sexta-feira, 9 de dezembro de 2016
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Eu não fujo de mim!
Diz quem sabe que “ostracismo é o afastamento (imposto ou voluntário) de um indivíduo do meio social ou da participação em actividades que antes eram habituais.”
Ah, a nossa muita amada Velha Grécia previu tudo! Confunde-me até ao deslumbramento o legado assombroso deste Povo-maior! Foi no Conhecimento! Foi na Poesia! Foi no Teatro! Foi nas Ciências! Foi na Política! Foi no Desporto! Foi no âmbito militar! Terá sido em tudo ou quase tudo que possibilitou o seu tempo!
Uma amiga de quem nada sei há anos, professora de Filosofia, dizia-me frequentemente: pois é, ainda hoje pensamos como a Velha Grécia quis que nós pensássemos!
Eterno aprendiz, sempre me deliciou a máxima sabedoria do velho Sócrates: “Eu só sei que nada sei.” Ah, que bom seria para todos nós, hoje e sempre!, se seguíssemos o esclarecido pensamento de um homem que teve a grandeza de dizer esta frase!
Às vezes, dou comigo a tentar imaginar alguns dos que conhecemos hoje virem reconhecer que nada sabem. Loucura minha, claro. Só um louco poderá imaginar ouvir do cimo do palanque um dos pretensamente iluminados confessar “eu só sei que nada sei”.
Enfim, adiante!
Falava de ostracismo. Sim, do ostracismo que voluntariamente me impus. Quantas vezes a paz interior nos impõe o recolhimento. Eu sei que é um recolhimento sofrido, mas há situações-limite. E quando assim é, mais vale uma atitude drástica a ficar a vida inteira a reclamar como o nosso Sá de Miranda: “Comigo me desavim / sou posto em todo o perigo / não posso viver comigo / não posso fugir de mim.”
No meu ostracismo voluntário, eu não lavei as mãos, como dizem que Pilatos lavou, desinteressando-se, cúmplice, do destino de Jesus. Eu defendi a minha postura e não fui ouvido. E deitar palavras ao vento ou falar com quem não está interessado em me ouvir e me responder não é solução que me sirva. Eu sei que não sou dono da Verdade; mas quem fala comigo ou se recusa a falar comigo também não é dono da Verdade. Para mais, o tempo, esse velho tempo que tudo coloca nos carris devidos, mais cedo ou mais tarde, é minha testemunha abonatória.
Não sou nem um vencedor nem um perdedor. Sou apenas uma pessoa que tem valores a que se dá e causas a que se entrega, sem restrições, sem rendições.
Eu não fujo de mim!
Aqui fica, para que conste e para memória futura.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 9 de Dezembro de 2016.
terça-feira, 6 de dezembro de 2016
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Discorrendo: não faças aos outros...
Sempre integrei as hostes que lutam pela igualdade de direitos e deveres, em todas as circunstâncias, sem excepção, porque a divisão de uma sociedade em classes determina a desigualdade de direitos e deveres.
Conhecemos a dolorosa caminhada do ser humano, uma caminhada de luta e sofrimento, uma caminhada de derrotas e tragédias que empapam de sangue e de luto a nossa memória colectiva.
Quisemos ultrapassar a vergonha do esclavagismo; quisemos ultrapassar a barbárie mais infamante das fogueiras ironicamente designada por autos-de-fé; quisemos ultrapassar o ultraje da tortura física, psicológica e moral e o desprezo pelos elementares valores da inocência e da dignidade da mulher desde menina; quisemos ultrapassar o nepotismo e as suas perversas consequências no âmbito familiar, social e laboral; quisemos, afinal, a justeza dos valores que ambicionam a suprema instauração da fraternidade ou, dito de outra maneira, a instauração do basilar princípio: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti.
Passaram milénios e a luta de hoje é a luta de sempre. Que difícil é cumprir a base da harmoniosa convivência humana: não faças aos outros o que não queres que te façam a ti!
Como é possível, depois de tudo por que passámos, continuar a existir quem se venda por um prato de lentilhas?
Como é possível continuar a existir quem construa a sua ventura com a desgraça do outro? Ou, como escrevi um dia, construir o seu palácio com a fome de um casebre?
Eu sei que pouco valho, que serei um grão de areia do imenso deserto; mas onde estão os que valem muito ou supõem que valem muito? Onde estão eles que não os vejo agir eficazmente pela instauração dos valores supremos do ser humano e da Vida, em sentido amplo? Onde estão?
Sinto uma tristeza profunda ouvindo falar de direitos humanos a quem os espezinha; sinto-me ofendido ouvindo falar de democracia, o tal poder do povo, a quem espezinha os direitos democráticos mais elementares; sinto-me insultado ouvindo falar da Verdade e sem poder perguntar a esses petulantes «o que é a Verdade»?
No ocaso da vida, depois de tantas e tantas decepções, recordo o que ouvia em criança: «cortaram a cabeça a São João Baptista porque ele dizia as verdades». Esta frase e também estoutra «Deus manda ser bom, mas não manda ser parvo» sempre me acompanharam como ditos populares. Hoje, para meu desespero, são máximas comprovadas.
No ocaso da vida, confirmo, pela experiência vivida, que continua válida a sentença: ninguém fará por mim tudo quanto só a mim cabe ou couber fazer. Tal qual!
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 6/12/2016.
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
13 - NA PALAVRA É QUE VOU... - Assumpto!
Desde que me entendo responsavelmente como gente que compreendo que só quando nos damos é que a vida faz sentido. Quando nos damos à pessoa amada; quando nos damos ao possível projecto de vida; quando nos damos à(s) causa(s) que elegemos.
Nem sempre o darmo-nos corresponde às expectativas que criámos e ficamos decepcionados quando assim sucede.
Um desgosto de amor é um capítulo do «livro da vida» que escrevemos; outro amor que venha não substitui o que perdemos, outro amor é isso mesmo: é outro amor.
Um projecto de vida nem sempre está ao nosso alcance e dele fica a frustração a magoar-nos, mas vamos em frente, porque a vida não pára e porque a subsistência tem exigências inadiáveis.
A(s) causa(s) eleita(s) quase sempre nos exige(m) a integração em colectivo(s). E daí decorre a relação com o outro: às vezes gratificante e frutuosa; outras vezes difícil até ao limite da maleabilidade; outras vezes ainda difícil até à inevitável ruptura.
Temos notícia de histórias de vidas gratificantes; de histórias de vidas que cederam na maleabilidade até extremos quase insuportáveis; e de histórias de vidas que preferiram a ruptura quando os princípios ou os valores ou a dignidade determinaram dizer não.
Não vamos arriscar julgamentos de maleabilidade construtiva ou de rupturas. Recusemos a presunção de nos assumir como o outro. Ninguém pode ser o outro, assim penso, assim procuro agir.
Sofremos decepções em projectos de vida e em causas que elegemos. Umas mais dolorosas, outras menos. Há quem sustente que estas decepções são ensinamentos. É matéria complexa, por isso mesmo umas vezes será pacífico aceitar que sejam ensinamentos e outras vezes será preferível considerá-las de outros modos, assim no plural.
A nossa consciência é a nossa bússola. Se bem escolhemos o(s) caminho(s), ela nos gratificará; se mal o(s) escolhemos, ela nos punirá.
A nossa conduta, as nossas opções, as nossas decisões serão sempre nossas e sempre da nossa exclusiva responsabilidade.
Ninguém poderá viver por nós a nossa vida; não poderemos jamais viver a vida do outro.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 30 de Novembro de 2016.
sexta-feira, 25 de novembro de 2016
11 - O MEU RIMANCEIRO * A nova banda
(QUE VIVA O CORDEL!)
Não são meus estes caminhos
nem é meu este arvoredo
onde as aves fazem ninhos
e me cantam em segredo
hinos de amor e verdade
com asas de liberdade.
Estas terras não são minhas,
só são minhas as canseiras
de sol a sol nestas vinhas
onde colho nas videiras
promessas de olor e mosto
no calor do mês de Agosto.
Não são meus estes trigais
nem as papoilas sangrando.
São meus apenas meus ais
deste infortúnio em que eu ando
de um amanhã esperando
que virá mas não sei quando.
Só é meu este cansaço
que é noite quando adormeço.
Nem à força do meu braço,
sendo minha, faço o preço.
Este mundo é uma banda:
toca o que o regente manda!
Ouço falar de direitos,
de justeza ouço falar.
Serão caminhos estreitos
onde eu não posso passar,
porque o mundo é uma banda:
toca o que o regente manda.
Talvez de regente eu mude,
não me serve o que ele manda.
Só um tolo é que se ilude
rodando neste ciranda.
Se tanto eu já soube e pude,
vou criar a minha banda.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 25 de Novembro de 2016.
quinta-feira, 24 de novembro de 2016
28 - CLAVE DE SUL * A barca linda
Naquela noite, uivava a ventania.
Nas vagas alterosas, arrepios.
À capa, a barca nova resistia
aos trágicos apelos dos baixios.
Na antiga sedução da perdição,
chegava a melopeia das sereias.
A barca nova, toda coração,
sente vertigens a correr nas veias.
O povo, mal desperto, acorre ao cais
e olha o negrume frio dos baixios.
Só entre dentes grita “nunca mais!”
e sente até à alma os arrepios…
Na frustração de nós persiste ainda
o sonho que ficou da barca linda!
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 24 de Novembro de 2016.
terça-feira, 22 de novembro de 2016
28 - CLAVE DE SUL * Os versos da canção
CLAVE DE SUL
OS VERSOS DA CANÇÃO
Não sinto no meu peito anseios de partida.
Não sinto nos meus pés renúncias ancoradas.
Não dei a volta ao mundo, apenas dei à Vida
as rotações que pude e quis que fossem dadas.
Dei o que pude e quis --- o mais foi extorsão.
Pequenos mundos tem o mundo e várias sendas
varridas pelo ardor dos versos da canção,
sustidas p’lo torpor de milenárias vendas.
No meu entardecer, indócil adivinho
o ser a acontecer nos versos da canção.
Não retrocede nunca o rio o seu caminho
no ciclo natural da sua condição.
Eu não verei cumprir o ciclo da evasão,
mas sempre hei-de cantar os versos da canção.
José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 22 de Novembro de 2016.
sexta-feira, 18 de novembro de 2016
27 - ÁLBUM DE RECORDAÇÕES * JOSÉ AUGUSTO
ÉVORA, 1958 * O SERVIÇO MILITAR
1994, DESEMBARCANDO EM CASABLANCA
ANOS 60, COM MEU SOBRINHO ALBERTO AUGUSTO
E O MEU ESTIMADO FIEL
NO GDCF, 1990. COM O ADVOGADO E MEU INESQUECÍVEL
AMIGO JAIME BANAZOL SANTOS, QUE TÃO CEDO NOS DEIXOU.
1990, GDCF, COM O COLEGA ARMANDO JORGE
Subscrever:
Mensagens (Atom)










