domingo, 25 de setembro de 2016

15 - TEMPO REBELADO * Tempo clandestino




Para todos aqueles que se deram na luta contra o fascismo 

no rigor da clandestinidade





As ruelas de terra batida

ocultaram a minha partida.



O negrume da noite tragou-me

numa cúmplice fuga.

Uma sombra furtiva e sem nome

que do rosto uma lágrima enxuga.



Em redor, o silêncio pesado

dos malteses do medo e do espanto

e os rafeiros rosnando ao cajado

que à distância mantém o levanto.



Chego, enfim, à estrada deserta.

Doravante, o caminho é obscuro.

E assim vou, de sentidos alerta…

E assim vou esventrando o futuro…





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 18 de Março de 1997.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

15 - CANTO REBELADO * Do verbo








Saber!... e levo a vida a conjugar

o verbo encadeado nos seus tempos…



Confunde-me o presente afirmativo,

duma falaz jactância impertinente…



Diverte-me o pretérito insolente,

dourando as ignorâncias atrevidas…



Agrada-me o futuro na vontade,

de uma indulgência cúmplice e longínqua…



Detesto o autoritário imperativo,

explícito ordenado na desordem…

(… quando temor que baste já eu sofro

tentando conjugar em vão o verbo,)



Serei a vida inteira um aprendiz…

Benditos sejam os supostos mestres!





José-Augusto de Carvalho
Lisboa, 14 de Abril de 1997.
Alentejo, 23 de Setembro de 2016.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

11 - O MEU RIMANCEIRO * Quem?


(QUE VIVA O CORDEL!)





Quem disse e já não diz

que os nossos pés alados

são na terra a raiz

de astros incendiados?



Quem quis e já não quer

ser verbo que futura,

enquanto o sangue der

cor viva ao que procura?



Quem disse e nega agora

ter dito e defendido

que o drama que nos chora

não mais seria havido?



A quem tanto exaspera

o sol da Primavera?





José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 1 de Fevereiro de 1999.
Alentejo, 22 de Setembro de 2016.

02 - TEMPO DE SORTILÉGIO * A falaz rotação




Há momentos na Vida

em que todos os homens são reis.



Não sei quem o afirmou,

mas sei bem que falando de reis

falarei, com certeza, de súbditos.

Eu prefiro a res publica.

Velha Grécia das ágoras,

Velha Grécia de Demos e kratos

vem valer-nos nesta hora à deriva!



Persistimos reféns da caverna.

É de sombras o nosso alimento.

Sombras vãs, fugidias, incertas,

num desfile de máscaras

deste nosso ancestral carnaval.



E nós vamos na marcha bailada,

sem cuidados,

inocentes meninos

inocentes meninas

de dançares de roda

em jardins ou recreios de escola.



Ébrios todos ou não(?)

nesta roda que gira

ou que finge que gira

imitamos o velho pião

na falaz rotação…







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 21 de Setembro de 2016

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

06 - TUPHY VIVE! * A miragem de Tuphy





Passa o tempo e a saudade floresce

no dulçor que ficou no meu peito.

Sobre mim, sinto a noite que desce

num abraço de sonho perfeito.



Tangem sons melodias de Orfeu

e de Eurídice escuto o cantar.

Quem soubera que fim nos perdeu?

Que princípio nos quer encontrar?



Acrobatas no céu, andorinhas

são girândolas de asas dançando.

Sob um véu só de estrelas caminhas,

mais que todas no céu lucilando.



Devagar, abro os braços e espero

outra vez ouvir: como te quero!





José-Augusto de Carvalho
Al-Ândalus, 19 de Setembro de 2016

domingo, 11 de setembro de 2016

20 - VENCENDO BARREIRAS * Perguntas de um cidadão vulgar




Na esteira de Brecht…

Perguntas de um cidadão vulgar



Quem enlutou Granada, a cidade amada do poeta?

Nos livros, todos lavam as mãos, como Pilatos.

Onde foi sepultado o poeta e com ele o feitiço da Poesia?

Os livros nada dizem e eu não posso ir chorar no seu túmulo ensanguentado.

*

Badajoz tem uma praça de touros assombrada.

Quem entregou os patriotas vencidos ao pelotão de fuzilamento dos fascistas?

*

Era dia de mercado em Guernica, a vila basca.

Em nome de que causa aviões lançam bombas sobre mulheres e crianças?

*

Espanha ficou viúva.

Onde estavam os autoproclamados arautos da liberdade dos povos?

*

Depois da carnificina, o carniceiro recebeu felicitações pela vitória.

Que vitória?

Quem felicitou?

*

O povo de Espanha em vão pediu auxílio a Paris.

A neutralidade cúmplice impôs a sua lei e Espanha ficou sozinha.

Um ano depois, os nazis desfilavam em Paris.

A neutralidade serve-se fria.

*

Quando a besta caiu, cantaram loas à liberdade,

mas nenhuma das vítimas caídas cantou.

*

Quando o Coronel Arbenz caiu, a Nicarágua caiu com ele.

O católico Arbenz foi claro: a Nicarágua está muito longe de Deus

e muito perto dos estados Unidos da América.

Acta da Assembleia Geral da ONU regista. Quem sabe disto?

*

1973. Chove em Santiago!

O Governo Popular caiu em 11 de Setembro.


Allende tombou nos escombros do palácio presidencial bombardeado.

Hoje, os jornais não dizem nada.


Hoje, as rádios não dizem nada.

Hoje, as televisões não dizem nada.

*

O terrorismo é uma chaga.

O terrorismo de estado é uma chaga.

6 de Agosto de 1945, adeus Hiroshima!

9 de Agosto de 1945, adeus Nagazaki!

Mais de quinhentas mil vítimas da agressão nuclear. 


Barbaridade? Não, foi a guerra…

*

2001, o terrorismo afronta o Tio Sam.

Três mil vítimas indefesas. Paz às suas almas!

E os jornais escrevem, chorosos.

E as rádios falam, chorosas.

E as televisões, chorosas, dão imagens da barbárie.

Por que são choradas apenas algumas das vítimas da barbárie?

*

Tantas perguntas sem resposta!


*

José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 11 de Setembro de 2016.

sábado, 10 de setembro de 2016

26 - FRAGMENTOS * O elogio de Lavoisier





Na vida nada se cria…


Na vida nada se perde…


Que esperas, transformação?







José-Augusto de Carvalho
Alentejo, 17 de Abril de 2004.