Quem escreve tem ou supõe ter algo a dizer ao outro.
Quem lê determinará se o que leu foi útil ou uma perda de tempo, do seu tempo de cidadão e leitor.
Escrever é trabalhoso, é mal pago, pode ser um prejuízo material.
Vejamos:
É trabalhoso porque escrever exige horas de estudo e de ponderação, exige consultas e recolha de dados e despesas daí decorrentes;
É mal pago materialmente porque sempre se considerou de somenos o trabalho intelectual; e é mal pago ainda quando não há o reconhecimento por parte das entidades públicas e privadas que da Cultura se reclamam;
Pode ser um prejuízo material quando quem escreve tem de pagar as edições para o seu trabalho chegar ao leitor.
Além de quanto antecede, há ainda a situação de quem escreve evitar a edição dita de autor, daí preferir a chancela de uma editora. E esta preferência decorre de ser comum entender-se que a edição de autor determinará menor qualidade do texto editado, pois texto de qualidade terá sempre editora disposta a editar.
Esta verdade feita tem feito o seu caminho na nossa sociedade. Infelizmente.
E aqui levanta-se outra dificuldade para o autor se não for autor consagrado, logo dando garantia comercial ao editor. E a dificuldade é a de ter de pagar a edição e receber uns quantos exemplares do seu livro, os quais, se conseguir comercializá-los, lhe permitirá recuperar o dispêndio. Os restantes exemplares ficarão propriedade da editora, que os comercializará, deles pagando por direitos de autor 10% (ou pouco mais) do preço de capa.
Ponderada esta situação relatada, pergunta-se por que motivo o Estado (do Ministério da Cultura às Juntas de Freguesia) não procura soluções para analisar as obras que lhe sejam submetidas por muitos autores que temos e a esse critério adiram? Depois, seria publicar as que fossem consideradas merecedoras do dispêndio do erário público. Por que tanto se dificulta o que é simples e, não raras vezes, se simplifica o que é difícil e dispendioso?
Seria a promoção da palavra escrita e um serviço público à Cultura. E mesmo que seja de atender ao binómio custo-benefício, retorno haverá, certamente.
Evidentemente que para além da palavra escrita, outras actividades na área da Cultura deverão merecer a mesma ponderada atenção.
Aqui fica, para que conste.
Até sempre!
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 15 de Dezembro de
2014.
domingo, 22 de janeiro de 2017
11 - O MEU RIMANCEIRO * Sonho de Primavera!
(QUE VIVA O CORDEL!)

Quando tu acreditaste
que chegara a Primavera,
o medo gritou-te: espera!
e tu, confuso, esperaste.
Tiveste medo do medo,
do medo que te encarcera.
Foi porque tiveste medo
que perdeste a Primavera.
Depois, chegou o Verão,
muito quente, muito quente!
E tu, nessa lassidão,
dormias indiferente.
Quando acordaste, era Outono,
o tempo das azeitonas.
E tu, ainda com sono,
à modorra te abandonas!
Só quando em redor olhaste,
viste a paisagem mudada:
nua estava a débil haste,
no abandono desfolhada.
Ficaste sem entender
o que tinha acontecido,
como se pudesse haver
no não-ser algum sentido.
Hoje, nas águas paradas
do paul tentas sonhar
caravelas encantadas
sedentas por navegar.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Janeiro de 2017.
sábado, 21 de janeiro de 2017
20 - VENCENDO BARREIRAS * Urgência
Nesta encruzilhada global,
é urgente questionar.
Nesta encruzilhada global,
é urgente interpretar o Passado,
é urgente situar o Presente,
é urgente prevenir o Futuro.
Nesta encruzilhada global,
é urgente regressar à rosa-dos-ventos,
é urgente definir a rota,
é urgente enfrentar as borrascas,
é urgente dobrar o cabo da negação.
Nesta encruzilhada global,
é urgente recusar os feitiços dos cantos das sereias,
é urgente recusar as tentações,
é urgente evitar o naufrágio da perdição
é urgente dobrar outra vez o Cabo das Tormentas
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2016.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
11 - O MEU RIMANCEIRO * A balança
(QUE VIVA O CORDEL!)

Põe os pratos na balança!
Pesa-me um quilo de pão
e dez gramas de esperança
para eu comer ao serão.
Põe os pratos na balança
e deixa a dança parar.
Se não parares a dança,
no peso vais me enganar.
Sei que de pobre não passo,
quer tu me enganes ou não,
enquanto tolhe o meu braço
a insana resignação.
Talvez este tempo mude,
porque a inércia não existe,
e eu podendo o que não pude
faça o que tu nunca viste.
E quanto hoje tão mal aprontas,
numa gula sem parança,
serão parcelas das contas
a pesar noutra balança.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo. 21 de Janeiro de 2017.
11 - O MEU RIMANCEIRO * O jumento
(QUE VIVA O CORDEL!)
Tão manso, sobe a ladeira!
Manso, manso, mansidão!
Vai à feira, vem da feira,
leva ou traz a servidão.
Sobre o dorso, pesa a albarda.
Sobre a albarda vai o dono.
Só a noite alta lhe guarda
algumas horas de sono.
No estábulo solitário
espera a magra ração:
é o mísero salário
de quem vive em servidão.
Cale-se a palavra gasta
incensando a compaixão!
De tantas loas já basta!
É tempo de dizer não!
E que venha o que vier
na mudança anunciada!
Traga a vida o que trouxer,
sempre será outra estrada.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 20 de Janeiro de 2017.
sábado, 7 de janeiro de 2017
Subscrever:
Mensagens (Atom)






