sábado, 8 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * A mão canhestra


Canhestra mão é a minha que teima incorrigível na recusa da História escrita pelos vencedores. Não sei donde vim; não saberei ao certo para onde irei; mas sei onde estou e recuso a subjugação, venha donde vier, esta inventada e reinventada sempre no cadinho onde o embuste amalgama os despojos da violência.

O que ficou soterrado nos escombros? Por que não falam as cinzas? Por que não falam os ossos desconhecidos que resistiram até hoje? O que escondem os fragmentos do que foi destruído pela violência dos vencedores? Quantas palavras, hoje ditas de origem obscura, tiveram a sua definida etimologia? Que pretendem os vencedores apagando outras memórias senão destruir provas e testemunhos de outros saberes?

Hoje, felizmente para todos nós, a Arqueologia tenta, quantas vezes com extrema dificuldade?, encontrar o fio condutor e repor a possível verdade histórica.

Esta caminhada da imposição da força bruta sobre a inteligência, sobre o conhecimento, sobre a diferença, sobre o direito do outro de ser como é e como quer continuar a ser é a prova provada de que a barbárie continua. Até quando?

Situemo-nos neste drama actual dos dias de hoje:

Olhai aquele que foi expulso da sua casa! Quem se indigna? Sem um tecto, sem uma ocupação, sem hoje nem amanhã, vagueia pelos caminhos e logo é apontado como vagabundo, talvez como um perigoso vagabundo…

Olhai aqueles a quem tornaram impossível viver na sua terra! Desenraizados, eles partem e buscam sobreviver noutro lugar. Quem se indigna? Eles só querem viver, mas são apontados como um problema. Eles são um problema? Pois são? E quem responde pelo seu problema de não poderem viver na sua terra?

Há quem reclame dádivas para eles; há quem reclame refúgios para eles; há quem reclame hospitalidade para eles… Tudo manifestações de boa vontade, tudo reflectindo o «nosso» bom coração… Que seja! Mas ninguém parece reclamar para eles a recuperação do que lhes foi extorquido; e muito menos reclamar a punição dos responsáveis pela barbárie.

Olhai, eles são os vencidos!

Olhai, eles são os agentes da outra História!…



José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 8 de Outubro de 2016.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

13 - NA PALAVRA É QUE VOU... * Naquele distante verão...


Naquele distante verão de 1937, o sol queimava as esperanças. Suportar era o verbo conjugado. O tempo não parara, porque o sol vinha todas as manhãs arder os dias, porque o repouso de todas as noites alentava o novo dia que sobreviria. Indefinidamente? Não, evidentemente, porque a esperança, criada em tempos imemoriais, é um misto de teimosia e obstinação e sonho. E desta tríade surgiu o amanhã vago ou não, impreciso ou não, possível ou não. O amanhã existe, ainda que não se saiba quando virá nem como virá. Tudo depende de… E porque assim é, há quem espere o amanhã enquanto resignado suporta o hoje; há quem espere o amanhã enquanto inconformado resiste no hoje. E, como alerta a canção, há quem faça a hora e não espere pela hora que será feita não se sabe por quem nem quando… Paralelamente, há quem desista do amanhã, onírico ou não, e creia no hoje indefinidamente, por renúncia, por fatalismo, por rendição, porque sim…

Naquele distante verão, o sol queimava as esperanças e o desespero crescia. Houve quem morresse por nada, houve quem morresse por tudo, houve quem desistisse, houve quem suportasse resignado... e houve quem, numa indiferença cúmplice, não desse por nada.

A dita harmonia celeste continuou indiferente. Sucediam-se as rotações e as translações; sucediam-se as ilusões e as frustrações; sucediam-se os consertos dos desconcertos.

Depois daquele distante verão, outros vieram. E não se aprendeu nada. Como sempre, em casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão. E a receita parece simples: se não há pão, o caminho será semear, depois ceifar, depois debulhar, depois moer, depois amassar, depois cozer e… depois pôr o pão na mesa.

Depois daquele distante verão, muito mais tarde, eu descobri e escrevi:


“Quando tu gritaste Isto é meu!,

logo a discórdia corrompeu

o nosso da fraternidade.”


Não sei se tenho razão, mas sei que acredito no amanhã.

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 3 de Outubro de 2016.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Caminhos velhos




Por que insistes nas velhas estradas



que já sabes aonde vão dar?



Por que tanto receias ousar



rasgar novas estradas



no abandono das terras cansadas



de esperar?







José-Augusto de Carvalho

Alentejo, 29 de Setembro de 2016.


domingo, 25 de setembro de 2016

15 - TEMPO REBELADO * Tempo clandestino




Para todos aqueles que se deram na luta contra o fascismo 

no rigor da clandestinidade





As ruelas de terra batida

ocultaram a minha partida.



O negrume da noite tragou-me

numa cúmplice fuga.

Uma sombra furtiva e sem nome

que do rosto uma lágrima enxuga.



Em redor, o silêncio pesado

dos malteses do medo e do espanto

e os rafeiros rosnando ao cajado

que à distância mantém o levanto.



Chego, enfim, à estrada deserta.

Doravante, o caminho é obscuro.

E assim vou, de sentidos alerta…

E assim vou esventrando o futuro…





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 18 de Março de 1997.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Do verbo








Saber!... e levo a vida a conjugar

o verbo encadeado nos seus tempos…



Confunde-me o presente afirmativo,

duma falaz jactância impertinente…



Diverte-me o pretérito insolente,

dourando as ignorâncias atrevidas…



Agrada-me o futuro na vontade,

de uma indulgência cúmplice e longínqua…



Detesto o autoritário imperativo,

explícito ordenado na desordem…

(… quando temor que baste já eu sofro

tentando conjugar em vão o verbo,)



Serei a vida inteira um aprendiz…

Benditos sejam os supostos mestres!





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 14 de Abril de 1997.
Alentejo, 23 de Setembro de 2016.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

11 - O MEU RIMANCEIRO * Quem?


(QUE VIVA O CORDEL!)





Quem disse e já não diz

que os nossos pés alados

são na terra a raiz

de astros incendiados?



Quem quis e já não quer

ser verbo que futura,

enquanto o sangue der

cor viva ao que procura?



Quem disse e nega agora

ter dito e defendido

que o drama que nos chora

não mais seria havido?



A quem tanto exaspera

o sol da Primavera?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Fevereiro de 1999.
Alentejo, 22 de Setembro de 2016.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A falaz rotação




Há momentos na Vida

em que todos os homens são reis.



Não sei quem o afirmou,

mas sei bem que falando de reis

falarei, com certeza, de súbditos.

Eu prefiro a res publica.

Velha Grécia das ágoras,

Velha Grécia de Demos e kratos

vem valer-nos nesta hora à deriva!



Persistimos reféns da caverna.

É de sombras o nosso alimento.

Sombras vãs, fugidias, incertas,

num desfile de máscaras

deste nosso ancestral carnaval.



E nós vamos na marcha bailada,

sem cuidados,

inocentes meninos

inocentes meninas

de dançares de roda

em jardins ou recreios de escola.



Ébrios todos ou não(?)

nesta roda que gira

ou que finge que gira

imitamos o velho pião

na falaz rotação…







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Setembro de 2016